Blog do Flavio Gomes
F-1

SOBRE DOMINGO À TARDE

A IMAGEM DA CORRIDA SÃO PAULO (sempre vem) – Teve piloto vomitando, mais de um contando que chegou a perder a consciência a 300 km/h, outros desidratados, abandono por falta de condições físicas — como o de Sargeant, acima, nossa imagem mais forte da corrida –, reclamações por todos os lados. Por que o GP […]

A IMAGEM DA CORRIDA

Sargeant carregado: condições desumanas

SÃO PAULO (sempre vem) – Teve piloto vomitando, mais de um contando que chegou a perder a consciência a 300 km/h, outros desidratados, abandono por falta de condições físicas — como o de Sargeant, acima, nossa imagem mais forte da corrida –, reclamações por todos os lados.

Por que o GP do Catar foi tão complicado fisicamente, desumano, até? Já tivemos, sim, corridas com temperaturas mais altas. Na região de Doha, domingo à noite, os termômetros marcavam 32°C. Mas a umidade de quase 80% foi o que mais pegou. O resultado mais imediato é a desidratação.

Muita gente lembrou das corridas no Rio nos anos 80. Ou na Malásia — onde também era duro de aguentar o calor e a umidade. Mas não importa o que se fez no passado. Era errado, também. Embora houvesse atenuantes, como a construção dos carros, o vento na cara e nos ombros, passeando pelo cockpit e refrescando o corpo. Os carros atuais são como esquifes. E, para piorar, a história das três paradas obrigatórias levou todo mundo a andar em ritmo de classificação o tempo inteiro, sem preocupação com administração dos pneus. Sem descanso, sem relaxar. E a pista tem muitas curvas de alta. E a força G à qual os pilotos são submetidos é brutal.

Foi desumano, em resumo. E ninguém deve relativizar isso. Um garoto de vinte e poucos anos quase desmaiar num carro de corrida é um sinal de alerta. Alguém poderia ter morrido.

O NÚMERO DO CATAR

501

…pódios tem a McLaren agora, com os dois troféus conquistados por Piastri, segundo, e Norris, terceiro. É a segunda equipe a ultrapassar a casa de meio milhar de troféus. A Ferrari, com 803, é o time com a maior estante para guardar taças. Depois da McLaren vêm Williams (313), Mercedes (287) e Red Bull (258).

Um detalhe interessante. Aos 22 anos, completados em 6 de abril, Piastri já havia se tornado, com o terceiro lugar no Japão, o primeiro piloto nascido no século 21 a subir ao pódio na F-1. O primeiro lugar na Sprint, sábado, não conta para as estatísticas. Então vamos esperar por sua primeira vitória num GP, que não deve demorar, para colocá-lo na história como primeiro vencedor nascido neste século. E, então, a F-1 terá ganhadores de corridas nascidos em três séculos diferentes: Piastri (21), todos os outros (20) e o italiano Luigi Fagioli (19), nascido em 9 de junho de 1898 e vencedor do GP da França de 1951 aos 53 anos — o mais velho vencedor de todos os tempos.

E dá-lhe McLaren, equipe que vai concentrar boa parte deste rescaldão do GP do Catar. Acima (clique na imagem e veja em tamanho maior), à esquerda, está a lista dos pit stops mais rápidos da história da F-1. Norris perdeu só 1s80 em sua segunda parada, domingo passado. Quebrou o recorde de 1s82 que a Red Bull mantinha desde o GP do Brasil de 2019.

A Red Bull é muito pica das galáxias para trocar pneus. Até hoje, 29 pit stops foram realizados em menos de 2s na F-1, o que é espantoso. Desses, 22 foram registrados pela equipe austríaca.

Na boa, trocar quatro pneus em menos de dois segundos — DOIS SEGUNDOS! — é foda demais.

AS FRASES DE LUSAIL

OCON – “Comecei a ficar mal depois de 15 voltas. Vomitei duas vezes no cockpit.”

STROLL – “Depois da 20ª volta, eu apagava por alguns segundos no carro. Minha visão ficou embaçada, a pressão caiu. Foi ridículo.”

LECLERC – “Foi a corrida mais difícil de nossas carreiras. De todos, sem exceção. E não acredito naqueles que disserem que não foi.”

NORRIS – “A F-1 encontrou o limite que os pilotos podem suportar, hoje. É muito perigoso. [É uma corrida que] não deveria ter acontecido.”

RUSSELL – “Achei que ia desmaiar várias vezes. Passou do limite.”

ALONSO – “Foi uma das corridas mais duras da minha vida. E olha que tenho 42 anos e estou na F-1 há mais de duas décadas.”

VERSTAPPEN – “Foram condições muito extremas.”

PIASTRI – “Precisamos discutir muitas coisas depois deste fim de semana.”

Verstappen esgotado: inaceitável

A FIA se manifestou um dia depois da corrida, com as promessas vagas de sempre de analisar o que aconteceu no Catar e montar uma comissão com pilotos, equipes, médicos, pastores, babalorixás, rabinos, bispos, astrólogos, ciganos, fisioterapeutas, esquimós e beduínos para deliberar sobre o assunto.

De concreto, mesmo, algo que já se sabia: o GP do Catar do ano que vem será mais para o fim do ano, em 1º de dezembro, quando as condições meteorológicas são menos estapafúrdias para a prática de esportes. Principalmente esportes que usam carros que atingem velocidades enormes e precisam ser pilotados por seres humanos acordados.

OK, PARÇA – George Russell aceitou o pedido de desculpas de Lewis Hamilton, que bateu nele nos primeiros metros da corrida, quando tentava uma ultrapassagem. “A gente se respeita muito e está muito claro que não foi intencional”, falou Jorginho, sempre polido.

PAGA AÍ – Hamilton, além de pedir desculpas, teve de pagar uma multa de 25 mil euros por atravessar a pista a pé sem orientação dos fiscais, num momento em que havia carros na pista. Admitiu que fez bobagem. E pediu desculpas de novo. Foi o primeiro abandono de Lewis na temporada. Ele tinha pontos em todas as corridas. Agora, o único que pontuou nas 17 etapas foi Verstappen.

CHEGANDO – Vejam os números da McLaren nas últimas nove corridas, desde a estreia do carro novo na Áustria: 202 pontos (média de 22,4 por GP), 47 deles só no Catar (terceira maior pontuação do ano, só perdendo para a Red Bull, que fez 56 na Áustria e 51 na Bélgica), sete pódios, uma vitória em Sprint. Ainda está em quinto, mas agora apenas 11 pontos atrás da Aston Martin. Que, nessas nove provas, teve média de 8,4 pontos por etapa.

AS OUTRAS – Apenas para comparar, ainda com as equipes que estão na frente e podem ser alcançadas pela McLaren (esqueçamos a Red Bull): nas últimas nove etapas, a Ferrari fez 176 pontos (19,5 por corrida) e a Mercedes, 159 (média de 17,6).

Alonso: mais que todos da Aston Martin

EL FODÓN – Fernando Alonso chegou a 183 pontos neste fim de semana. É mais do que todos os pilotos da Aston Martin marcaram, juntos, até hoje na F-1. Estes somam 179. A Aston Martin disputou os Mundiais de 1959 e 1960 e não pontuou. Voltou em 2021, depois que o empresário Lawrence Stroll comprou a Force India, mudou seu nome para Racing Point e, finalmente, Aston Martin.

GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS

GOSTAMOS de ver a Alfa Romeo com seus dois carros nos pontos, Bottas em oitavo e Zhou em nono. Com os seis pontos marcados no fim de semana, o time passou a Haas e assumiu o oitavo lugar no Mundial de Construtores, com 16 pontos. Os rivais americanos têm 12.

NÃO GOSTAMOS do décimo lugar de Sergio Pérez, claro. O mexicano, nas últimas três corridas, marcou cinco pontos. Seu companheiro Verstappen, 69. Não dá.