Blog do Flavio Gomes
F-1

ACA BHALOGO (3)

SÃO PAULO (tudo em seu lugar) – O Mundial de F-1 2023 terminou hoje em Abu Dhabi como começou no Bahrein, no mesmo pedaço do planeta que, atualmente, funciona como motor financeiro da categoria: com Max Verstappen na frente. Foi uma temporada de superlativos para o holandês e para a Red Bull. Max conquistou o […]

Festa de Verstappen em Abu Dhabi: domínio nunca visto

SÃO PAULO (tudo em seu lugar) – O Mundial de F-1 2023 terminou hoje em Abu Dhabi como começou no Bahrein, no mesmo pedaço do planeta que, atualmente, funciona como motor financeiro da categoria: com Max Verstappen na frente. Foi uma temporada de superlativos para o holandês e para a Red Bull. Max conquistou o tricampeonato por antecipação na véspera do GP do Catar, ao vencer a Sprint e fechar a disputa com seis corridas ainda pela frente. Pois é, o título foi conquistado também no mundo árabe. Oh, que sortudo o mundo árabe, que abre e fecha campeonatos e ainda consagra campeões.

(Podia respeitar os direitos humanos, também, mas isso é outra conversa.)

Verstappen bateu vários recordes em 2023: o de vitórias num ano (19 em 22 etapas), pódios na mesma temporada (21), voltas na liderança (1.003), vitórias seguidas (10) e pontos (575 de 620 possíveis, 92,7% do total), por exemplo. Além das 19 vitórias, ganhou quatro das seis Sprints e nas outras duas terminou uma em segundo e outra, em terceiro. Chegou a 54 triunfos na carreira e se tornou o terceiro maior vencedor de todos os tempos. Não abandonou nenhuma corrida. Das três que não venceu, chegou em segundo duas vezes (Arábia Saudita e Azerbaijão) e em quinto na sua pior participação (Singapura).

Prost, Senna e o MP4/4: McLaren de 1988 superada

Já a Red Bull inscreveu de vez o nome na história com o maior domínio já registrado por uma equipe na mesma temporada. Foram 21 vitórias em 22 etapas, 95,45% de aproveitamento, superando a mítica McLaren de 1988, que venceu 15 de 16 corridas com Senna e Prost. O percentual de aproveitamento do time de Ron Dennis naquele ano foi de 93,75%. Mais uma marca que cai.

E cai graças a Verstappen, porque seu opaco companheiro de equipe, Sergio Pérez, conseguiu terminar o ano com menos da metade dos pontos, 285, e duas meras vitórias. Se Max corresse sozinho pela Red Bull, ainda assim o time teria sido campeão mundial de construtores, já que a vice de 2023, a Mercedes, terminou com 409. Dos 30 troféus que a esquadra austríaca levou para casa, Checo foi responsável por apenas nove. Aliás, esse é um recorde que a Red Bull não bateu, o de pódios na mesma temporada. A primazia segue com a Mercedes, que levou 33 taças em 2016, 32 em 2015 e 2019 e 31 em 2014.

Quadriculada para Max: 19 vitórias em 22 corridas

Esse monte de números, e outros surgirão ao longo deste relato, é importante para que se compreenda o caráter histórico deste campeonato, em que pese o fato de ele não tenha sido grande coisa do ponto de vista da competição. Max avisou que seria campeão muito cedo e ninguém fez cócegas em seu favoritismo. Aproveitou que tinha um grande carro nas mãos, juntou a máquina ao seu talento extraordinário e simplesmente massacrou a concorrência sem dó.

E quase sempre deixou o massacre para os domingos (OK, em Las Vegas foi sábado…), porque se teve algo com que não e preocupou muito em 2023 foi em fazer pole-positions. Não é muito sua praia. Foram apenas 12 nas 22 corridas, 54,55% do total, o que não é muito impressionante. Nigel Mansell, por exemplo, fez 14 das 16 possíveis em 1992, 87,5%, melhor aproveitamento da história até hoje.

Ajudou nesse verdadeiro empilhamento de cifras quase absurdas a inoperância das rivais. A Mercedes, que dominou a F-1 de 2014 a 2020 e começou a ter seu poder ameaçado em 2021 por Max e pela Red Bull, entrou em parafuso no ano passado na primeira temporada de um novo regulamento aerodinâmico que gestou um carro horroroso. O calvário dos alemães seguiu neste ano com um automóvel igualmente ruim, que deixava perplexos seus pilotos a cada volta. Ao final do campeonato, foram apenas oito pódios, uma pole e nenhuma vitória em 22 finais de semana.

Ferrari: poles com Leclerc (acima) e uma vitória com Sainz

Já a Ferrari, outra potencial adversária, juntou nove taças e foi um pouco melhor nas poles (sete) e vitórias (uma, com Sainz em Singapura). Outros dois times que se destacaram, a Aston Martin e a McLaren, viveram momentos muito distintos no ano. A primeira começou o campeonato bem, enchendo a estante de troféus com Fernando Alonso, mas a partir da metade da temporada despencou. A segunda iniciou o ano de forma patética, mudando radicalmente seu carro a partir da Áustria e, aí sim, entrou no Mundial de verdade. Mas não ganhou uma corrida sequer, nem fez uma pole. Tiveram seus momentos, Aston Martin e McLaren. Mas tiveram de se contentar com migalhas.

Nesse cenário, ficou fácil antever o que iria acontecer a cada GP desde 5 de março, quando foi dado o pontapé inicial na temporada. Um carro muito bom, que não quebra, nas mãos de um piloto excepcional, que não erra, só podia dar no que deu. A chave de ouro foi usada para fechar os trabalhos no circuito de Yas Marina. Então, vamos ao último capítulo de 2023.

Largada em Yas Marina: Verstappen sustenta a ponta e vai embora

Durou – o quê? – uns 20 segundos o trabalho pesado de Verstappen no GP de Abu Dhabi. Ele largou bem, como de costume, olhou no espelho para ver se alguém o incomodaria, e viu Chaleclé. “Ele de novo, coitado…”, pensou. Deu uma aceleradinha, contornou as primeiras curvas no modo “aff-que-saco-toda-largada-tem-alguém-pra-me-incomodar-mesmo-sabendo-que-não-vai-ganhar”, espiou outra vez o retrovisor e lá estava o monegasco ainda atrás. Max olhou o volante, girou o botão para o modo “não-dê-falsas-esperanças-a-ninguém-principalmente-para-pilotos-da-Ferrari” e foi embora, não sem antes anotar mentalmente: “Vou pedir para diminuir o tamanho da descrição dessas funções, perco muito tempo lendo. Outro dia me atrapalhei com ‘dar-o-vácuo-pro-Pérez-pra-ver-se-ele-consegue-fazer-alguma-coisa’ e confundi com ‘humilhar-Lewis-passando-por-fora-sem-asa-móvel-mandando-dedo-pro-Toto’, e naquele dia quase deu ruim”.

Nas primeiras voltas da corrida foi bacaninha a briga de Russell e Piastri pela quarta posição. O australiano já tinha perdido o terceiro lugar para seu companheiro Norris e segurou Jorginho por um bom par de voltas, até que foi ultrapassado, na volta 11.

Na 13ª volta, Alonso abriu a janela de paradas. Estava em sétimo, caiu para 18º. Piastri veio na volta seguinte. Depois, Russell e Norris – que demorou um pouco e acabou perdendo a posição para o #63 da Mercedes. Vislumbrava-se uma corrida de dois pit stops para quem visitava os boxes tão cedo. Todos colocaram pneus duros.

Verstappen parou na volta 17. Leclerc, na 18. E quem assumiu a ponta, pela primeira vez na vida, foi Yuki Tsunoda, na despedida da AlphaTauri da F-1 com esse nome – ano que vem será Racing Bulls. Stroll era o segundo. Ambos sem trocar pneus. O canadense da Aston Martin tinha largado com pneus duros e demoraria, mesmo, para parar. Sainz, também com pneus duros desde o início, era o terceiro. Mas o japinha tinha pneus médios e estava curtindo a liderança. Esticava o stint para tentar uma parada única na corrida, o que seria bem interessante.

Na volta 19, Max passou o espanhol da Ferrari e foi para a terceira posição, com dois carros à frente com pneus velhos. Em pouco tempo retomaria a ponta. Na volta 21, deixou Lance para trás. “Max, coloque agora o carro no modo ‘sair-do-pit-stop-e-passar-logo-os-carros-que-ainda-não-pararam-porque-estão-em-estratégias-diferentes-mas-não-por-isso-muito-eficientes’”, pediu o engenheiro. “Não dá pra resumir um pouco isso não?”, pediu o holandês. “Max, você sabe que trabalhamos com informações precisas, por favor apenas faça o que estamos pedindo”, respondeu o engenheiro em tom de repreensão. “E se você está achando complicada nossa comunicação e longos os textos impressos no painel, depois te mostro o volante do Russell.”

Tsunoda e Stroll pararam na volta 23. Voltou em 12º. Àquela altura, Sainz e Bottas eram os únicos na pista sem pit stops. A Ferrari chamou Carlos na volta 24 e colocou pneus duros de novo, mas teria de parar outra vez. Não tinha muita importância, de qualquer maneira. A corrida seguia sem grandes emoções, com Max bem à frente de Leclerc, Russell em terceiro, Norris em quarto e Piastri em quinto. Este, sim, tendo de se defender. No caso, de Pérez. Que passou o australiano na volta 18. O jovem estreante da McLaren, tão bem na classificação, não tinha um bom ritmo de prova.

Sainz: posição ruim de grid prejudicou o espanhol

Na metade da corrida, com Russell em terceiro e Hamilton em oitavo, a Mercedes seguia na frente da Ferrari na briga pelo vice-campeonato. Os italianos pontuavam apenas com Leclerc, em segundo, já que Sainz se debatia com o segundo escalão em 14º, cercado por Gasly e Hülkenberg, longe dos pontos.

A segunda parada de Norris aconteceu na volta 34. Russell foi chamado na sequência. Contestou a decisão da Mercedes. “Será que não podemos ir até o final com apenas uma parada? Foi uma estratégia que discutimos ontem de madrugada, lembram? Foi naquela hora em que todos sentimos fome e fiz uma surpresa para vocês, encomendando quibes e esfihas pelo delivery. Sim, eu sei que faltou um limãozinho, mas aqui é meio complicado conseguir limões. Naquela hora eu falei de fazer uma parada apenas e vi que teve gente que concordou com a cabeça”, argumentou. Toto Wolff entrou no rádio e, de forma até rude, interrompeu o piloto: “Era eu, George, e não estava concordando com uma parada, estava apenas confirmando que o quibe ficava gostoso com coalhada seca, para logo e troca esse pneu!”.

Ele parou e trocou, como fizeram Leclerc e Hamilton também. Verstappen e Pérez, assim, passaram a ocupar primeiro e segundo lugares. Max entrou no rádio e, solícito, ofereceu os boxes para o mexicano. “Se vocês quiserem chamar o Checo antes para trocar os pneus, fiquem à vontade”, disse. Mas demorou, até. Pérez parou na volta 43. Verstappen, como tinha sugerido, uma depois.

Pérez: ajudinha de Verstappen

Na volta 46, a 12 do final, Verstappen, Leclerc, Russell, Norris, Pérez, Tsunoda, Piastri, Alonso, Sainz e Hamilton eram os dez primeiros. Desses, Sainz ainda precisava parar mais uma vez. A prova melhorou um pouco, com alguns duelos entre Pérez e Norris, Lewis e Alonso, depois o próprio Hamilton contra Sainz. A cada instante a transmissão da TV, com as mudanças de posição na pista, informava como estava a pontuação no campeonato. A Ferrari já tinha passado a Mercedes, depois empataram, na sequência o time alemão voltou à vice-liderança. O único que parecia se importar com isso era Russell, que a todo momento perguntava onde estava Hamilton, como estava a tabela, quanto cada equipe ganharia em prêmios pelo segundo lugar, até Toto Wolff, de novo, pedir para ele calar a boca que não era problema dele.

Pérez tomou uma punição de 5s por tocar em Norris quando passou o inglês. Mas foi à luta. Na volta 54, passou Russell, também, e assumiu a terceira colocação. Para garantir o pódio, porém, precisava colocar pelo menos 5s de vantagem sobre o Mercedão #63.

Fazendo contas sabe-se lá com qual calculadora, Leclerc deixou Pérez passar para que ele tentasse manter a posição em relação a Russell, tirando pontos da Mercedes. Charlinho, claro, manteria o segundo lugar com a punição ao #11 da Red Bull. No fim, não deu muito certo. Checo recebeu a bandeirada em segundo, mas caiu para quarto com o acréscimo de 5s ao seu tempo final de prova. Xingou os comissários pelo rádio e foi chamado à torre para pedir desculpas.

Verstappen, Leclerc e Russell foram para o pódio. Jorginho não ganhava um troféu desde o GP da Espanha, em junho. Fecharam os pontos, pela ordem, claro, Pérez, Norris, Piastri, Alonso, Tsunoda, Hamilton e Stroll. Fernandinho passou Yuki na última volta e conseguiu segurar o quarto lugar entre os pilotos com 206 pontos, o mesmo que Leclerc, mas com vantagem nos critérios de desempate. Norris, com 205, ficou em sexto. Sainz, que chegou a Yas Marina em quarto, zerou e terminou em sétimo.

O resultado assegurou o vice para a Mercedes, com 409 pontos. A Ferrari terminou com 406. Se Sainz tivesse se classificado melhor ontem, talvez os italianos conseguissem superar os alemães, mas a tarefa ficou complicada com o espanhol lá no fundão do grid.

Verstappen e Tost: criatura e criador

Max termina o ano com 19 vitórias em 22 corridas. Recorde absoluto também no aproveitamento: 86,36%. Com 54 vitórias, passou a ser o terceiro maior vencedor da história, deixando Sebastian Vettel para trás. Agora, só Hamilton (103) e Schumacher (91) ganharam mais do que ele.

Foram 21 pódios para Verstappen, outro recorde absoluto que, em termos proporcionais, só não supera os 17 de Schumacher nas 17 etapas de 2002 – 100% de presenças entre os três primeiros. Em Abu Dhabi, ele se tornou o primeiro piloto a ultrapassar as mil voltas na liderança num ano. Chegou a 1.003, 75,7% do total de 1.325 voltas percorridas na temporada. Outro recorde, superando os 71,4% de voltas lideradas por Jim Clark em 1963 – 506 de 708.

Zerinhos em Abu Dhabi: comemoração na pista, lágrimas no pódio

O tricampeão mundial fez os tradicionais zerinhos para colocar um ponto final em 2023 assim que recebeu a bandeirada. Pelo rádio, agradeceu Franz Tost, que lhe deu a primeira chance na Toro Rosso em 2015 e se despediu hoje da sucessora AlphaTauri: “Ele teve muitos de nós sob suas asas”, reconheceu. Falou do orgulho por uma “temporada incrível” e admitiu que vai ser difícil repetir algo parecido no futuro.

No pódio, Max ouviu o hino da Holanda de cabeça baixa. Estava emocionado e seus olhos, quando levantou o rosto, surgiram vermelhos.

Na última corrida do ano, foi a única coisa diferente que fez na temporada: chorar.