Blog do Flavio Gomes
F-1

LAS BREGAS (3)

SÃO PAULO (demorei, mas ninguém lê mesmo…) – Charles Leclerc larga na pole em Las Vegas. Será a 23ª vez na carreira que o monegasco, num grid, vai olhar para a frente e enxergar o nada absoluto. Que, para quem corre de carro, é o que o separa da glória eterna: a vitória. Só que […]

Leclerc na pole: chance de vitória, afinal

SÃO PAULO (demorei, mas ninguém lê mesmo…) – Charles Leclerc larga na pole em Las Vegas. Será a 23ª vez na carreira que o monegasco, num grid, vai olhar para a frente e enxergar o nada absoluto. Que, para quem corre de carro, é o que o separa da glória eterna: a vitória.

Só que nosso simpático e educadíssimo Chaleclé só chegou a ela, a glória eterna, quatro vezes em todas as ocasiões em que partiu da primeira posição: na Bélgica e na Itália em 2019, quando a Ferrari estava roubando nos motores, e no Bahrein e na Austrália no ano passado. Ou seja: Charlinho converteu em vitórias só 18,18% de suas poles.

Para comparar apenas com a turma ainda em atividade: Hamilton ganhou 58,65% das provas em que saiu da pole (61 vitórias para 104 poles); Verstappen, 83,87% (26 de 31); Alonso, 63,64% (14 de 22); Bottas, 30% (6 de 20); Sainz, 40% (2 de 5); Ricciardo e Pérez, 33,33% (1 de 3).

A Ferrari, desde o início das atividades deste infeliz GP dos cassinos, tem sido a equipe mais forte na pista. Apesar de Sainz espatifar seu carro numa tampa de bueiro na noite de quinta-feira, a equipe refez o automóvel e ele conseguiu o segundo tempo na classificação, na madrugada de hoje. OK, larga em 12º pela absurda punição — trocou a bateria arrebentada na pancada e, por isso, perdeu dez posições na grelha de partida.

A propósito, vejam logo o grid, para que a gente possa comentar uma coisinha aqui e outra ali:

As posições de largada em Vegas: duas punições

Algumas curiosidades merecem ser destacadas. Como se vê, Verstappen herdou o segundo lugar de Sainz e divide a primeira fila com Leclerc. Disse que a largada será fundamental para suas pretensões de vitória. Ele não vem se sentindo muito à vontade nessa pista. Não porque não gostou dela. É porque o asfalto é liso demais e o carro escorrega o tempo todo. Em resumo, não combina com o carro que ganhou 19 das 20 corridas disputadas neste ano. Tanto que Pérez fez apenas o 12º tempo e larga em 11º. Ficou no Q2. A Red Bull bobeou com ele. Soltou o mexicano cedo demais para fazer sua volta e não tentou outra. Dançou.

Pérez: ficou no Q2

Como dançou Hamilton, outra novidade. Estacionou no Q2, larga em décimo, e decretou: suas chances de lutar pelo vice contra Pérez se tornaram minúsculas. “Só se acontecer um desastre com ele nessas últimas duas corridas”, falou. A explicação para o mau desempenho: pneus. “Nunca chegaram na temperatura certa”, explicou.

Isso porque faz frio em Vegas. Não os 5°C da semana passada, mas ainda assim, frio. A classificação aconteceu com 15°C e 17°C no asfalto. É uma temperatura aceitável, mas como as atividades são noturnas, a pista fica fria o tempo todo. Pneus macios (C5), cuja janela ideal de funcionamento se dá entre 85°C e 115°C, rodaram gelados a menos de 50°C, como se vê abaixo.

Crédito da imagem: @FDataAnalysis

Russell lidou melhor com as circunstâncias e ficou em terceiro no grid, outra surpresa. Mas disse que as primeiras voltas serão caóticas por causa dos… pneus, claro. Os três que ficaram atrás dele também surpreenderam e foram para a cama de madrugada com sorrisos gigantescos: Gasly em quarto, Albon em quinto e Sargeant em sexto. O americano tinha como melhor posição de largada um décimo na Holanda. Fez uma ótima classificação e com a Williams andando muito bem lutará por pontos na corrida. É só não bater em nada nem ninguém.

Por fim, Bottas e Magnussen entre os dez primeiros também merecem aplausos. Notem que no top-10 há pilotos de oito equipes diferentes. AlphaTauri e McLaren foram as únicas que não chegaram nem perto. E, aí, outra surpresa: o mau desempenho de Norris e Piastri, que fazem uma segunda metade de campeonato admirável, mas empacaram em Las Vegas. Não andaram bem em nenhum momento no circuito citadino de Nevada e, segundo Lando, o time errou em não usar um segundo jogo de pneus no Q1. Mas na corrida, segundo o inglês, as coisas tendem a ser diferentes. “Teremos oportunidades de ultrapassagem”, garantiu.

Norris: McLaren decepciona e fica no Q1

Não houve problemas com bueiros ou fichas de pôquer perdidas pela pista, e o segundo dia da F-1 em Las Vegas correu, como se diz, suavemente. Mas é claro que os acontecimentos da véspera continuaram repercutindo. E como Verstappen tem sido o mais bocudo dos últimos dias, claro que a imprensa foi para cima dele. E o holandês não decepcionou na metralhadora de críticas ao evento que a Liberty, dona da categoria, pretende transformar numa espécie de Super Bowl do automobilismo — já aviso: não vai conseguir.

Algumas frases de Max:

FÃS AMERICANOS “Essas pessoas estão em Las Vegas pelas festas, para ouvir música, beber. Isso você pode fazer em qualquer lugar do mundo. Adoro Vegas, mas não para correr de F-1. Venho aqui para comer, beber, me divertir. As pessoas aqui não entendem nada do que estamos fazendo na pista. Ninguém está formando fãs de F-1 aqui.”

MÔNACO X VEGAS“É como comparar a Champions League com uma liga nacional. Mônaco é a Champions League, e qualquer um prefere ganhar a Champions League do que um jogo local.”

VOUCHER PARA COMPENSAR INGRESSOS DE QUINTA“Se me dessem 200 dólares para compra boné e camiseta depois de me expulsarem da arquibancada, eu quebrava tudo.”

TOTO WOLFF“Se fosse o carro dele que tivesse quebrado por causa da tampa do bueiro, ele não diria essas coisas [defender a organização]. Mas já o conheço, não esperava nada diferente.”

O GP de Las Vegas terá 50 voltas e começa às 3h deste domingo. É a penúltima etapa do campeonato. Até agora, a pista não foi esculhambada por ninguém. Nem o evento — com exceção de Max. Uma observação quase unânime é quanto ao asfalto: liso demais. Os pilotos acham que um piso semelhante ao de Jedá, na Arábia Saudita, seria mais apropriado para uma corrida noturna e no frio.

O excesso de atividades promocionais incomoda um pouco, estão todos cansados, mas aparentemente todo mundo está entendendo que tudo “faz parte”.

Este escriba acha tudo exagerado, mas prefere esperar pela corrida para fazer um julgamento. Uma coisa é certa: no embate Esporte x Espetáculo, há uma clara prioridade para o show. Como disse ontem no nosso programete no YouTube, a F-1 não se criou nas últimas sete décadas graças a malabaristas, palhaços, domadores de leão, mulheres barbadas e amestradores de focas.

Que os organizadores de corridas, todas elas, lembrem sempre disso.