A IMAGEM DA CORRIDA

SÃO PAULO (pai é pai) – Uma foto, muitas vezes, é apenas uma foto. Em outras, um sinal, um indicativo, uma pista. Essa aí em cima pode ser qualquer coisa. Apenas uma foto de duas pessoas que se conhecem faz tempo, frequentam o mesmo ambiente 24 finais de semana por ano, se encontram de vez em quando e perguntam como estão as coisas, como vai a família, vamos jantar qualquer dia desses? Ou um indício de que algo maior está acontecendo.
O que leva a essa percepção é que não são duas pessoas quaisquer no ambiente chamado Fórmula 1. Ambas estão envolvidas em episódios recentes que mexem com o futuro das equipes às quais estão ligados, e essas equipes, por acaso, são a Red Bull e a Mercedes, que ganharam os últimos 28 títulos mundiais de Pilotos e Construtores na categoria. A saber: pela Red Bull, quatro de Vettel (2010 a 2013) e três Verstappen (2021 a 2023); pela Mercedes, seis de Hamilton (2014, 2015 e 2017 a 2020) e um de Rosberg (2016). Entre as equipes, a Red Bull ganhou seis (2010 a 2013, 2022 e 2023) e a Mercedes, oito (2014 a 2021).
A Red Bull está em chamas desde a eclosão no início de fevereiro do “Caso Horner”, episódio envolvendo o chefe da equipe desde 2005. Ele foi acusado por uma funcionária da equipe e passou a ser investigado internamente por “comportamento inadequado”. Na quarta-feira da semana passada, a Red Bull informou que os investigadores independentes rejeitaram a denúncia. Mas, um dia depois, vazaram prints de supostos diálogos por WhatsApp entre Horner e a denunciante que, até agora, não tiveram sua veracidade confirmada. Da mesma forma, ninguém negou que sejam verdadeiros.
A Mercedes está em chamas desde o dia 1º de fevereiro, quando Hamilton, 11 anos de casa, anunciou que não iria cumprir o segundo ano de seu contrato atual, que terminaria no final de 2025. Tinha uma cláusula que lhe permitia sair no final do primeiro ano, e exerceu esse direito para correr na Ferrari. Quem vem para seu lugar? Essa é a pergunta de um milhão de dólares que, a partir de uma declaração específica do chefe da Mercedes, Toto Wolff, pode ter várias respostas. A declaração? “Vamos precisar de ousadia neste momento”. Uma das respostas possíveis?
Max Verstappen.
Por isso, a foto acima é a mais importante do fim de semana do GP do Bahrein, que abriu a temporada da F-1 no sábado. Mais do que qualquer coisa que tenha acontecido na pista, é o que está rolando fora dela que importa.
Jos Verstappen não pertence à Red Bull, mas é pai do menino. E, no domingo, o “Daily Mail”, jornal inglês, publicou entrevista incendiária com o ex-piloto holandês. Jos abriu fogo sem muito pudor contra Horner. Para ele, a permanência do inglês na chefia da equipe pode despedaçar a Red Bull. Defendeu claramente sua saída, disse que Horner está se fazendo de vítima e que é o culpado de tudo. Tem um tempo que Verstappen-pai e Horner não se bicam. Jos não é flor que se cheire — sabemos bem disso nós que convivemos com ele nos anos 90 como piloto. Quando pisam em algum de seus calos, a besta-fera urra. Se o dirigente pisou em algum agora, ou se é algo que Verstappen-pai vem remoendo faz tempo, não sabemos.
As denúncias contra Horner foram reveladas primeiro pelo jornal holandês “De Telegraaf”. Não é muito difícil imaginar quem tenha sido a fonte do jornal nesse caso, embora seja só uma suposição. E por que Jos e Horner não se bicam? O pano de fundo dessa história pode estar num passado distante, mas pode também estar ligado a algo bem atual: dinheiro. Papai acha que o filhinho merece um salário melhor e não é valorizado por Horner. Mas tem mais. Christian é muito próximo do braço tailandês da Red Bull — o energético nasceu na Tailândia nos anos 80 e a família de seu criador é sócia da empresa até hoje. É da Tailândia que Horner tem recebido apoio neste momento. Jos tem maior afinidade com a “divisão austríaca”, que tem como maior guru Helmut Marko, o veterano “consultor” do time que, por sua vez, desfruta da admiração e amizade incondicionais de Max, o filho.
É uma briga interna de poder. Que pode respingar na Ford, parceira técnica anunciada da Red Bull a partir de 2026. Na semana passada, a montadora pediu mais transparência da equipe na condução do “Caso Horner” evocando seus “valores éticos e familiares”, ou coisa que o valha. E já tem gente dizendo que haveria indicações de que o motor que a Ford está desenvolvendo com a Red Bull para 2026 não seria lá grande coisa, e que talvez seja a hora de Max picar a mula.
O tricampeão mundial tem contrato com a Red Bull até o fim de 2028. Contratos são quebrados, todos sabem. Perguntado sobre Verstappen, o filho, Wolff disse ao site “F1 Insider”: “Tudo é possível”.
Portanto, tudo é possível.
Agora vamos ao rescaldão do GP do Bahrein.
O NÚMERO DO BAHREIN
114
…vitórias tem agora a Red Bull na F-1. A equipe, assim, empata nas estatísticas com a Williams na quarta colocação entre as equipes que mais ganharam corridas na categoria. A Williams não vence um GP desde a Espanha/2012. Ferrari (243), McLaren (183) e Mercedes (125) ainda estão à frente do time das latinhas. Mas é questão de tempo, não muito tempo, para que os rubrotaurinos entrem no top-3, deixando a Mercedes para trás.
Foi um massacre de Verstappen, que ganhou a prova com 22s457 de vantagem para seu companheiro Sergio Pérez. No ano passado, a dobradinha da Red Bull no Bahrein foi igual, mas o mexicano terminou 11s987 atrás.
O novo carro desenhado por Adrian Newey mostrou ser mais eficiente em algo que incomodava no modelo de 2023: curvas lentas. Quem viu a corrida com atenção de dentro do cockpit de Max percebeu a melhora, inclusive com o uso de marchas mais baixas — curvas que eram feitas em terceira passaram a ser feitas sem segunda; mais tração, maior velocidade na saída. “Estamos mais atrás deles do que imaginávamos”, disse Hamilton, apenas sétimo colocado. Acho que todos os outros pilotos tiveram essa impressão.
Mas quem expressou melhor a superioridade do holandês foi o chefe da Mercedes. É dele, pois…
A FRASE DE SAKHIR
“Max está em outra galáxia.”
Toto Wolff
HORNER & GERI – São raríssimas as aparições de Geri Halliwell, mulher de Christian Horner, em corridas. Ela esteve no Bahrein, e o marido fez questão de postar essa foto aí em cima na sua conta no Instagram. Mas seu casamento está no mesmo pé que o do Buda do BBB depois de seus avanços sobre a Pitel. Não tem mais como salvar.
“IMATURO” – Relatamos no sábado a ordem da Débito ou Crédito? para Tsunoda ceder a posição a Ricciardo. Ele ficou pistola, mas acabou entregando, depois de esbravejar no rádio. Após a bandeirada, quando os dois voltavam para os boxes, Yuki jogou o carro em cima do companheiro. A imagem pode ser vista F2EXihM" target="_blank" rel="noreferrer noopener">aqui, aos 7min06s do vídeo. Ricciardo estrilou na hora, mas evitou soltar os cães sobre o japonês. Atribui a explosão do parceirinho à sua “imaturidade”. Tsunoda disse que iria conversar com a equipe e continuou reclamando nas entrevistas depois do GP. OK, a ordem da Quer Que Imprima Sua Via? foi sem sentido — estavam em 13º e 14º. Mas o chilique do japonês, mais ainda.
MUDA TUDO – A Alpine só terminou a corrida à frente de Bottas, que perdeu um ano num pit stop, e de Sargeant, que teve um apagão eletrônico em seu carro — problema atribuído ao novo volante da Williams. Resultado: caiu a cúpula técnica do time francês. Saíram o diretor técnico Matt Harman e o chefe da aerodinâmica Dirk de Beer. A equipe agora terá três diretores técnicos respondendo ao chefe Bruno Famin. São eles: Joe Burnell (engenharia), David Wheater (aerodinâmica) e Ciaron Pilbeam (performance). A crise é gigantesca. Já tem gente falando que a Andretti pode fazer uma oferta pela franquia — é disso que se trata, atualmente — que pertence à Renault. Não duvido.
MAIS UMA – A última do dia: o presidente da FIA, Mohammed Ben Sulayem, está sendo investigado internamente na entidade. Segundo a BBC Sport, ele teria interferido para que uma punição a Fernando Alonso fosse revertida no GP da Arábia Saudita do ano passado. O espanhol tomou uma punição de 10s depois de encerrada a corrida porque quando cumpriu um outro pênalti nos boxes (5s por ter alinhado na posição errada para a largada) um mecânico encostou em seu carro antes do tempo. A punição foi revertida pelos comissários e Alonso levou seu troféu de terceiro lugar. A Aramco, estatal saudita do petróleo, é patrocinadora da Aston Martin. E, também, patrocinadora global do Campeonato Mundial. Ben Sulayem é dos Emirados Árabes. Entendam como quiserem. Tomara que isso seja provado e que ele perca o cargo. Com suas posições conservadoras (sobre tudo) e seu perfil autoritário, esse cara é um mal para o esporte.
GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS
GOSTAMOS da disposição de Carlos Sainz, que foi ao ataque e buscou um pódio suado, mesmo tendo seu companheiro em segundo no grid. “No ano passado ficamos o tempo todo administrando pneus, sem poder atacar ninguém. Com esse carro é bem diferente”, falou o espanhol. “Chegamos perto de uma Red Bull!”, comemorou, depois de receber a bandeirada a 2s653 de Pérez.
NÃO GOSTAMOS da audiência da corrida na TV aberta. Segundo os dados preliminares, a Band deu apenas 1.2 ponto de média na Grande São Paulo, com picos de dois pontos. É quase nada. Cada ponto equivale a 191.477 pessoas na região metropolitana.