
SÃO PAULO (é mais gostoso assim) – Max Verstappen venceu o GP da Emilia-Romagna e chegou a cinco vitórias em sete corridas neste ano. Foi a mais difícil de todas. O holandês viu a bandeira quadriculada em Ímola com menos de 1s de vantagem para o segundo colocado, Lando Norris, da McLaren. Com dificuldades desde os treinos da sexta-feira na pista italiana, a Red Bull desta vez teve de contar muito mais com o talento de seu piloto do que com a qualidade do carro para ganhar de novo. E Max não decepcionou. Fez a pole e venceu, superando as adversidades técnicas com incrível capacidade de adaptação e com a frieza de sempre. Charles Leclerc, da Ferrari, terminou em terceiro, um prêmio de consolo para a torcida local.
Verstappen lidera o campeonato com 161 pontos. Leclerc agora é o segundo, com 113, seguido por Sergio Pérez, com 107. Norris foi a 101 e ameaça o mexicano. Sainz fecha o top-5 com 93. A próxima etapa acontece domingo que vem em Mônaco.
Se no ano passado o GP de Ímola foi cancelado por causa das chuvas e das enchentes na região, neste ano o clima foi generoso. Fez sol e calor nos primeiros dois dias do evento, e hoje não foi diferente: sol, 25°C, céu azul com uma nuvenzinha aqui, outra ali. Como diriam os antigos locutores de rádio, uma bela tarde para a prática do esporte bretão.
Verstappen mandou o sapato na largada, como de costume, e tentou se distanciar de Norris para fugir da asa móvel do inglês da McLaren na fase inicial da prova. Os seis primeiros colocados se mantiveram nas posições originais. Aliás, dos 20 que largaram 12 ficaram onde estavam no grid. Chamou a atenção o mau começo da dupla da Aproxima ou é Senha?, Tsunoda e Ricciardo. Ambos perderam duas colocações nos primeiros metros, comprometendo seus resultados finais.
As seculares dificuldades de ultrapassagem em Ímola apresentaram suas credenciais nas primeiras voltas. Ninguém passava ninguém, mesmo com o artifício das asas que abrem para dar uma mãozinha. Em sete voltas, Max já tinha 1s8 de vantagem sobre Landinho, o influencer. A fila indiana seguia atrás do líder, sem que alguém arriscasse alguma manobra mais ousada. A ordem geral era esperar pelos pit stops.
Na turma do fundão, as paradas começaram logo, na volta 8. Todos apostavam num safety-car para ganhar algum terreno. Gasly, Bottas e Alonso foram os primeiros. Albon também trocou seus pneus – duas vezes, porque uma roda ficou solta na primeira parada. Na sequência, Ricciardo e Tsunoda. Com exceção do australiano e do japonês, que lutavam por pontos, os demais eram meros coadjuvantes.
Tirando os ataques – tímidos – de Piastri para cima de Sainz, o quarto colocado, os demais cuidavam de suas posições sem abusar muito. Oscar chegou a se aproximar bem da Ferrari do espanhol algumas vezes, mas sem tentar algo muito concreto que fosse além de colocar a imagem de seu carro no retrovisor do adversário.
E Sainz não se assustou.
Na volta 18, Pérez, quase dormindo, foi passear na brita. Mas conseguiu voltar e não perdeu posição nenhuma. Seguiu em oitavo, perdendo totalmente o contato com Hamilton, o sétimo. De vexame no fim de semana já bastava não ter passado ao Q3.
Russell, o sexto, parou na volta 22. Como quase todo mundo, estava de pneus médios desde o início e colocou os compostos mais duros – na largada, Gasly e Alonso foram de macios; Pérez, Zhou e Sargeant optaram pelos duros. Norris parou na 23ª. Piastri, na seguinte. Verstappen, na 25ª. O holandês voltou em quarto, atrás de Leclerc, Sainz e Hamilton, que decidiram ficar na pista e esticar um pouquinho mais seus stints. Max recuperaria a ponta tranquilamente quando os três primeiros fossem para os boxes.
E assim foi. Leclerc parou na 26ª volta. Sainz, na 28ª. Hamilton, o segundo colocado àquela altura, veio junto. Era uma corridinha clássica de uma parada só. Verstappen, então, reassumiu a liderança. Nessa brincadeira, quem se deu mal foi o espanhol da Ferrari #55, que voltou bem atrás de Piastri. Nas quatro voltas a mais em que ficou na pista em relação ao jovem da McLaren, Sainz acabou perdendo a posição — bobeada da equipe italiana.
Pit stops da maioria concluídos, Verstappen, Norris, Leclerc, Piastri, Sainz, Russell, Pérez, Stroll, Hamilton e Magnussen eram os dez primeiros na volta 32. Desses, Pérez, Stroll e Magnussen eram os únicos que não tinham trocado pneus ainda. A vantagem de Max sobre Norris era superior a 6s5. Um verdadeiro passeio, até ali. Piastri, que tinha se livrado de uma Ferrari graças à estratégia de box, se via às voltas com outra, agora, a de Leclerc. Valia uma posição no pódio, talvez fosse o caso de tentar alguma coisa. Não tentou.
A Red Bull chamou Pérez para box na volta 38. Stroll e Magnussen, os últimos moicanos com a borracha da largada, pararam também. O mexicano começou a remar tudo de novo para pelo menos marcar uns pontinhos. E foi passando quem dava até assumir o oitavo lugar, deixando Tsunoda para trás. Dali não passaria, já que Hamilton, o sétimo, estava meio minuto à frente.
A 20 voltas do final, Leclerc, terceiro, se aproximou perigosamente de Norris. Reduziu a distância para menos de 1s e a torcida ferrarista se animou. Piastri, o quarto, tinha ficado para trás e desistido da luta. Mas não era fácil. Lando e Charlinho tinham pneus com vida útil parecida, apenas três voltas mais novos os do monegasco. Leclerc ainda cometeu um erro besta na volta 47, atravessou uma chicane, perdeu tempo e Norris pôde respirar um pouco. A briga que mal tinha começado acabou. Aquela, pelo menos.
Na volta 53, Russell, sexto, fez uma segunda parada. Perdeu apenas uma posição, para seu companheiro Hamilton. A ideia era tentar a melhor volta da prova para somar mais um pontinho para a Mercedes. Era o que restava para a equipe, apagadíssima em Ímola.
E foi mais ou menos nesse momento, a dez voltas do final, que o passeio de Verstappen começou a ficar um pouco menos sossegado. A diferença dele para Norris começou a cair, com o holandês reclamando muito de seus pneus. Na volta 55, Lando, que já estivera quase 7s atrás, baixou essa distância para 3s.
Uma briga pela vitória nas últimas voltas, por que não? Seria uma justa recompensa ao público, depois de uma corrida tão aborrecida. Na volta 57, faltando seis para o fim, o cronômetro apontava 2s entre Max e Lando. O tricampeão tinha dificuldades para segurar seu carro na pista. Ele saía muito de frente e o inglês se aproximava, alucinado. Finalmente o GP da Emilia-Romagna ficou legal.
Mas Norris tinha um problema. Ele só conseguia descontar a diferença à base de migalhas. Precisava chegar rápido, diminuir a distância para menos de 1s e abrir a asa para tentar alguma coisa. E a corrida estava terminando.
Na última volta, Max passou pela linha 1s07 à frente do inglês. Norris colou. Faltavam poucos metros para a bandeirada e a chegada seria muito próxima.
Foi. Verstappen recebeu a quadriculada 0s725 à frente de Norris. No fim das contas, não deu tempo para o inglês atacar de verdade. “Tudo que eu precisava era de mais uma ou duas voltas, aí eu pegava ele”, falou o piloto da McLaren pelo rádio. “Dói muito perder uma corrida assim.”
Acabou sendo na conta do chá para Max. Leclerc foi o terceiro completando o pódio — o primeiro da Ferrari em Ímola desde a vitória de Michael Schumacher em 2006. Depois, nos pontos, vieram Piastri, Sainz, Hamilton, Russell (que fez a melhor volta, afinal), Pérez, Stroll e Tsunoda.
Max venceu pela 59ª vez na carreira. Como ao fazer a pole ontem, comemorou com um pouco mais de entusiasmo que o normal. Sabia que tinha sido uma vitória de piloto, mais do que de carro. “No começo consegui abrir um pouco e com os pneus médios estávamos bem. Mas os duros, no fim, não estavam funcionando bem, meu carro escorregava muito. Por isso estou muito feliz de vencer aqui. A gente mudou muito o carro de sexta-feira para hoje”, disse.
Ímola não foi uma boa pista para ele e para a Red Bull. E, ainda assim, o cara fez a pole e ganhou. Quando falta carro, sobra piloto.