SÃO PAULO (por pouco) – Deu Max Verstappen na Espanha. Mas não foi aquela sopa no mel. O holandês teve de suar o macacão. Ganhou de novo, é verdade, pela sétima vez em dez corridas neste ano — a segunda seguida. Mas num momento em que a Red Bull, quem diria, parece não ter o carro mais rápido do grid. Desde Miami, quando Lando Norris ganhou seu primeiro GP, o time dos energéticos tem enfrentado algumas dificuldades. O desempenho não é nitidamente superior ao da concorrência, como nas primeiras etapas do campeonato — e na temporada toda de 2023. Foram, a partir da prova da Flórida, cinco corridas. Max venceu três delas, em Ímola, Montreal e, agora, Barcelona.
Conclusão: se a coisa aperta, que se recorra àquela pecinha entre o banco e o volante chamada piloto. E piloto a Red Bull tem de sobra.
Max não tem feito milagres, mas está tendo de cortar um dobrado para superar a incrível ascensão da McLaren e as estocadas eventuais de Mercedes e Ferrari. Hoje, na Catalunha, Norris provavelmente venceria se tivesse conseguido manter a ponta na largada. Estava na pole, o carro mostrara um ótimo ritmo em todos os treinos e a boa forma seria confirmada nas 66 voltas da corrida. Só que bobeou. E a perda da liderança nos primeiros metros acabou determinando seu resultado final. Ficou em segundo, a pouco mais de 2s de Verstappen — que chegou à 61ª vitória de sua carreira.
As coisas começaram a dar errado para Norris quando George Russell, quarto no grid, fez uma das mais lindas largadas dos últimos tempos, assumindo a liderança na primeira curva, enquanto Norris se preocupava em procurar Verstappen no retrovisor. E o inglês da McLaren foi ultrapassado também por Max, que, também foi ultrapassado por Russel, mas manteve sua posição original de grid, o segundo lugar.
E, então, veio o momento decisivo para o holandês logo na terceira volta. Sem perder muito tempo, Verstappen passou Russell no final da reta dos boxes e foi para a ponta. Isso aconteceu segundos depois de seu engenheiro, pelo rádio, sugerir que aquele poderia ser o melhor momento para a ultrapassagem, porque a reta é grande, tem asa móvel e isso e aquilo.
Antes de terminar a frase, o holandês já tinha ido. Ali ganhou a corrida. Como de hábito, foi preciso, calmo, eficiente, administrou o desgaste dos pneus e controlou a diferença para quem estivesse em segundo, sabendo que em algum momento este seria Norris, voando. O que aconteceu na fase final da prova. Quando já era tarde demais.
Mas voltemos ao início do GP, quando Max assumia a liderança e começava a desenhar mais um triunfo para ampliar sua liderança na tabela de classificação. Enquanto isso, a dupla da Ferrari, que ocupava a terceira fila do grid, começava um divertido lenga-lenga radiofônico entre Leclerc e Sainz. “Ele passou muito perto”!, disse o monegasco quando foi ultrapassado pelo companheiro. “Ele me tocou, eu estava na frente!”, retrucou o espanhol. Ambos de fato tocaram pneus na curva 1. Mas nada muito dramático, exceto pelo tom dos queixosos. O simpático Frédéric Vasseur, chefe ferrarista, bem que gostaria de mandar os dois plantarem batatas, mas ficou quieto.
Na décima volta, a prova estava estabilizada, como costuma acontecer em Barcelona antes das paradas para troca de pneus. Verstappen, Russell, Norris, Hamilton, Sainz, Leclerc, Gasly, Piastri, Ocon e Hülkenberg eram os dez primeiros, todos eles especulando as possibilidades de parar antes, esticar um pouco o primeiro stint… Enfim, decidir o que fazer.
Max liderava com relativa tranquilidade, mais de 2s à frente de Jorginho. Leclerc x Sainz, na batalha pelo quinto lugar, era o que de mais promissor a prova apresentava àquela altura. Mas Charlinho não atacava o parceiro. Apenas reclamava. “Só porque ele é espanhol pode fazer o que quiser? Só porque corre em casa? Não tenho medo de torcida, não! Manda vir em turma! Sou do morro, rapá!” Vasseur suspirava.
Na volta 14, Pérez, que tinha acabado de assumir o décimo lugar, fez sua primeira parada. Depois veio Gasly, num pit stop desastroso da Alpine. Russell foi aos boxes na 16ª, junto com Sainz. A Mercedes se atrasou um pouco na roda traseira direita, mas o inglês conseguiu sair ainda à frente da Ferrari #55. A janela de paradas estava aberta para todo mundo, e as estratégias eram basicamente as mesmas: trocar os pneus macios por médios — exceto Pérez, que colocou macios como na largada. Um segundo pit stop seria necessário, dado o alto desgaste da borracha na pista catalã.
Max parou na volta 18. Norris, então, assumiu a liderança seguido por Leclerc e Piastri, que não tinham feito suas trocas. O #1 da Red Bull voltou em quarto, 4s à frente de Russell. Se Lando parasse logo, ganharia a posição do #63 da Mercedes. Mercedes que, naquela hora, estava era vibrando com Hamilton, numa batalha bonita contra Sainz. O heptacampeão acabou passando e Carlos reclamou de novo. “Ele me tocou! Eu estava na frente!”, e aí o cozinheiro da Ferrari, que também usa rádio e escuta todas as conversas, se irritou e acionou seu microfone, normalmente usado para tirar algumas dúvidas sobre almoço e jantar, se a massa seria trufada ou verde, se o molho seria Alfredo ou carbonara, essas coisas da gastronomia. “Você só reclama, cazzo!”, berrou o chef.
Em primeiro, Norris ia ficando na pista. Eram já 23 voltas com seus pneus macios, que duravam mais do que o esperado. O rádio avisou que quando ele parasse, voltaria atrás de Verstappen, Russell, Hamilton e Sainz. Parou na 24ª. Voltou atrás de Verstappen, Russell, Hamilton e Sainz, em sexto. Teria como se recuperar, com pneus cerca de dez voltas mais novos que aqueles que estavam à sua frente. Mas perderia algum tempo, segundos preciosos.
O último dos 20 pilotos a fazer o primeiro pit stop foi Leclerc, na volta 25. E Verstappen, então, voltou à ponta com mais de 5s de vantagem sobre Russell. A Ferrari informou a Sainz que a desejada punição a Hamilton não tinha dado em nada. “Oh, não sei por que existe um livro de regras, se elas não são seguidas…”, lamuriou-se. O cozinheiro, lá do motorhome, vendo a corrida pela TV, entrou no rádio de novo. “Cala a boca, cazzo!” Vasseur passou a prestar atenção naquele funcionário desbocado. “Esse moço tem espírito de liderança. Talvez esteja no lugar errado…”, pensou.
Na volta 26, com pneus mais novos, Norris passou Sainz e assumiu o quarto lugar. Foi para cima de Hamilton, para entrar de novo na zona de pódio. Seu ritmo era forte, reforçando a sensação de que se tivesse largado bem seria o grande favorito à vitória. Mas Verstappen, na liderança, já estava cerca de 8s à sua frente. O #4 da McLaren teria de remar bastante para alcançá-lo.
Lando passou Lewis na volta 32, sem dificuldades. Abriu a asa na reta dos boxes e chegou à frente dele na freada da curva 1. O próximo alvo era também prateado, Russell. Que, naquela altura, se transformava em aliado de Verstappen. Quanto mais segurasse Norris, melhor para o holandês.
Na metade da prova, volta 33, Verstappen, Russell, Norris, Hamilton, Sainz, Leclerc, Gasly, Piastri, Ocon e Hulk eram os dez primeiros – Pérez já tinha feito o segundo pit stop. Max aproveitou que Norris perdeu algum tempo atrás de Russell e ampliou a vantagem. Só na volta 35 Lando passou, com alguma dificuldade – Jorge resistiu, retomou a posição, mas acabou cedendo. Max agradeceu. Estava 9s3 à frente.
Russell e Sainz, então, foram para suas segundas paradas, e os dois colocaram pneus duros. Norris começou a apertar ainda mais o ritmo. Na volta 39, a diferença caiu para 7s5. Na 40, 6s7. De grão em grão, a galinha papaia ia enchendo o papo. Max, que já tinha reclamado de seus pneus “inconsistentes” – foi o termo que usou –, ia se virando até a segunda parada, quando esperava ter pneus mais, digamos, consistentes. Lando voava. Na volta 42, já aparecia no mesmo enquadramento das câmeras de TV, 5s6 atrás do líder.
Hamilton parou na volta 44 e colocou pneus macios para a última parte da corrida. Voltou em sétimo. Verstappen parou na 45ª. Também calçou macios e voltou em terceiro. A McLaren avisou Norris: “É nossa chance!”. A corrida estava boa. Carros com pneus diferentes, estratégias diversas, muitas ultrapassagens. Mas o grande lance era acompanhar Norris, agora líder, e Verstappen, o terceiro. Entre eles, Leclerc. A diferença de Lando para Max era de 15s. Mas o piloto da McLaren ainda tinha um pit stop para fazer. Fê-lo na volta 48, também colocou pneus macios e voltou em segundo, 8s atrás de Verstappen. Os dois com a mesma borracha, a do inglês apenas três voltas mais nova. E a prova ficou no mano a mano: Max a caça; Lando, o caçador.
Norris acelerava como se não houvesse amanhã. Pelo rádio, a Red Bull informou Verstappen que o menino maluquinho não estava muito preocupado em poupar os pneus. Fazia volta rápida em cima de volta rápida. A 15 voltas do fim, a diferença caíra para 5s8. Um pouco mais atrás, Hamilton, com seus pneus macios, chegou em Russell e assumiu o terceiro lugar na volta 52. O companheiro não ofereceu muita resistência.
O rádio de Verstappen seguia intenso, para dizer o mínimo. “Max, Lando continua não poupando pneus. Acho melhor acelerar”, disse o engenheiro. E orientou: “Coloca o botão aí na posição 10”. “Qual?”, perguntou o piloto. “Dez, meu filho. Um-zero.”
Não se sabe direito o que a posição um-zero significa, mas é possível intuir. Alguma potência a mais, algo que permitisse manter Norris a uma distância segura. A diferença, que vinha caindo à ordem de quase meio segundo por volta, se firmou na casa dos 5s. Diminuiu um pouco na volta 58, para 4s8. Norris se esfalfava. Mas seus pneus também já não eram mais os mesmos. A verdade é que Max tinha tudo sob controle.
Verstappen acabou recebendo a quadriculada com 2s219 de vantagem para Norris, com Hamilton em terceiro. O inglês da Mercedes estava longe do pódio desde o final de outubro do ano passado, quando foi segundo colocado no México. Russell terminou em quarto, com Leclerc em quinto nos seus calcanhares. Sainz, Piastri, Pérez, Gasly e Ocon fecharam os dez primeiros. A Alpine voltou a pontuar com seus dois carros.
No campeonato, Verstappen foi a 219 pontos e agora tem, como vice-líder, Norris com 150. Disse que a ultrapassagem sobre Russell na terceira volta foi “crucial” e que teve de guiar o tempo todo num modo “defensivo”, sabendo que Lando vinha babando na gravata. Este, por sua vez, lamentou a derrota. “Eu deveria ter vencido. Não fiz uma boa largada. Nosso carro hoje era o mais rápido de todos.”
Depois de um fim de semana discreto da Ferrari, para não dizer ruim, Leclerc caiu para o terceiro lugar na classificação, com 148 pontos. Sainz (116) e Pérez (111) completam a lista dos cinco primeiros na tabela. Entre as equipes, a Red Bull agora tem 330, contra 270 da Ferrari, 237 da McLaren e 151 da Mercedes.
Domingo que vem tem Áustria, com Sprint. No outro, Inglaterra. Teoricamente, a Red Bull deveria nadar de braçada nessas duas pistas. Mas as coisas mudaram nos últimos dois meses. Verstappen, agora, tem adversários. Nenhum à sua altura, diga-se. Mas capazes de derrotá-lo, sim. Só que, para isso, não podem errar como Norris errou hoje. Porque Max não erra.
