Blog do Flavio Gomes
F-1

CALORING DA PESTE (3)

SÃO PAULO (mereceu, claro!) – Oscar Piastri ganhou seu primeiro GP num final de corrida em que as chatíssimas ordens de equipe ameaçaram se impor sobre o espetáculo. Sempre digo que elas são aceitáveis quando se trata de uma disputa de título em fases decisivas de campeonato. E olhe lá. Mas inverter posições quando o […]

A primeira de Piastri: trapalhadas da McLaren não tiram brilho do australiano

SÃO PAULO (mereceu, claro!) – Oscar Piastri ganhou seu primeiro GP num final de corrida em que as chatíssimas ordens de equipe ameaçaram se impor sobre o espetáculo. Sempre digo que elas são aceitáveis quando se trata de uma disputa de título em fases decisivas de campeonato. E olhe lá. Mas inverter posições quando o que está em jogo é uma vitória na metade da temporada é algo que sempre me parece muito, muito ruim. Mesmo que seja para corrigir uma trapalhada interna. É desagradável. Para todos os envolvidos. E para quem está assistindo.

Piastri mereceu vencer na Hungria. O australiano ganhou a posição de seu companheiro Lando Norris, que estava na pole, logo na largada. Depois disso, controlou a prova, mantendo o parceiro sempre a mais de 4s de distância. Ou quase. Porque cometeu um erro pouco antes da segunda parada, permitindo a aproximação do inglês. E a McLaren, nessa segunda parada para troca de pneus, errou e chamou Norris antes. Oscar fez seu segundo pit stop só duas voltas depois. Pela demora e pela escapada pouco antes, perdeu a liderança. OK, foi informado de que as posições seriam trocadas depois – afinal, a estratégia para Lando foi melhor, o que não fazia muito sentido, já que a prioridade é de quem está na frente. Mas a realidade é que Piastri, primeiro, cometeu um erro. Na sequência, não parou antes nos boxes. Tomou o conhecido “undercut”. Equívoco do time, não de Norris. Nem de Oscar. Por isso foi preciso corrigir a bobagem com a velha de boa instrução dos boxes.

As últimas voltas da prova foram tensas, com climão no rádio entre Norris e seu engenheiro. A equipe insistiu na inversão das posições. Lando contestou várias vezes. Oscar ficou calado. É seu estilo. Não reclama, não exige, faz o dele e pronto. No fim, Norris deixou o garoto passar, a três voltas da bandeira quadriculada. E não esticou muito o assunto. Cumprimentou o parceiro, distribuiu alguns sorrisos, reconheceu os méritos do rapaz, e ficou nisso. Incêndio apagado. Menos mal para o time.

Não culpo os pilotos. Nem o vencedor por não se impor nas paradas, pedindo para fazer o pit stop antes, nem o segundo colocado, que ficou bravo por ter de devolver a primeira colocação. A equipe é que poderia ter sido um pouco mais segura em suas decisões, isso sim. Para evitar que a situação constrangedora se tornasse necessária.

São lições, ao fim e ao cabo. A McLaren perdeu o costume de brigar por vitórias e dobradinhas. O último 1-2 aconteceu em 2021 na Itália (Daniel Ricciardo e Norris) e foi casual — resultado de um acidente entre Lewis Hamilton e Max Verstappen, os protagonistas daquele campeonato. Os tempos em que o time lutava lá na frente remontam ao início da década passada. Agora esses tempos voltaram. A equipe papaia, neste momento, tem um carro tão bom ou melhor que a Red Bull, dominante nos últimos dois anos. E até o fim da temporada vai, sim, fazer poles e ganhar corridas. Terá de lidar com tais cenários com mais frequência, entre outros motivos porque tem pilotos muito bons. Evitar atritos será a nova tarefa da chefia do time.

Pódio papaia: cada vez mais frequente em 2024

E dá para pensar, também, em ser campeã. No Mundial de Construtores, o resultado de hoje em Hungaroring levou a McLaren à vice-liderança com 338 pontos. A Red Bull tem 389. A Ferrari, com 322, ficou para trás. Nas últimas seis etapas, a equipe papaia marcou 184 pontos, contra 121 da Red Bull. A Mercedes marcou 162. Tais números indicam uma clara queda de desempenho rubro-taurino. Que tem muito a ver, óbvio, com o desempenho apagado de seu segundo piloto, Sergio Pérez.

O líder do campeonato Verstappen, hoje, lutou até o fim pelo pódio e terminou em quinto, após uma disputa forte com Hamilton – o terceiro colocado. Pérez foi o sétimo. Max segue firme em primeiro na tabela com 265 pontos, contra 189 de Norris. São confortáveis 76 pontos de vantagem. Dá para administrar. Aos que acreditam que o holandês despencou num abismo sem fundo, é sempre bom apresentar alguns dados. Nos últimos cinco GPs, ele foi quem mais subiu na tábua do Mundial: marcou 96 pontos. O segundo foi Hamilton, com 83. Piastri anotou 78 e Norris, 76. Ou seja: apesar de todo os percalços, tropeçando aqui e ali, o tricampeão permanece de pé.

O que parece certo é que a conquista do tetra, que parecia mamão com açúcar no começo do ano, demandará certo esforço do piloto e da equipe. E é preciso pensar bem no que fazer com Pérez, porque se Max vai se segurando na pontuação, “não dá para andar com uma perna só”, como disse ontem o chefe da Red Bull, Christian Horner.

Piastri, Norris e Hamilton formaram o pódio no calorão do domingão em Hungaroring. A corrida foi interessante, melhor do que a média histórica no circuito magiar. Pela 25ª vez em 39 edições da prova o vencedor saiu da primeira fila. Houve boas disputas, embora as ultrapassagens não tenham sido fartas – a natureza do traçado inibe grandes exibições de valentia. Teve drama no fim, com a comunicação frenética da McLaren com Norris, assim como no esforço de Verstappen para, pelo menos, salvar um pódio.

Então, vamos contar tudo que aconteceu, tintim por tintim.

A largada foi muito bonita, porque por alguma razão Norris achou que Piastri estava com um estilingue para atacá-lo, ou algo assim. Partiu mal, foi para cima do companheiro e abriu caminho para Verstappen. O holandês aproveitou, jogou seu carro para o lado de fora, passou Norris pela área de escape e voltou à pista em segundo, com Oscar em primeiro. Lando caiu para terceiro e ficou reclamando pelo rádio que o rival tinha feito a ultrapassagem de forma irregular. “Vejam o regulamento, procurem na página 196, parágrafo 4, alínea 12, item b! Está tudo lá, levem para a torre, tirem uma cópia, mandem um fax, chamem o VAR!”, gritava.

Calmamente, a equipe explicou que estava verificando tudo aquilo, mas que o VAR não estava disponível porque tinha sido muito usado ontem nos jogos do Flamengo e do Palmeiras. E parecia… descalibrado.

Na quarta volta, o engenheiro de Verstappen orientou o piloto a devolver a posição a Norris, enquanto a direção de prova investigava o caso e ameaçava uma punição. Cuspindo marimbondos, o holandês consentiu. “Ele me jogar para fora pode, vão à merda”, reclamou. Tirou o pé, entregou o segundo lugar e segue o jogo.

Os pit stops começaram bem cedo. Dos 20 que largaram, 13 optaram pelos pneus médios. Quatro (Fernando Alonso, Lance Stroll, Alexander Albon e Kevin Magnussen) foram de macios. Outros três (George Russell, Pérez e Pierre Gasly) escolheram os duros. A temperatura, como previsto, era alta: 29°C, com o asfalto variando entre 44 e 48°C, dependendo de onde o sol furasse as nuvens. Na oitava volta, Alonso, Albon e Magnussen foram para os boxes. Outros da turma do fundão também fizeram seus primeiros pit stops, como Guanyu Zhou, Esteban Ocon, Ricciardo e Logan Sargeant.

Verstappen: reclamando a corrida toda

Mas o primeiro pelotão seguia impassível, sem pensar em parar naquele momento. Na décima volta, Piastri, Norris, Verstappen, Hamilton, Charles Leclerc, Carlos Sainz, Stroll, Yuki Tsunoda, Valtteri Bottas e Russell eram os dez primeiros, sem que nenhum ataque fosse insinuado. Pérez vinha em 11º.

Stroll foi o último do grupo dos pneus fofinhos a parar, na 15ª volta. A janela de pit stops dos grandes foi aberta na volta 17, com Hamilton. Colocou pneus duros. Norris veio na volta 18. Também foi para os pneus de faixa branca. Na 19ª, o líder Piastri, estratégia idêntica. Verstappen assumiu a liderança, mas as coisas não estavam bem na Red Bull. Pelo rádio, o líder do campeonato continuava imprecando – agora, o alvo era o carro. A lista de defeitos apontados era bem extensa. “Os freios não funcionam, não consigo fazer curva, o bluetooth não está pegando, o GPS apagou e com 3G o Waze não abre! Nem WhatsApp consigo mandar! Está tudo uma merda!”

Por isso, para arrumar tudo, Verstappen foi aos boxes na volta 21. Gastou 3s, colocou os mesmos pneus duros de todo mundo e voltou atrás de Hamilton, em quinto. Não deu muito certo a história de adiar o pit stop. Perdeu uma posição. Leclerc assumiu a ponta, mas na volta 24 parou. Com 25 voltas, Piastri, Norris, Hamilton, Verstappen, Leclerc e Sainz eram os seis primeiros. Tsunoda, Russell, Pérez e Gasly fechavam o top-10, mas esses quatro ainda não tinham trocado pneus. O que fizeram nas voltas seguintes, com exceção de Russell, que foi esticando a corda até onde desse.

Piastri liderava sem nenhuma preocupação, com a diferença para Norris oscilando entre 3s e 5s. Hamilton também vinha longe, a mais de 4s de seu conterrâneo tiktoker. Verstappen, sim, tentava uma aproximação para recuperar a posição que perdera para Lewis na primeira parada. Na 32ª volta, a diferença entre os dois era de 1s5.

Quando deu metade da corrida, 35 voltas, Russell finalmente foi para os boxes, o último a trocar pneus. Max encostou em Hamilton já com possibilidade de abrir a asa para tentar a ultrapassagem. Ambos trocaram erros: Lewis freou tarde na curva 1 e Verstappen fez o mesmo na curva 2, e o resultado foi que um passou, o outro repassou e nada mudou. No rádio, mais protestos do piloto da Red Bull. “Não freia, não faz curva, inacreditável!”

Sainz: Ferrari discreta, longe do pódio

Era uma briga interessante, porque valia pódio. Graças a ela, Leclerc, o quinto, chegou nos dois. Mais intrigante que ela, porém, era a queda abrupta da vantagem de Piastri para Norris. De quase 5s, caiu para 1s3 na volta 38. A TV recuperou uma imagem que mostrou o australiano dando uma escapada de pista, perdendo tempo. Estava explicado.

Hamilton foi para sua segunda parada na volta 41, com Leclerc junto. Um queria se livrar de Verstappen. O outro, ganhar sua posição. O que acabaria acontecendo quando Max fizesse o segundo pit stop, sempre praguejando. “Incrível nossa capacidade de levar chapéu de todo mundo!” Ele se referia ao famoso “undercut”, quando um piloto que está atrás antecipa a parada, aproveita umas voltas a mais com pneus novos e ganha a posição daquele que faz o pit stop depois.

Norris fez sua segunda troca na volta 46, sem que tivesse esboçado qualquer ação sobre seu companheiro de equipe. Piastri veio na 48ª. Era o momento decisivo da corrida. Se voltasse atrás de Norris, adeus primeira vitória — numa disputa normal, sem blablablá. E foi exatamente o que aconteceu. Verstappen assumiu a ponta ainda tendo de fazer uma parada. Lando era o virtual vencedor.

Segunda parada de Piastri: posição perdida para Norris

Mas a McLaren, muito civilizada depois de sua barafunda, havia informado a Piastri, pouco antes, que ele poderia parar depois de Norris que as posições seriam restabelecidas. Assim que o australiano saiu dos boxes, a mesma informação foi passada ao inglês. Na volta 50, Verstappen parou. Voltou em quinto. Como imaginava, longe de Hamilton, o terceiro, e atrás de Leclerc, o quarto. Tinha agora pneus médios novos e chance de atacar ambos até o fim da corrida. Resmungando, claro.

Restava saber se a troca entre Norris e Piastri aconteceria, mesmo. Porque, na real, Lando tinha ganhado a posição mais pelo erro de Oscar do que exatamente pela parada duas voltas antes. Na volta 56, o inglês já tinha mais de 3s de vantagem sobre o parceirinho do carro #81. Verstappen, em quinto, esbravejava contra “a estratégia de merda que vocês me deram” e tentava, a todo custo, passar Leclerc. Na volta 57, conseguiu. Com pneus mais novos, médios, partiria para cima de Hamilton – que tinha duros.

Foi nessa altura que o clima pesou na McLaren. O engenheiro de Norris avisou que ele teria de trocar de posição com Piastri. “Mas por que vocês não chamaram ele antes?”, contestou o inglês. Ele tinha razão. Se o time tinha antecipado seu pit stop, e não o de Piastri, que culpa tinha? Fizeram aquilo para defendê-lo de Hamilton? Mas precisava? Não, não precisava. Conversinha.

Norris não quis nem saber, num primeiro momento. Seguiu argumentando e acelerando, e abriu 4s de Piastri. Verstappen, em quarto, se aproximava de Hamilton. Depois da segunda parada dos dois pilotos da McLaren, passei a acompanhar a prova no celular pela câmera do australiano. Estava curioso para saber o que seu engenheiro diria, como o piloto reagiria, ansioso pela primeira vitória na carreira. Mas era um monólogo. Só o cara do pitwall falava alguma coisa, dando orientações técnicas. Oscar não pronunciava nenhuma palavra. Em compensação, Norris e seu engenheiro tagarelavam loucamente. A estratégia de convencimento era: “Vocês estão gastando muito os pneus!”. Até que Lando, aparentemente, acedeu: “OK, então mandem ele chegar logo!”.

Verstappen x Hamilton: upa, cavalinho!

Verstappen voltou a atacar Hamilton. Na 63ª volta, a sete do final, mergulhou por dentro na curva 1, retardou a freada e tocou sua roda traseira esquerda na dianteira direita de Lewis. O carro decolou, aterrissou de bico e, por milagre, não quebrou e não bateu em nada. Bufando e amaldiçoando o destino, acabou perdendo a posição para Leclerc, também, caindo para quinto.

Lá na frente, nada de Norris atender às ordens da McLaren. Ao contrário. Faltando cinco voltas para o fim, a vantagem para Piastri era de 6s. Do ponto de vista técnico, não faria mais nenhum sentido entregar a vitória. Mas o engenheiro de Lando apelava para o emocional. “Amiguinho, tudo é trabalho de equipe. Somos um time, uma família. Tomamos café, almoçamos e jantamos juntos. Viajamos o ano todo, somos parceiros. Você ainda terá muitas chances na vida…” Ele evitava berrar, mas estava claramente perdendo a paciência.

Até que, na volta 67, foi duro e assertivo. “Hamilton está mais de 20 segundos atrás. Devolva a posição AGORA!” Foi especialmente eloquente no “agora”. Gritou, mesmo. E Norris, então, tirou o pé no meio da reta e deixou o australiano passar.

Piastri se tornou o 115º ser humano a ganhar um GP de F-1. Pelo rádio, agradeceu calmamente a todos: “Obrigado pela coordenação”. Quem é que agradece a COORDENAÇÃO depois de vencer sua primeira corrida? Oscar é esse tipo de piloto. Assim que estacionou no Parque Fechado, recebeu um aperto de mão de Norris. Tirou o volante, saiu do carro, subiu no cockpit, ergueu os braços timidamente e foi abraçar os mecânicos. De modo contido, sem se atirar de corpo e alma em cima da equipe. É um rapaz recatado e do lar.

Final em Budapeste: dobradinha da McLaren

Na entrevista pós-GP, Piastri disse que vencer na F-1 “era um sonho de criança”, falou que seu carro é “maravilhoso”, que controlou a corrida e que no final o time “fez a coisa certa” ao ordenar a troca de posições. Norris não jogou gasolina na fogueira. “É um dia espetacular para nós, estou muito feliz. Parabéns para o Oscar, me passou na largada, controlou a corrida. Merecia a vitória. A equipe me pediu para devolver a posição e eu devolvi. É isso. Ele já me ajudou muito em várias corridas e guiou melhor que eu, hoje. E com certeza temos como lutar pelo campeonato.”

Hamilton foi o terceiro, tornando-se o primeiro piloto a subir 200 vezes no pódio. Leclerc, Verstappen, Sainz, Pérez, Russell, Tsunoda e Stroll fecharam o grupo dos dez primeiros. Piastri foi o sétimo vencedor do ano. Nos últimos seis GPs, cinco pilotos diferentes ganharam corridas.

Semana que vem tem mais, na Bélgica. Será a 14ª etapa do campeonato, que então fará uma pausa para pilotos, equipes e agregados aproveitarem as férias de verão na Europa. Pode ser que até a corrida de Spa tenhamos algumas novidades no mercado de pilotos, como o anúncio oficial de Ocon na Haas. O futuro de Sainz segue indefinido. Pérez garante que não tem cristão no mundo para interromper seu contrato com a Red Bull.

Tenho dito, e repito: 2024 está se saindo melhor que a encomenda.