Blog do Flavio Gomes
F-1

LABORIOSAS (3)

SÃO PAULO (a gente já estava com saudades) – Segundo os organizadores do GP da Inglaterra, 480 mil pessoas passaram pelas arquibancadas e gramados de Silverstone neste fim de semana. É uma multidão à altura do que se viu na 12ª etapa do Mundial de F-1. A vitória de Lewis Hamilton foi uma das mais […]

Alegria infinita na Inglaterra: vitória de Hamilton em casa

SÃO PAULO (a gente já estava com saudades) – Segundo os organizadores do GP da Inglaterra, 480 mil pessoas passaram pelas arquibancadas e gramados de Silverstone neste fim de semana. É uma multidão à altura do que se viu na 12ª etapa do Mundial de F-1. A vitória de Lewis Hamilton foi uma das mais emocionantes das 104 de sua carreira e levou o autódromo a uma verdadeira catarse coletiva.

Por vários motivos. Primeiro, o heptacampeão não ganhava desde 5 de dezembro de 2021, na Arábia Saudita. É muita coisa para um piloto que detém o recorde de vitórias na categoria e único a entrar na casa dos três dígitos na história.

Segundo, esta é sua última temporada na Mercedes e foi seu derradeiro GP em casa vestindo o macacão do time que defende desde 2013. São muitas lembranças e conquistas que pareciam ficar cada vez mais distantes no tempo. Ano que vem ele estará lá de vermelho Ferrari.

Terceiro, Lewis estabeleceu um recorde histórico e impressionante: tornou-se o primeiro piloto a ganhar nove corridas no mesmo circuito – estava empatado com Michael Schumacher, que venceu oito vezes em Magny-Cours, na França. A primeira foi em 2008, pela McLaren. Já na Mercedes, venceu quatro seguidas de 2014 a 2017, mais três de 2019 a 2021 e hoje, pela nona vez.

Por fim, porque a Inglaterra viveu, neste fim de semana, o auge da felicidade que um povo poderia desejar. Foram muitas razões para comemorar, a começar pela vitória dos trabalhistas nas eleições que tiraram os conservadores do poder depois de 14 anos – responsáveis pelo Brexit, a estapafúrdia saída do Reino Unido da União Europeia que tanto prejudicou sua população e isolou comercialmente Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte do resto do continente. Ontem já fora motivo de festa a pole de George Russell em Silverstone, com mais dois ingleses em segundo e terceiro no grid – Hamilton e Lando Norris. Na sequência veio a classificação do English Team contra a Suíça, nos pênaltis, para as semifinais da Euro, que está sendo disputada na Alemanha.

Os ingleses inventaram o futebol e foi na ilha que nasceu a F-1. O que se viu neste fim de semana foi uma daquelas raras conjunções cósmicas em que tudo dá certo. Não para indivíduos, mas para uma população inteira. Então, os caras têm mais é de festejar, mesmo. Vai faltar cerveja nos pubs do reino nas próximas horas. Que se divirtam.

E vamos a este belo GP da Inglaterra, que fez justiça à fama de Silverstone e à reverência que todos que gostam de F-1 prestam a essa pista.

A largada foi muito limpa e mais ou menos como se previa: Hamilton fazendo a proteção ao pole Russell e deixando a turba atrás se virar. Na turba estava Max Verstappen, que partiu bem e passou Norris rapidinho, se posicionando em terceiro. Estava cercado de motores Mercedes: George e Lewis à frente, Lando e Oscar Piastri atrás. Quem largou mal foi Nico Hülkenberg, caindo de sexto para nono. Charles Leclerc saltou de 11º para oitavo. O grid teve 18 carros alinhados, apenas. Sergio Pérez largou dos boxes e Pierre Gasly abandonou ao final da volta de apresentação com problemas no câmbio. Dois pilotos largaram com pneus macios: Guanyu Zhou e Esteban Ocon. Pérez foi de duros. Os demais, de médios.

A corrida começou com pista seca, muitas nuvens no céu e possibilidade iminente de chuva. A comunicação de rádio entre boxes e cockpits era frenética. “Vai chover daqui a 18 minutos e 40 segundos entre as curvas 13 e 14 e nas quatro primeiras barracas a leste do portão B, incluindo o furgão das batatas fritas”, dizia um. “Temos previsão de chuva em sete minutos e 12 segundos no motorhome da FIA e sobre o The Malt Shovel Tavern na Bridge Street em Northampton, a propósito um ótimo pub”, avisava outro. “Nosso radares indicam pancadas no final da tarde para Kuala Lumpur e Nova Déli a partir de quarta-feira, mas o tempo melhora no fim de semana”, informava mais um.

Os pilotos, na dúvida, aceleravam.

Norris: bem no início, erros estratégicos depois

Com dez voltas, Russell, Hamilton, Verstappen, Norris, Piastri, Carlos Sainz, Lance Stroll, Leclerc, Hülkenberg e Fernando Alonso se mantinham nas dez primeiras posições sem ataques ferozes ou defesas muito explícitas – o que acontecia, sim, no segundo pelotão, com numerosas ultrapassagens envolvendo carros da Sauber, Haas, Alpine, Seu Cartão é de Aproximação? e Williams, ainda que por posições pouco relevantes.

No festival de boletins meteorológicos a que os pilotos estavam sendo submetidos, uma informação era comum a todos: a chuva, quando chegasse, seria breve. Na volta 14, Norris conseguiu reduzir a diferença para Verstappen para menos de 1s, podendo abrir a asa e ensaiar alguma tentativa de ultrapassagem. Passou na volta 15, sem resistência do holandês. As arquibancadas urraram.

Torcida por Lewis: barulhenta e feliz

A água chegou na altura da 17ª volta, quando o público começou a vestir suas capas e a abrir guarda-chuvas. Eram alguns pingos esparsos, ainda sem molhar o asfalto. Piastri, nesse momento, também passou Verstappen e foi para a quarta posição. A pista ficava escorregadia e Hamilton colou em Russel. Abriu a asa e passou na 18ª volta. As arquibancadas urraram em dobro.

Aí a corrida ficou boa. Hamilton e Russell foram para a área de escape e Norris se aproximou de ambos. Os dois Mercedes voltaram ao leito da pista, mas George perdeu a posição para Lando. No rádio, o engenheiro de Verstappen disse a ele que se conseguisse sobreviver àquelas voltas, beleza. A recompensa viria em algum momento.

Na volta 20, Norris passou Hamilton e assumiu a liderança. Piastri veio junto, superou Russell e foi para cima de Hamilton. Os carros da McLaren, naquela condição de pista meio seca e meio molhada voavam. Oscar deixou Lewis para trás no fim da 20ª volta.

Naquele momento, Leclerc foi para os boxes para colocar pneus intermediários. Pérez, Ocon e Zhou fizeram o mesmo, acreditando que seriam os melhores para aquele asfalto, digamos, traiçoeiro.

Mas a maior parte da pista estava seca. Quem apostou em água pesada se deu muito mal. Os pneus intermediários, sem chuva, transformaram seus carros em carroças lerdas e inguiáveis. Ocon nem esperou por isso, voltou aos boxes e colocou slicks de novo. Os demais ficaram se arrastando.

Hamilton: fim de prova com pneus macios, 104ª vitória

Lá na frente a coisa continuava divertida. Piastri enconstou em Norris na volta 26. Foi quando a chuva voltou e Verstappen e Sainz, quinto e sexto, foram para os boxes. Ambos colocaram pneus intermediários na 27ª volta. Essa era a hora, não antes. McLaren e Mercedes ficaram na pista, e a chuva apertou. Norris parou na 28ª. A Mercedes chamou os dois ao mesmo tempo e fez as trocas. Piastri permaneceu com os slicks e assumiu a liderança. Mas não foi uma boa ideia da McLaren.

O australiano só parou na 29ª e perdeu muito tempo na volta extra num piso já bem molhado, com pneus para pista seca. Quando saiu dos boxes, caíra para sexto. Norris, Hamilton, Verstappen, Russell e Sainz eram os cinco primeiros. Resumo das paradas: Max e Sainz ganharam duas posições, Russell perdeu uma, Piastri despencou quatro.

Só que a chuva era muito fraca. E os pneus intermediários, se serviram para duas ou três voltas no asfalto úmido, começaram a esfarelar nos longos trechos de pista praticamente seca. Verstappen e Hamilton, pelo rádio, foram os primeiros a reportar os problemas. O que fazer? Trocar de novo? Se segurar daquele jeito? Alguém daria o pulo do gato?

Na dúvida, ninguém fez nada. Só um: Russell. E não fez nada que gostaria… Na volta 34, a equipe chamou o piloto para os boxes. “George, vamos abandonar”, disse o engenheiro. As causas não foram reveladas, não na hora. O piloto, normalmente muito educado, recebeu a notícia com um palavrão. Minutos depois a equipe avisou Hamilton que seu companheiro estava fora com um problema de vazamento de água.

Russell abandona: frustração depois de largar na pole

E era chuva que ia e voltava, apertava e diminuía, e os meteorologistas continuavam passando seus boletins sem parar. Na hora em que a água foi um pouco mais intensa, ali pela volta 36, Hamilton começou a diminuir a diferença para Norris. Em partes do circuito, porém, fazia sol. Nesses trechos, Lando abria um pouco.

A 15 voltas do final, o asfalto estava quase totalmente seco. Na volta 38, Hamilton e Verstappen foram para os boxes colocar slicks. A Mercedes pôs macios no carro de Lewis. A Red Bull optou por duros no carro de Max. Piastri, desta vez, foi o primeiro McLaren a trocar. Norris ficou na pista. Foi chamado na volta seguinte e colocou macios, numa parada não muito rápida: 4s5. Essa volta extra de intermediários e o pit stop atrapalhado custaram caro ao jovem inglês do carro laranja #4: Hamilton assumiu a liderança, com Lando em segundo. As arquibancadas urraram em triplo.

E quem começou a andar muito bem? Max Verstappen, de pneus duros, em terceiro. Teria, em tese, uma borracha menos estragada nas voltas finais da corrida, podendo pelo menos atacar Norris pelo segundo lugar e quiçá Hamilton, ambos de macios. Lewis liderava e a torcida não se continha, vibrando a cada passagem.

E é mesmo um monstrinho, esse tal de Verstappen. Na volta 47, a cinco do final, conseguiu entrar na zona de asa móvel para atacar Norris. Daria o troco da ultrapassagem sofrida lá no começo da corrida. Na 48ª volta, fez com Lando exatamente o que o amigo tinha feito com ele: passou no final da reta Hangar, sem resistência, e assumiu o segundo lugar.

Ganhar a corrida, porém, seria tarefa bem mais difícil. Faltavam só três voltas e Hamilton estava 3s à frente. Não entregaria aquela rapadura de jeito nenhum. E não entregou. Fim de jejum, recorde de vitórias num mesmo circuito, a alma lavada.

Brian May, lendário guitarrista do Queen, mostrou a quadriculada para Sir Lewis Hamilton ao final de 52 voltas. Verstappen abraçou com sorriso no rosto o segundo lugar, conquistado à base de talento e estratégia, e Norris foi o terceiro, frustrado e cabisbaixo. A massa foi à loucura nas tribunas da pista onde Lewis já havia vencido oito vezes. Um delírio completo para os ingleses.

Piastri, Sainz, Hülkenberg, Stroll, Alonso, Alexander Albon e Yuki Tsunoda fecharam a zona de pontos, com menções honrosas ao alemão da Haas em sexto, à dupla da Aston Martin, que finalmente fez uma corrida aceitável, e à Williams, que marcou dois pontinhos com Alex. E, vá lá, a Sainz, que com uma Ferrari manca chegou em quinto e fez a melhor volta da prova. Leclerc terminou numa patética 14ª posição.

O primeiro a cumprimentar Hamilton no Parque Fechado foi Russell. Lewis, chorando, ergueu a bandeira da Inglaterra que havia recebido de um fiscal de pista e depois correu para sua equipe. Depois, deu um longo abraço em seu pai Anthony. Tudo isso ainda de capacete. Quando tirou, foi para o gramado em direção ao público. Levantou de novo a bandeira, bateu no peito, e voltou.

Norris, o mais tristonho dos três primeiros, deu os parabéns a Hamilton e à Mercedes, mas reconheceu que a McLaren bobeou em alguns momentos da prova. Também se culpou por não tomar as decisões certas quando devia – falava, claro, do momento exato de trocar pneus –, mas no fim se conformou: “Estou feliz de pelo menos estar no pódio”.

Verstappen, sereno como se tivesse acabado de jogar uma partida de damas, falou que não esperava chegar tão bem, em segundo. “Não tínhamos um bom ritmo e achei que iria terminar em quinto ou sexto. No fim a gente fez as escolhas certas nas horas certas e os pneus duros nas últimas voltas me ajudaram muito.”

Aí veio Hamilton para a entrevista a Jenson Button, seu ex-companheiro de McLaren. Isso depois de mais um abraço demorado, desta vez em sua mãe Carmen. “Nunca tinha chorado por uma vitória. Mas hoje não consigo parar de chorar. Desde 2021 tentando vencer, nesta equipe incrível… É meu último GP da Inglaterra pela Mercedes e eu queria muito dar esta vitória a eles. Sou muito grato a esta equipe. Foram dias muito difíceis. É muito duro ficar tanto tempo sem vencer, mas o mais importante é lutar, se dedicar, não desistir.”

Não desistiu, e foi muito bonito. Foram 945 dias de espera desde a vitória de 2021 em Jedá, 56 corridas sem saber o que era subir no degrau mais alto do pódio, lugarzinho muito especial que conhece tão bem. “Nos últimos tempos, cheguei a me questionar se já não era mais capaz de fazer algo como fiz hoje.”

Como vimos todos, ainda é.

Verstappen segue líder tranquilo do campeonato com 255 pontos, contra 171 de Norris. São 84 de vantagem. Confortável, sem dúvida. Mas no ano passado, depois de 12 etapas, Max tinha 314 pontos. Aquele domínio absurdo de 2023, como temos dito já há algum tempo, não vai acontecer de novo tão cedo. Leclerc estacionou em terceiro nos 150 e Sainz subiu para 146. Hamilton, apesar da vitória, segue em oitavo com 110, um atrás de Russell. Pérez perdeu o quinto posto para Piastri: 124 x 118. O mexicano está na marca do pênalti na Red Bull. Fez 15 pontos nas últimas seis corridas, o que beira o ridículo.

No Mundial de Construtores, o time dos energéticos permanece com alguma folga porque a Ferrari, vice-líder, vem derrapando nas últimas provas. Tem 373 pontos, contra 302 dos italianos — que precisam, na verdade, se preocupar com a aproximação da McLaren, que foi a 295. A Mercedes tem 221 e está em quarto.

Com a vitória de Hamilton, a temporada chega ao seu sexto vencedor diferente em uma dúzia de corridas algumas delas muito boas. É muito mais do que se poderia esperar depois de um início de campeonato dominado amplamente por Verstappen.

Resumindo, não dá para reclamar muito de 2024, não.