Blog do Flavio Gomes
F-1

SOBRE ONTEM DE MANHÃ

A IMAGEM DA CORRIDA SÃO PAULO (de volta) – São 104 vitórias, algumas resultaram em títulos (e são sete), outras são carregadas de significados (a primeira de todas, a mais difícil, aquela com três pneus, o triunfo marcante na casa do ídolo Senna…). E por que essa, em particular, arrancou lágrimas de Lewis Hamilton? Ele […]

A IMAGEM DA CORRIDA

Nos braços do povo: Hamilton, de calças vermelhas, renasce em Silverstone

SÃO PAULO (de volta) – São 104 vitórias, algumas resultaram em títulos (e são sete), outras são carregadas de significados (a primeira de todas, a mais difícil, aquela com três pneus, o triunfo marcante na casa do ídolo Senna…). E por que essa, em particular, arrancou lágrimas de Lewis Hamilton? Ele mesmo disse que nunca tinha chorado depois de ganhar uma corrida. Desta vez, chorou.

É fácil explicar. Hamilton estreou em 2007 na F-1 e até 2021, 15 anos seguidos, nunca deixou de vencer pelo menos um GP por ano. Um auge permanente, por assim dizer. Aí veio a derrota para Verstappen na última corrida de 2021, seguida de dois anos horríveis da Mercedes em 2022 e 2023, e mais 11 provas neste ano longe de brigar pelo degrau mais alto do pódio. Até a vitória redentora de ontem. Em casa, pela nona vez. Com o adicional de completar uma sequência quase inacreditável de 12 pódios seguidos em Silverstone — incluem-se nessa conta 11 GPs da Inglaterra e o GP do 70º Aniversário, na mesma pista, em 2020, quando o calendário teve algumas provas repetidas por causa da pandemia.

Nesse período de provações, Hamilton pensou em desistir de correr. E, como disse ontem, colocou em dúvida a própria capacidade de voltar a ganhar uma corrida. Esse foi o motivo do choro quase incontrolável. “Agora não preciso mais ficar me questionando sobre isso”, falou.

Hamilton achava que não seria mais capaz de vencer. Ontem, mostrou a si mesmo que é. Por isso a foto escolhida: o piloto junto ao seu povo com sua taça dourada.

E de calças vermelhas, que todo mundo percebeu…

Há uma série de números interessantes para as estatísticas da F-1 produzidos ontem. Hamilton, por exemplo, se tornou o primeiro piloto a vencer corridas em 16 temporadas diferentes. Ele está em seu 18º campeonato. Só não ganhou em 2022 e 2023. É também o primeiro piloto a vencer um GP 17 anos depois da primeira vitória na categoria. Com a Mercedes, chegou a 150 pódios. São 199 na carreira. E 15 em Silverstone — nenhum piloto subiu tanto no pódio no mesmo circuito. Mas tem de escolher um, né? Então vamos ao…

NÚMERO DA INGLATERRA

…piloto a vencer depois de ter disputado mais de 300 GPs. Essa foi mais uma marca importante anotada por Lewis. A vitória veio em sua 344ª corrida. A última antes dessa tinha sido na Arábia Saudita em 2021, em seu 287º GP. Além de Hamilton, só cinco pilotos largaram em mais de 300 GPs. E nenhum deles venceu depois da terceira centena. Alonso tem 389 e ganhou pela última vez na Espanha/2013 pela Ferrari, em seu 201º GP. Raikkonen encerrou a carreira com 349 largadas, tendo vencido a última de Ferrari nos EUA/2018, sua corrida nº 288. Barrichello, 322 GPs disputados, ganhou o último na Itália/2009 pela Brawn, na sua 280ª prova. Schumacher, que parou com 306 corridas, venceu pela última vez na 246ª delas, na China/2006, pela Ferrari. E Button, também 306 GPs, ganhou o último no Brasil/2012 pela McLaren, na sua 228ª largada.

Mercedes, duas vitórias seguidas: solução debaixo do capô

E a Mercedes, quem diria, chegou a duas vitórias seguidas nesta temporada. E se é verdade que na Áustria caiu no colo de Russell, na Inglaterra foi um resultado construído na base da velocidade, da estratégia e da pilotagem segura de Hamilton.

E, também, graças ao calombo no alto do nariz do carro, onde está pintado o número 44 na foto aí em cima. De acordo com as publicações que esmiúçam aspectos técnicos da F-1, é debaixo desse calombo que foi instalada uma estrutura acoplada às suspensões dianteiras que confere maior estabilidade ao W15. Esse carro, de novo, nasceu com um problema crônico de “porpoising”: bate muito no asfalto em trechos de alta velocidade e interrompe os fluxos de ar sob o assoalho. A tal estrutura confere rigidez ao conjunto todo, permitindo que o carro ande muito baixo, chegando perto da plenitude de sua eficiência aerodinâmica.

Demorou dois anos e meio, mas a Mercedes parece ter encontrado um caminho para corrigir os defeitos de nascença dessa linhagem de carros feitos para o regulamento que estreou em 2022.

A FRASE DE SILVERSTONE

“É insustentável não marcar pontos com esse carro.”

Christian Horner, sobre Pérez
Pérez: na marca do pênalti

São 15 pontos nas últimas seis corridas. Nico Hülkenberg, da Haas, fez 16 nas últimas duas. Se a comparação for com o companheiro Max Verstappen, é covardia: 119. Estamos falando de Sergio Pérez. Que zerou em três dos últimos cinco GPs. E nesses cinco, largou três vezes atrás de… Logan Sargeant!

Como disse o chefe Christian Horner, passa a ser uma situação insustentável. O que se sabe: que Pérez, ainda que com contrato renovado por mais dois anos, tem cláusulas de performance. Até o GP da Bélgica, não pode estar mais de 100 pontos atrás de Verstappen e, no máximo, cinco posições atrás na classificação do campeonato.

Neste momento, Max tem 255, contra 118 do mexicano. A diferença é de 137. Checo está em sexto no Mundial, exatas cinco posições atrás do holandês, que é o líder. Mas na sua cola estão George Russell (111) e Hamilton (110).

Liam Lawson fará um teste em Silverstone nos próximos dias.

SOSTITUZIONE – A Ferrari anunciou hoje a saída de Enrico Cardile, engenheiro que cuidava dos chassis da equipe. Foram quase 20 anos de serviços prestados em Maranello. O chefe Frédéric Vasseur vai acumular as funções de diretor-técnico na área. Hum… Em outubro, o francês Loïc Serra, ex-Mercedes, começa na Ferrari — estava em quarentena. Mas tem gente interpretando a saída como preparação de terreno para a chegada de Adrian Newey. Já Cardile deve acertar com a Aston Martin em breve. Já trabalhou com Alonso na Ferrari.

UM HORROR – “Pior que um pesadelo.” Assim Charles Leclerc descreveu seu fim de semana. A Ferrari, depois de Mônaco, fez várias atualizações em seu carro. Nenhuma funcionou. Tanto que em Silverstone o time voltou às configurações que estavam sendo usadas em Ímola, cinco corridas atrás. O monegasco reclamou de tudo, inclusive de ter colocado pneus intermediários tentando antecipar a chuva. “Só veio dez voltas depois. Jogamos a corrida no lixo”, disse. São duas corridas sem pontos, já: 11º na Áustria e 14º na Inglaterra. Sem contar abandonos por quebras ou acidentes, e considerando apenas as provas em que chegou ao final, Charlinho não tinha uma sequência tão ruim desde os três primeiros GPs que disputou, pela Alfa Romeo, em 2018: 13º, 12º e 19º em Melbourne, Bahrein e China.

NA REDE – Coisinhas da internet ainda ligadas à corrida de Silverstone. A “Autosport” fez a lista dos resultados de Hamilton nas últimas 11 edições do GP da Inglaterra, com seus impressionantes 11 pódios e oito vitórias. Lembrando que seu primeiro triunfo em casa foi em 2008, pela McLaren, e que ainda teve um segundo lugar na corrida de 2020 batizada como GP do 70º aniversário na mesma pista para fechar a lista de 12 pódios seguidos em Silverstone. Lewis foi escolhido pelo amigo internauta como Piloto do Dia. E o amigo internauta Sebastian Vettel postou no Instagram uma foto do piloto com a expressão “Goat”, acrônimo em inglês para “greatest of all time”.

NAS PISTAS – Hamilton bateu o recorde histórico de nove vitórias no mesmo circuito, mas pode repetir o feito daqui a menos de duas semanas na Hungria, onde também já ganhou bastante: oito vezes. O inglês estava empatado com Michael Schumacher como maior vencedor numa mesma pista. O alemão ganhou oito em Magny-Cours, na França. Os dois também dividem o terceiro lugar nessa estatística: Hamilton tem sete vitórias no Canadá e Schumacher ganhou sete em Ímola e também na pista de Montreal.

GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS

GOSTAMOS de novo de ver a Haas competitiva, com Nico Hülkenberg repetindo o sexto lugar da Áustria. Isso depois de um início de prova complicado, tendo perdido três posições na largada. A equipe acertou na estratégia, chamou o alemão para os boxes na hora certa e ele, na pista, entregou resultado. Como já devo ter dito na semana passada, a Audi acertou em contratá-lo.

NÃO GOSTAMOS de novo de ver a Sauber se arrastando com Valtteri Bottas e Guanyu Zhou nas últimas posições. A equipe continua sendo a única a não marcar pontos em 2024. Entende-se o clima de fim de feira, já que o time vive um período de transição para virar Audi em 2026. Mas também não precisava ser tão ruim. Desse jeito, vai ser bem difícil convencer Carlos Sainz a abraçar o projeto. Ele mesmo, aliás, já parece ter desistido.