Blog do Flavio Gomes
F-1

SPANTADOS (3)

SÃO PAULO (pobre George!) – George Russell ganhou, mas não levou. O inglês da Mercedes chegou na frente no GP da Bélgica depois de uma atuação brilhante com apenas uma troca de pneus, mas na vistoria pós-corrida seu carro pesou 796,5 kg depois de drenada a amostra de combustível exigida para análise da FIA. O […]

Russell: ganhou, mas não levou

SÃO PAULO (pobre George!) – George Russell ganhou, mas não levou. O inglês da Mercedes chegou na frente no GP da Bélgica depois de uma atuação brilhante com apenas uma troca de pneus, mas na vistoria pós-corrida seu carro pesou 796,5 kg depois de drenada a amostra de combustível exigida para análise da FIA. O mínimo exigido, sem combustível, é de 798 kg. E nem tiraram toda a gasolina que tinha ficado no tanque. Foram 2,8 litros, e ainda sobrou alguma coisa.

Assim, a vitória na 14ª etapa do campeonato, em Spa-Francorchamps, ficou para Lewis Hamilton, seu companheiro de equipe. É a 105ª vitória de Hamilton na categoria, a segunda neste ano. A outra aconteceu no GP da Inglaterra.

A Mercedes reconheceu o erro e teve de engolir o choro, perdendo a que seria sua primeira dobradinha desde o GP do Brasil de 2022, com Russell e Hamilton nas duas primeiras posições em Interlagos. “Devemos desculpas a George”, disse o chefe Toto Wolf. Com a desclassificação do carro #63, Oscar Piastri, da McLaren, ficou em segundo e Charles Leclerc, da Ferrari, foi o terceiro colocado, fechando o pódio. Max Verstappen, Lando Norris, Carlos Sainz, Sergio Pérez, Fernando Alonso, Esteban Ocon e Daniel Ricciardo fecharam a zona de pontos.

A equipe prateada não estava entre as favoritas à vitória. Longe disso. Na sexta-feira, seu desempenho foi, nas palavras de Hamilton, “um desastre”. Ontem, na chuva, quarto e sétimo tempos na classificação. A Ferrari fez a pole. Um dia antes, a McLaren tinha mostrado que no seco era um foguete. E a Red Bull fez o melhor tempo com Verstappen no piso molhado, com Pérez em terceiro.

Ninguém dava nada para os carros prateados em Spa. Mas eles deram a volta por cima e chegaram em primeiro e segundo, resultado que acabou perdendo parte do brilho com a punição a Russell. Antes mesmo de a notícia ser confirmada, pareceu esquisita a reação do chefe Toto Wolff, que mal comemorou o 1-2 — um sorrisinho de leve, apenas, flagrado pela TV. Hamilton também estava contrariado. Talvez por ter se sentido prejudicado pelas duas paradas nos boxes, contra o pit stop único de seu parceiro. Durante a corrida, falou mais de uma vez pelo rádio que seus pneus estavam bons, e que não precisavam ser trocados tão cedo. Russell não tinha nada com isso. Quando perguntado pelo mesmo rádio se seus pneus aguentariam, não enrolou muito. Disse que sim. E foi até o final. A desclassificação foi um duro golpe depois de uma atuação tão boa.

Foi uma corrida bem legal, essa de Spa. Os três primeiros receberam a bandeira quadriculada no mesmo frame da TV, separados por 1s173. Quarto, quinto e sexto, também. As diferenças entre eles foram igualmente inferiores a um segundo.

Final da prova: três primeiros colados na bandeirada

Para Verstappen, que largara em 11º depois de perder dez posições por troca de motor, o resultado acabou sendo bom. Chegou na frente de Lando, seu mais direto perseguidor pelo título de 2024. A diferença na tabela, que era de 76 pontos, subiu para 78 — 277 x 199, já corrigida a tabela com a desclassificação de Russell. Para a Red Bull, as coisas não foram tão boas assim. No Mundial de Construtores, perdeu mais nove pontos para a McLaren. Cortesia de Pérez, que mais uma vez decepcionou. De segundo no grid para oitavo no final — sétimo após o infortúnio de George. Menos mal que fez a melhor volta da corrida. Norris foi outro que não saiu sorridente de Spa. Largou em quarto e chegou em sexto, subindo depois para quinto. O companheiro Piastri estava atrás dele no grid e terminou no pódio.

Como tudo isso aconteceu? Vamos à história desse GP, o último antes da pausa para as férias da F-1, que só volta no dia 25 de agosto na Holanda.

Largada na Bélgica: Norris começou mal de novo

O melhor da largada em Spa foi o braço de ferro entre Hamilton e Pérez. O inglês se saiu melhor e conseguiu pular à frente do mexicano, que tentou de todas as formas recuperar a posição até o topo da colina. Leclerc largou direito e se manteve em primeiro. A ultrapassagem logo no início seria importante para o heptacampeão mundial se colocar na briga pela vitória.

Mas os olhos anda não estavam na Mercedes naquele começo de corrida, e sim sobre Verstappen, que fechou a primeira volta em nono, já ganhando duas posições. Tinha gente apostando que ele poderia repetir 2022 e 2023, quando largou atrás na Bélgica e ganhou. Norris, da turma da ponta, foi quem teve de engolir o maior prejuízo. Largou mal, caiu para sétimo e na segunda volta quem estava atrás dele, em oitavo? Max. Eles, que nas últimas corridas brigaram diretamente por vitórias, se encontraram de novo — agora numa zona do pelotão que não têm frequentado muito.

Pérez: resultado ruim, futuro indefinido

Na terceira volta, endiabrado, Hamilton foi para cima de Leclerc e passou o monegasco na Kemmel, a enorme reta depois do complexo Eau Rouge/Radillon. Ganhou a ponta e tentou escapar logo para não ficar vulnerável à asa móvel da Ferrari #16.

Na sexta volta, Lewis já conseguira abrir mais de 1s sobre Charlinho. Foi quando entrou no rádio e disse que alguma coisa estava se movendo sob seus pés. “Celular?”, perguntou o engenheiro Bono. “Não, deixei na mochila.” “Isqueiro?” “Não, o carro tem acendedor e nem sei para quê, já que não fumo.” “Óculos?” “Pode ser.”

Os pneus estavam aguentando bem o início da corrida, que aconteceu com sol, 21°C (calor danado para a Bélgica) e asfalto a 42°C. Dos 20 que largaram, 17 escolheram os compostos médios. Apenas Sainz e Zhou foram de duros e Bottas, de macios. O chinês abandonou na sétima volta, com problemas hidráulicos.

Depois de dez voltas, as posições dos dez primeiros colocados estavam estabilizadas, apesar das pequenas distâncias entre eles: Hamilton, Leclerc, Pérez, Piastri, Russell, Sainz, Norris, Verstappen, Alonso e Ocon. A turma de trás já começava a trocar pneus, como Hülkenberg, Albon, Sargeant e Gasly.

Na 11ª volta, Russell e Verstappen pararam. Colocaram pneus duros. Hamilton, Pérez e Piastri foram para os boxes na volta seguinte. Leclerc, na 13ª. Desses, quem manteve os médios foi Checo. Os demais foram para os compostos de faixa branca. Quem voltou babando, muito rápido, foi o australiano da McLaren, que logo passou Russell (tinha voltado atrás dele) e, depois, Pérez. Sainz assumiu a liderança, com Norris em segundo. Ambos sem pit stops.

Lando parou na volta 16 e voltou atrás de Verstappen, em oitavo. Foi para pneus duros, como a maioria. Na 20ª volta, Sainz, Hamilton, Leclerc, Piastri, Pérez, Russell, Verstappen, Norris, Albon e Ricciardo eram os dez primeiros. O espanhol da Ferrari se sustentava com pneus muito desgastados para fazer apenas um pit stop, mas recebeu u’a má notícia dos boxes: se parasse naquela hora, teria de trocar para médios, e os médios não aguentariam até o fim. Carlos bufou. Sua estratégia não era das melhores dos últimos tempos.

Sainz parou na volta 21. Colocou pneus médios, voltou em oitavo e bufou de novo. Mais à frente, Russell passou Pérez e foi para quarto. Verstappen, que estava perto dos dois, passaria o mexicano também, claro. Mas nem precisou, porque a Red Bull chamou Checo para a segunda troca e colocou pneus duros em seu carro. Quem apostava num pódio de Pérez – eu, por exemplo – guardou a viola no saco.

Norris chegou em Verstappen na volta 23, com pneus mais novos que os do holandês. E um carro aparentemente mais rápido. Valia o quinto lugar. Mas o inglês deu uma escapada na Bus Stop e perdeu um pouco o contato com o rival. Se aprumou e foi à luta. Leclerc, o segundo, foi chamado para seu segundo pit stop. A ideia era tentar ganhar a posição de Hamilton nos boxes. Colocou pneus duros novamente.

A Mercedes respondeu de imediato, chamou Hamilton na volta seguinte e fez o mesmo. E ele voltou à frente da Ferrari. Naquele momento, Russell, que assumiu o segundo lugar, entrou no rádio e perguntou delicadamente se não seria o caso de ir até o final da corrida com apenas uma parada. “Veja bem, em 1963 Carel Godin de Beaufort, com seu Porsche, estava em sexto no GP da Bélgica quando seus pneus repentinamente melhoraram e ele decidiu que…”, e nesse momento Toto Wolff entrou no rádio, sem muita paciência, e pediu: “George, foco!”.

Sainz: estratégia não deu muito certo

Verstappen e Sainz foram para os boxes na volta 29. Piastri assumiu a liderança com as paradas de Hamilton e Leclerc. Max voltou em sétimo, com pneus médios. Norris foi chamado na sequência e parou na volta 30. Voltou atrás dos dois carros da Red Bull. Que, se fosse sensata, orientaria Pérez a abrir para Verstappen e, depois, dar uma segurada no inglês. Fez isso imediatamente.

Piastri parou na volta 31 e voltou em quarto. Pérez não aguentou Norris nem uma volta e foi ultrapassado pelo inglês. Russell, então, virou líder. Foi quando a equipe, meio desconfiada, perguntou se ele achava que daria para ir até o fim sem parar de novo. “Sim, vejam bem, em 1954, aqui mesmo em Spa, Onofre Marimón, com sua bela Maserati, notou que naquele tipo de asfalto seria possível…”, e Toto entrou no rádio de novo: “George, Onofre é nome de farmácia. Você poderia apenas dirigir?”.

Seria uma façanha, se Russell conseguisse se manter em primeiro até o fim com apenas um pit stop. Quase um milagre. Hamilton vinha em segundo, com Leclerc, Piastri, Verstappen, Norris, Pérez, Sainz, Alonso e Bottas nas dez primeiras posições. Os dois carros da McLaren já começavam a insinuar ataques à Ferrari e à Red Bull.

Piastri: mais um pódio para o australiano

Ato contínuo, Oscar passou Charlinho na freada da Les Combes, a chicane no fim da Kemmel, na volta 36. E começou a pensar em Hamilton. Que, por sua vez, ia tirando tempo de Russell. Lewis encostou de vez na volta 40, a quatro do final. Tinha pneus bem mais novos. A Mercedes, àquela altura, já era a grande surpresa do dia. Pediu aos pilotos para que se comportassem. “Deixem espaço um para o outro”, veio a mensagem pelo rádio. George respondeu: “Veja bem, em Suzuka, 1989…”. E Toto o interrompeu mais uma vez: “Fica quieto, George!”.

E George ficou quieto. Se mantinha firme na frente, apesar dos pneus muito mais desgastados. Lewis se aproximava, mas não o bastante. Com isso, Piastri, o terceiro, chegou nos dois. Na última volta, a última chance: Lewis tentou embutir no #63 na saída da La Source. Mas não conseguiu, mesmo podendo abrir a asa móvel.

George no Twitter: “Coração partido”

Russell venceu de forma brilhante. Foi um pecado, a desclassificação. Seria a terceira vitória de sua carreira — as outras foram no Brasil/2022 e na Áustria, neste ano. Hamilton e Piastri subiram com ele ao pódio. Mais de uma hora depois foram avisados da mudança do resultado. Lewis tinha cumprimentado Russell friamente no Parque Fechado. Nas primeiras declarações, reconheceu que o time não esperava tanto dessa corrida, depois do que andou nos treinos e na classificação. “Mas hoje o carro estava fantástico”, disse. “Parabéns ao George, que fez um ótimo trabalho. Eu tinha pneus sobrando nos meus stints, teria feito minha própria estratégia, mas o resultado é ótimo para a equipe.”

Russell era só sorrisos, até então. Sabia o tamanho de sua proeza. “Foi tudo perfeito. Mexemos no carro na sexta-feira e a estratégia foi muito boa”, resumiu. Só se manifestou sobre a desclassificação horas depois pelo X, o antigo Twitter: “Coração partido (…), mas orgulhoso de cruzar a linha em primeiro”.

No Mundial de Construtores, com a pontuação atualizada, a Red Bull tem 408 pontos, contra 366 da McLaren. São 42 de diferença, apenas. A Ferrari tem 345 e a Mercedes, 266. Nos últimos três GPs, a McLaren marcou 98 pontos, seguida pela Mercedes (70), Ferrari (54) e Red Bull (53).

Pérez e Verstappen: Red Bull preocupada

Há, claramente, algo de podre no reino dos energéticos. Por isso, pode ser que a hora de Pérez tenha chegado. Nos próximos dias, a equipe austríaca vai decidir se fica com o mexicano, ou se entrega seu segundo carro a outro piloto. Liam Lawson e, acreditem, Daniel Ricciardo são os candidatos.

Checo, depois da corrida, disse que não vai mais falar sobre seu futuro. Christian Horner, o chefe do time, falou que o resultado foi decepcionante. “Calculávamos que chegaríamos em terceiro e quarto. Só chegamos em quarto”, alfinetou. Quem saiu em defesa do companheiro foi Verstappen. “Acho que nossa prioridade, agora, tem de ser o carro, e não ficar falando se alguém vai entrar no lugar dele.”

Todos terão quase um mês para pensar em tudo isso.