SÃO PAULO (faz parte) – Bem, vamos avançar um pouco nessa história. A essa altura, vocês que acompanharam o noticiário do Grande Prêmio e dos sites que cobrem TV, e passaram por aqui ontem, já devem estar sabendo. A F-1 sai mesmo da Bandeirantes no final do ano. A equipe responsável pelas transmissões já foi avisada internamente.
A emissora do Morumbi ainda teria um ano de contrato com a Liberty Media, até o final de 2025. Mas não está pagando os direitos. Assim, o contrato será rescindido e o grupo americano, dono da categoria, vai tentar receber o que lhe é devido pelos canais possíveis — pode até rolar alguma ação na Justiça.
Algumas coisas nos interessam diretamente, a nós que acompanhamos o Mundial. Primeiro: saber para onde vai a F-1.
Essa resposta é fácil e já pode ser dada: vai para a Globo. Por enquanto, é a única certeza.
Segundo: a Bandeirantes vai transmitir as últimas oito etapas desta temporada? Aparentemente, sim. Não se deve, porém, descartar a possibilidade de o caldo engrossar entre o canal e a Liberty, e os americanos simplesmente proibirem a emissora de entrar nos autódromos. Têm o direito de fazer isso. Só entra com câmera em circuito de F-1 quem paga por isso. Se a Bandeirantes está dando calote, pode perder esse direito. Mas aí a Liberty teria de encontrar uma alternativa para não deixar o público brasileiro sem nada. Há algumas. Uma delas, entregar de graça os direitos a algum canal público, por exemplo. Assim, estariam garantidas as transmissões até o fim do ano. Ninguém precisa ficar com medo de não ter mais GP na TV aberta em 2024. Alguma solução será dada. E a mais provável é ficar onde está, com a Liberty tentando receber seus caraminguás. Se for assim, acredito que as transmissões dessas oito provas serão feitas num tom melancólico. O clima entre os integrantes da equipe, compreensivelmente, não será nada leve.
Como vai ser o esquema na Globo? Não sei, mas posso imaginar. Everaldo Marques deverá ser o narrador. Ele conhece o assunto. Começou a carreira em rádio no meu programa Fórmula Jovem Pan lá por 1996 ou 1997. Depois dei emprego ao Everaldo no Grande Prêmio. Foi um dos meus primeiros redatores. Construiu ali uma boa cultura automobilística. Quando saí da Pan, assumiu meu lugar na rádio como repórter. Começou a viajar, conheceu o negócio de perto. Aliás, ele chegou a narrar comigo comentando na rádio. Meu último GP pela emissora, EUA/2001, foi o primeiro dele narrando. Everaldo é muito bom, já narrou corrida na Globo aberta em 2020, narrou comigo também na rádio Estadão-ESPN. Não terá dificuldade nenhuma, o público gosta dele, é um fenômeno de internet, não tem rejeição, tem uma bela história pessoal, não há outro nome. Comentarista? Até onde eu sei, Luciano Burti continua trabalhando na Globo. Mas aí é só palpite. Capaz de inventarem algum influencer — todo mundo acha que essa é a fórmula, hoje, para conquistar os “xóvens”; bobagem completa, a maioria desses influencers só fala merda e não entende nada de nada, exceto de como fazer vídeos para o Instagram. TV não é Instagram, TV não é TikTok, TV não é YouTube. Repórter? A Globo pode escolher alguém que está na Europa e já fez F-1 antes. Pode inventar alguém novo. Pode procurar uma mulher. Pode fazer o que bem entender. Já aviso que, embora eu esteja disponível para conversar, não faço parte de lista nenhuma. O pessoal me acha “perigoso”. Foi por isso que a Bandeirantes não me chamou em 2021. Quando falaram em meu nome, a chefia, lá, me considerou “perigoso”.
Ainda o esquema na Globo. O cenário de 2020, quando a emissora carioca largou a F-1, para 2024 é bem diferente. Falamos disso aqui ontem. Agora tem o aplicativo F1TV, pago, a F-1 já chegou a liberar seu sinal para um streamer de games (Gaulês, acho que era esse o nome, uma tragédia), tem YouTube, TikTok, Instagram, canal por assinatura, Alexia, Apple, Amazon e o escambau de Madureira. Então, esqueçam o que viveram até hoje, a saber: F-1 na TV aberta com todas as classificações e corridas. No mundo todo a F-1 já migrou para canais por assinatura. Por mais de 40 anos a Globo mostrou os GPs em sinal aberto e gratuito. Pode ser que agora isso mude: talvez algumas provas na TV aberta, outras apenas no Sportv. Que vai mostrar todos os treinos, como sempre fez — a Bandeirantes mostra treinos só no Bandsports, também canal fechado. E também vai mostrar todas as provas. No futebol é assim. Tem jogo na Globo aberta que passa também no Sportv. E vai ter F-2 e F-3. Essas coisas entram no pacote. A Bandeirantes não está fazendo caridade quando mostra essas categorias. O Sportv também mostrava.
As pessoas precisam entender que a vida real é diferente da que desejam. Vai ter gente xingando a Globo, que não mostra o pódio, que isso, que aquilo. A Globo, em seus 40 anos de F-1, mostrou o pódio, sei lá, por 35, 38 anos. Nas últimas temporadas, percebeu que a audiência despencava depois da quadriculada. Parou de mostrar. Oh, que crime. Eu sempre achei isso uma sacanagem. Não faria, se fosse o diretor da empresa. Acho o pódio importante. Mas virou política da casa, repito, depois de mais de três décadas mostrando todos os pódios. Tinham seus motivos. Uma emissora de TV não é dirigida a partir de ataques histéricos nas redes sociais.
A Bandeirantes, nestes quatro anos de F-1, não mandou seu narrador e seus comentaristas para nenhum GP, exceto a Interlagos. Isso é um desrespeito ao telespectador maior do que não mostrar o pódio. Não se esqueçam que a Globo sempre manteve uma cavalaria de elite nas corridas: Galvão, Luiz Roberto, Cleber Machado, Reginaldo Leme, Rubens Barrichello, Felipe Giaffone, Luciano Burti, fora o time de repórteres: Roberto Cabrini, João Pedro Paes Leme, Marcos Uchoa, Tadeu Schmidt, Pedro Bassan, Guilherme Pereira, Marcelo Courrege, Carlos Gil, Luiz Fernando Lima. Devo ter esquecido alguém. Ah, é caro. Bom… Esses produtos precisam se pagar, e se pagam com publicidade, e publicidade vem com audiência. A Globo tem audiência. A Bandeirantes, não. Os números são deprimentes, nestes quatro anos. A média por GP mal passa dos 2 pontos no ibope na emissora paulista, que além de tudo não tem o alcance nacional da Globo. A F-1 perde de desenho do Pica-Pau, culto evangélico, programa de rifa e jogo de futebol de praia. E a F-1 merece mais do que isso. É evento de ponta.
Além do sacrossanto pódio, o principal argumento dos defensores da Bandeirantes — que antipatizam com o que chamam de “Globolixo” — é o pré-corrida. De fato, dá-se bastante tempo para isso. Meia hora, pelo menos, em rede nacional. A hora cheia, só para os telespectadores de São Paulo. Colocam legendas em alguns VTs enlatados, produzidos pela F-1 ou pelas equipes, e a repórter passeia no grid. Eu e o Fábio Seixas fizemos isso em rádio por quase 20 anos. Acredito que o novo formato das transmissões pelo menos no Sportv serão assim, com um tempo maior antes da largada. Tem tempo para isso, no cabo. Mas abrir transmissão cinco minutos antes da largada não era capricho da Globo. Sempre foi o padrão nas TVs abertas do mundo inteiro. É por isso que eles soltam a vinheta internacional cinco minutos antes. Inclusive no aplicativo F1TV. Ficar mais tempo no ar é muito bacana. Mas é preciso saber o que fazer com esse tempo disponível.
Resumindo, ninguém precisa ficar desesperado. A Globo tem condições técnicas e financeiras de fazer um trabalho bem melhor que a Bandeirantes. Que pegou a F-1 em 2021 e não mudou quase nada. Nem a equipe. Todos vieram da Globo. Acrescentou meia hora às transmissões antes das corridas e voltou a mostrar o pódio. Não promoveu nenhuma revolução. Não criou nada. Zero. Não se vê F-1, hoje, como se via cinco anos atrás. Há outras plataformas e alternativas para além do que a TV aberta mostra. São 24 corridas. Em 2019, último campeonato integral da Globo pré-pandemia, eram 21. Agora tem Miami e Las Vegas, em fusos horários pouco propícios. Acabou aquele negócio de “manhãs de domingo”. Tem manhãs, tardes, madrugadas e noites de sábado. Tem Sprints. A F-1 não se encaixa mais em grades de emissoras abertas. O mundo da comunicação mudou. O futebol não é mais monopólio da Globo. A Libertadores andou passeando pelo SBT, hoje tem jogos na Paramount e na Amazon. A Série A, no ano que vem, será dividida entre Globo e Record. A Record transmitiu as Olimpíadas de Londres, em 2012. A CazéTV transmitiu a Copa do Mundo do Catar e os Jogos de Paris pelo YouTube. Tem espaço para todo mundo. E a F-1, na Bandeirantes, estava escondida e patinando na mesmice. É disso que se trata. A categoria precisa ser mais bem tratada e de mais gente na audiência. Não de menos.
É isso.