Blog do Flavio Gomes
F-1

MONZA IN BRODO (3)

SÃO PAULO (ma che bello!) – Charles Leclerc, contra todos os prognósticos, venceu o GP da Itália levando a torcida da Ferrari ao delírio absoluto em Monza. Com uma estratégia de apenas uma parada, diferente da maioria, o monegasco ganhou pela segunda vez no ano e sétima na carreira. Foi também a segunda no circuito […]

SÃO PAULO (ma che bello!) – Charles Leclerc, contra todos os prognósticos, venceu o GP da Itália levando a torcida da Ferrari ao delírio absoluto em Monza. Com uma estratégia de apenas uma parada, diferente da maioria, o monegasco ganhou pela segunda vez no ano e sétima na carreira. Foi também a segunda no circuito sagrado para os tifosi — a outra aconteceu em 2019.

A McLaren, favoritíssima à vitória, ficou em segundo e terceiro com Oscar Piastri e Lando Norris. Um bom resultado, sem dúvida. Dois no pódio? Como reclamar? Mas foi amargo. O time papaia deixou escapar um triunfo que parecia certo com medo de ficar sem borracha no fim da corrida. Seus dois pilotos fizeram duas trocas de pneus. Pagaram o preço da falta de ousadia e alegria. Já o líder do campeonato, Max Verstappen, saiu do autódromo com declarações sombrias. Disse que se a Red Bull não fizer alguma coisa perde os dois títulos — de pilotos e construtores.

O pessimismo do holandês tem razão de ser. Ele terminou a prova na sexta colocação, 37s932 atrás do vencedor. Sua vantagem na classificação para Norris, que era de 70 pontos, caiu para 62. Entre as equipes, a McLaren descontou 22 pontos em relação ao time dos energéticos. Agora está apenas oito atrás. Faltam oito etapas para o final do campeonato, três delas com Sprints. O domínio da Red Bull, que ganhou sete das dez primeiras corridas de 2024, escorreu pelo ralo. O time não vence desde a Espanha. Já são seis provas longe do degrau mais alto do pódio. O caldo entornou.

O GP da Itália foi um corridão. Prova frenética, como sempre. Com muito calor, 33°C e 50°C no asfalto, começou com Norris, na pole-position, largando bem. Este blog, ontem, previu que seu companheiro Piastri faria o papel de escudeiro, pensando na tabela de pontuação. Fez. Até a primeira chicane. Ali, defendeu o parceiro de um iminente ataque de George Russell, que acabou saindo da pista e se embananou todo – teve de ir aos boxes prematuramente trocar bico, óleo, água e filtro de ar.

Mas o auxílio luxuoso do australiano durou só alguns metros. Na segunda chicane, Oscar colocou seu carro por fora e passou o parceiro de forma soberba. Trouxe junto com ele Leclerc, que aproveitou o ensejo e assumiu o segundo lugar. Lando, atônito, caiu para terceiro. Meio atônito, diga-se.

Do ponto de vista do campeonato, talvez a McLaren devesse priorizar o #4, orientando Piastri a não atacá-lo assim tão abruptamente, sem aviso prévio. Do ponto de vista do esporte, tudo normal e mais do que desejável. A gente gosta. Norris não curtiu.

Colapinto: boa estreia, 12º com apenas um pit stop

Piastri, Leclerc, Norris, Carlos Sainz, Lewis Hamilton, Verstappen, Russell, Sergio Pérez, Alexander Albon e Fernando Alonso se estabeleceram nas dez primeiras posições nas primeiras voltas . Quase todos os pilotos largaram com pneus médios. Verstappen, Pérez, Esteban Ocon, Yuki Tsunoda e Lance Stroll optaram pelos duros, para ficar mais tempo na pista até a primeira — e talvez única — parada. De incidentes a relatar no início, um toque de Nico Hülkenberg em Tsunoda, que teve de abandonar com danos em seu carro. Foi chamado para os boxes e deixou a prova. Tudo começara antes, com Daniel Ricciardo empurrando o piloto da Haas para fora da pista. O choque com o japonês acabou acontecendo depois. Ricciardo e Hulk receberam punições.

Na volta 15, a McLaren chamou Norris para os boxes para tentar ganhar a posição de Leclerc no pit stop. Na entrada, o inglês travou os pneus e e bateu numa placa publicitária. Estava claramente abalado pelos acontecimentos da primeira volta. Ou “acontecimento”, no singular: a perda da liderança para Piastri. Na volta seguinte, Leclerc e Hamilton foram para os boxes. A estratégia da McLaren para Norris deu certo. Charlinho voltou atrás dele e ficou zangado com a Ferrari. Se soubesse o desfecho da corrida, agradeceria. Na 17ª, foi a vez de Oscar parar. Voltou à frente dos que já tinham trocado pneus. Virtualmente na liderança, pois. Mas em quarto, atrás de Sainz, Verstappen e Pérez – que não tinham feito pit stops ainda.

O espanhol da Ferrari parou na volta 20. Max assumiu a liderança mantendo sua estratégia de esticar o stint com pneus duros até onde desse. Com ele, em segundo, vinha Pérez. Pelo rádio, o engenheiro de Verstappen mandou o holandês acelerar. Para valer a pena a escolha da borracha inicial, ele teria de construir uma vantagem que lhe permitisse, após sua parada, ganhar uma ou duas posições.

O chamado da Red Bull veio na volta 23. E foi surpreendente. Colocou um novo jogo de pneus duros, indicando que teria de fazer um segundo pit stop. Além disso, a equipe se atrapalhou com a roda traseira direita, que demorou a sair. Resultado: perdeu cerca de 3s. Voltou em sétimo, passou Ocon, foi para sexto e se posicionou mais de 7s atrás de Hamilton, o sexto. Antes das paradas, essa diferença estava na casa dos 3s.

Gasly e Ocon: Alpine, mais uma vez, apagada

Com todo mundo de pneuzinho novo, Piastri, Norris, Leclerc, Sainz, Hamilton e Verstappen eram os seis primeiros. A corrida estava na metade, 26 voltas. O australiano liderava com 1s9 de vantagem sobre o inglês. A McLaren entrou no rádio de Landinho e disse: “Liberado para a disputa, sob as regras papaia”. Oh, que bacana. Como serão as regras papaia? Não se matem, meninos. Basicamente é isso.

A McLaren voava. Leclerc, em terceiro, poupava pneus. Piastri e Norris alternavam as melhores voltas da prova. Mas na volta 31 algo aconteceu. Lando errou na segunda chicane, saiu da pista, perdeu tempo e o aussie se mandou, abrindo 5s. A Ferrari #16 do monegasco, então, começou a aparecer. Colou em Lando. Charlinho se animou e foi em busca do segundo lugar. Norris parou pela segunda vez na volta 33. Monza, que sempre foi corrida de um pit stop, passou a ser um GP de duas trocas, por conta do novo asfalto – e da escolha da Pirelli, que levou à Itália a gama de pneus mais macios do lote. Mas não para todos, como se veria depois.

McLaren, dois no pódio: sorrisos amarelos na foto

Norris voltou em sexto com um novo jogo de pneus duros atrás de Verstappen, que teria de fazer seu segundo pit stop. Pelo rádio, Max perguntou se deveria dar uma canseira no rival. A equipe respondeu que sim: atrapalha aí. A ideia era simples e clara. Impedir Norris de ganhar a corrida, dando uma folga a Piastri, lá na frente. Afinal, o campeonato de Verstappen é contra Landinho e ninguém mais.

Piastri fez sua segunda parada na volta 39. Voltou exatamente à frente de Max e Norris. A diferença não era muito grande: menos de 3s entre os carros da McLaren, com uma Red Bull no meio. Lando atacou na volta 40, Max se defendeu. Quanto mais dificultasse o trabalho do papaia #4, melhor para o líder do campeonato. Na volta 41, na freada para a primeira chicane, Norris passou. Piastri estava 4s à sua frente.

Max parou pela segunda vez na volta 42, colocou pneus médios e voltou em sexto, de novo atrás de Hamilton. Mas muito longe dele. Na ponta, Leclerc e Sainz se viram em primeiro e segundo, ambos com apenas um pit stop. A torcida da Ferrari, então, se animou. E não foi pouco. Porque, àquela altura, ficou evidente que a equipe italiana não iria parar mais. Ao contrário das outras, decidiu fazer a prova toda com apenas uma parada, seguindo a tradição milenar de Monza. Na liderança, o simpático rapaz criado nos morros das comunidades de Monte Carlo estava bem à frente. Faltando dez voltas, a diferença dele para Sainz era de 10s7. E para Piastri, 13s2.

Multidão em Monza: 335 mil nos três dias

A tarefa de Oscar para ganhar a corrida seria hercúlea. Teria de passar Sainz e, depois, fazer voltas muito melhores que Leclerc para alcançar o monegasco. Passou o espanhol na volta 46. Faltavam sete voltas. Entre ele e a Ferrari #16, 12s. Nas arquibancadas, todos de pé.

Norris, com pneus mais novos, também chegou rápido em Sainz e passou na volta 48, assumindo o terceiro lugar. Lá na frente, Piastri socava o pé no acelerador. A diferença para Leclerc caíra para 9s1. Pelo rádio, o piloto pedia para a Ferrari não falar mais nada com ele. Estava prestes a vencer em casa de novo. Já ganhara em Monza antes e sabia o tamanho de uma vitória no templo do automobilismo italiano. As arquibancadas urravam.

Na volta 50, Piastri deu mostras de que o fôlego da McLaren tinha acabado. Leclerc tinha 7s de vantagem e não entregaria a rapadura nem morto. No fim das contas, a estratégia de uma parada era mesmo a melhor em Monza. Charlinho abriu a última volta 4s3 à frente da McLaren #81. Recebeu a bandeirada 2s6 à frente de Piastri, o segundo. Uma atuação não menos que espetacular. Norris, em terceiro, fez a melhor volta da corrida na última delas e levou o ponto extra que, àquela altura estava com Verstappen. O autódromo veio abaixo. Sainz foi o quarto, seguido por Hamilton, Max, Russell, Pérez, Albon e Kevin Magnussen. O estreante Franco Colapinto, da Williams, foi o 12º, depois de largar em 18º. recebeu elogios da equipe — que, como a Ferrari, foi para apenas uma parada com seus dois carros.

“Mamma mia, mamma mia!”, era tudo que Leclerc conseguia dizer pelo rádio, em êxtase. A multidão de vermelho invadiu a pista, cumprindo outra tradição de Monza. Nos três dias do evento, 335 mil almas deixaram seus ingressos nas catracas. “É muito especial vencer aqui. Ganhar as duas corridas mais importantes do ano é incrível”, falou o vencedor, que neste ano faturou Mônaco, também. “É um sonho.”

Contrastando com a euforia de Leclerc, Norris se apresentou cabisbaixo e tristonho para as entrevistas pós-corrida. Falou sobre a ultrapassagem de Piastri (“Se eu tivesse freado um pouco mais tarde a gente poderia ter batido”) e sobre a estratégia da McLaren (“A gente considerou fazer uma parada só, mas não sei se seria possível”). E concluiu: “Estamos decepcionados, claro. Mas parabéns para eles. A Ferrari mereceu”. Piastri também parecia chateado, embora não seja muito fácil distinguir seu estado de ânimo depois de uma vitória ou de um abandono. “Não vou mentir. Perder assim machuca um pouco. Tínhamos dúvidas sobre a estratégia, mas fazer uma parada só parecia meio arriscado. No fim, acho que era o certo. Mas é fácil dizer isso depois que a corrida acaba. Tínhamos muito a perder e o Charles podia arriscar.”

A próxima etapa acontece em Baku, Azerbaijão, daqui a duas semanas. Aprova não terá Magnussen na Haas. O dinamarquês, que fez boa prova com estratégia de uma parada e terminou em décimo, foi punido depois de um toque em Pierre Gasly na 19ª volta. Nenhum carro foi afetado, mas ele levou dois pontos na carteira, somando 12 num período de 12 meses. Pelas regras da F-1, fica suspenso por uma corrida. Oliver Bearman, já contratado pela Haas para 2025 — vencedor da Sprint da F-2 ontem — será seu substituto.