SÃO PAULO (Landinho, Landinho…) – Charles Leclerc está com tudo e não está prosa! Que delícia de frase extirpada dos porões empoeirados da minha memória literária e da música do Chacrinha! E que frase de merda!
Vou começar de novo.
Charles Leclerc confirmou a boa fase e menos de duas semanas depois de vencer o GP da Itália, em Monza, conquistou a pole-position para o GP do Azerbaijão, 17ª etapa do campeonato. Oscar Piastri, da McLaren, larga ao seu lado na primeira fila, com Carlos Sainz (Ferrari) e Sergio Pérez (Red Bull) na segunda. Os dois pilotos que lutam pelo título mundial da temporada estiveram longe do protagonismo no sábado quente de Baku. Max Verstappen (Red Bull), o líder, larga em sexto. Lando Norris (McLaren), o vice, em 16º.
Ficou melhor, mas sem graça. Vou fazer de novo.
Charles Leclerc enrabou todo mundo e fez a pole em Baku. Depois de ganhar em Monza, colocou a Ferrari na frente de novo. É sua terceira pole no ano, 26ª na carreira. E a quarta seguida no Azerbaijão, embora nunca tenha vencido essa corrida. Entre os dois que lutam pelo título mundial, Verstappen foi menos ruim: sexto no grid para o líder do campeonato, medíocre. Norris, vice-líder, conseguiu ser ainda pior. Com atuação patética, empacou no Q1 e larga em 16º, um vexame desgraçado. Colocou a culpa em bandeiras amarelas e saiu do autódromo resmungando contra o destino.
Pronto, vale essa.
Vale essa e resume bem o dia em Baku. A Ferrari vem tendo um ano de altos e baixos, mais baixos do que altos, e neste momento está no topo da montanha-russa. Venceu em casa há menos de duas semanas, uma surpresa, e hoje desbancou equipes que teoricamente estariam mais próximas da ponta, como McLaren, Red Bull e até Mercedes. Mas a McLaren, que fizera três das últimas quatro poles da temporada, espanou a porca já na sexta-feira. Ontem, lembrem-se, Norris ficou em 17º e mesmo dando a impressão de que estava escondendo o jogo foi de sua boca que saiu o vaticínio: “Nosso carro não é bom em todo tipo de pista como dizem por aí”, falou, com uma nuvem negra cheia de raios estacionada sobre sua cabeça.
Muito desanimado, o moço. Desse jeito não vai ser campeão nunca. OK, pode até não ser excepcional em todas as pistas, mas olha lá para o Piastri, meu filho! Larga em segundo. Não seria bom, diante das dificuldades da Red Bull nesta reta final de competição? Era uma chance de reduzir ainda mais a diferença nos pontos. Dançou. Mesmo em sexto, com um carro ainda complicado, Max vai ampliar sua vantagem. Só por milagre Norris, largando lá atrás, chega na frente do holandês. Que não é bobo e vai jogar com o regulamento debaixo do braço. Qualquer um faria isso.
É claro que é nos dois que estaremos de olho amanhã, embora nenhum deles vá ganhar a corrida. Mas alguém vai, e por isso essa prova deve ser boa, porque não tem favoritos. Explico adiante. Bem adiante, no final do texto. Mas agora vamos a um breve relado da classificação, para entender como é que se formou este grid azeri — gentílico refinadíssimo, diga-se.
Começou o Q1 e a Mercedes, curiosamente foi para a pista com pneus médios. Um risco. A 7min do final, Russell estava na zona da degola. Quem andava bem era Colapinto. O argentino chegou a liderar a tabela de tempos por alguns segundos e depois, na sua segunda volta rápida, se colocou em terceiro a 0s109 de Pérez, o primeiro colocado – o mexicano acabaria sendo superado no fim por Leclerc & outros. Nos últimos segundos da primeira parte da classificação, a Williams saltou de novo, com Albon em segundo e Colapinto em oitavo. Realmente impressionante.
A ideia de jerico da Mercedes, claro, foi deixada de lado. Jorginho e Hamilton trocaram os pneus médios por macios e se garantiram entre os 15 primeiros. Os tempos começaram a cair drasticamente e ao final do segmento, a surpresa: Norris eliminado, com o 17º tempo (larga em 16º pela desclassificação de Gasly, explicada abaixo). O inglês da McLaren cometeu um erro em sua última volta rápida e o resultado foi uma catástrofe para suas ambições de título. Entrevistado pela repórter Mariana Becker no chiqueirinho da zona mista, foi monossilábico. “Bandeiras amarelas”, grunhiu. Com ele ficaram fora do Q2 Ricciardo, Bottas, Zhou e Ocon.
Na frente, Leclerc fez 1min42s775 e foi o mais rápido, seguido por Albon, Piastri, Gasly, Hamilton e Verstappen nas seis primeiras posições. O quase estreante Oliver Bearman, que tinha batido de leve no último treino livre, avançou em 14º com a Haas. Também ganhou uma posição no grid pelo problema com Gasly. Um bom resultado, assim como o de Colapinto. A molecada mandou bem.
A Red Bull deu algum sinal de vida no início do Q2. Verstappen e Pérez cravaram 1-2 na primeira saída dos boxes, com 1min42s042 para o holandês. Leclerc se colocou entre os dois só nos últimos instantes. A Williams seguia surpreendendo, especialmente com o hermanito Colapinto, que terminou em sexto. Ao final, Verstappen, Leclerc, Pérez, Russell, Alonso, Colapinto, Sainz, Piastri, Hamilton e Albon passaram. Bearman, Tsunoda, Gasly, Hülkenberg e Stroll ficaram para trás.
Colapinto em sexto. Nunca tinha andado nessa pista, o rapaz. Um desempenho que chama a atenção. E Bearman, embora não tenha avançado ao Q3, larga na frente do veterano companheiro de equipe. Também é digno de nota. A molecada está mandando bem mesmo.
Com Norris fora da briga desde o Q1, fiquei com a impressão de que Verstappen deu uma acalmada. Ele tinha começado a classificação praguejando contra o carro. “Estou em lugar nenhum!”, disse, expressão que, a partir do original em inglês, poderia ser traduzida como “tô fodido com essa merda!”. O que era esperado. Baku e Singapura, escrevi aqui depois do GP da Itália, seriam sessões de testes de luxo para a Red Bull se aprumar a partir de Austin. E tem sido assim. Mas, questões técnicas à parte, as coisas começaram a melhorar para o líder do campeonato com a debacle do #4 da McLaren hoje.
Assim, foi com algum conformismo que Max encarou o sexto lugar provisório na primeira saída dos boxes no Q3. A temperatura tinha caído um pouco, com as nuvens expulsando o sol forte. No asfalto, foi de 38°C no início da classificação para 34°C. A Ferrari largou bem e fez os dois melhores tempos logo de cara, com Leclerc entrando na casa de 1min41s610. O momento Trapalhões aconteceu quando Albon saía dos boxes para sua segunda volta rápida. A Williams esqueceu o ventilador que fica acoplado na entrada de ar sobre a cabeça do piloto, cheia de gelo seco. O tailandês, na saída do pitlane, percebeu, conseguiu tirar o aparato do cocuruto e entregou a gigantesca peça a um fiscal. No momento em que escrevo, a FIA analisa se punirá o piloto por ter sido liberado da garagem em situação de risco. Faz algum sentido – aquilo podia cair na pista. Mas ele conseguiu tirar, não caiu no meio da pista, todos se salvaram podiam pegar leve… Tomara que seja apenas uma multa.
Leclerc voltou a virar muitíssimo bem na sua segunda volta rápida, cravando 1min41s365. Um tempo imbatível. Piastri foi o segundo a distantes 0s321 dele. O equilíbrio que vinha sendo registrado nos treinos livres, com menos de 1s separando os mais rápidos, desapareceu nas mãos e pés do monegasco. Sainz larga em terceiro, com Pérez em quarto. É a primeira vez no ano que o mexicano larga na frente de Verstappen. Russell foi o quinto. Max, embora tenha melhorado um pouquinho na sua segunda volta, terminou em sexto. A diferença dele para a pole foi de intransponíveis 0s658. Hamilton, Alonso, Colapinto e Albon fecharam o grupo dos dez primeiros. É a primeira vez que a Argentina tem um piloto entre os dez primeiros no grid desde o GP do Brasil de 1982 — Carlos Reutemann largou em sexto, com a mesma Williams.
Gasly perdeu seu razoável 13º lugar ao ser detectada uma irregularidade no fluxo de combustível para o motor e larga em último. Todos atrás dele sobem uma posição. Inclusive Norris que, reforçando, parte em 16º. Não há favoritos para a corrida de amanhã. Leclerc não conseguiu grande coisa a partir da pole nos últimos três anos em Baku: foi quarto em 2021, quebrou em 2022 e terminou em terceiro no ano passado. Piastri pode pensar em vitória, já que não precisará se preocupar em ajudar Norris e tem carro para ganhar. Não se deve descartar totalmente Pérez, duas vezes vencedor no Azerbaijão. A Mercedes parece um pouco distante, mas vai que…
Verstappen? Como já dito, não é besta. Vai perguntar a cada cinco minutos onde está Norris. Terminando na frente dele, volta para casa contente. Com um detalhe nada irrelevante: se Leclerc vencer, o que é plenamente possível, e Landinho não pontuar, idem, o campeonato terá um novo vice-líder. O ferrarista tem 217 pontos e pode ir a 242. Norris tem 241.
