Blog do Flavio Gomes
F-1

NO BAKU NADA? (3)

SÃO PAULO (muito frio, esse moço) – Oscar Piastri é um sujeito bem estranho. Muito novinho, não demonstra contrariedade quando as coisas vão mal, tampouco se empolga muito nos momentos de justificada euforia escancarando sua boca cheia de dentes esperando a morte chegar. Está em seu segundo ano na F-1. Começou, em 2023, se arrastando […]

Piastri na cabeça: vitória tão bela quanto difícil no Azerbaijão

SÃO PAULO (muito frio, esse moço) – Oscar Piastri é um sujeito bem estranho. Muito novinho, não demonstra contrariedade quando as coisas vão mal, tampouco se empolga muito nos momentos de justificada euforia escancarando sua boca cheia de dentes esperando a morte chegar. Está em seu segundo ano na F-1. Começou, em 2023, se arrastando com a McLaren nas últimas posições. Não dizia nada, não reclamava, não se queixava.

Aí a equipe melhorou um monte e hoje voltou à liderança de um Mundial, no caso o de Construtores, depois de mais de dez anos. E foi ele, Piastri, quem venceu o GP do Azerbaijão, em Baku. Comemorou com a animação de quem chega em casa depois de uma longa jornada de trabalho e nota que o elevador está só no segundo andar, e por isso não vai demorar muito para descer ao térreo. Pequenas alegrias da vida. Ganhar uma corrida, para o australiano, é apenas mais uma pequena alegria da vida. A de hoje foi a segunda dele na F-1.

QUANDO MESMO? – Sim, mais de dez anos. Foi em março de 2014 que, na prova de abertura da temporada, a McLaren liderou a tabela de pontuação pela última vez. Aquela corrida de Melbourne, a primeira da era híbrida na categoria, foi vencida por Nico Rosberg, da Mercedes. Mas seu então companheiro Lewis Hamilton quebrou. E a McLaren colocou Kevin Magnussen (!) e Jenson Button no pódio, somando 33 pontos contra 25 da equipe alemã. Na prova seguinte, na Malásia, a Mercedes fez dobradinha, virou o jogo e assim foi até o fim. Nunca mais a McLaren foi líder. Até hoje: foi a 476 pontos, contra 456 da estropiada Red Bull.

Uma vitória construída com uma única e decisiva ultrapassagem sobre Charles Leclerc na 20ª volta, e uma incrível tranquilidade até o fim da prova com a Ferrari #16 em seu cangote. O monegasco não conseguiu se recuperar e terminou em segundo. O pódio foi completado por George Russell, da Mercedes, posição que caiu em seu colo graças a um acidente entre Carlos Sainz e Sergio Pérez na penúltima volta, sobre o qual falaremos adiante. Lando Norris foi o quarto, depois de largar em 15º. E conseguiu chegar à frente de Max Verstappen, que teve uma atuação apagadíssima e terminou em quinto.

Ontem escrevi aqui que só por milagre, largando lá atrás, Norris chegaria na frente de Verstappen. E que, por isso, o holandês ampliaria sua vantagem na tabela. Não foi o que aconteceu, e nem precisou de milagre algum. Acho que superestimei a capacidade da Red Bull de fazer, pelo menos, uma corrida aceitável. O desempenho de Max foi ridículo. E, assim, o inglês descontou mais três pontos na classificação. Marcou 13, contra dez do #1. A diferença caiu de 62 para 59. Ainda está longe. Faltando sete etapas para o fim do campeonato, com três Sprints no meio do caminho, Lando precisa fazer uma média de 8,4 pontos mais que Verstappen por GP para chegar ao título. Para Max, cada corrida a menos será um alívio.

OUTRAS FAÇANHAS – A prova de Baku também será lembrada por duas façanhas. A primeira, de Oliver Bearman. O inglês foi o décimo colocado em seu segundo GP e pontuou em ambos por equipes diferentes, algo inédito na F-1. Tinha sido sétimo em Jedá pela Ferrari substituindo Carlos Sainz, que teve apendicite. Correndo no lugar do suspenso Kevin Magnussen hoje, repetiu a dose com a Haas, embora um pouco mais para trás. Será titular da equipe americana em 2025. A outra proeza foi de Franco Colapinto, da Williams. Também em seu segundo GP, terminou a corrida num ótimo oitavo lugar. Assim, um argentino voltou a pontuar na F-1 depois de mais de 42 anos. O último tinha sido Carlos Reutemann, segundo colocado no GP da África do Sul de 1982 pela mesma Williams.

E agora vamos saber como tudo isso foi possível na tarde quente e ensolarada da capital azeri.

A largada foi muito tranquila. Leclerc se segurou na ponta, com Piastri em segundo e Pérez, que partiu bem, em terceiro. Norris passou em 13º na primeira volta. Para ele era urgente entrar nos pontos. Na volta seguinte, já era 12º. A McLaren mostrava força. Na ponta, Charlinho, que havia disparado na primeira volta, na terceira já tinha Piastri em seus calcanhares. Mas a pressão durou pouco. O monegasco se aprumou e não permitiu que o australiano tentasse alguma coisa. Esse seria o cenário até a janela de pit stops.

Lando seguia em seu calvário. Foi só na oitava volta que, ao passar Bearman, se colocou entre os dez primeiros. Em 17º originalmente no grid, o vice-líder do Mundial ganhara duas posições graças à troca de motor de Hamilton (que largou dos boxes por isso) e a uma desclassificação de Pierre Gasly (irregularidade no fluxo de combustível na classificação). Não era muita coisa, continuava atrás, mas ajudava.

Largada: Leclerc mantém a ponta, com Piastri atrás

Na liderança Leclerc, na volta 10, tinha mais de 3s de vantagem sobre o papaia #81. O primeiro pit stop do pessoal da frente foi de Colapinto, na volta 11. Era oitavo, caiu para 15º. Como a maioria, o argentino largara com pneus médios. Seis foram de duros: Alexander Albon, Daniel Ricciardo, Norris, Guanyu Zhou, Gasly e Esteban Ocon. As paradas seguiram: Fernando Alonso na volta seguinte, Verstappen, Russell e Hamilton na 13ª, Pérez na 14ª. Pelas previsões da Pirelli, esse primeiro pit stop deveria acontecer mais para a frente, lá pela 19ª volta.

Piastri parou na volta 16 e conseguiu voltar à frente de Pérez, com quem disputava posição naquele momento. Cortesia de Norris, que sem pit stop ainda atrasou o mexicano da Red Bull por pelo menos uma volta. O líder parou nos boxes na volta 17. Sainz assumiu a liderança, mas na passagem seguinte fez sua troca e o companheiro retomou a ponta. Albon, ainda sem parar, era o terceiro.

As posições naturais dos três primeiros se restabeleceram na volta 19, quando Checo passou o tailandês da Williams: Leclerc, Piastri e Pérez. Oscar voltou a assediar a Ferrari, que com pneus duros não parecia ter o mesmo ritmo de antes. E na 20ª volta, na gigantesca reta de Baku, Piastri enfiou o pé no acelerador, abriu a asa, atrasou a freada, mergulhou por dentro e superou Charlinho, que ficou sem ação. A corrida tinha um novo ponteiro.

Ocorre que Oscar passou, mas não disparou. Leclerc ficou embutido nele, com Pérez colado nos dois. Mais para trás, na volta 23, Verstappen chegou em Norris, que estava em sexto sem ter feito seu pit stop, com pneus bem gastos. Perdeu tempo atrás dele. Bastante. Porque à frente dos dois estava Albon, igualmente sem parada. Max não conseguia passar Lando que não conseguia passar Alex. Essa era a situação. Uma demora que, como veríamos depois, foi determinante para que Verstappen terminasse a prova atrás do piloto da McLaren.

Russell: discreto, ganhou o pódio de presente

Na abertura da volta 29, Leclerc atacou Piastri para tentar a liderança de novo. O mclariano se defendeu bem. O trenzinho tinha Piastri, Leclerc e Pérez muito próximos. Sainz, em quarto, estava longe. Albon, Norris, Verstappen e Russell, de quinto a oitavo, formavam outro grupo com um fungando na nunca do outro.

Norris só conseguiu passar Albon quando a Williams chamou seu piloto para os boxes, na volta 32. Mas estava bonita, mesmo, a briga pela ponta. Volta atrás de volta Leclerc tentava passar Piastri, que se segurava com uma frieza de dar gosto. Pérez só observava. Em quinto, Norris seguia na pista sem nenhuma intenção de parar. Verstappen, em sexto, comia o pão que o diabo amassou. Pelo rádio, reclamava que seu carro saltitava na traseira e não tinha nenhuma aderência. Estava ruim, mesmo. Na volta 34, foi ultrapassado por Russell e caiu para sétimo.

O VELHO E NOS NOVOS – Parênteses para a volta 37, em forma de nova caixinha. Em 13º, Hamilton tinha à sua frente Bearman e Colapinto. Um conflito de gerações. Lewis, com idade para ser pai dos dois, não conseguia passar nenhum deles. Demorou um monte. E só passou um. Os dois garotos, afinal, sonhavam com pontos. Fecha a caixinha.

Na volta 38, finalmente, Norris parou. Voltou em sétimo, uma posição atrás de Verstappen, com 15s entre os dois. Faltavam 13 voltas. Havia uma chance real para Lando de chegar à frente de Max. Passara a ser seu único objetivo. Era preciso impor um ritmo forte. Com borracha bem mais nova, era possível.

Leclerc, enquanto isso, especulava atrás de Piastri. Vendo de perto o carro da McLaren, o monegasco passava boletins informativos pelo rádio, volta a volta. “Os pneus dele estão piorando”, “acho que Oscar está tendo algum problema”, “tive a impressão que ele tossiu”, “vejam aí se não está coçando o olho dele”. Mas Piastri seguia em primeiro, impassível. Pérez, o terceiro, já ficara um pouquinho para trás.

A dez voltas do final, na 41ª, a diferença de Verstappen, o sexto, para Norris, o sétimo, era de 10s6. O holandês queria que aquela coisa acabasse logo, mas teria de encarar o rival no final. Era pura matemática: Lando, com pneus novos, tirava 1s por volta da Red Bull. A ultrapassagem era inevitável. O que parecia algo inatingível, chegar na frente de Verstappen largando nove posições atrás, virava realidade.

Norris não fazia contas, porém. Só acelerava. Na volta 45, a diferença caíra para 5s. Na briga pela vitória, a Ferrari, pelo rádio, tentava animar Leclerc. “Vai que dá!”, “acelera!”, “pisa fundo!”, mas nada. Piastri, gelado, se mantinha na ponta sem se abalar. Até que a três voltas do fim Charlinho suspirou e desistiu. E na volta 49, previsivelmente, Lando passou Max e assumiu a sexta posição. Não houve resistência por parte do líder do campeonato.

Parecia que nada mais iria acontecer, mas na penúltima volta a corrida virou de cabeça para baixo. Porque Pérez apertou o ritmo, chegou em Leclerc, atacou o monegasco, passou, tomou o troco, e Sainz, que também tinha chegado no grupo, aproveitou e passou o mexicano. Checo tentou recuperar o posto, mas os dois se tocaram no meio da reta. Pérez ficou louco da vida. Com razão. Sainz ficou louco da vida. Com razão. Em automobilismo, quando um não quer, dois não batem. Mas quando os dois querem, os dois batem. Foi o caso. O safety-car virtual foi acionado.

Naquele momento Verstappen estava no box para colocar pneus macios e buscar o ponto extra da melhor volta. Não adiantou. Com todos lentos na pista, a corrida foi encerrada sob bandeira amarela. E a batida de Sainz e Pérez acabou premiando dois moleques: Colapinto e Bearman, que entraram nos pontos. Piastri, Leclerc e Russell foram para o pódio. O inglês da Mercedes herdou o terceiro lugar sem esperar. Norris, Verstappen, Alonso, Albon, Colapinto, Hamilton e Bearman completaram o grupo dos dez primeiros.

Final em Baku: Norris à frente de Verstappen

Semana que vem tem mais, o GP de Singapura. Lá, a Red Bull deve apanhar de novo. Foi nessa pista que, no ano passado, a equipe sofreu sua única derrota na temporada. Verstappen foi o quinto e Pérez, oitavo. A vitória ficou com a Ferrari de Sainz. O Mundial de Construtores, esse o time austríaco não recupera mais. Já está 20 pontos atrás da McLaren, 456 x 476, e para piorar ainda vê a Ferrari se aproximar, com 425. Se salvar o de Pilotos já estará de bom tamanho.

A esperança de Verstappen é que na última perna da temporada, a partir de Austin, sua equipe encontre uma forma de fazer seu carro andar de novo.