Blog do Flavio Gomes
Indústria automobilística

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SÃO PAULO (olha…) – Às vezes me faltam as palavras. Em outras, sobram-mas. Será o caso hoje. Recebo com regularidade press-releases de uma certa Lecar. Resumidamente, trata-se de empresa fundada por um sujeito que gosta de ser chamado de “Elon Musk brasileiro”. Pretendia fazer um carro elétrico nacional. Nosso Tesla verde-amarelo. Esse era o objetivo […]

Romis Carmo e o desenho do carro: harpia penetrante

SÃO PAULO (olha…) – Às vezes me faltam as palavras. Em outras, sobram-mas. Será o caso hoje.

Recebo com regularidade press-releases de uma certa Lecar. Resumidamente, trata-se de empresa fundada por um sujeito que gosta de ser chamado de “Elon Musk brasileiro”. Pretendia fazer um carro elétrico nacional. Nosso Tesla verde-amarelo. Esse era o objetivo declarado e assumido quando comecei a receber os e-mails destinados a jornalistas do setor — sou um deles, ao que parece. O cidadão, Flavio Figueiredo Assis, prometia uma fábrica em Caxias do Sul. Não havia terreno nem prédio. Mas o carro seria fabricado lá, sem dúvida nenhuma. E começaria a sê-lo em dezembro. Sim, dezembro, daqui a dois meses.

Mas aí algo não deu certo na Serra Gaúcha e o elemento mudou os planos. (Uso “elemento” sem nenhuma conotação policial, apenas o faço para não repetir palavras. Burilo muito meus textos.) A fábrica foi para o Espírito Santo. Ou deve ir, porque da mesma forma ainda não existe. O carro deixou de ser elétrico para ser híbrido. Agora vai.

O protótipo, uma coisa tosca que eu mesmo já tinha visto em fotos de releases que recebera, vejam só, em março, andou aparecendo em postagens curiosamente sincronizadas no Instagram há um mês, mais ou menos. “Flagrado o protótipo do carro elétrico nacional!”, diziam as legendas. Oh, que flagra!, espantei-me. Quase todos os perfis publicaram a mesma coisa no mesmo dia, fotos feitas numa garagem de algum prédio comercial em Barueri. Oh, que furo de reportagem!, espantei-me novamente. Alguns desses destemidos descobridores de segredos da indústria automobilística fizeram até vídeos celebrando o mistério desvendado. Oh, que esforço hercúleo pela informação!, admirei-me.

É assim que funcionam as coisas hoje.

O protótipo tosco: sem pinças de freio

Na mesma época do protótipo “flagrado”, essa coisa aí em cima cujos discos de freio não tinham pinças, como muitos perceberam, a empresa veio a público para dizer que o carro seria bem diferente. E fez circular o desenho do automóvel que, segundo o texto, será fabricado à razão de 120 mil unidades por ano a partir de 2026. A fábrica ainda não existe, reforço.

O tal Lecar Model 459 Híbrido, este é o nome do automóvel, pode ser “reservado” aqui, por módicos R$ 1.300,00 — cuidado, o site costuma travar o computador; aconteceu em duas máquinas minhas. Nos comentários dos vídeos e fotos do Instagram, uma legião de patriotas festeja o empreendedor e seu empreendimento. Colocam bandeirinhas do Brasil ao lado de suas manifestações. Imagino-os entoando o Hino Nacional batendo continência diante de um pneu. Afinal, é o “Elon Musk brasileiro”, alguém que deve ser exaltado. Praise be.

Aí recebo hoje um novo press-release descrevendo o desenho atualizado do Model 459. O design, segundo o texto, foi desenvolvido por Romis Carmo, “profissional com mais de 20 anos de experiência neste mercado”. Qual mercado?, perguntei-me. “Velhos amigos”, segue o texto distribuído à imprensa, “Carmo já conhecia o fundador da montadora, Flavio Figueiredo Assis, desde a época em que este tinha sua antiga empresa de cartão de crédito. Na ocasião, o designer foi o responsável por estruturar o projeto, branding e posicionamento da marca. Anos depois, com a criação da Lecar, também foi convidado a fazer parte desta história”, diz o release.

Portanto, o moço com 20 anos de experiência “neste mercado” trabalhou para uma empresa de cartão de crédito — na verdade, cartões de alimentação que fizeram a fortuna do “Elon Musk brasileiro”. O mercado, pelo que entendi, era esse. O texto segue tentando explicar como um designer de cartão de crédito foi o escolhido para projetar um automóvel. E informa que “foi preciso mergulhar fundo nas referências nacionais já construídas sobre o design automotivo brasileiro”. E acrescenta: “Grandes nomes como o Chevrolet Opala, projetado por brasileiros, e o Volkswagen SP2, um ícone dos esportivos, chegaram a marcar história, mas, há mais de duas décadas que não tínhamos um carro inteiramente desenhado e fabricado no país – vazio que o 459 Híbrido busca preencher”. Mantive a construção original, não me xinguem por vírgulas eventualmente mal distribuídas. Uma observação pertinente: o Opala não foi projetado por brasileiros. Deriva do Opel Rekord C alemão.

Mas aí vem o melhor de tudo. O que teria inspirado o desenho do Lecar 459?

Eu não seria capaz de imaginar nada parecido. Por isso, nas caixinhas abaixo, vos ofereço trechos integrais dessa incrível peça de divulgação. Os destaques em negrito são de minha escolha. E, de novo, mantive o texto original. Não me acusem de mau uso de formas verbais. Vamos lá:

O objetivo era claro: devolver o orgulho de ter um carro pensado para os brasileiros e por brasileiros. Diante disso, desde o princípio, Castro ressalta que seu propósito não era apenas criar um veículo funcional, mas algo que transmitisse a essência do nosso país em cada detalhe – e a maior inspiração para essa essência veio da Amazônia, o pulmão do mundo. Sua vasta biodiversidade inspirou o design do Lecar 459 Híbrido, o qual une beleza, design e a responsabilidade de preservar o meio ambiente.

Dentre suas características únicas, as curvas do modelo são suaves e contínuas, inspiradas nos rios sinuosos da Amazônia, garantindo fluidez em uma estética natural e prezando pela eficiência aerodinâmica. “Esse design evoca o fluxo das águas, tornando o carro não apenas um meio de transporte, mas uma extensão das formas da nossa paisagem”, ressalta.

Seus faróis também foram inspirados nesta fauna brasileira, refletindo a postura vigilante e agressiva de um animal que é a cara do nosso país: a onça-pintada, um dos predadores mais fortes da Amazônia. “Assim como a onça, o 459 Híbrido apresenta um olhar afiado e decidido. Já as lanternas traseiras remetem aos olhos atentos da harpia, a poderosa ave de rapina conhecida por sua visão penetrante. Esses detalhes conferem ao carro uma personalidade forte, que atrai olhares e impõe personalidade”, complementa.

As mesmas características foram transportadas à parte frontal do veículo, com um capô alongado e linhas fortes que sugerem prontidão para a ação, evocando a energia e a destreza desse predador. Isso, junto à agilidade e leveza da harpia, transformam as linhas aerodinâmicas do carro, de forma que pareça estar em constante movimento, mesmo quando parado, otimizando o desempenho híbrido com uma combinação de velocidade e eficiência.

Biodiversidade, pulmão do mundo, rios sinuosos, fluxo das águas, onça-pintada afiada e decidida, harpia de visão penetrante.

Puta que pariu.