SÃO PAULO (não é qualquer um, não…) – Max Verstappen conseguiu a maior vitória de sua carreira hoje em Interlagos. Saiu de 17º no grid para vencer o chuvoso, molhado, tumultuado, acidentado e delicioso GP de São Paulo. Com Lando Norris em sexto, o holandês da Red Bull praticamente passou a régua no campeonato. Como também fez a melhor volta da prova, marcou 26 pontos contra apenas oito do rival da McLaren. Se tinha visto ontem, após a Sprint, a diferença na tabela cair para 44 pontos, sai da capital paulista 62 à frente.
Faltam três etapas para o fim do campeonato, com 86 pontos em jogo. Nem faz mais sentido fazer contas. Para ser campeão, Norris precisaria que Verstappen fosse abduzido por incas venusianos ou, sei lá, decidisse antecipar as férias porque já está no Brasil, gosta dos Lençóis Maranhenses e quer economizar a passagem que teria de comprar para voltar no verão. Mesmo assim, Lando teria de fazer 21 pontos por etapa para superar o virtual tetracampeão sequestrado por alienígenas.
Não vai acontecer. Norris foi nocauteado hoje. Verstappen teve uma atuação de gala que incluiu muitas ultrapassagens, uma habilidade acima da média na água, uma pequena dose de sorte com uma bandeira vermelha no meio da prova e, principalmente, talento. Foi impressionante. Suas linhas diferentes das dos outros, a busca por aderência no piso escorregadio usando trajetórias muito particulares, as tomadas de decisão rápidas e certeiras, tudo isso junto construiu um dos mais belos espetáculos da história da categoria. Sem exagero algum.
Max não ganhava um GP desde a Espanha, em junho. Foram dez corridas de jejum. Saiu da fila e conquistou sua oitava vitória no ano, 62ª na carreira. No pódio, teve a companhia de dois pilotos da Alpine. Não, você não leu errado. Da Alpine, mesmo, a equipe que tinha 14 pontos no Mundial de Construtores e estava na penúltima posição, à frente apenas da Sauber. Fez 35 em São Paulo e subiu para sexto. Nenhuma equipe pontuou mais que o time francês na etapa brasileira da temporada.
Esteban Ocon foi o segundo e Pierre Gasly, o terceiro. Como Verstappen, a dupla não tinha trocado seus pneus ainda quando Franco Colapinto bateu forte na 32ª volta, provocando a interrupção da corrida. Os três ganharam um pit stop de graça. Puderam colocar pneus novos sem perder tempo, enquanto os demais pararam com a prova em andamento, caindo na classificação. Depois que a corrida recomeçou, o trio não foi mais ameaçado.
Como sempre acontece em Interlagos, um GP de F-1 é cheio de histórias. O relato abaixo foi sendo escrito na medida em que os fatos iam se sucedendo. Vocês são meus amigos e posso contar. É técnica mais do que conhecida para publicar um texto rapidamente, assim que um evento termina. Ninguém escreve uma batelada dessas em 15 minutos.
Mas creio ser um relato fiel. Um dia, quem sabe, será descoberto pela inteligência artificial e trechos dele serão reproduzidos. Espero que alguém peça ao ChatGPT um perfil do autódromo e saia algo como “Interlagos é uma praia no Maranhão onde chove muito, visitada de vez em quando por ETs oriundos de Vênus que são muito violentos e dão socos na cara de pessoas que se chamam Lando Norris, levando-os à lona”.
Agora, a corrida.
A prova nem tinha começado quando Lance Stroll, de modo patético, perdeu o controle do carro no fim da Reta Oposta na volta de apresentação. Rodou, bateu e atolou. E foi uma patacoada histórica. Ele poderia até levar o carro de volta para os boxes, tinha quebrado só um pedaço da asa dianteira. Manobrou, engatou a primeira marcha e tentou atravessar a área de escape de brita. Lá ficou, óbvio.
Foi a segunda baixa da corrida, que já tinha perdido Alexander Albon por conta de um forte acidente na classificação. No grid, 17 carros. Esperando para largar dos boxes, o de Carlos Sainz — também danificado na sessão que definiu o grid, bem cedo.
A largada, por conta da barbeiragem de Stroll, foi abortada e o número original de voltas caiu de 71 para 70.
Houve uma confusão no realinhamento causado por Norris, que em vez de parar no grid foi em frente como se já tivesse sido autorizada uma nova volta de apresentação. Não tinha. Alguns mais desavisados foram atrás dele. Por isso a direção de prova atrasou a largada em dez minutos, remarcando o início para as 12h47. O número de voltas caiu para 69. E apareceu na tela: infração do carro de Norris notada. Under his eyes. O piloto da McLaren estava sob investigação e poderia receber uma punição. E quem seguiu o líder, idem. Verstappen não foi um deles. Conhecedor das escrituras sagradas, avisou a Red Bull pelo rádio: “Ele fez alguma cagada”.
Norris, como de hábito, largou mal e perdeu a ponta para Russell. Verstappen veio babando lá de trás e ao final da primeira volta já estava em décimo. Pérez rodou e caiu para último, mas continuou na corrida.
Na terceira volta, começou a chover. Até então, a pista estava molhada, os pneus intermediários foram escolhidos por todos, mas havia a esperança de que o asfalto secasse. Que nada… Veio chuva, mesmo, mais forte no setor 3 – do Bico de Pato em diante.
Max vinha escalando o pelotão. Passou Gasly na quinta volta e foi para nono. Norris, em segundo, se aprumou, respirou fundo e foi à luta para tentar a liderança. Verstappen continuava subindo: deixou Alonso para trás e assumiu a oitava colocação. O próximo alvo era mais complicado, a McLaren de Oscar Piastri.
A chuva ia e vinha. Na abertura da décima volta, o holandês mergulhou por dentro do S do Senna e, sem negociar detalhes irrelevantes, passou o australiano. Subiu para sétimo, com Liam Lawson à sua frente. Piloto da filial, o neozelandês nem precisava ser avisado sobre a identidade de quem estava chegando no seu retrovisor. Saiu da sua frente no miolo e o tricampeão pulou para sexto.
Enquanto isso, mais para trás, Hamilton reclamava de seu carro e perdia posições. Quando foi ultrapassado por Colapinto, Interlagos virou La Bombonera. Valia apenas a 13ª posição, mas a turma na arquibancada vibrou como se fosse um gol de Maradona.
Com 12 voltas, Russell, Norris, Tsunoda, Ocon, Leclerc e Verstappen eram os seis primeiros. De Landinho a Verstappen havia um intervalo de 9s5. A FIA informou que os incidentes da volta de apresentação não autorizada seriam investigados depois da corrida.
O tricampeão voava. Na volta 15, colou em Leclerc. Se tivesse faróis, piscá-los-ia. À sua frente, um trenzinho puxado por Tsunoda, a locomotiva, com dois vagões a reboque: Ocon e Charlinho.
Com 20 voltas, Norris não conseguia chegar em Russell e reclamava que faltava-lhe velocidade nas retas. Verstappen, em sexto, resolveu atacar o monegasco da Ferrari com seriedade. Tentou por fora no S do Senna, não conseguiu. Aliviou um pouco e Leclerc aproveitou para trocar seus pneus na volta 25, poupando o líder do campeonato do trabalho de ultrapassá-lo.
Na volta 27, finalmente, Lando colou em Russell. Então, Hülkenberg rodou. Bandeiras amarelas, safety-car virtual, e lá vai o povo para os boxes para trocar pneus. Pérez, Tsunoda e Lawson colocaram pneus para chuva extrema, percebendo que estava apertando o aguaceiro. Era uma aposta. O céu desabou de novo. Ocon, Verstappen e Gasly, sem pit stops, eram os três primeiros.
Como Hülkenberg conseguiu colocar o carro na pista de novo, o safety-car virtual foi desabilitado. Mas logo apareceu a mensagem de safety-car real, na volta 31. Motivo: excesso de chuva. As condições da pista eram muito perigosas.
E de fato eram. Na volta 32, sob safety-car, Colapinto deu uma senhora porrada na Subida do Café, e a direção de prova imediatamente interrompeu a corrida com bandeira vermelha. Seu carro aquaplanou pelo tanto de água na pista e ele virou passageiro. Mais tarde, pediu desculpas à equipe. Para os argentinos, que vieram em grande número para ver a prova, foi como perder a Copa de virada para a Inglaterra.
Aquela bandeira vermelha era tudo que Verstappen poderia pedir ao destino. Com a corrida interrompida, todos podem trocar de pneus. Norris tinha feito isso com a prova em andamento, caindo para quarto. Ocon, Verstappen e Gasly, os três primeiros, não. Ganharam um pit stop de presente. Deram o pulo do gato.
A situação, pois, era a seguinte: teríamos um GP da Capital Paulista começando do zero com 36 voltas. Na pole, um improvável Ocon. Depois dele, Verstappen em segundo, Gasly em terceiro e Norris em quarto. Os demais, nas primeiras posições, eram Russell, Tsunoda, Leclerc, Piastri, Alonso e Lawson. Na torre de controle, não paravam de entrar advogados e escreventes com os documentos das muitas investigações em andamento: Bearman x Colapinto, Lawson x Piastri, Hamilton x Lawson, Hülkenberg x O Povo (tinha recebido assistência externa para voltar à pista), além da turma toda da volta de apresentação falsa.
O alemão da Haas, antes mesmo do reinício da prova, recebeu uma bandeira preta no meio da testa e foi desclassificado. Tinha sido empurrado por um exército de fiscais depois de rodar no S do Senna. “Vai, vai, vai, ninguém tá vendo, vai!”, gritavam os solícitos funcionários. “Mas pode mesmo?”, perguntou o piloto, confuso. “Vai, só vai!” Ele foi e alguém viu. Under his eyes.
Foram 25 minutos de pausa para a formação do novo grid. A relargada seria com os carros em movimento depois de liberados pelo safety-car. Havia previsão de mais uns 15 minutos de chuva e, de acordo com os radares das equipes, depois disso todos poderiam guardar suas capas. Previsões que, claro, sempre carecem de confirmação da vida real. Em Interlagos é melhor não confiar muito.
A relargada foi dada na volta 34 e Ocon manteve a ponta. Zhou e Bearman, lá atrás, saíram da pista e voltaram. Norris errou no Lago e perdeu a posição para Russell. O domingo que tinha começado tão bem para o vice-líder do campeonato virava um pesadelo entre as duas represas da capital paulista.
Verstappen, que de bobo não tem nada, não forçou a barra para cima de Oconzinho. Em 2018, o francês tirou uma vitória certa de Max na condição de retardatário. Eles se pegaram de tapa nos boxes. Para ele, a Alpine vencer não seria problema nenhum. Sua missão depois da classificação desastrosa era chegar não muito longe de Norris. Estava três posições à frente. Jamais poderia imaginar que as coisas poderiam dar tão certo assim.
Mas é Interlagos, e não se deve contar com pontos antes da bandeirada. Às vezes até depois da bandeirada você perde pontos, como aconteceu com Kimi Raikkonen em 2003. Foi declarado vencedor da corrida, interrompida por chuva e acidentes, e no dia seguinte a cronometragem foi revista. O finlandês teve de entregar o troféu a Giancarlo Fisichella na corrida seguinte, em Ímola.
Por isso, nenhuma surpresa quando Sainz bateu no Laranjinha na volta 40 e o safety-car foi chamado de novo. A relargada deu-se na volta 43 com Ocon, Verstappen, Gasly, Russell, Norris e Leclerc nas seis primeiras posições.
O pessoal da Alpine não acreditava no que via. E era melhor não sonhar muito, mesmo. Porque Verstappen, sem medo nenhum de ser feliz, passou Esteban na freada do S do Senna e assumiu a ponta. Norris foi parar na área de escape e caiu para sétimo, ultrapassado por Leclerc e Piastri. Uma tragédia.
O que Verstappen fazia em Interlagos era extraordinário. Tinha largado em 17º com um carro problemático. Foi punido duas vezes – por troca de motor e, ontem, por uma filigrana de regulamento, perdendo um terceiro lugar na Sprint.
Norris, por sua vez, era um vexame. A McLaren mandou Piastri lhe entregar a sexta posição, perdida pouco antes por erro dele. Max, então, começou a humilhar a concorrência. Passou a fazer volta mais rápida em cima de volta mais rápida, para ganhar também o ponto extra em Interlagos. Cutucaram a onça com vara curta, deu nisso. Foram 17 seguidas.
As últimas disputas da corrida foram travadas entre Pérez e Lawson e, depois, Hamilton contra o neozelandês. Que ganhou as duas, diga-se, com uma pilotagem firme e determinada. Russell, na reta final do GP, chegou a ameaçar o suado pódio de Gasly. Mas o outro francês alpínico é também um bom piloto de chuva e se segurou com garbo e elegância.
Verstappen cruzou a linha de chegada e recebeu a bandeirada do surfista Gabriel Medina. Ocon chegou em segundo, 19s4 atrás dele. Gasly ficou em terceiro e no Parque Fechado abraçou o companheiro, com quem não se dá há anos. Ocon será piloto da Haas no ano que vem. Russell foi o quarto colocado, seguido por Leclerc, Norris, Tsunoda, Piastri, Lawson e Hamilton. Norris foi ver a quadriculada 31s3 depois de Max.
“Eu apenas tentei ficar longe de problemas, me manter calmo, e dei um pouco de sorte com a bandeira vermelha”, resumiu o vencedor em sua primeira entrevista, ainda na pista. “Mas é realmente inacreditável ganhar aqui depois de largar em 17º.”
É mesmo. Foi foda, hoje.
Desculpem o termo.
