Blog do Flavio Gomes
F-1

LAS JECAS (1)

SÃO PAULO (atrasadinho) – Essa corrida de Las Vegas embaralha nosso relógio biológico. Mas teremos de conviver com isso bastante tempo. É a segunda edição. A do ano passado, que começou com o vexame dos bueiros, acabou sendo ótima. A deste fim de semana não teve bueiro voando, mas uma pista suja, empoeirada e sem […]

16 LECLERC Charles (mco), Scuderia Ferrari SF-24, action during the Formula 1 Heineken Silver Las Vegas Grand Prix 2024, 22th round of the 2024 Formula One World Championship from November 21 to 23, 2024 on the Las Vegas Strip Circuit, in Las Vegas, United States of America - Photo Xavi Bonilla / DPPI

Hamilton, o mais rápido: surpresa mercêdica

SÃO PAULO (atrasadinho) – Essa corrida de Las Vegas embaralha nosso relógio biológico. Mas teremos de conviver com isso bastante tempo. É a segunda edição. A do ano passado, que começou com o vexame dos bueiros, acabou sendo ótima. A deste fim de semana não teve bueiro voando, mas uma pista suja, empoeirada e sem nenhuma aderência. Para piorar, faz um frio desgraçado: 14°C foi a temperatura média durante a noite na terra da jogatina. O asfalto estava gelado. Mas é capaz de ser ótima, também. Porque, entre outros motivos, pode consagrar Max Verstappen como tetracampeão.

Antes que perguntem, o holandês, para conquistar o título, precisa sair de Nevada com pelo menos 60 pontos de vantagem para Lando Norris. Ele já tem 62. Depois dessa prova, serão 60 pontos em jogo nas duas etapas finais, no Catar (com Sprint) e em Abu Dhabi. As combinações de resultados que lhe dão o tetra são muitas. Fiquem com a continha básica dos 60 pontos de vantagem — em caso de empate, ele fica com a taça por ter mais vitórias. Seja como for, se não ganhar agora ganha na próxima. O show de Interlagos acabou com qualquer esperança do inglês da McLaren.

Já foram dois treinos livres. Um que começou às 23h30 de ontem e outro que terminou às 4h de hoje. Las Vegas está cinco horas atrás do horário de Brasília. A programação de hoje e amanhã é a mesma: 23h30 treino livre, 3h classificação. A corrida acontece na noite de sábado lá, 22h. Aqui, madrugada do domingo, 3h. Virem-se para assistir.

Os tempos do segundo treino: Red Bull no fundão

Olhando para essa tabela, é de se estranhar a Red Bull em 17º e 19º num fim de semana em que seu piloto pode ser campeão. Bem, há algumas explicações. Primeiro, a equipe se concentrou mais em usar os pneus médios pensando na corrida do que em ralar os macios de olho na classificação. Mas o problema, mesmo, foi outro. A Red Bull errou a asa traseira para Las Vegas. Levou um modelo maior do que deveria. Alguém fez alguma cagada, ou a bobagem só foi percebida na pista. O resultado é que não se deve imaginar um Verstappen protagonista como em São Paulo, onde a chuva ajudou e o holandês conseguiu a vitória mais bonita de sua carreira.

Como a pista vai mudar muito para a classificação, vamos evitar prognósticos definitivos. Ficou claro que a Mercedes começou muito bem, ficando com o melhor tempo nas duas sessões. Nas duas com Lewis Hamilton, que disse no início da semana que chegou a pensar em nem correr até o fim do ano, tamanho o desastre da Mercedes em Interlagos.. A McLaren está perto e a Ferrari, não. A Alpine pode surpreender de novo e brigar por pontos. Nada parecido, claro, com o pódio duplo de Esteban Ocon e Pierre Gasly no Brasil. A Red Bull vai tentar reduzir os danos, como se diz. Sem grandes ambições, sabendo que já não tem o melhor carro do grid faz tempo, jogará com o regulamento debaixo do braço.

Falando em regulamento, tem algumas novidades em Las Vegas e algumas notícias merecem caixinhas. Vamos logo a elas.

DIRETIVA – Ah, as famosas diretivas… A FIA mandou as equipes maneirarem nas placas de titânio que colocam sob o assoalho nos pontos de fixação da prancha que não pode ter um desgaste maior do que 1 mm ao fim da corrida. Alguns times estavam usando essas peças em espessura exagerada, para proteger as tais pranchas. São tábuas de 10 mm que vão se desgastando quando raspam no chão. Se terminarem a prova com menos de 9 mm de espessura nos pontos de medição, o piloto é desclassificado. Aconteceu com Hamilton e Charles Leclerc do GP dos EUA do ano passado. Como os carros, com efeito-solo, precisam andar colados no chão, a tendência é que as pranchas desgastem, mesmo. Com o uso dos suportes de titânio, elas ficam protegidas. Daí o excesso de faíscas que temos visto ultimamente. Quem dedurou os espertinhos, vejam só, foi a Red Bull. Aparentemente, McLaren, Ferrari e Mercedes eram as que estavam abusando do recurso.

NOVO DIRETOR – Suderj informa: sai o alemão Niels Wittich, entra o português Rui Marques. A troca do diretor de prova da F-1 pegou todo mundo de surpresa. Wittich vinha atuando desde 2022, após a demissão do desastroso Michael Masi — que por uma decisão estapafúrdia no GP de Abu Dhabi de 2021 acabou tirando o oitavo título de Hamilton. A FIA disse que Wittich resolveu sair. Ele negou. Alguma treta aconteceu com Mohammed Ben Sulayem, o mala sem alça que preside a entidade. Marques vinha atuando como diretor de provas da F-2 e da F-3. Não se sabe se fica só até o fim do ano ou até o fim dos tempos. Por enquanto, sua escalação está garantida para as três últimas etapas do Mundial.

MARESIA – Para a posteridade: Sergio Pérez e Franco Colapinto reportaram um fortíssimo cheiro de maconha nos boxes de Las Vegas. “Se fizerem antidoping, caímos todos”, brincou o argentino.

Cadillac pode, Andretti não

ERA PESSOAL – E deixei por último a notícia mais importante do dia. A F-1 parece disposta a aceitar, agora, uma 11ª equipe. E já para 2026. Sim, é a Andretti. Mas não pode se chamar Andretti. Cadillac Racing é um nome possível. Michael Andretti, há alguns meses, deixou o comando da Andretti Global. A empresa foi assumida pelo milionário Dan Towriss, um desses caras genericamente chamados de “investidores”. Era sócio de Michael. Papo vai, papo vem, o sujeito convenceu a Liberty e a FOM (empresa que detém os direitos comerciais da F-1 que pertence à Liberty e tem participação das equipes) de que a GM, dona da marca Cadillac, pode ser uma boa para a categoria. Breve retrospecto: a FIA aceitou a inscrição da Andretti em 2023, mas no começo deste ano a Liberty e as dez equipes que disputam o campeonato vetaram sua entrada alegando que ela “não seria competitiva” e “não agregaria valor”. Mas deram uma lambuja: aceitaram a Cadillac, com quem a Andretti havia firmado uma parceria, como fornecedora de motores a partir de 2028. A ideia agora é que o novo time seja oficial de fábrica. Sem Andretti no meio. Parece que a parada era meio pessoal contra Michael, mesmo — não me perguntem por quê. Uma equipe da General Motors, esse é o recado, será bem-vinda. É bom lembrar que a Andretti já construiu uma fábrica em Silverstone, contratou Pat Symonds (que de 2017 até maio deste ano estava trabalhando na Liberty como diretor-técnico da F-1) para chefiar o projeto e fez até um protótipo de chassi usando o túnel de vento da Toyota na Alemanha. Vai rolar, pelo jeito.