Blog do Flavio Gomes
F-1

LAS JECAS (2)

SÃO PAULO (já tá de dia!) – George Russell desbancou os protagonistas do Mundial e cravou a pole para o GP de Las Vegas na madrugada de hoje. O inglês da Mercedes fez sua terceira pole no ano (as outras foram no Canadá e na Inglaterra) e quarta na carreira. Uma surpresa para ele mesmo. […]

Russell na pole: Mercedes supreendente em Las Vegas

SÃO PAULO (já tá de dia!) – George Russell desbancou os protagonistas do Mundial e cravou a pole para o GP de Las Vegas na madrugada de hoje. O inglês da Mercedes fez sua terceira pole no ano (as outras foram no Canadá e na Inglaterra) e quarta na carreira. Uma surpresa para ele mesmo. “Não acreditava nisso e a gente precisa entender por que o carro está tão rápido aqui”, reconheceu. Não há explicações muito claras. Temperaturas baixas, longas retas, talvez. Mas houve outras corridas em pistas parecidas neste ano e nem por isso a Mercedes andou bem. São os mistérios do automobilismo.

Os pilotos que lutam pelo título não brilharam. Max Verstappen larga em quinto com a Red Bull e Lando Norris, da McLaren, ficou em sexto no grid. Russell terá ao seu lado na primeira fila o espanhol Carlos Sainz, da Ferrari. Atrás deles, na segunda fila, o surpreendente Pierre Gasly, da Alpine, e Charles Leclerc, da Ferrari. A prova, que começa às 3h do domingo pelo horário de Brasília, pode decidir o título a favor de Verstappen. O holandês conquista o tetra se, ao final da prova – a 22ª das 24 do campeonato – tiver pelo menos 60 pontos de frente sobre Norris. A diferença, neste momento, é de 62. Para ser campeão, Landinho precisa ir a algum bom terreiro e caprichar nos despachos. Sem garantia nenhuma dos orixás, diga-se. Eles não são bobos de prometer o que não podem cumprir.

A asa recortada de Verstappen: improviso

Las Vegas é um circuito de rua em formato de porco muito veloz. A pista, não o porco. Por isso a Red Bull teve de recortar sua asa traseira antes do terceiro treino livre, no fim da noite de ontem pelo nosso horário, para diminuir o arrasto aerodinâmico do RB20. A equipe levou o aerofólio errado para a corrida. Alguém foi buscar as asas no almoxarifado para colocar na bagagem e estranhou o novo funcionário, um sujeito alto de rosto comprido, cabeleira farta e sotaque alemão. No crachá, um nome esquisito: Pebolim Lobo. “Aqui estão os asas parra Los Vegas”, disse, entregando as peças ao responsável, um asólogo que trabalha na equipe desde os tempos em que ela se chamava Stewart. Ele achou o volume esquisito, mas antes que pudesse perguntar qualquer coisa, o empregado se adiantou: “Son os asas de circuita de rua, non precisa nem tirrar a plástico bolha”.

Já nos EUA, assim que o pacote foi aberto, alguém desconfiou de sabotagem. O asólogo foi demitido. As câmeras de segurança do almoxarifado de Milton Keynes foram desligadas, uma investigação constatou depois. Mas outras câmeras, de um pub nas redondezas, flagraram um gordinho careca e um sujeito espigado de rosto comprido e cabeleira farta brindando com vários pints e gargalhando a noite inteira. Tudo isso aconteceu na semana passada, pelo que pude apurar.

A Red Bull pegou uma serrinha, uma lixa, rabiscou com giz onde a asa deveria ser cortada, e as coisas funcionaram. O carro de Verstappen passou a andar bem. O de Sergio Pérez, não. Mas essa é outra história.

George na classificação: forte em todos os treinos

O Q1 começou com 12°C na capital da jogatina e da cafonice, uma noite gelada com asfalto idem. A Mercedes tinha sido a mais rápida em todos os treinos livres. Na quinta, Lewis Hamilton ficou em primeiro nas duas sessões. Horas antes da classificação, Russell cravou o melhor tempo no terceiro treino livre. Tais resultados autorizavam qualquer um a apostar nos carros prateados para a pole.

E os dois pilotos repetiram o desempenho na abertura da sessão que definiria o grid. Jorginho marcou 1min33s186, com Hamilton em segundo a 0s039 de distância. Verstappen foi o terceiro, seguido por Leclerc, Oscar Piastri, Sainz, Norris, Gasly, Franco Colapinto e Yuki Tsunoda. Foram eliminados o trágico Pérez, o irritado Fernando Alonso, o desafortunado Alexander Albon, o conformado Valtteri Bottas e o amargurado Lance Stroll. O mexicano ficou a 0s8 de seu companheiro de equipe. É um piloto, hoje, indefensável. Se a Red Bull insistir na sua manutenção, com alguém como Colapinto dando sopa, será a maior demonstração de bundamolice de sua história de duas décadas na categoria.

No Q2, Max seguiu tirando leite de pedra de seu carro problemático, enquanto a Mercedes, num improvável fim de semana competitivo – lembro que Hamilton teve ganas de abandonar o campeonato depois do desempenho pífio em Interlagos, ele mesmo contou –, continuava firme e forte na frente. O holandês chegou a se colocar no alto da tabela de tempos com 1min33s085, mas o time prateado voltou à ponta com Russell cravando 1min32s881 seguido por Lewis, 0s084 atrás. Verstappen ainda perdeu o terceiro lugar para a Ferrari de Leclerc, o terceiro. Quem não andava nada era a McLaren, claramente baqueada pela surra que levou de Max em Interlagos, perdendo qualquer possibilidade real de título com Norris. Claro, a perspectiva de ser campeã de Construtores era animadora, continua sendo, mas a verdade é que o sonho de Landinho foi ceifado de forma tão contundente que é impossível não mostrar algum abatimento.

Nos últimos instantes do Q2 a Mercedes melhorou ainda mais, com Hamilton pulando para primeiro (1min32s567). Sainz colocou a Ferrari em segundo e deixou Russell em terceiro. Foi quando Colapinto, a quem acabei de elogiar, deu uma senhora porrada ao tocar a roda esquerda na barreira de proteção da curva 15, arremessando-o ao muro da curva 16. Destruiu o carro completamente. Não se machucou, mas causou um enorme prejuízo para a Williams, equipe que vende o almoço para pagar a janta. Barbeiragem que pode custar sua participação na corrida de amanhã. E, sem exagero, comprometer seu futuro na categoria. Qual será o Colapinto que veremos daqui para a frente? O tempo dirá, diria o outro. Bem, quando o tempo disser, saberemos.

Gasly, Leclerc, Piastri, Verstappen, Tsunoda, Norris e Nico Hülkenberg passaram ao Q3. Esteban Ocon, Kevin Magnussen, Guanyu Zhou, Colapinto e Liam Lawson ficaram fora da fase decisiva da classificação. Que demorou bastante para ser retomada: os fiscais tiveram de limpar a pista, que ficou emporcalhada com restos mortais de carro e espuma, e ainda arrumar o guard-rail e a barreira de proteção.

Depois de tudo limpo e consertado, o Q3 começou com Verstappen sendo o primeiro a ir para a pista, porque precisava de pelo menos duas voltas para aquecer seus pneus antes de partir para a briga com o cronômetro.

O grid em Las Vegas: Mercedes e Ferrari favoritas

A primeira bateria de voltas rápidas colocou Russell em primeiro com 1min32s811. Hamilton errou em sua tentativa, abortou a volta e foi para os boxes. Sainz fez o segundo tempo e Verstappen, o terceiro. Norris e Piastri vinham atrás deles nas cinco primeiras posições.

Pausa para o cafezinho e nova jornada de voltas rápidas para fechar os trabalhos da sexta-feira. Cada um com suas ambições e problemas, sonhos e pesadelos, expectativa e realidade. A Ferrari acordou, mostrou suas garras e chegou a ficar em primeiro e segundo. Mas Russell confirmou o grande momento da Mercedes em Las Vegas e cravou uma linda pole-position com 1min32s312. Sainz ficou em segundo, 0s098 atrás. E o terceiro lugar… Bem, aplausos de pé para Gasly, terceiro no grid com a Alpine. Ficou a 0s352 da pole, mas na frente dos grandões de Red Bull, McLaren e Ferrari. Leclerc foi o quarto, com Verstappen em quinto (a 0s485 de Russell), Norris em sexto, Tsunoda em sétimo, Piastri em oitavo, Hülkenberg em nono e Hamilton em décimo, depois de cometer mais um erro na sua segunda tentativa de volta rápida.

Se o que vale na madrugada do domingo é a luta pelo título, e é, Max larga campeão, já que se chegar à frente de Norris garante o tetra. Mas nenhum dos dois deve brilhar amanhã. Verstappen é capaz de comemorar o tetra longe do pódio, a julgar pelo que estão andando Mercedes e Ferrari, principalmente.

Mas…

Mas a Red Bull andou treinando muito os longos stints, pensando na corrida. Que ninguém se espante se Max acabar fazendo uma de suas mágicas de novo. Seja como for, vale a pena o esforço para a assistir à prova no meio da madrugada. É aquela coisa de ver a História sendo escrita ao vivo e em cores.

Como diria Christian Fittipaldi naquele antigo comercial, eu recomendo.