
SÃO PAULO (História com H) – Max Verstappen é tetracampeão mundial de Fórmula 1. A conquista na madrugada deste domingo em Las Vegas coloca o holandês de 27 anos ao lado de Sebastian Vettel e Alain Prost na lista das grandes lendas da categoria. Acima deles estão Juan Manuel Fangio, cinco títulos, e Michael Schumacher e Lewis Hamilton, com sete.
Verstappen, se parar agora de correr, ficará para a história como um dos maiores pilotos de todos os tempos. Seu talento não pode ser discutido. Lando Norris, que em determinado momento desta temporada sonhou com a taça, resumiu bem o rival: “Quando ele tem o melhor carro, domina. Quando não tem, está sempre lá. Max não tem pontos fracos”.
O piloto da Red Bull terminou o GP de Las Vegas, antepenúltima etapa do Mundial, na quinta colocação. A corrida foi vencida por George Russell, da Mercedes, com Lewis Hamilton em segundo. Foi a 60ª dobradinha da equipe alemã, a primeira desde o GP do Brasil de 2022. Carlos Sainz, da Ferrari, completou o pódio. Seu companheiro Charles Leclerc foi o quarto colocado.
Verstappen precisava apenas chegar à frente de Norris para ser campeão. O inglês da McLaren foi o sexto, seguido por Oscar Piastri, Nico Hülkenberg, Yuki Tsunoda e Sergio Pérez na zona de pontuação. Max chegou a 404 pontos, contra 340 de Norris. Faltam duas etapas para o fim do campeonato, no Catar e em Abu Dhabi. Com 60 pontos em jogo, Lando pode atingir o máximo de 400. Se assim desejar, Verstappen pode pegar um avião e tirar férias nos Lençóis Maranhenses, seu cantinho preferido no mundo — ele é namorado de Kelly Piquet, filha de Nelson Piquet, que conquistou seu primeiro título na F-1 em 1981, coincidentemente, na mesma Las Vegas.
Max é o quinto piloto na história a ganhar quatro campeonatos consecutivos. Antes dele, Fangio (1954 a 1957), Schumacher (2000 a 2004, o recordista com cinco), Vettel (2010 a 2013) e Hamilton (2017 a 2020) realizaram a façanha. E não foi tão fácil quanto se imagina, ainda que tenha liquidado a fatura antes do encerramento da temporada. Verstappen, no ano passado, venceu 19 das 22 etapas do Mundial. Mel na chupeta, domínio jamais visto na história da categoria. Neste ano, ganhou sete das dez primeiras. Vislumbrava-se um campeonato parecido. Mas, aí, a maionese da Red Bull desandou. A McLaren começou a ganhar corridas. Ferrari e Mercedes, também. Depois da vitória em Barcelona, o holandês ficou dez provas em jejum, até vencer em Interlagos. Faz tempo que não tem o melhor carro do grid.
Mas, como diz Norris, “está sempre lá”.
Como de bobo não tem nada, quando percebeu que não tinha mais carro para ganhar Verstappen colocou o regulamento debaixo do braço, como se diz, e foi somando seus pontos. Não quis dar uma de herói. Evitou divididas temerárias. Deixou os adversários — no caso, Norris — se enforcarem sozinhos em seus erros e trapalhadas. Chegou a Las Vegas numa situação confortável para assegurar o título. E assim foi.
Claro que o belo e inesperado 1-2 da Mercedes merece aplausos. O time prateado venceu pela quarta vez no ano com estilo e autoridade. Russell dominou a prova. Hamilton largou em décimo e lembrou seus melhores momentos na F-1, com lindas ultrapassagens e uma pilotagem agressiva e determinada, para terminar em segundo.
Mas o título de Verstappen, ainda que conquistado com uma discreta quinta posição na corrida, é que será lembrado no futuro. A quarta corrida da história de Las Vegas definiu um campeão pela terceira vez. Em 1981, Piquet. Em 1982, Keke Rosberg. Na época, a prova acontecia num circuito ridículo montado no estacionamento do hotel Caesar’s Palace. No ano passado, a pista atual foi inaugurada como a grande cereja do bolo da temporada, organizada pela empresa que é dona da categoria, o Liberty Media Group.
Não foi uma corrida espetacular, como a do ano passado. Mas teve lá seus bons momentos. Nos três dias do evento, 306 mil pessoas ocuparam as arquibancadas que concorreram com os salões barulhentos e iluminados dos cassinos que fizeram de Las Vegas a meca da jogatina no planeta. Russell venceu pela terceira vez na carreira, segunda no ano — a outra nesta temporada foi na Áustria; a primeira na F-1, em Interlagos/2022.
A história do tetra está abaixo. Tetra que, segundo Verstappen, nunca tinha passado por sua cabeça. “Quando cheguei à F-1, achava que um dia talvez conseguisse um pódio, uma vitória. Jamais imaginei ser campeão. Muito menos quatro vezes.”
A noite foi fria em Las Vegas, mas menos que nos dois dias anteriores: 18°C, mesma temperatura do asfalto. Leclerc foi o melhor da largada, saltando de quarto para segundo assim que as luzes vermelhas se apagaram. Russell fez uma partida segura, mantendo a liderança sem ser assediado. E Verstappen também se segurou à frente de Norris, que era seu único objetivo na noite feérica da cidade-roleta.
O bom ritmo de corrida da Ferrari se mostrou logo de cara, com Leclerc partindo para cima de Russell na terceira volta, trazendo junto com ele Sainz. Na quarta, Verstappen passou Pierre Gasly, que largara em terceiro, e assumiu a quarta colocação.
Sem muita paciência, Leclerc passou a atacar Russell nas curvas de alta, de baixa, de média, nas retas e nas redes sociais. O inglês da Mercedes tomou um susto ao se deparar com a volúpia do monegasco. Na sexta volta, percebendo suas más intenções, apertou o pé e conseguiu abrir mais de 1s sobre o piloto da Ferrari. Na sétima, já tinha mais de 2s. Na oitava, quase 4s.
Charlinho, então, bobeou. Perdeu a posição para Sainz e, na sequência, para Verstappen. Caiu para quarto. Max, assim, se livrou de um trenzinho perigoso com Gasly, Norris, Hamilton, Tsunoda e Piastri. A Ferrari, então, chamou Leclerc para os boxes na volta 10. E a McLaren fez o mesmo com Norris. Ambos colocaram pneus duros. Os pit stops muito precoces chamaram a atenção.
Max passou Sainz no final da décima volta e foi para segundo. A Ferrari mandou o espanhol trocar pneus também. Com as primeiras paradas, Russell, Verstappen, Hamilton, Hülkenberg e Ocon eram os cinco primeiros. O holandês foi para os boxes na volta 12, chamado pela Red Bull. Caiu para sexto.
Russell se aproveitou para abrir uma longa distância para seus adversários e parou na volta 13. Voltou em segundo atrás do companheiro de equipe, que teria de fazer seu pit stop logo. A situação era bem confortável. Pérez apareceu em terceiro com seus pneus duros da largada – Bottas e Colapinto, este saindo dos boxes, foram os outros que optaram pelos pneus mais duros na largada; Alonso foi de macios e os demais, de médios.
A liderança foi de novo para Russell na volta 14, quando Hamilton parou. E na volta 16 o primeiro abandono do dia: o pobre Gasly, que tinha largado em terceiro, gritou pelo rádio que seu motor estava perdendo potência. “Aqui está mostrando que está tudo OK”, respondeu o engenheiro. E então uma fumaceira danada saiu do motor e o francês abandonou. “Aqui onde?”, perguntou Pierre. “Aqui nos dadinhos, acabei de ganhar 200 dólares.”
Na volta 20, com todos de pneus trocados, Russell, Verstappen, Sainz, Leclerc, Hamilton, Norris, Tsunoda, Piastri, Alexander Albon e Fernando Alonso eram os dez primeiros. A Mercedes surpreendia pelo ritmo de corrida fortíssimo, que nem a equipe esperava. George tinha 10s de vantagem para Max. Lewis ensaiava o bote para cima de Leclerc.
Na volta 28, Verstappen fez sua segunda parada, assim como Hamilton. Na mesma hora, Leclerc passava Sainz e, assim, assumia a segunda posição. O espanhol estava entrando nos boxes e a equipe mandou ficar na pista. Foi na volta seguinte, cuspindo marimbondos. “O que aconteceu?” “A gente não estava pronto”, alguém respondeu. “Acordem, cacete!” “Um momento, Carlos. Estou com um full-hand e não posso falar agora.”
Com 30 voltas, Russell, Leclerc, Norris, Verstappen, Hamilton, Sainz, Tsunoda, Hülkenberg, Pérez e Zhou eram os dez primeiros. Mas o pelotão estava embaralhado, com alguns tendo feito só uma parada e outros já com dois pit stops nas costas. As previsões de apenas uma troca foram para o beleléu.
Voando, Lewis passou Verstappen na volta 32, quando Leclerc parou. Assim, o heptacampeão assumiu a segunda colocação rascunhando uma dobradinha da Mercedes. Fazia uma grande prova, Hamilton. O líder parou na volta 33 e voltou tranquilo ainda na ponta. Sua vantagem para o companheiro, na hora do pit stop, era superior a 30s. Risco zero.
Lewis era o grande nome da prova. De décimo no grid, apertava o ritmo para tentar chegar em Russell, o líder. Fazia melhor volta em cima de melhor volta, numa de suas melhores atuações no ano. A diferença para o parceiro, que chegara a ser de mais de 10s após a parada do #63, caiu para pouco mais de 6s na volta 40. George, claro, administrava a vantagem. Tinha a vitória nas mãos. Desde o GP do Brasil de 2022 que a Mercedes não fazia um 1-2.
O título para Verstappen, terceiro colocado, estava garantido. Afinal, Norris era apenas o sexto, com uma atuação opaca e protocolar. Quem ameaçava o holandês era a Ferrari, com seus dois carros. Na volta 41, Sainz colou nele, com Leclerc junto. Claro que Max queria um trofeuzinho. Mas também não iria dar a vida pelo pódio. Na volta 42, Carlos passou. Leclerc demorou mais e só conseguiu superar o #1 na 47ª. O quinto lugar, para Max, continuava sendo mais do que suficiente para festejar o tetra.
Hamilton não fez questão de aparecer na foto com Russell recebendo a quadriculada, tirou o pé e terminou a prova bem atrás do companheiro. Sainz fechou o pódio, com Leclerc, Verstappen, Norris, Piastri, Hülkenberg, Tsunoda e Pérez nas dez primeiras posições.
Max, pelo rádio, agradeceu à equipe e falou pouco. Parecia emocionado. Enquanto isso, Russell berrava feito um maluco. Devagar na pista, Verstappen era saudado por todos os pilotos que passavam por ele. Numa deferência à conquista, levou o carro até o grid e estacionou diante de uma placa sinalizando a posição do campeão mundial.
Mesmo fora do pódio, Max não foi poupado da papagaiada da cerimônia de premiação concebida para a corrida de Las Vegas. Foi enfiado num Rolls Royce saia & blusa preto e dourado ao lado de seu engenheiro Gianpiero Lambiase. Em outro, Russell, Sainz e Hamilton se apertavam no banco traseiro. Um terceiro completava o cafonérrimo cortejo. Nos boxes, os integrantes da Red Bull vestiam camisetas com a inscrição “M4X”, o 4 no lugar do A.
Em frente ao hotel Bellagio, um monumento ao mau gosto arquitetônico, os quatro pilotos foram entrevistados enquanto ao fundo uma fonte dançava no ritmo das fontes que dançam – água pra lá, água pra cá. Voltaram para os Rolls Royces e foram para o pódio receber os troféus.
O Mundial de Construtores, com o resultado de Las Vegas, segue aberto com a McLaren em primeiro apenas 24 pontos à frente da Ferrari: 608 x 584. A Red Bull tem 555. Briga boa acontece entre Haas (50), Alpine (49) e Aproximação É Aqui Atrás (46).
A próxima etapa do campeonato acontece na semana que vem no Catar, com Sprint. Embora Verstappen já tenha encerrado a contenda entre os pilotos, as duas provas que fecham a temporada valem bastante para as equipes. Cada posição na tabela representa alguns milhões de dólares a mais na conta corrente à guisa de premiação.
E se tem uma coisa que essa turma da F-1 gosta é dinheiro.