A IMAGEM DA CORRIDA
SÃO PAULO (não fui eu que dei o nome) – Antes de mais nada, uma explicação. Os leitores mais atentos, dois ou três, já devem ter percebido que na série “Sobre ontem…”, que traz o rescaldão de cada GP, algo que também poderia ser chamado de “day after” (mas ninguém mais lembra daquele filme do fim do mundo, não se usa mais “day after”), uso nas tarjas as cores das bandeiras dos países onde acontecem as corridas.
Nossas tarjas hoje deveriam, pois, ser verde-amarelas, talvez com o uso discreto de branco e azul anil aqui e ali, nas cores das letras, por exemplo. Mas serão todas vermelhas. Por quê? Porque não falaremos do GP do Brasil, essa coisa antiga que não existe mais. Falaremos do GP de São Paulo, denominação escolhida em 16 de dezembro de 2020, quando a cidade renovou seu contrato com a Liberty até 2025 sem saber sequer se o mundo continuaria a existir no ano seguinte. Não teve corrida em 2020, todos nos lembramos. Foi o ano em que explodiu a pandemia de covid, chamada de “gripezinha” pelo energúmeno que, no ano anterior, garantiu que a Fórmula 1, a MotoGP, a Indy, a America’s Cup e os lançamentos de foguetes da Nasa teriam como sede, naquele ano mesmo, 2019, o autódromo de Deodoro, no Rio de Janeiro.
Em 2021, um ano depois da mudança de nome, a prova era realizada em Interlagos pela primeira vez como GP de São Paulo, porque o então governador da locomotiva da nação, João Doria, e o prefeito da capital paulista, Bruno Covas, decidiram dar uma resposta ao abestado que não queria que ninguém se vacinasse com medo de presidir um país habitado por jacarés. Doria, faça-se justiça aqui — e não vou entrar na discussão sobre suas intenções ou motivações –, lutou muito para que as vacinas fossem produzidas e distribuídas o mais rápido possível. Salvou vidas. O estulto de alcunha “mito” ajudou a matar muitos dos 700 mil brasileiros que sucumbiram à doença.
Assim, o GP do Brasil virou GP de São Paulo, e como São Paulo, a capital paulista, tem uma bandeira, são suas cores que usarei hoje. Para quem não conhece bem a aprazível capital paulista, da qual nos orgulhamos e fazemos questão de levar ao pé da letra seu lema “Non ducor, duco” (quando eu era pequeno via isso escrito aqui e ali e achava que tinha a ver com os drops Dulcora), seguem algumas fotos de suas belezas e, claro, da bandeira que tem o vermelho como cor dominante — que não é muito conhecida alhures.
Dito isso, porque gosto muito, sempre, de contextualizar as coisas, voltemos à imagem lá do alto, escolhida como a mais representativa da prova vencida por Max Verstappen. Optei por essa porque é a imagem da corrida, e não do evento. Se fosse do evento, teria dificuldade em selecionar alguma das dezenas de fotos de filas, brigas, descaso, revolta e bagunça do lado de fora do autódromo.
A organização neste ano foi um fiasco. E não teve nada a ver com a chuva. Teve a ver com o despreparo, a burrice, a ganância, a falta de respeito com o público. Nem sei direito quem é que tem de ser cobrado. Prefeitura, sem dúvida, pelo esquema de trânsito inexistente. Agentes da CET não fizeram nada nos três dias além de colocar uns cones para a faixa dos carros credenciados que foi invadida por vans e carros não credenciados. O resto — semáforos, controle de fluxo, rotas alternativas, repressão ao estacionamento proibido e flanelinhas –, picas. Picas.
Que se cobre também a organização do GP, porque a corrida tem dono. Merece nota zero. Estão se lambuzando no mel dos camarotes e áreas VIP, enchendo o miolo do circuito de gente que tem como objetivo de vida postar fotos no Instagram. Esquecem-se que têm de colocar roletas em número suficiente, funcionários para fazer revista, seguranças educados, pessoal para organizar filas do lado de fora e orientar o público que tem 200 setores para procurar, bilheteiros para entregar os ingressos físicos, além de numerar os lugares pelo menos nas tribunas com cadeiras, algo prometido quando se vende a entrada, mas que não passa de ficção. Aquela área da Heineken, uma boa ideia, virou um lamaçal e quem pagou 4 mil mangos para ver a corrida dali não tinha sequer onde se abrigar quando começou a chover. Mas dava para fazer uma selfie com o Senna tomando cerveja.
Isso para não falar no recapeamento horroroso que deixou pilotos com dores nas costas, das montanhas de escombros e materiais de construção por conta de obras em andamento e do desmonte esculhambado de estruturas de outros eventos. Sujeira, entulho, bagunça. Um horror.
Mas a corrida foi muito boa, e a já distante imagem lá do alto foi a que escolhi porque nada ilustra melhor este fim de temporada do que o momento em que foi feito o clique: Norris errando e Verstappen brilhando. Nesse momento, o holandês assumiu a liderança ao ultrapassar Esteban Ocon quando a prova foi reiniciada após a bandeira vermelha provocada pelo acidente de Colapinto. Lando não conseguiu frear no S do Senna e foi parar na área de escape.
Ali o campeonato acabou.
Acabou porque a diferença entre Verstappen e Norris subiu para 62 pontos faltando três etapas para o final do campeonato — uma delas com Sprint. Era de 44 no sábado, depois da vitória do inglês na minicorrida paulistana. Vitória dada de presente por seu companheiro Piastri, diga-se. E Verstappen, terceiro, foi punido e caiu para quarto. Voltou para o hotel, naquela noite, mordido. Muito mordido.
No domingo, Norris fez a pole. Max foi prejudicado na classificação porque demoraram a dar uma bandeira vermelha quando Stroll bateu. Dois pilotos superaram seu tempo e ele não pôde completar a volta rápida. Ficou em 12º e não passou ao Q3. Para piorar seu humor, perderia cinco posições no grid e largaria em 17º. Um cenário com vitória de Norris e Verstappen zerado não era nada improvável. Isso faria com que a diferença entre eles na tabela caísse para 19 pontos. Ou 18, se o piloto da McLaren fizesse a melhor volta da corrida. Se isso acontecesse, eu não relutaria em afirmar que o título ficaria com ele.
Verstappen ganhou, fez a melhor volta, Norris terminou em sexto mais de meio minuto atrás e Max pode ser tetracampeão na próxima etapa, em Las Vegas.
A FRASE DE INTERLAGOS
“Não é talento, é sorte.”
Lando Norris
Bem… Entendo a frustração. De cabeça quente, a gente fala umas bobagens. Eu diria que a sorte de Norris foi justamente a bandeira vermelha. Assim, Verstappen não precisou ultrapassá-lo, o que seria humilhante. Piastri disse que o único piloto que parecia capaz de fazer ultrapassagens domingo era o holandês. Foi mais honesto.
A McLaren minimizou tudo. Disse que chamou Norris na hora certa e muita gente trocou pneu sob safety-car virtual (verdade). Hoje seus dirigentes jogaram a toalha de seu piloto e deram entrevistas dizendo que a prioridade “sempre foi o título de Construtores”. Então tá bom.
HISTÓRICO – Foi apenas a quinta vez em 1.122 GPs disputados na F-1 que um piloto venceu largando de 17º ou mais atrás no grid. Esse dado mostra o caráter histórico da vitória de Verstappen em Interlagos. As outras foram com John Watson duas vezes de McLaren, em Detroit/1982 partindo de 17º e em Long Beach/1983, saindo de 22º; Kimi Raikkonen, também de McLaren, venceu em Suzuka/2005 largando em 17º; e Rubens Barrichello, de Ferrari, ganhou seu primeiro GP na Alemanha/2000 a partir da 18ª colocação no grid.
MERCADO – Franco Colapinto é mesmo a bola da vez, e a situação é a seguinte: a Red Bull está negociando com os patrocinadores do argentino (Mercado Livre, Globant e YPF) um valor de US$ 20 milhões, que é o que a Williams pede para liberá-lo de seu contrato. Não é missão das mais árduas, porque dinheiro há. O segundo passo será encontrar uma forma de dispensar Sergio Pérez sem que o cartel de Tijuana exploda a fábrica de energéticos na Áustria. Ele tem contrato até o fim de 2026, mas não dá mais. Sua temporada é um desastre. Não venceu nenhum GP, não sobe ao pódio há 16 corridas (desde o GP da China) e é o maior responsável pela perda do título de Construtores da Red Bull. Marcou apenas 28% dos pontos da equipe, contra 72% de Verstappen. Na McLaren, essa proporção é de 56% para Norris e 44% para Piastri. Na Ferrari, 55% de Leclerc e 44% de Sainz (Bearman também pontuou). Na Mercedes, Russell e Hamilton dividem os pontos meio a meio. A Red Bull é uma equipe de um piloto só.
RECORDE – De acordo com os organizadores, o GP de São Paulo teve um público acumulado nos três dias de evento de 291.717 pessoas. Muitos fizeram questão de ir para ver isso aí em cima: Lewis Hamilton com a McLaren MP4/5B do título de Ayrton Senna em 1990. Quem nunca tinha escutado um V10 aspirado deve ter gostado. E foi emocionante, sim, ver esse carro andando de novo. “Um carro de corrida de verdade”, como disse Hamilton, fã declarado do tricampeão mundial morto em 1994. Na TV, a Bandeirantes teve média de 6 pontos de audiência no Kantar/Ibope, com pico de 6,9. Foi seu melhor resultado no ano.
O NÚMERO DE SÃO PAULO
14
…voltas da corrida de Interlagos foram lideradas por Esteban Ocon, que tem mais voltas na liderança este ano do que Pérez — apenas uma, em Monza. O líder do ranking na temporada é Verstappen, com 503. Norris liderou 213.
Merece algumas palavras, também, o companheiro de Ocon. Pierre Gasly terminou em terceiro depois de largar em 15º. Fez um corridão. “E fiquei muito feliz pelo Esteban, também”, falou o piloto, que disputou seu 150º GP. “Nós temos nossa história. Uma história única e bonita. Começamos a correr de kart no mesmo lugar quando éramos crianças, e é incrível que os dois tenham chegado à F-1, e mais incrível ainda a gente dividir um pódio pela mesma equipe. É inacreditável.” “Foi como nos velhos tempos”, resumiu Ocon. Esses velhos tempos da primeira foto aí embaixo.
Hoje eles não se bicam muito. Ocon está saindo da Alpine, para correr na Haas. Quem sabe esse domingo de Interlagos não mude as coisas e eles voltem a ser crianças.
Amizade de criança é sagrada. Adultos não podem estragá-las. Nem se os adultos forem aquelas mesmas crianças. Todo adulto deve respeito à criança que já foi.
GOSTAMOS & NÃO GOSTAMOS
GOSTAMOS muito da Alpine, claro, melhor equipe do fim de semana: 35 pontos, somando Sprint e GP. Isso fez com que o time francês pulasse da penúltima para a sexta colocação no Mundial de Construtores. A equipe não colocava dois pilotos juntos no pódio desde o GP do Japão de 2006, quando Alonso venceu e Fisichella terminou em terceiro. Na época ainda era Renault, faça-se a ressalva. O nome Alpine foi adotado em 2021.
NÃO GOSTAMOS da Ferrari, que vinha de duas vitórias seguidas e terminou a corrida apenas em quinto com Leclerc. Sainz abandonou. No total, contando a Sprint, o time vermelho marcou apenas 20 pontos em Interlagos. A McLaren fez 27 e a Red Bull, 32. A vantagem dos papaias, líderes, para os italianos, em segundo, passou de 29 para 36 pontos. Mas a disputa ainda está aberta. Tem bastante água para rolar em três etapas.
