SÃO PAULO (já deu) – Com dois carros da McLaren na primeira fila, o Mundial/2024 termina amanhã em Abu Dhabi provavelmente consagrando a equipe papaia, de forma merecida, como campeã de Construtores. Lando Norris larga na pole (nona vez na carreira, oitava no ano), com Oscar Piastri em segundo. A Ferrari, 21 pontos atrás na classificação, tem Carlos Sainz em terceiro e Charles Leclerc em último, já que ficou em 14º na classificação, mas já sabia que perderia dez posições na grelha de partida por troca de baterias, guitarras, baixos e violoncelos.
A sessão que definiu o grid acabou sendo quase uma festinha de fim de ano. Oito das dez equipes levaram pilotos ao Q3. Só ficaram de fora Williams e Dá Pra Parcelar?, que tiveram uma noite ruim em Yas Marina. Até a Sauber, com Valtteri Bottas — nono colocado, melhor posição dele desde o sétimo em Las Vegas/2023, quando a equipe alugava sua barriga para a Alfa Romeo.
A decepção — e chateação, afinal essa história poderia terminar melhor — foi o 18º lugar de Lewis Hamilton, em sua despedida da Mercedes. O inglês, em sua volta rápida no Q1 (que já não era grande coisa), passou por cima de um daqueles bastões plásticos que delimitam o vértice de uma curva, e ficou com o troço enroscado debaixo do carro. O “cone” (entre aspas porque não é cone coisa nenhuma, é um pequeno poste) foi deslocado de seu lugar original por Kevin Magnussen, que o atropelou ao sair da pista para não atrapalhar Hamilton. O show de trapalhadas deu nisso. “Eu tinha carro para pódio”, lamentou Lewis. O F1/status/1865421960408080410" target="_blank" rel="noreferrer noopener">vídeo pode ser visto aqui.
Na noite quente de Aby Dhabi, temperaturas oscilando entre 27 e 30°C, o Q1 teve um final dramático justamente por conta da aflição de Hamilton. E teve momentos curiosos, também, como a presença momentânea de Bottas em primeiro. Que não foi algo casual; ele terminou o primeiro segmento em segundo, atrás apenas de Leclerc, que fez o tempo de 1min23s302. Sainz, Max Verstappen e Pierre Gasly foram os cinco primeiros.
A diferença de tempo entre Leclerc, o mais rápido, e Jack Doohan, o 20º, foi de apenas 0s803. Foi a classificação mais apertada da temporada. Alexander Albon, Guanyu Zhou, Hamilton, Franco Colapinto e Doohan foram os eliminados.
Verstappen começou o Q2 arrasando, com uma volta em 1min22s998. Nem ficou no carro esperando para o caso de precisar de outra tentativa. Naquele calor danado, saiu do cockpit e foi tomar um ar. Seu tempo acabaria sendo superado apenas por Sainz, 1min22s985. De novo o equilíbrio foi a marca. Do primeiro a 15º, 0s892. Os dez primeiros ficaram separados por apenas 0s394. Como tenho dito há meses, não dá para reclamar desse campeonato, não.
Yuki Tsunoda, Liam Lawson, Lance Stroll, Leclerc (que teve sua melhor volta cancelada por exceder os limites da pista; era a melhor de todas, 1min22s980) e Magnussen foram os eliminados. Nico Hülkenberg, em terceiro, foi a grande surpresa. Sergio Pérez passou em décimo. Naquela que pode ser sua última corrida pela Red Bull, pelo menos foi ao Q3. É dado como certo o anúncio, na semana que vem, de Lawson em seu lugar.
Só McLaren e Red Bull avançaram com seus dois pilotos. Ferrari, Haas, Alpine, Aston Martin, Mercedes e Sauber colocaram um representante cada entre os dez primeiros. A primeira volta de Verstappen, 1min22s945, teve uma salvada espetacular na última curva, com seu carro saindo de traseira e apontando para o meio da pista. Mas perdeu tempo.
No segundo lote de voltas rápidas, Hülkenberg chegou a ficar em primeiro com 1min22s886. Durou pouco. Acabou superado por Norris, Piastri e Sainz, que terminaram nas três primeiras posições. O alemão da Haas ficou em quarto, uma excepcional colocação. Pena que depois foi punido com três posições no grid porque ultrapassou dois carros no túnel da saída dos boxes. Verstappen não melhorou e terminou em quinto, a 0s350 da pole. Vai largar em quarto. Gasly, George Russell, Fernando Alonso, Bottas e Pérez fecharam o grupo. A diferença de Lando para o mexicano foi de 0s669.
Bottas festejou muito a nona colocação e contou que na véspera foi ele quem pagou a conta no jantar de fim de ano dos pilotos. Gastou, em suas palavras, 20 mil dinheiros locais — a moeda se chama dirham. O equivalente a pouco mais de 5 mil euros.
Após a última classificação do ano, ele foi o segundo piloto com maior domínio sobre seu companheiro de equipe: largou 21 vezes à frente de Zhou em 24 corridas, sem contar as Sprints. A maior goleada foi de Verstappen sobre Pérez: 23 x 1. Norris bateu Piastri por 20 x 4. Russell fez 19 x 5 sobre Hamilton, mesmo placar de Alonso x Stroll. Contando apenas os titulares, porque houve uma ou outra mudança de piloto ao longo da temporada, Hulk bateu Magnussen por 16 x 6, Leclerc derrotou Sainz por 14 x 9, Esteban Ocon superou Gasly por 13 x 10, Tsunoda marcou 12 x 6 em Ricciardo (e 6 x 0 em Lawson) e Albon esmagou Logan Sargeant (13 x 0) e Colapinto (7 x 2).
Falando em Ricciardo, sumido desde a demissão pela filial da Red Bull, o papo da hora é que ele será o substituto de Damon Hill como comentarista da Sky Sports na Inglaterra. Vai ser divertido.
A McLaren é muito favorita à vitória amanhã, mas não se deve descartar Verstappen. O holandês teve dois treinos livres ruins (no primeiro foi substituído por Isack Hadjar), mas deu a volta por cima na classificação — como fizera no Catar.
A corrida será marcada, claro, pelo último ato de Hamilton na Mercedes depois de 12 anos na casa. É o casamento mais longevo e vitorioso da história da F-1, que termina com certa melancolia pela dificuldade que o piloto teve nos últimos anos, desde 2022. Nunca se acertou com o carro da equipe alemã feito para o novo regulamento. De suas 84 vitórias com os prateados, apenas duas foram conquistadas nas últimas três temporadas — ambas neste ano, em Silverstone e Spa; passou em branco em 2022 e 2023.
É um fim de linha meio tristonho, claro. Mas, por outro lado, é a prova inconteste de que ciclos terminam. E, quando isso acontece, o melhor a fazer é mudar o rumo. No seu caso, vestindo o vermelho da Ferrari para a última fase de sua brilhante carreira.
