Blog do Flavio Gomes
F-1

DESPEDIDAS (3)

SÃO PAULO (foi bom) – A McLaren voltou a ser campeã mundial de Construtores depois de 26 anos. A vitória de Lando Norris e o décimo lugar de Oscar Piastri hoje em Abu Dhabi levaram a equipe papaia a 666 pontos, contra 652 da Ferrari – que colocou seus dois pilotos no pódio ao lado […]

Brown e Norris: McLaren campeã depois de 26 anos

SÃO PAULO (foi bom) – A McLaren voltou a ser campeã mundial de Construtores depois de 26 anos. A vitória de Lando Norris e o décimo lugar de Oscar Piastri hoje em Abu Dhabi levaram a equipe papaia a 666 pontos, contra 652 da Ferrari – que colocou seus dois pilotos no pódio ao lado do inglês, com Carlos Sainz em segundo e Charles Leclerc em terceiro. Em 1998, ano do último título do time de Woking, os pilotos eram Mika Hakkinen, o campeão, e David Coulthard. A taça dos pilotos, já desde o GP de Las Vegas, ficou com Max Verstappen pelo quarto ano consecutivo. O holandês da Red Bull terminou a corrida de Yas Marina na sexta posição.

Esse jejum da McLaren não seria tão longo se não fosse a tumultuada temporada de 2007, em que a equipe acabou tendo todos seus pontos anulados por conta de um escândalo de espionagem envolvendo alguns de seus funcionários. Eles tungaram projetos da Ferrari a eles passados por baixo dos panos pelo engenheiro inglês Nigel Stepney, que trabalhava em Maranello. A McLaren foi multada na época em US$ 100 milhões. O caso foi batizado de “Spygate” pela imprensa especializada. Stepney morreu aos 56 anos em 2014 num acidente rodoviário. As investigações na época mencionaram a suspeita de suicídio, o que nunca foi comprovado.

Naquele ano, Kimi Raikkonen, da Ferrari, foi o campeão com 110 pontos. Lewis Hamilton e Fernando Alonso, a dupla da McLaren, terminaram empatados com 109. A equipe inglesa marcou 218 pontos contra 204 dos italianos, que tinham Felipe Massa como companheiro de Kimi. A Ferrari foi declarada campeã de Construtores e Alonso, que fazia sua primeira temporada pela McLaren, rompeu seu contrato e voltou para a Renault. O espanhol tinha entrado em atrito com o então estreante Hamilton no meio do campeonato e foi personagem importante no “Spygate”. Ele que entregou os e-mails provando que os engenheiros da McLaren estavam recebendo informações contrabandeadas da Ferrari.

Mas isso é passado. Naqueles tempos, o dono do time era Ron Dennis, afastado das funções em 2016 por seus acionistas. Foi quando o norte-americano Zak Brown assumiu o comando da McLaren para, oito anos depois, subir ao pódio de Yas Marina para tomar banho de champanhe sem álcool e comemorar um título que vale muito dinheiro e confere enorme prestígio a quem o conquista.

Norris por milagre largou bem na corrida de hoje, ele que não costuma desfrutar de suas pole-positions com muita alegria. Verstappen também. Quarto no grid, jogou seu carro por dentro na primeira curva e tocou em Piastri. Os dois rodaram. Max deu uma pirueta e seguiu, passando em 11º na primeira volta. O australiano desabou para o fundo do pelotão. Na confusão, Leclerc ganhou 11 posições e subiu para oitavo. Kevin Magnussen, outro que largou como um foguete, levou sete de roldão: de 14º para sétimo. E ainda na primeira volta o infeliz Sergio Pérez rodou depois de um toque com Valtteri Bottas e abandonou. O fim mais melancólico de carreira de um piloto em todos os tempos. Isso, claro, se ele for mesmo despachado pela Red Bull. Ou se resolver parar por conta. Amanhã deve sair alguma decisão.

O safety-car virtual foi acionado e a prova, retomada na terceira volta com Norris, Sainz, Pierre Gasly, George Russell, Nico Hülkenberg, Alonso, Magnussen, Leclerc, Lance Stroll e Verstappen nas dez primeiras posições. Hamilton, o único que largou com pneus duros – os demais foram de médios –, pulou de 16º para 12º. Bottas e Verstappen foram punidos com 10s cada pelos incidentes da primeira volta. Piastri também levou um pênalti, mas por tocar em Franco Colapinto. Ui.

Na volta 10, algumas posições mudaram na turma da frente. Leclerc e Verstappen foram abrindo caminho e a ordem, depois dos cinco primeiros, passou a ser Leclerc, Alonso, Verstappen, Magnussen e Stroll. O monegasco e o holandês se divertiam. Na 12ª volta, Max passou Alonso e Leclerc deixou Hulk para trás. A asa móvel ajudava bem. Fernandinho deve ter-se lembrado de 2010, último ano sem o dispositivo. Ficou preso a corrida toda atrás do russo Vitaly Petrov e perdeu o título para Sebastian Vettel. Se o DRS existisse, talvez o fim daquela temporada pudesse ter sido diferente.

Na altura da volta 15 começaram os pit stops. Gasly, Hulk, Alonso, Stroll, Magnussen… Metade do grid colocou pneus duros. Os cinco primeiros, Norris, Sainz, Russell, Leclerc e Verstappen, seguiam na pista com os médios. Depois vinham Hamilton de duros e Liam Lawson de médios, também sem paradas.

Leclerc fez sua troca na volta 21 para tentar ganhar a posição de Russell na estratégia de box. Com pneus novos, veio jantando todo mundo e na volta 25 já estava em sexto. Quando George parasse, voltaria atrás da Ferrari #16. Azar deu Lawson. Teve de ir aos boxes duas vezes, porque a roda dianteira esquerda não ficou bem presa. Na 26ª volta, foi a vez de Sainz fazer seu pit stop. Na seguinte, Norris e Russell. O inglês manteve a liderança e o espanhol da Ferrari sustentou o segundo lugar. Mas o inglês da Mercedes voltou atrás de Charlinho, como planejara a equipe italiana. Na metade da corrida, volta 29, restavam dois pilotos sem paradas na pista: Verstappen, o terceiro, e Hamilton, o quarto.

Max parou na volta 30, pagou seu pênalti e voltou em 11º, puto da vida. Saindo dos boxes, pelo rádio, perguntou se poderiam trocar sua punição para 20s. “Idiotas”, resmungou. Na volta 31, Bottas deu uma barbeirada monumental e acertou o carro de Magnussen. Furou seu pneu e fez Kevin rodar. Mas não foi necessário chamar safety-car real, comissários virtuais ou o síndico. O finlandês da Sauber abandonou. Foi seu último ato na F-1. Magnussen, então, rumou para os boxes e colocou pneus macios para ele também deixar sua marca na despedida: a melhor volta da corrida. E conseguiu. Não valeu ponto extra, já que chegaria longe da zona de pontos. Mas entraria para as estatísticas. Foi a terceira de sua carreira.

Hamilton fez seu último pit stop pela Mercedes na volta 35. Voltou em sétimo, com Alonso colado nele e Verstappen grudado no espanhol, já em nono. Naquele trenzinho de três vagões, nada menos do que 13 títulos mundiais nos contemplavam. Com pneus médios novos, Lewis desgarrou rapidinho e foi embora. Max passou o veterano da Aston Martin no final da volta 36. Fernandinho, logo depois, faria seu segundo pit stop. Seus pneus já tinham ido para o saco, como se diz.

Hamilton fazia uma despedida digna. Na volta 41, ultrapassou Hülkenberg e foi para sexto. Tinha Gasly na mira e também passou o francês sem grande dificuldade na volta seguinte. O quinto lugar parecia ser o limite. O quarto, seu companheiro Russell, estava mais de 14s à frente. Informação que Lewis pediu pelo rádio. “Catorze segundos?”, espantou-se. Toto Wolff tentou animar o velho amigo: “Você consegue”.

Russell, então – isso só eu sei, porque não foi ao ar –, magoado, retrucou: “Vejam bem. Entendo que meu ex-colega Lewis merece todo respeito. É um heptacampeão mundial. Conquistou, em nome de nossa família tedesca, seis títulos e 84 vitórias. São números robustos, dos quais tem de se orgulhar. Mas não sei se os senhores notaram, hoje ele chegou ao autódromo vestido de vermelho da cabeça aos pés. Até a cueca era encarnada. Sei disso porque nos trocamos no mesmo vestiário. Não lhes pareceu um desaforo? Mesmo assim vocês ficam estimulando nosso ex-amigo a tentar me ultrapassar? Quem estará aqui no ano que vem? Hein? Alguém pode me responder? Creio que diante deste quadro não tenho recebido a devida atenção de todos aqui e quiçá na fábrica, uma vez que…” “George, por favor, dá para calar a boca?”, suspirou Toto, sem a menor paciência para aquele discurso.

Na volta 50, Norris, Sainz, Leclerc, Russell, Hamilton, Verstappen, Gasly, Hülkenberg, Alexander Albon e Alonso eram os dez primeiros, todos separados por intervalos confortáveis para quem olhava para trás e incômodos para quem precisava alcançar o amiguinho da frente. A exceção era Albon, que foi alcançado pelo espanhol da Aston Martin e, logo depois, deu adeus a um possível pontinho suado ao ser ultrapassado por Piastri. Já estávamos na volta 54 das 58 da corrida.

Mas tinha ainda Hamilton x Russell, valendo o quarto lugar. Lewis chegou e abriu a última volta menos de 1s atrás de seu companheiro de tantas jornadas. A chefia entrou no rádio e pediu que George fosse camarada e não fizesse nenhuma bobagem deselegante. “Nem precisa pedir, Toto.”

Assim, a última ultrapassagem de Hamilton pela sua Mercedes foi feita sobre outra Mercedes, nos metros finais da prova. Tem alguma poesia nisso.

Lewis ganhou um totem especial no meio da reta junto às placas dos três primeiros. Deu zerinhos, queimou borracha e estacionou seu carro preto e prateado diante das arquibancadas. Depois, agachou-se ao seu lado. Um longo filme deve ter passado por sua cabeça naqueles rápidos instantes – ainda que eu não seja afeito a tentar adivinhar pensamentos. Enquanto isso, Norris, sorridente, abraçava todo mundo para comemorar o título de Construtores da McLaren. Lewis, então, foi até Zak Brown para dar parabéns ao comandante papaia. A McLaren foi sua primeira casa na F-1, onde conquistou seu primeiro campeonato, em 2008. Não tem como esquecer.

Final em Yas Marina: Leclerc e Hamilton, os melhores

Norris, Sainz e Leclerc foram para o pódio. O monegasco fez um corridão, largando lá de deus-me-livre para ganhar um troféu merecidíssimo. Hamilton, Russell, Verstappen, Gasly, Hulk, Alonso e Piastri fecharam o top-10. Foi a quarta vitória da carreira de Norris, todas neste ano – havia vencido antes em Miami, na Holanda e em Singapura. Ele fechou o campeonato na segunda colocação com 374 pontos, 18 à frente de Leclerc, o terceiro.

A F-1 volta à pista terça-feira lá mesmo em Abu Dhabi com o já tradicional teste de pós-temporada, que é realizado para que novatos experimentem carros de F-1 pela primeira vez, pilotos que trocam de equipe conheçam seus novos colegas de trabalho e pneus do ano seguinte sejam experimentados por quem se interessar.

Um desses novatos será o paulista de Osasco Gabriel Bortoleto, que horas antes do GP conquistou o título da F-2 ao terminar a última etapa do campeonato na segunda colocação. Campeão da F-3 no ano passado, ele repete os passos de Piastri, que também venceu nas duas categorias na estreia. Bortoleto, agenciado por Alonso, será piloto da Sauber no ano que vem. E o Brasil terá um titular no grid da F-1 depois de sete anos.

O Mundial de 2025 começa no dia 16 de março na Austrália. Serão 24 etapas até o dia 7 dezembro, com encerramento, novamente, em Abu Dhabi. O GP do Brasil, também conhecido como GP da capital paulista, está marcado para 9 de novembro.