SÃO PAULO (falta uma) – Não basta ser campeão. Tem de ser campeão ganhando corrida. Talvez por isso hoje Max Verstappen tenha feito mais festa no Catar do que na semana passada em Las Vegas, quando conquistou seu quarto título mundial. É que lá foi com um quinto lugar. Em Lusail, ele venceu. É mais gostoso, na lógica cartesiana deste holandês que começou o fim de semana com um carro impossível de guiar e terminou alcançando sua nona vitória no ano, a 63ª na carreira. Isso um dia depois de ter sua pole-position tungada pelos comissários esportivos da penúltima etapa do campeonato.
O piloto da Red Bull dominou a prova com a categoria de sempre, passando por duas relargadas e contando com o infortúnio de seu rival mais direto, Lando Norris, que foi punido com um stop & go e viu ruírem suas chances de um possível ataque na parte final da corrida. O inglês da McLaren terminou em décimo e vê seu vice-campeonato ameaçado por Charles Leclerc, segundo colocado no Catar, agora apenas oito pontos atrás na classificação — 349 x 341. A temporada, mais longa da história da F-1 com 24 etapas, acaba no próximo fim de semana em Abu Dhabi.
Lá também será definido o título de Construtores, com 21 pontos separando a líder McLaren, que não é campeã desde 1998, da Ferrari — esta, na fila desde 2008. Os italianos marcaram 35 pontos no fim de semana, contra 32 do time papaia. A McLaren, além de fazer uma dobradinha na Sprint, ontem, foi ao pódio hoje com Oscar Piastri em terceiro.
O GP do Catar teve outros destaques, como os primeiros pontos da Sauber com Guanyu Zhou em oitavo, e a ótima quinta colocação de Pierre Gasly, quinto com a Alpine. Seu companheiro de equipe, Esteban Ocon, provavelmente se despediu do time com o abandono na primeira volta. Deverá ser substituído em Yas Marina pelo australiano Jack Doohan, que será titular no ano que vem. O francês já acertou sua saída para a Haas em 2025.
Foi uma corrida divertida, apesar de alguns momentos de certa acomodação. As paradas para trocas de pneus e as entradas do carro de segurança acabaram agitando uma prova quase amistosa, disputada num certo clima de fim de festa.
Todos os pilotos escolheram os pneus médios para a largada, exceção feita a Nico Hülkenberg, da Haas, na rabeira do grid. A noite em Lusail estava fria, 19°C, bem diferente do ano passado — quando as temperaturas passaram dos 30°C na época da prova, início de outubro. Na largada, Verstappen foi muito bem e pulou na frente do pole George Russell, que ainda perdeu posição para Norris.
O safety-car foi chamado no final da primeira volta, depois de uma lambança de Hülkenberg lá no fundão. Ele tocou em Ocon, que levou junto Franco Colapinto. A corrida dos dois últimos acabou ali mesmo. O argentino vive um péssimo momento, depois de começar bombando sua trajetória na F-1 pela Williams. São quatro corridas sem pontuar com um punhado de acidentes. Não teve culpa hoje, é verdade. Mas quem larga no fundão está sempre mais sujeito a esse tipo de coisa. E o que fica para o cartel é mais um abandono. Ademais, se seu carro não está andando nada é porque a equipe está tendo de recorrer a peças usadas por Alan Jones e Nigel Mansell para reconstruir a viatura destruída em batidas recentes em treinos e corridas.
A relargada aconteceu na volta 5, com Verstappen, Norris, Russell, Piastri, Leclerc, Carlos Sainz, Sergio Pérez, Lewis Hamilton, Yuki Tsunoda e Kevin Magnussen nas dez primeiras colocações. Lewis queimou a largada e pouco depois recebeu uma punição de 5s. Foi a primeira de uma série interminável de pênaltis aplicados ao longo das 57 voltas da corrida, por diversos motivos.
Max procurou abrir logo mais de 1s sobre Norris, para evitar ataques com a asa móvel. E conseguiu. A primeira parte da corrida foi morna. As ultrapassagens se davam mais para trás. Tsunoda começou a ser superado por todo mundo: Magnussen, Gasly, Fernando Alonso, Zhou e Valtteri Bottas passaram o japonês até a 20ª volta. Lá na frente, nada de muito empolgante acontecia. Lusail é um circuito rápido sem freadas fortes, o que acaba reduzindo as possibilidades de ultrapassagem. Por isso todos esperavam pelo momento de trocar pneus para ver o que seria possível fazer.
Antes de abrir a janela de pit stops Piastri resolveu atacar Russell pelo terceiro lugar. Mas George parou na volta 24 para não levar um risco na carenagem de seu carro na batalha direta. E a Mercedes se atrapalhou com um pneu, o traseiro direito, demorando demais para devolvê-lo à pista. Voltou em 11º. Ali suas chances de pódio foram para o vinagre. Na pista ainda, Hamilton perguntava pelo rádio por que estava tão lento. “O carro está quebrado?” “Não, Lewis, é ruim mesmo”, respondeu seu engenheiro.
Na volta 30, as câmeras flagraram um espelhinho retrovisor largado no asfalto no fim da reta dos boxes. Era do carro de Albon. “Um motoboy! Um motoboy chutou meu espelho!”, gritou o tailandês. “Não, Alex, voou sozinho”, informou o rádio. Uma bandeira amarela num painel eletrônico foi indicada ali. Max percebeu, mas a equipe já se antecipou: “Não precisa tirar o pé”.
Já estava chegando a hora de todo mundo parar, mas ninguém quis arriscar antes de a direção de prova decidir o que fazer com aquele espelho. Um safety-car virtual, por exemplo, poderia ser acionado. Na dúvida, ficaram todos na pista. E Verstappen socou ainda mais o pé, abrindo mais de 2s5 sobre Norris.
Então, na volta 34, Bottas passou em cima do tal espelhinho, espalhando cacos de vidro e farpas de fibra de carbono por todo lado. Resultado: Hamilton e Sainz passaram por cima e furaram seus pneus. Na volta 35, antes de qualquer safety-car, Piastri se antecipou, parou e fez sua troca. Só então a direção de prova colocou o carro de segurança na pista. E todo mundo foi para os boxes. Inclusive Russell, para um segundo pit stop. A Mercedes colocou um novo jogo de pneus duros em seu carro, o que deixou o inglês abespinhado: “Senhores, por que insistiram nestes pneus mais resistentes e rígidos? Por que não aqueles mais fofinhos, aderentes, mais apropriados para as condições climáticas desta região do planeta? Sim, compreendo o aquecimento global. Não sou um negacionista. Mas está frio, vejam vocês… São esses fenômenos extremos, estamos presenciando catástrofes no mundo inteiro. O que dizer das chuvas na Espanha, da seca na Amazônia, das enchentes no Big River do South?”, questionou, demonstrando grande conhecimento das tragédias naturais recentes. “Precisamos falar sobre isso, claro. Entendo perfeitamente. Mas, voltando aos pneus, CARALHO, POR QUE COLOCARAM ESSES PNEUS DE MERDA DE NOVO?” Não houve resposta.
Enquanto os fiscais tiravam os restos do espelhinho da reta, o pelotão teve de passar por dentro do pit-lane. Com todas as trocas feitas, a ordem para a relargada era Verstappen, Norris, Leclerc, Piastri, Pérez, Gasly, Russell, Sainz, Zhou e Alonso. Na volta 40, bandeiras verdes e pé no porão.
E a corrida, que estava demorando para pegar no breu, animou. Norris mergulhou para cima de Max, que não deu a menor moleza. Agarrou-se à liderança como se fosse uma garrafa de Evian gelada no deserto. Gasly tentou uma freada tardia e quase arrastou meia dúzia de carros com ele. Não bateu em ninguém. Piastri e Leclerc foram para o corpo a corpo e prometeram se pegar de porrada na hora do recreio. E, um pouco mais atrás, Pérez rodou e Hülkenberg foi parar na brita. Os dois se enterraram sozinhos. Uma vergonha. O mexicano, definitivamente, não merece mais a F-1. Safety-car de novo.
A relargada veio na volta 42. Dessa vez, Max foi mais esperto e atento, impedindo um ataque de Norris. Deu uma brecadinha antes de acelerar, ganhando espaço valioso em relação ao #4 da McLaren. Que, por sua vez, teve de se defender de Leclerc.
Nessa hora, surgiu nas telas uma mensagem indicando a punição de 10s com stop & go para Norris. Motivo: não reduziu a velocidade sob bandeira amarela. Tinha duas voltas para pagar o pênalti. Sua corrida acabou. Mais atrás o pau comia com três pilotos que arriscaram colocar pneus macios para as últimas voltas: Alexander Albon, Tsunoda e Liam Lawson.
Norris parou para pagar a multa na volta 46. Tentou argumentar com o cara da CET — “isso aqui está virando uma verdadeira indústria de multas!”, reclamou –, mas não teve jeito. Voltou em último, acabando com as chances da McLaren de fechar a conta no Mundial de Construtores hoje. Verstappen, Leclerc, Piastri, Russell, Gasly, Sainz, Alonso, Zhou, Albon e Magnussen eram os dez primeiros. Hamilton também foi punido, por excesso de velocidade nos boxes. “Foi a única vez que fui rápido na corrida…”, teria dito depois a alguns amigos. Não tenho confirmação sobre a veracidade da informação. O piloto, para não passar mais vexame, chamou a equipe pelo rádio e pediu para ir para o hotel. “Negativo”, respondeu Bono Vox, seu engenheiro. “Vai ficar aí até o fim, senão a gente desconta o dia.” Ele ficou na pista.
O agito proporcionado pelo espelhinho arrancado pelo motoboy imaginário de Albon durou dez voltas. Na 50ª, as posições se estabilizaram novamente com Verstappen bem à frente de Leclerc. Mais para trás, porém, a coisa seguia movimentada. Magnussen, por exemplo, partiu para cima de Albon e ganhou a nona posição. Nos boxes da Sauber, a aflição era visível: Zhou, em oitavo, estava perto de fazer os primeiros pontos da equipe no ano. Em 11º, Bottas mirava Albon e podia, também ele, se colocar entre os dez primeiros. Gasly, em quinto, era outro destaque da prova, marcando pontos importantíssimos para a Alpine.
Bottas efetivamente passou Albon, cujos pneus macios já tinham acabado, na volta 53. Não teria, no entanto, como segurar Norris. O inglês voltou à zona de pontos ao passar o finlandês. Tudo bem. O time verde e preto, cores inspiradas na camisa do América Mineiro, seguia na zona de pontuação com seu simpático piloto chinês. Que foi recompensado com o título de “Piloto do Dia” pelo amigo internauta. Merecido.
Ao final das 57 voltas, Verstappen, Leclerc e Piastri foram para o pódio. Russell, o quarto colocado, tomou um pênalti de 5s por infração sob o safety-car, mas não perdeu a posição. Gasly, Sainz, Alonso, Zhou, Magnussen e Norris foram os dez primeiros.
O piloto da Red Bull não vencia uma corrida no seco desde a Espanha, em junho. Subiu a 429 pontos, contra 152 de seu patético companheiro de equipe, Pérez. Que não terá como mudar mais de posição na tabela e vai terminar o ano em oitavo. É a maior diferença entre um campeão e seu companheiro de equipe desde 1994. Naquele ano, Michael Schumacher ganhou seu primeiro título pela Benetton, com seu parceiro em décimo.
Seu nome? Jos Verstappen, o pai de Max.
O mundo dá voltas. E essa história de DNA, sei não…
