SÃO PAULO (finalmente) – Agora é oficial, como dizíamos antigamente. A F-1 confirmou o ingresso da Cadillac no Mundial a partir do ano que vem. A equipe, que vem de uma costela da Andretti (já explico toda essa epopeia abaixo), traz junto a General Motors para a festa, que é tudo que a categoria desejava: uma grande montadora no pedaço, disposta a investir muita grana por bastante tempo. E é americana, o que agrada ainda mais os donos da F-1 e os dinheiristas de plantão, que sempre há.
Nas duas primeiras temporadas, a Cadillac vai correr com motor e câmbio feitos pela Ferrari. A unidade de potência própria está prevista para estrear em 2028. Uma nova empresa, chamada GM Performance Power Units, já foi criada e será instalada em Charlotte, na Carolina do Norte. Russ O’Blenes vai chefiar a produção dos motores. Ele tem um bom histórico com a Cadillac nas provas de protótipos do IMSA.
Agora, vamos explicar como isso tudo aconteceu.
Já havia alguns anos que Michael Andretti, ativo e bem sucedido na Indy, na Fórmula E e em outras categorias, brigava por uma vaga na F-1. Até que em janeiro de 2024, formalmente, as equipes que participam do campeonato rejeitaram sua inscrição — ainda que a FIA tivesse aprovado a criação do time, julgando que a Andretti reunia capacitação técnica e financeira para tal. Nem mesmo a associação do ex-piloto com a GM convenceu os dez sócios do clube do bolinha. Parecia que a coisa era pessoal. E nunca foi bem explicada.
Meses depois do “não” no meio da fuça, Michael passou (perdeu?) o controle de sua Andretti Global para o bilionário Dan Towriss, que era uma espécie de sócio do ex-piloto. Towriss tem como principal atividade o comando do Group 1001 Insurance, uma empresa de seguros com ativos calculados em US$ 66 bilhões. E também é dono da TWG Global, holding que atua em vários setores, entre eles o esportivo com participações em times de várias modalidades — fazem parte de seu portfólio o Los Angeles Dodgers (beisebol), o Chelsea (futebol) e o Los Angeles Lakers (basquete), por exemplo.
No final do ano passado, o empresário resolveu atacar o automobilismo de vez. Depois de comprar a Andretti, colocou sob seu chapéu a Wayne Taylor Racing (IMSA), a Spire Motorsport (Nascar, Truck Series), a Walkinshaw Andretti United (que disputa campeonatos na Austrália) e, agora, a Cadillac F-1. Tudo isso foi jogado no liquidificador para formar a TWG Motorsports.
No pacote da Andretti veio o que Michael já tinha começado a fazer para formar sua equipe de F-1: instalações físicas perto de Silverstone, centenas de funcionários e um projeto de carro que já vem sendo desenvolvido há algum tempo. Até Pat Symonds foi contratado. O chefe dessa maçaroca toda será Graeme Lowdon, britânico, 59 anos, que já esteve à frente de uma equipe de F-1: a Marussia.
E aí voltamos a 2016, último ano em que a categoria teve 11 equipes inscritas. Naquela temporada, a Marussia, que nascera como Virgin (2010-2011) e mudou de nome em 2012, já tinha trocado sua denominação de novo, agora para Manor. Foi sua primeira e última temporada com esse nome, marcando um pontinho solitário com Pascal Wehrlein, que terminou o GP da Áustria em décimo. Seu companheiro de equipe no início daquele ano era o indonésio Rio Haryanto, que desapareceu sem deixar rastros. Ele fez as 12 primeiras corridas do Mundial e acabou sendo trocado por… Esteban Ocon! Ele mesmo, que era piloto júnior da Mercedes, que por sua vez fornecia motores à Manor.
E é isso. Estão todos felizes, menos Michael Andretti, que foi escanteado sem dó, perdeu sua equipe, a chance de voltar à F-1 (foi piloto da McLaren em 1993) e a possibilidade de colocar o nome de sua família, de linda e vitoriosa história nas pistas, na elite da elite do automobilismo.
Pilotos para 2026? Vamos ficar especulando isso por meses a fio. Tanto que até as redes da F-1 já estão falando do ano que vem (acima). Um deve ser americano. Colton Herta aparece como candidato. Mas está cheio de gente sem emprego com vontade de correr. Sergio Pérez me parece nome certo para todas as listas. Valtteri Bottas voltou à Mercedes, mas se puder correr, prefere. Daniel Ricciardo? Sumiu do mapa, mas é um nome ainda fresco.
E ainda tem Felipe Drugovich. O brasileiro andou de Cadillac nas 24 Horas de Daytona, semanas atrás. Tem vínculos com a marca, mesmo que recentes. Mas é melhor do que nada. Para mim, é sua maior chance de, enfim, correr na F-1. Mas vai ter de trabalhar forte e rápido com seus agentes. Porque vai ter fila na porta dessa equipe a partir de segunda-feira.