Blog do Flavio Gomes
F-1

CAMELÓDROMO (3)

SÃO PAULO (longo dia) – Que fique claro desde já: Max Verstappen não tem raiva de Oscar Piastri. Pelo contrário. Admira o australiano que venceu hoje o GP da Arábia Saudita e assumiu a liderança do Mundial de F-1 pela primeira vez. Por sinal, fazia tempo que um piloto de “Down Under” não ponteava a […]

Max sobre Piastri: “Ele é sólido, calmo, gosto disso”

SÃO PAULO (longo dia) – Que fique claro desde já: Max Verstappen não tem raiva de Oscar Piastri. Pelo contrário. Admira o australiano que venceu hoje o GP da Arábia Saudita e assumiu a liderança do Mundial de F-1 pela primeira vez. Por sinal, fazia tempo que um piloto de “Down Under” não ponteava a tabela. Quase 15 anos. Foi no dia 10 do 10 de 10, GP do Japão. Mark Webber terminou o GP do Japão em segundo, atrás de seu companheiro de Red Bull Sebastian Vettel. Foi a 220 pontos, contra 206 de Seb e de Fernando Alonso, então na Ferrari. Faltavam três etapas para o fim do campeonato.

Vettel terminou campeão. Webber é, hoje, empresário de Piastri.

A prova de Jedá teve Oscar em primeiro, com Verstappen em segundo e Charles Leclerc, da Ferrari, em terceiro. Foi a quinta vitória da carreira do #81 da McLaren, terceira neste ano. Soma 99 pontos agora, dez a mais que Lando Norris, seu parceiro papaia que terminou a corrida em quarto. Max, com 87, vem na sequência.

Aí embaixo, os dez primeiros e as classificações do campeonato. Agora vamos contar como foi a corrida.

Corrida que começou com polêmica. Verstappen, na pole, não largou feito um foguete e permitiu que Piastri chegasse junto com ele na primeira curva. O australiano ocupou seu espaço, deu uma ligeira espalhada — que qualquer um daria — e isso fez com que o holandês fosse pela área de escape para não bater. E assumiu a ponta.

Piastri entrou no rádio e fez um longo discurso: “Fora da pista”. “O que aconteceu, Oscar?”, perguntou o engenheiro. “Sim”, respondeu o piloto. “Fora da pista? Max te passou por fora da pista?” “Sim.” “E você acha que temos de reportar à direção de prova?” “Sim.” “E você quer que a gente peça para ele devolver a posição?” “Sim.” “Mas você não acha que foi você que jogou ele pra fora da pista?” “Sim.”

A direção de prova notou e rapidamente anunciou uma punição de 5s para Verstappen, que por sua vez, expunha à equipe sua visão dos fatos: “Ele não tinha nenhuma intenção de fazer a curva e não me deixou espaço”.

Não vou me estender nessa discussão. Vi a imagem várias vezes. De fora, de dentro do carro de um, de dentro do carro de outro, de frente, de trás, do alto, de baixo. É tipo aquele pênalti que nem todo juiz marca. Mas que se marcar, tudo bem, também. Questão de interpretação. Eu não votaria pela punição. Mas se meus colegas comissários discordassem, não iria gastar saliva para defender meu ponto de vista. Sempre acho que algumas coisas, em largadas, devem ser relevadas. E compreendo que faz sentido o argumento de que regra é regra e tem de valer na primeira ou na última volta. Então tá bom, não vamos brigar por isso.

E é legal, vamos reconhecer, ver alguém peitando Verstappen. Piastri não tem medo de cara feia. Diferentemente de Norris, que tem pesadelos com camisetas cor-de-laranja, tamancos, moinhos de vento e cafés onde se fuma maconha, o australiano não está nem aí para a Casa de Orange.

Mas eu não puniria.

Pódio em Jedá: festa da McLaren nas arábias

Max liderou a primeira parte da corrida sem permitir que Piastri ficasse menos de 1s atrás dele, para não abrir a asa móvel. Mas Oscar não é bobo. Como sabia da punição ao adversário, também não se esforçou muito para atacá-lo. Na hora em que o holandês pagasse o pênalti no pit stop, ele ganharia a posição. E foi o que aconteceu.

Piastri parou na volta 19. Max, na 21ª. Teve gente que demorou mais para trocar pneus e chegou a liderar a prova, mas a briga pela vitória era entre os dois. Quando todo mudo parou e voltou, lá estavam Oscar e Max em primeiro e segundo.

Verstappen ficou pistola com a punição. Como chegou apenas 2s843 atrás do novo líder do Mundial, poderá sustentar até o fim da vida que, se não fossem aqueles 5s, ganharia a corrida. Não por outro motivo, foi monossilábico nas entrevistas depois da prova. “Não vou comentar nada porque se disser o que penso, posso ser punido de novo”, falou. Ao seu lado, Piastri concordou: “Sim”.

Leclerc, terceiro: primeiro pódio da Ferrari no ano

A corrida não foi das mais emocionantes das mil e uma noites, mas teve lá seus momentos. Entre as voltas 13 e 15, por exemplo, Norris tentou passar Lewis Hamilton. Foram duzentas tentativas no mesmo lugar: abria a asa, passava, mas aí vinha a reta dos boxes, também zona de DRS, muito mais extensa, e o neo-ferrarista passava de novo. Depois do trigésimo troco, o engenheiro de Landinho perdeu a paciência e sugeriu: “Ô idiota, não é melhor fazer a reta anterior colado na bunda dele e deixar pra passar na reta grandona?”

O idiota acatou e passou.

Norris largou com pneus duros e foi um dos últimos a parar, na volta 34 — a tática-padrão foi de apenas uma troca de pneus. Nico Hülkenberg, Lance Stroll e Isack Hadjar também largaram com esses compostos e esticaram seus primeiros stints. Os demais foram de médios. O #4 da McLaren tinha largado em décimo e nas últimas voltas acabou passando quem precisava para terminar em quarto, à frente da dupla da Mercedes. George Russell foi o quinto e Kimi Antonelli, o sexto. Ambos sofreram com os pneus duros na parte final da prova e perderam rendimento. Depois da bandeirada, Lando admitiu: “Preciso me ajudar e procurar ter sábados melhores”. Depois, acrescentou: “Mas se engana quem acha que a McLaren tem o melhor carro do grid”. “É um idiota”, comentou seu engenheiro, que escutava a entrevista. “Sim”, concordou Piastri.

O GP da Arábia Saudita, quinto do ano, teve uma entrada de safety-car logo no começo, depois de uma batida entre Pierre Gasly, da Alpine, e Yuki Tsunoda, da Red Bull. Nessa hora Gabriel Bortoleto, último no grid, parou nos boxes para colocar pneus duros. Foi com eles até o fim da corrida e não adiantou nada. Chegou em último, também.

O brasileiro não vem impressionando muito. No fim da prova, quase mandou Fernando Alonso no Mar Vermelho. Tinha sido ultrapassado por alguém e não viu que na fila para fazer o mesmo estava o veterano da Aston Martin, que por sinal é seu empresário-quase-patrão. “¡Idiota!”, gritou o espanhol pelo rádio. “Idiota é o Norris”, corrigiu o engenheiro. “Pode ser, mas avise esse menino que vá procurar outro empresário. Indica o Juan Figer. ¿Por onde anda o Juan Figer?”, prosseguiu Alonso. “Já morreu”, informou o técnico na mureta, farto daquela conversa de loucos.

O sétimo colocado foi Hamilton, que não anda muito bem das pernas. Nem da cabeça. “Preciso de um transplante de cérebro para me adaptar a todas essas coisas novas”, teria dito o inglês, segundo a imprensa italiana. “Não estou confortável no carro. Não estarei de novo em Miami. Precisamos trabalhar mais.” Chaleclé, em compensação, conseguiu o primeiro pódio da Ferrari no ano.

Seguiram na zona de pontos, em oitavo e nono, a dupla dinâmica da Williams: Carlos Sainz e Alexander Albon. O espanhol ajudou bastante, deixando o companheiro ficar a menos de 1s dele para abrir sua asa móvel e se defender de Hadjar, da Nossa Maquininha Tem Cashback. No fim, o franco-argelino acabou mesmo em décimo e anotou mais um pontinho.

E foi isso. Demorei para escrever hoje, acho justo explicar aos meus três ou quatro leitores, porque vi a corrida em Interlagos sem uma caneta ou uma folha de papel para ajudar, o que também explica a ausência de detalhes mais picantes neste resumão. É que nossa corrida deveria ter começado às 11h, e se tudo corresse normalmente eu veria o GP em casa, com todo conforto e equipamentos à disposição (caneta e folha de papel). Mas apareceu um buraco na pista e a programação atrasou. Largamos às 15h45.

Terminei em quarto, cheguei a andar em segundo e não sei se quero comentar minha corrida. Talvez coloque um vídeo no YouTube esta semana. De bom, fiz uma volta em 2min08s389 que me deixou contente. Estamos evoluindo. Mas três quartos lugares em três corridas, na boa… Se fosse o Helmut Marko, já tinha me mandado embora.

E com razão.