Blog do Flavio Gomes
F-1

TIRA UMA FINA (3)

SÃO PAULO (tudo errado) – Olha, serei sincero como sempre. Fiquei esperando este GP de Mônaco por causa da promessa de Galvão Bueno na transmissão da Band(eirantes) e com alguma curiosidade pelo desfecho da primeira prova nas ruas de Monte Carlo com obrigatoriedade de dois pit stops. Galvão não apareceu – exceto numa entrada gravada […]

Norris: McLaren volta a vencer em Mônaco após 17 anos

SÃO PAULO (tudo errado) – Olha, serei sincero como sempre. Fiquei esperando este GP de Mônaco por causa da promessa de Galvão Bueno na transmissão da Band(eirantes) e com alguma curiosidade pelo desfecho da primeira prova nas ruas de Monte Carlo com obrigatoriedade de dois pit stops.

Galvão não apareceu – exceto numa entrada gravada bem antes da largada na beira do porto, para não dizer nada, ao lado da repórter Mariana Becker. Estou tentando apurar com minhas fontes no submundo da TV para saber o que aconteceu. Ter Galvão em Mônaco e não usá-lo em uma hora de “esquenta” para a corrida me parece uma estupidez. Mas sapeando o “insta” do amigo percebi que ele estava lá, pelo jeito, não pela emissora. Mas, sim, a convite de um banco chamado Stark que levou clientes para o Principado, descolou um barco, colocou nele um DJ e fez do casal Bueno uma espécie de dupla de mestre de cerimônias para entreter os convidados comandando as carrapetas e dançando no convés.

(Aqui, parênteses que adoro. Ano passado esse banco me procurou para fazer a mesma coisa. Na verdade, uma agência a serviço do banco, que é desses “de investimentos”, não de varejo como o Itaú e o Bradesco. Me pediram dicas, valores, caminhos. Avisei que era bem caro – não meu cachê, mas um barco em Mônaco. Coloquei-os em contato com uma amiga na Itália que organiza essas coisas, trabalha para várias equipes fazendo a logística em muitos países, dei um preço para meu trabalho, incluí uma segunda passagem na conta para levar a Laêne (de Econômica para ambos), expliquei que era difícil arrumar hotel para todo mundo, dei opções em outras cidades, enfim, gastei meu tempo e conhecimento para situar o pessoal de modo que eles entendessem o que é um GP de Mônaco. Depois de receber todas as informações, não me responderam nada, deixaram minha amiga no vácuo mesmo tendo recebido dela vários orçamentos com iate incluído e tudo, e quando cobrei uma posição, porque precisava me organizar e pedir credencial para a corrida, há prazos que devem ser respeitados, foram ligeiramente rudes e disseram que o banco achou os valores “um pouco acima”, citando a segunda passagem para a Laêne. E a proposta foi recusada. Claro que Galvão & Desirée devem ter ficado ainda mais “acima”, mas reconheço que são uma atração mais atraente que Gomes & Laêne. Só gostaria, da próxima vez, que fossem menos rudes. Por isso não tenho conta nesses bancos esquisitos.)

Já os dois pit stops obrigatórios apenas desaceleraram a prova, disputada em ritmo lento e quase desinteressado. Os dez primeiros no grid só não chegaram exatamente nas mesmas posições porque Fernando Alonso, que era o sexto na largada, quebrou. E Lewis Hamilton, que era sétimo, ganhou a posição de Iscak Hadjar porque o francês da Aproxima ou Insere? fez suas paradas logo no início apostando em alguma intercorrência alheia, mas nada aconteceu. O único fora do top-10 na largada, Carlos Sainz, entrou nos pontos graças ao abandono do espanhol da Aston Martin.

Resumindo, não deu certo.

Ah, ganhou Lando Norris, o pole-position. Vejam vocês. Já estou no sexto parágrafo deste modesto relato, falei de Galvão, TV, barcos e bancos, e não tinha mencionado o vencedor. Isso lá é jornalismo?

Lando Norris da McLaren, está dito. Com Charles Leclerc, da Ferrari, em segundo. E Oscar Piastri, o outro da McLaren, em terceiro. Foi a sexta vitória da carreira do inglês, segunda no ano, primeira da equipe em Mônaco desde 2008. Segundo pódio da Ferrari na temporada. Na classificação, Lando se aproximou bem do parceiro australiano: Oscar lidera o campeonato com 161 pontos, contra 158 do vencedor da corrida. O terceiro é Max Verstappen, 136. Ele foi o quarto colocado na prova.

Pronto, respondidas as perguntas clássicas que qualquer reportagem tem de responder logo de cara: o quê (GP de F-1), quem (Norris), quando (hoje), onde (Mônaco), por quê (Galvão foi convidado do banco e as duas paradas não funcionaram).

Falta o “como”. Então, foi assim.

Largada: Norris frita os pneus e mantém a ponta

A largada foi limpa, com Norris dando uma fritada de pneus na freada da Sainte-Dévote e mantendo a ponta. Só no meio da volta foi acontecer a primeira treta do dia: Gabriel Bortoleto, que tinha feito uma linda ultrapassagem sobre Kimi Antonelli na Loews, a curva mais lenta do mundo, acabou levando o troco na entrada do Túnel. Sem espaço, bateu de leve nos pneus e o safety-car virtual foi acionado. Yuki Tsunoda, que largou de pneus macios, já foi para os boxes. O brasileiro conseguiu dar a ré e voltar. Pierre Gasly e Oliver Bearman também queimaram o primeiro pit stop.

Dos 20 no grid, 11 tinham largado de pneus médios. Oito, com duros. E só um, Tsunoda, de macios. Podia colocar uma lista completa aqui, mas ela é irrelevante e só travaria o bom andamento da leitura deste texto. A escolha dos pneus não teve nenhuma importância no andamento e no resultado final da prova. Qualquer composto, exceto os macios, duraria as 78 voltas.

A relargada aconteceu na quinta volta, depois que ajeitaram a barreira de pneus. Todo mundo meio lento, esperando para ver o que ia acontecer. Aí, na volta 9, Gasly bateu na traseira de Tsunoda na saída do Túnel e levou o carro todo estropiado para os boxes. Deixou um pedaço de asa pelo meio do caminho. A direção de prova hesitou, não acionou safety-car nenhum e fechou a entrada do pit-lane porque o francês nem conseguiu chegar à garagem da Alpine. Alguém entrou correndo na pista e limpou a área. Bandeira verde e pau na máquina.

Na volta 12, as 11 primeiras posições eram exatamente as mesmas da largada. E tirando Tsunoda, que já tinha parado, e Bortoleto, que havia batido, os demais também estavam nos mesmos lugares, sem ultrapassagens. Era uma corrida esquisita, de espera: todos em ritmo muito lento.

Hadjar, na volta 15, foi o primeiro da turma da frente a parar. Colocou pneus macios. Era quinto, saiu em oitavo. Perdeu só três posições. E como conseguiu isso? Porque a Débito ou Crédito fez seu companheiro Liam Lawson segurar todo mundo, para voltar à frente dele com um pit stop pago. Depois parou Alonso: duros. Na sequência, Esteban Ocon: médios. Uma zona desgraçada, uma salada de pneus diferentes, mas inútil.

Pelo rádio, os pilotos perguntavam aos seus engenheiros o que fazer. O líder Norris, que chegou a virar tempos ridículos na casa de 1min19s, começou a fazer suas voltas em 1min14s. Hamilton era um desses, cheio de dúvidas. Na volta 19, a Ferrari trocou seus pneus. O líder Norris parou na volta seguinte. E na 21, Hadjar: pneus duros, queimando sua segunda parada obrigatória. Esse não precisava fazer mais nenhum pit stop. Parecia interessante, a estratégia da Nossa Maquininha Tem Cashback. Não perdeu posição nenhuma, o francês, voltando em oitavo de novo.

A história dos dois pit stops lançava interrogações no ar, mas não necessariamente emoções. A prova seguia sendo um desfile de carros de F-1 em ritmo de cágado, tão devagar que o risco de um safety-car era drasticamente reduzido. Quem iria bater andando a 50 por hora?

Nas duas primeiras posições, na volta 22, Leclerc e Verstappen, sem paradas. Atrás deles, Norris, Piastri e os demais até o oitavo lugar, com um pit stop cumprido. Charleclé parou na volta 23. Na pista, Max, o líder, ainda não tinha trocado pneus. Além dele, Lawson, Alexander Albon, Sainz, George Russell e Antonelli, do nono ao 13º, também estavam com os mesmos pneus da largada. Era um segundo bloco da corrida, liderado pelo neozelandês que tinha segurado todo mundo para ajudar Hadjar.

Max parou, finalmente, na volta 29. Norris retomou a ponta, com Leclerc e Piastri atrás dele. Naquele momento, Hadjar, Bearman, Bortoleto e Franco Colapinto já tinham feito os dois pit stops obrigatórios. Lawson, Albon, Sainz, Russell e Antonelli seguiam sem trocas. Os demais, com uma parada.

Na volta 33, Verstappen reclamou que suas trocas de marchas estavam tão lentas quanto no GP de Mônaco de 1972. Sei lá por que escolheu 1972, mas foi engraçado.

O fato é que era quase uma “não-corrida”. Ninguém corria de verdade e ninguém corria contra ninguém. Carros de F-1 desfilavam pelas ruas chiquérrimas de Monte Carlo morrendo de medo de errar e esperando pelos erros dos outros.

Na volta 38, Alonso abandonou. Estava em sexto. Seu carro parou saindo fumaça do motor. Como estacionou numa pequena área de escape, vaga para idosos, não foi necessária nenhuma intervenção da direção de prova. Muito civilizado, Fernandinho. Com 40 voltas, Sainz, Russell e Antonelli ainda tinham de pagar duas paradas. Estavam em décimo, 11º e 12º. Os demais seguiam em procissão esperando por alguma novidade. Que não vinha.

A esperança era que algum piloto tivesse um surto psicótico e saísse acelerando, passando os coleguinhas lentos e batendo em todo mundo. Mas nem isso era possível, porque em Mônaco não há sequer espaço físico para surtados. O tédio era visível. Torcedores bocejavam nas arquibancadas. Outros observavam as belas paisagens: mar, montanha, barcos, mulheres de biquíni. Na pista, nada acontecia.

A Williams colocou sua estratégia em prática parando Albon pela segunda vez. Quando ele voltou à pista, estava à frente de seu companheiro Sainz, que ainda não tinha parado. O tailandês saiu da frente, deixou o espanhol ir embora e começou a segurar todo mundo, fazendo voltas em – novamente – ridículos 1min19s. Objetivo? Dar um pit stop de graça para o parceiro.

Estava uma chatice. Norris, Leclerc, Piastri, Verstappen, Hamilton, Hadjar, Ocon, Lawson, Sainz e Albon eram os dez primeiros na volta 48, a 30 do final. Como nada acontecia, Piastri foi para os boxes na volta 49 e fez sua segunda parada obrigatória. Voltou em quarto. A Red Bull mandou Max acelerar. Leclerc parou na 50. Voltou em terceiro. Norris, na 51. Voltou em segundo. Todo mundo desistindo de esperar por um safety-car. Verstappen assumiu a ponta.

De saco cheio, Russell passou Albon cortando a chicane da saída do Túnel para se livrar do trenzinho puxado pelo piloto da Williams. Assumiu o risco de receber uma punição de 5s. A equipe até pediu para ele devolver a posição. “Eu fico com o pênalti!”, decidiu o piloto, irritado. E a direção de prova foi rápida: drive-through, uma punição mais pesada, que leva o cara aos boxes e ele não pode trocar pneus. George esperava menos. Ao ser avisado, encerrou o assunto: “Prefiro não falar mais nada”. Toto Wolff, aliviado, comentou com seu engenheiro: “Vou torcer para mais dessas”. Não devia. pela primeira vez no ano, a Mercedes terminaria um GP sem pontos.

Russell: irritação com lerdeza à frente

Com 60 voltas, Verstappen liderava com Norris em segundo e, na sequência, Leclerc, Piastri, Hamilton, Hadjar, Ocon, Lawson, Sainz e Russell. Max torcia para um meteorito cair sobre o Principado e causar uma bandeira vermelha, porque ainda tinha uma parada para fazer. A Williams era a grande vilã da prova, por ter orientado seus pilotos a andarem devagar para franquear um pit stop aos seus companheiros. Sainz estava na frente de Albon naquele momento, mas o time avisou: troquem as posições daqui a pouco.

Russell, sem trocas, foi chamado para os boxes na volta 64. A corrida se arrastava. Na volta 67, a dupla da Williams fez a inversão de posições: Albon foi para nono, Sainz ficou em décimo. Oh, que bela merda.

A dez voltas do final, só os cinco primeiros estavam na mesma volta. Desculpem a repetição, volta & volta, mas não escrevo mais “giro” como sinônimo de volta faz tempo. Às vezes repetições são necessárias, mesmo comprometendo a estética de um texto — como pneu & pneu, em vez de “compostos”. Também tem ocorrido com frequência. Ah, os cinco eram Verstappen, Norris, Leclerc, Piastri e Hamilton. O sexto, Hadjar, estava um giro atrás, já tendo feito suas duas trocas de compostos.

Max, na liderança, passeava com tempos na casa de 1min16s. Norris já estava colado nele, com Leclerc idem e Piastri ibidem. Não havia o que fazer. Apenas aguardar pela segunda parada do holandês para voltar à ponta. Na volta 72, o último dos moicanos foi para os boxes: Antonelli, que não tinha parado ainda. Estava em 12º. Não faria a menor diferença inclusive se não parasse, fosse desclassificado e crucificado.

No futuro, quando o resultado dessa corrida for publicado por algum texto feito por inteligência artificial, alguém haverá de achar que deu muito certo a regra das duas paradas. Afinal, os três primeiros teriam cruzado a linha de chegada muito próximos. Oh, que disputa! Não seja burra, IA. Foi uma porcaria, totalmente artificial. Como você.

Verstappen foi chamado para os boxes na última volta. Esperou por algum milagre até o fim, que não aconteceu. Colocou pneus macios, voltou em quarto e fim de papo. Norris venceu, seguido por Leclerc (a 3s131), Piastri (a 3s658) e Verstappen nas quatro primeiras colocações. Hamilton, Hadjar, Ocon, Lawson, Albon e Sainz fecharam a zona de pontos. (Detalhe que nem todo mundo percebeu, porque nem todo mundo fica ligado na cronometragem: os computadores, que devem ter dormido de tanto tédio, embaralharam as posições finais e saíram do ar até os tempos serem corrigidos.)

Brown (de laranja): urrando como numa luta de MMA

O pódio foi elegante, como sempre. Príncipes e princesas entregaram os troféus e a única nota destoante foi o chefe da McLaren, Zak Brown, com sua pança de hambúrguer com milk-shake que, ao receber a premiação de Bernard Arnault, dono da Louis Vuitton, mandou um urro gutural e bateu no peito com força, como se estivesse num octógono de MMA. Típico de americanos fãs de Donald Trump.

E assim, de um jeito tosco e cafona, terminou o GP de Mônaco de 2025. Ano que vem vão ter de inventar alguma outra coisa para melhorar o espetáculo. Caso contrário, aqueles que defendem sua exclusão do calendário – eu não sou um desses, que fique bem claro – terão mais munição ainda para bradar contra a existência de uma corrida charmosa e cheia de história.

O problema é que para escrever boas histórias, precisa ser corrida, e não desfile. A solução é obrigar essa turma a correr, não desfilar. Como fazer isso, sinceramente, não sei.