Blog do Flavio Gomes
F-1

E AGORA, MAX?

SÃO PAULO (a casa caiu) – O martelo foi batido ontem pela cúpula da Red Bull em reuniões que contaram com a participação da porção tailandesa da empresa a distância. O ciclo de Christian Horner na chefia da equipe de Fórmula 1 da marca chegara ao fim. Um ciclo longo: Horner estava no projeto desde […]

SÃO PAULO (a casa caiu) – O martelo foi batido ontem pela cúpula da Red Bull em reuniões que contaram com a participação da porção tailandesa da empresa a distância. O ciclo de Christian Horner na chefia da equipe de Fórmula 1 da marca chegara ao fim. Um ciclo longo: Horner estava no projeto desde o dia #1, quando o time foi fundado, em 2005, a partir da compra da Jaguar. Em duas décadas, não se pode dizer que não tenha sido um bom chefe. Foram 124 vitórias em 405 corridas, oito títulos mundiais de pilotos e seis de construtores.

Às 10h locais de hoje em Milton Keynes, na Inglaterra, funcionários convocados para importante pronunciamento, Horner pegou um microfone e fez um emocionado discurso de despedida. Segundo relatos internos, com lágrimas nos olhos. Logo depois, foram emitidos os comunicados oficiais, hoje chancelados na comunicação oficial da F-1 com a rubrica “Breaking news”: Horner fora, assume em seu lugar Laurent Mekies, que vinha ocupando o cargo na filial de Faenza, a hoje chamada Racing Bulls, ex-Toro Rosso e ex-AlphaTauri. O francês começou sua trajetória na Arrows em 2001, passou pela Minardi e lá ficou até 2014, já sob gestão da Red Bull, que comprou o time italiano. Depois passou pela FIA e pela Ferrari até voltar à organização no ano passado. Na Racing Bulls, assume a função o britânico Alan Permane.

A Red Bull agradeceu a Horner pelos 20 anos de “trabalho excepcional” que o deixam “para sempre na história da equipe”. Max Verstappen publicou uma foto sombria, em que não dá para ver o rosto de nenhum dos retratados, com mensagem protocolar: “De minha primeira vitória aos quatro títulos mundiais, dividimos sucessos incríveis, vencemos corridas memoráveis e conquistamos incontáveis recordes. Obrigado por tudo, Christian!”.

O comunicado da Red Bull: “Trabalho excepcional”

Na F-1, nada acontece de repente. A demissão — sim, ele foi demitido — de Horner é o desfecho de uma situação que começou a se deteriorar em outubro de 2022, com a morte de Dietrich Mateschitz, o fundador da Red Bull, a marca de bebidas energéticas que hoje se confunde com equipe de corridas e times de futebol espalhados pelo mundo. Essa foi a estratégia da empresa para dominar o mercado de energéticos no planeta: investir no esporte e deixar os resultados fazerem sua parte na publicidade.

Mateschitz tinha um braço direito na equipe, o ex-piloto Helmut Marko, 82 anos, austríaco como ele, seu amigo pessoal. Em algum momento ao longo desses 20 anos as relações entre Marko e Horner começaram a se esgarçar. Quando “Didi”, como era chamado Mateschitz, morreu, Christian achou que era a hora de tomar conta do time. Contava, na ocasião, com a boa vontade e o apoio político dos tailandeses que detêm metade da propriedade da Red Bull, os descendentes de Chaleo Yoovidhya, criador da bebida “descoberta” por Mateschitz em 1984, quando estava na Tailândia como representante de uma fábrica de creme dental. Tornaram-se sócios e o resto, como se diz, é história.

A família de Yoovidhya sempre esteve ao lado de Horner, mas as coisas começaram a mudar no começo do ano passado, quando o dirigente foi acusado de importunação sexual por uma funcionária da Red Bull. O pai de Max, Jos, que já não se dava muito com ele, aproveitou o ensejo para começar a minar sua posição no time de dentro para fora. Alinhados a Marko, que corria o risco de perder poder se Horner se tornasse o manda-chuva rubrotaurino, os Verstappen foram claros: se o veterano deixasse a equipe, iriam junto com ele. Nunca houve um rompimento público, mas estava claro que piloto, pai de piloto e guru de piloto estavam de um lado; Christian, de outro.

O rumoroso escândalo sexual arrefeceu com os bons resultados de Max, que venceu sete das dez primeiras etapas de 2024 e encaminhou mais um título mundial. Suas vitórias colocaram água na fervura. Até a saída do projetista Adrian Newey alguns meses depois, outro que estava desde o início na Red Bull, perdeu um pouco de peso. Newey, maior gênio das pranchetas da F-1, criador de carros que ganharam 12 títulos de construtores e 14 de pilotos, se mandou para a Aston Martin. Motivo principal: a amizade com a funcionária que acusou Horner e sua visível contrariedade com a operação de abafa promovida pela empresa para preservar o chefe da equipe.

Se é verdade que a crise, para consumo externo, perdia tração, por outro lado um outro personagem percebia que havia brechas remanescentes e entrava nessa história, vindo de uma equipe rival. Toto Wolff, chefe da Mercedes, perdera Lewis Hamilton para a Ferrari. Inimigo não muito fidalgal de Horner, e sabendo que Verstappen não tinha nenhuma paixão pelo comandante da Red Bull, passou a abordar o piloto. Só tirou o pé no fim do ano, quando as conversas empacaram e ele finalmente promoveu Kimi Antonelli a titular para 2025. Mas não desistiu. Tinha uma carta na manga, ainda: o contrato de George Russell que termina no final desta temporada. E não foi renovado. Assim, tem vaga na Mercedes para 2026.

Enquanto isso, a situação de Horner na Red Bull só piorava. Depois de renovar com Sergio Pérez, mandou o mexicano embora porque seu desempenho era muito ruim. Teve de pagar uma multa pesada, mas sua intenção era dar um recado aos que duvidavam de sua competência para gerir uma equipe: o carro é muito bom, mas o piloto, não. Afinal, o outro, Verstappen, estava conquistando o título com ele. Só que, internamente, a vida na fábrica não era um mar de rosas. Nos meses seguintes à saída de Newey, pediram as contas outras figuras importantes na estrutura de Milton Keynes. O diretor-esportivo Jonathan Wheatley foi para a Sauber, levando junto o chefe dos mecânicos Lee Stevenson. Michael Broadhurst, especialista em aerodinâmica, partiu para a Alpine. No fim de 2023, o engenheiro e projetista Rob Marshall já tinha ido embora para a McLaren e é considerado uma das peças-chave para a ascensão recente do time papaia.

Com Pérez fora, Horner promoveu Liam Lawson, um novato, a titular. Começa o campeonato deste ano e o neozelandês é rebaixado para o time júnior depois de apenas duas corridas. Não fazia nenhum sentido. Yuki Tsunoda assume o segundo carro da equipe no Japão e em dez provas marca ridículos quatro pontos.

Não, Christian, o carro não é muito bom. Verstappen diz isso o tempo todo. Tira leite de pedra, ganha corridas e faz poles, mas não tem como carregar uma equipe inteira nas costas. Nas últimas quatro etapas, a Red Bull fez menos pontos que a Sauber no Mundial. A maionese, definitivamente, desandou.

Horner não foi demitido só pelos maus resultados, porém, como se fosse, digamos, o técnico do Botafogo que fica cinco jogos sem vencer. A Red Bull também viveu dias difíceis depois do tetra de Sebastian Vettel antes de entrar nos eixos de novo. Até ser campeã com Verstappen em 2021, foram sete anos oscilantes, e sua posição jamais foi contestada. De 2014 a 2018, com motores Renault (batizados como TAG-Heuer em 2016), o time sucumbiu à hegemonia imposta pela Mercedes com a adoção dos motores híbridos e ganhou apenas 12 corridas. Em 2019, fez uma aposta ousada na Honda e nos primeiros dois anos ganhou só cinco GPs. Nesse período, de 2014 a 2020, o time conquistou apenas seis poles. Tirando Verstappen, que virou titular em 2016, vários pilotos passaram pelo implacável triturador da equipe, como Daniel Ricciardo, Daniil Kvyat, Pierre Gasly e Alexander Albon. Pérez e Lawson foram apenas as duas últimas vítimas.

Mas depois do título de Max em 2021, nada que acontecesse dentro dos muros da Red Bull seria alvo de críticas. Os resultados não permitiam objeções. A equipe dominou os campeonatos seguintes com campanhas que humilharam os rivais. Com 21 vitórias em 22 etapas em 2023, a Red Bull promoveu uma massacre jamais visto na história da categoria. Horner voltou a ficar por cima da carne seca. Podia moer pilotos, entrar em polêmicas, alfinetar os adversários, se comportar como um imperador. Mas ganhava. E muito.

A demissão de hoje, portanto, é o desfecho de um longo processo que envolve desgaste de relações internas, ambições desmedidas — Christian, em determinado momento, sugeriu que poderia comprar o time –, arrogância — todos que saíam eram considerados “descartáveis” pelo chefe –, boas doses de autoritarismo e centralização excessiva. No fim de semana passada, em resposta a uma pergunta do Grande Prêmio em Silverstone, Horner disse que seu método de trabalho, concentrando todas as decisões importantes na equipe, estava “funcionando muito bem”.

A Red Bull, pelo jeito, entendeu que em 2025 talvez não seja bem assim. E dispensou seus préstimos para tentar salvar seu maior ativo: Max Verstappen.

Há duas interpretações agora, no que diz respeito à permanência de Verstappen na equipe austríaca. Ele e seu entorno ganharam a queda de braço com o dirigente. Max fez chegar à imprensa nas últimas semanas a intenção de sair se Horner mantivesse o poder absoluto na equipe. Condicionava o cumprimento do contrato, que vai até 2028, a uma reestruturação interna. Com a saída do chefe, uma leitura possível é essa: OK, ele vai, eu fico. Mas há outra, que não pode ser descartada. Sem Horner, Marshall, Wheatley, Newey, Honda (será substituída pela Ford no ano que vem, motor novo cheio de incertezas) e todas as outras deserções recentes, o que sobra na Red Bull?

Pouca coisa. Juntar os cacos, na F-1, leva tempo. É isso que, neste momento, Toto Wolff vai usar como instrumento de sedução para voltar à carga sobre o holandês. Já que todos abandonaram o barco energético, queridão, não queira ser o último para apagar a luz. As portas da Mercedes estão escancaradas. E não são as únicas. A Aston Martin também está acenando para o holandês. Tem dinheiro da Aramco — a estatal de petróleo da Arábia Saudita, acionista da equipe –, o parceiro Newey, os já conhecidos motores Honda, uma fábrica novinha em folha para chamar de sua. Nessa hora, mensagens de WhatsApp estão sendo disparadas em ritmo frenético. Todas com telefones que começam com +44, dos ingleses, ou +49, dos alemães.

O resumo desta quarta-feira é que a Red Bull lançou, sim, sua última cartada para segurar Max. Precisa ver, agora, se será o bastante para convencê-lo a ficar.

ATUALIZAÇÃO – É nas redes sociais que as pessoas falam hoje, e é com mensagens muitas vezes cifradas que a F-1 se comunica. Ler nas entrelinhas revela muita coisa. Então, vale registrar a postagem discreta de Verstappen, à esquerda, com a foto que mencionei lá em cima: quatro linhas e um “obrigado” no fim. E o textão de Horner em seu perfil no Instagram emite mais sinais ainda de como essa relação dele com a empresa e piloto se deteriorou nos últimos anos. Em nenhum momento o nome Red Bull é mencionado. Ele só fala em “equipe”. Nenhuma citação a Verstappen, Marko ou quem quer que seja. A foto também foi escolhida a dedo. Quem achar Red Bull escrito nela, ou mesmo o conhecido logotipo da marca com alguma nitidez, ganha uma latinha. Gelada.