SÃO PAULO (demora, mas é bom demais) – Foram 5.593 dias desde a estreia na Fórmula 1, em 14 de março de 2010, no Bahrein. A Williams decidiu dar uma chance ao alemão de 22 anos que, na temporada anterior, conquistara o título da GP2 pela ART Grand Prix. Nico Hülkenberg, seu nome. Começou bem. Fez lá seus pontinhos, 22, e até uma festejada e inesperada pole-position, no Brasil, num daqueles finais de semana de chove-para-chove de novo. Seu companheiro era Rubens Barrichello.
Depois disso, teve uma carreira que pode ser considerada errática. Em 2011, foi apenas piloto de testes da Force India. Voltou a ser titular na temporada seguinte, pelo mesmo time. Em 2013 foi para a Sauber. Um aninho só. Voltou à Force India para mais três campeonatos, os de 2014 a 2016, e depois correu mais três Mundiais pela Renault, de 2017 a 2019. No ano da pandemia, porém, ficou sem um cockpit. Disputou três GPs pela Racing Point, sucessora da Force India, no lugar de Sergio Pérez, que pegou covid. Num deles, nem largou. Nos outros dois, chegou nos pontos. Em 2021, não correu. Em 2022, a covid o chamou de novo, desta vez para substituir Sebastian Vettel na Aston Martin. Experiente, acabou sendo contratado pela Haas em 2023 e por lá ficou por dois anos.
Àquela altura, Hülkenberg já carregava nos ombros a incômoda condição de piloto com maior número de GPs disputados sem um pódio sequer. É verdade que em 2015 se encheu de orgulho e alegria ao vencer, com a Porsche, as 24 Horas de Le Mans. Mas na F-1, nada. No fim do ano passado, estava a pé de novo.
E então apareceu a Sauber, comprada pela Audi, que precisava de alguém com rodagem para começar o projeto da marca alemã na categoria. Chamem o Hulk, sugeriu alguém. E lá veio o velho Hulk outra vez. Como assim?, perguntaram. O cara está há séculos nesse negócio e nunca ganhou uma tacinha! Vocês estão certos disso?
Estavam certíssimos. Nico disputou a primeira corrida do ano na Austrália e de cara fez um sétimo lugar com o carro de uma equipe que, na temporada anterior, se arrastara nas últimas posições e terminou o ano na lanterna com míseros quatro pontos, obtidos na penúltima etapa do campeonato. Depois passou em branco em sete provas, até a Sauber dar uma melhorada no carro, estreando um pacote de atualizações em Barcelona. Foi quinto. No Canadá, oitavo. Na Áustria, de último no grid para nono. E hoje, em Silverstone, de penúltimo para terceiro.
Um troféu, enfim. No seu 239º GP.
Quem acredita sempre alcança, cantava Renato Russo. É provável que Nicolas Hülkenberg, 37 anos, 15 deles na F-1, ou perto dela, nunca tenha escutado a linda canção do líder da Legião Urbana. Não importa. Alcançou. É uma das lições que o automobilismo ensina. Se você quiser alguém em quem confiar, confie em si mesmo. Ainda que esteja no fim da fila, rodeado pela desconfiança, desacreditado e longe dos holofotes.
Hülkenberg valeu o domingo no GP da Inglaterra, que marcou o fim da primeira metade da temporada com mais uma dobradinha da McLaren e uma vitória emocionante de Lando Norris diante de seu público. Público considerável, inclusive. De acordo com os organizadores, 500 mil almas passaram pelo clássico autódromo no fim de semana.
E foi uma vitória que, de certa forma, caiu no colo de Landinho por conta de uma punição exagerada e, de certo modo, incompreensível a Oscar Piastri, líder da prova até ser punido por ter enfiado o pé no freio antes da relargada na segunda intervenção do safety-car — o que todo mundo faz desde que o mundo é mundo.
Safety-car que trabalhou bastante num dia em que a chuva foi uma das grandes protagonistas de Silverstone, como de costume. Assim sendo, vamos passar este GP a limpo.
A chuva durante boa parte da manhã na região embaralhou as cartas de uma corrida que prometia fortes emoções mesmo se fosse disputada no seco absoluto. Os ingredientes eram ótimos: Max Verstappen na pole, cercado por carros papaia em segundo e terceiro e, pouco atrás, uma Mercedes valente, a de George Russell, e duas Ferrari sedentas, com Lewis Hamilton e Charles Leclerc completando as três primeiras filas do grid.
A pista estava molhada quando os carros alinharam, mas já não chovia. Antes mesmo da largada, ao fim da volta de apresentação, cinco pilotos abriram mão de suas posições originais no grid e foram aos boxes colocar pneus slicks, apesar de muitos trechos molhados: Russell, Oliver Bearman (ambos optaram pelos pneus duros), Leclerc, Isack Hajdar e Gabriel Bortoleto (estes colocaram os médios). Era uma aposta. O sol apareceu, é verdade, alguns pontos estavam secos, mas os radares apontavam chances de chuva iminente.
As luzes se apagaram, a galerinha dos slicks saiu dos boxes e ao fim da primeira volta eram 18 os carros na pista, com as duas primeiras baixas: Franco Colapinto, último no grid, nem largou; e Liam Lawson foi atingido por Esteban Ocon, abandonando a prova.
Kimi Antonelli veio para os boxes na volta 3 e também colocou pneus duros, como seu companheiro, deixando a Mercedes em situação delicada, com dois carros de slicks que não pegavam temperatura. Isso porque quando Lawson abandonou, o safety-car virtual foi acionado e todos foram obrigados a diminuir o ritmo. Na frente, Verstappen, Piastri, Norris, Hamilton e Pierre Gasly eram os cinco primeiros. Todos com pneus intermediários.
Piastri, antes da largada, dissera ao seu engenheiro que a pista ainda estava muito molhada no trecho final, e seria impossível andar de slicks. Foi só na volta 4 que todos foram liberados para retomar o ritmo normal. O diz-que-diz no rádio era intenso. Ocon avisou que estava tudo seco, menos nas duas últimas curvas. A Ferrari alertou Hamilton, que cogitou colocar slicks: “Fica na sua que vai voltar a chover daqui a dez voltas”.
Na relargada, Bortoleto foi a primeira vítima fatal da condição pneu-seco-para-pista-molhada. Rodou e bateu, quebrando a asa traseira. Conseguiu desatolar o carro da brita, tentou voltar aos boxes, mas não conseguiu e abandonou. O safety-car virtual foi acionado de novo, na quinta volta, para retirar o carro do brasileiro da pista. Gabriel pediu desculpas pelo rádio. O time disse que estava tudo bem. Mais um período de voltas lentas, tragédia para quem estava com pneu para pista seca.
Na sétima volta, Lance Stroll, que tinha largado em 17º, foi para os boxes e colocou pneus macios, para esperar a chuva chegar com uma borracha mais rápida. Era outra aposta, das mais ousadas. A meteorologia indicava que em coisa de dez minutos viria mais água. Primeiro, de leve. Depois, pesada. Na sétima volta, o botão do safety-car virtual foi desligado e toma pé no porão.
Verstappen relargou bem e manteve a ponta, mas Piastri não descolava de seus calcanhares. Norris vinha mais atrás, a 4s de distância. Estava bonito de ver, os dois carros deslizando pela pista, até que na volta 8 o australiano passou o holandês com a segurança de sempre. E foi embora.
Não chovia. Quem estava de pneu slick, finalmente, começou a virar tempos melhores que a multidão que se manteve com os intermediários. Mas ninguém tinha muita convicção do que fazer. Os trechos secos estavam acabando com a borracha dos inters. Qual a melhor escolha? Parar? Colocar novos pneus de chuva? Ficar com slicks? Antonelli tomou uma decisão, parou e jogou os slicks fora para colocar pneus intermediários de novo.
E na volta 11, de fato, começou a chover. A chover forte. Norris chegou em Verstappen e passou, quando o holandês deu uma escapada da pista. E aí não havia muito o que fazer. Foi todo mundo para os boxes. Quem estava de slick, colocou pneu de chuva. Quem estava de intermediários trocou um pelo outro, como o líder Piastri O aguaceiro era considerável.
Max saiu dos boxes na frente de Norris, cuja parada não foi grande coisa. Piastri liderava, com Alexander Albon, da Williams, em segundo. O tailandês não tinha parado ainda e foi ultrapassado com facilidade por Verstappen e Norris, que voltaram a segundo e terceiro.
Na volta 13, com o céu desabando sem dó e a pista encharcada, tinha gente pedindo até pneus de chuva extrema. Hamilton foi um deles. Não se enxergava nada. E a direção de prova, na volta 14, mandou o safety-car para a pista. Estava muito perigoso.
(Não adianta reclamar. A F-1 de hoje é assim, a prioridade é a segurança. São outros tempos. Sim, antigamente corria-se até se Noé estivesse passando por ali com sua arca enfrentando ondas de Nazaré. Mas mudou, e não dá para dizer que está errado. São vidas em jogo. A coisa antigamente era selvagem, a gente gostava, mas não fazia muito sentido.)
Piastri, Verstappen, Norris, Stroll, Hülkenberg, Gasly, Ocon, Hamilton, Russell e Fernando Alonso eram os dez primeiros quando o safety-car assumiu o comando do pelotão. Notam-se entre eles presenças raras, como as de Lance e Nico, que largaram lá atrás. O alemão da Sauber tinha sido o mais esperto de todos. Quando parou nos boxes, sem chuva, mandou colocar intermediários de novo, acreditando na tempestade vindoura. Matou a pau. Já o canadense da Aston Martin fizera dois pit stops, ficou de macio umas duas ou três voltas, ganhou terreno e voltou aos pneus de chuva rapidinho. O único na pista sem pit stop algum, àquela altura, era Ocon. Ele foi ficando, foi ficando, e também se deu bem. Pelo menos até ali.
O resumo da ópera, enquanto o safety-car desfilava dando tempo para todos refletirem sobre suas escolhas, era que a ideia de colocar slicks depois da volta de apresentação não tinha sido das melhores. Leclerc, Antonelli, Hadjar e Bearman ocupavam as quatro últimas posições naquele instante. Bortoleto tinha abandonado. Russell, que era quarto no grid, estava em nono.
A relargada se deu na volta 18. A pista seguia muito molhada, não se via nada à frente, mas o sol estava aparecendo entre as nuvens. Só que não deu tempo nem de terminar a volta. Hadjar bateu na traseira de Antonelli – simplesmente não percebeu o italiano à sua frente –, rodou e foi parar na barreira de pneus, arrebentando o carro. O safety-car teve de ser acionado mais uma vez. Ocon, que não tinha parado ainda, foi para os boxes e finalmente fez sua troca.
É bom, sempre, atualizar as primeiras posições. Na volta 20, atrás do safety-car, Piastri, Verstappen, Norris, Stroll, Hulk, Gasly, Hamilton, Russell, Alonso e Carlos Sainz eram os dez primeiros. Quatro já tinham ido para o vestiário: Hadjar, Bortoleto, Lawson e Colapinto – todos da turma dos novatos desta temporada.
O Mercedão saiu da pista na volta 21 e, surpresa das surpresas, Verstappen rodou na relargada! Não bateu em ninguém, mas caiu para décimo. E, pouco antes, o lance que definiu o resultado da corrida: Piastri praticamente parou o carro no meio da pista antes de “dar pé”, como se diz, e quase foi atingido por Max — que reclamou barbaridade. A freada antes da relargada, porém, é ato comum na F-1. O líder sempre dita o ritmo e meio que faz o que bem entende. A atitude de Oscar, porém, entrou em investigação pelos temidos comissários na torre de controle.
Na volta 23, Antonelli, com o carro danificado pela batida de Hadjar, também abandonou. Cinco dos seis rookies de 2025 estavam fora da corrida. No mesmo momento, a direção de prova informou: Piastri estava punido com 10s por mau comportamento na relargada. Ele estava 3s5 à frente de Norris. Para ganhar a corrida, teria de abrir os tais 10s de diferença para o segundo colocado, caso não fizesse uma nova parada. Virtualmente, naquele momento, Lando era o líder. A prova chegava à metade, 26 voltas, com Piastri, Norris, Stroll, Hulk, Gasly, Russell, Hamilton, Alonso, Sainz e Verstappen na zona de pontos.
A corrida estava ótima. Hamilton e Russell trocavam tinta, um passando o outro, o outro passando o um. A McLaren avisou Piastri da punição. “Oscar, você tomou dez segundos”, disse o engenheiro. “Sim”, respondeu o piloto. “Você brecou na frente do Max mesmo?” “Sim.” “Foi de propósito?” “Sim.” “Mas tu é burro mesmo, não? Percebeu que vai perder a corrida por causa disso?” “Sim.” Nesse momento, o engenheiro se virou para Zak Brown, chefe da McLaren, e perguntou: “Você pretende ficar com esse mala mais alguns anos?” “Sim.”
Hamilton, bom de pista molhada, passou Gasly na volta 30 e assumiu a quinta posição. O francês da Alpine se segurava como dava com um dos piores carros do grid. Um pouco mais à frente, Hülkenberg, zero pódio em 239 corridas, chegou em Stroll para brigar pelo terceiro lugar. Apesar da relevância da luta pela vitória, da perspectiva de nova dobradinha da McLaren, da punição polêmica para Piastri, das dificuldades de Verstappen, de todas as idas e vindas da corrida, aquela era uma disputa épica: Stroll x Hulk. Valia pódio.
O ruim era que Hamilton, em quinto, se aproximava dos dois com um carro melhor, sete títulos nas costas e 15 troféus na estante conquistados em Silverstone. Nico conseguiu passar Lance na volta 35. Hamilton fez o mesmo sobre o canadense e começou a preparar o bote para alcançar o alemão. Uma crueldade, bem que Lewis poderia abrir mão de mais uma taça, com tantas guardadas em casa. Mas que nada… O inglês queria, sim, seu primeiro pódio de Ferrari. Iria buscar.
A pista estava secando. Já não chovia havia algum tempo e na volta 38 Alonso, do alto de seus mais de 20 anos de F-1, parou e colocou pneus slicks médios. Era mais uma aposta, que Russell também queria fazer. “Temos de ser valentes, corajosos, ousados! O que a vida pede da gente é coragem! Já ouviram essa frase antes? João Guimarães Rosa, autor brasileiro de…” “Chama logo esse chato pro box antes que ele comece a declamar aquele poema da pedra no meio do caminho”, pediu Toto Wolff. E, na volta 39, George parou e colocou pneus duros.
Não era a hora exata, pelo jeito. Alonso voltou à pista com slicks fazendo tempos muito altos, cerca de 8s piores que aqueles de quem se mantinha com intermediários. Russell rodou, foi parar na brita, acelerou e conseguiu voltar à pista. Toto tirou o fone de ouvido. “Não tenho mais paciência”, falou.
Mais atrás, Leclerc e Verstappen escalavam o pelotão. Max era sexto e Chaleclé, oitavo. Na volta 42, sem conseguir alcançar o bravo e quase inacreditável Hülkenberg, Hamilton parou e colocou pneus macios. Stroll fez o mesmo. Nico parou na volta seguinte. A pista, agora sim, estava seca em quase toda sua extensão. Piastri entrou na volta 44. Pagou os dez segundos de multa e voltou em segundo, com Norris na liderança. Hulk ainda era o terceiro. No fundão, Ocon e Bearman se tocaram, rodaram e foram em frente. Lando parou na volta 45. Não sobrava mais nenhum carro com pneus intermediários na pista. Mas o asfalto meio úmido em alguns pontos era bem traiçoeiro. Piastri quase rodou. Estava 4s4 atrás de Norris, com o pênalti quitado. Seria muito difícil chegar no parceiro, porém.
Faltando cinco voltas, Norris, Piastri, Hulk, Hamilton, Stroll, Verstappen, Gasly, Alonso, Albon e Russell eram os dez primeiros. Lewis estava mais de 5s atrás de Hulk. O planeta inteiro torcia pelo pódio do alemão. Sua diferença para a Ferrari #44 aumentava volta a volta. O sonho da primeira taça estava muito perto. Lando também abria de Piastri.
O sol já brilhava em Silverstone quando Norris abriu a última volta, para delírio de vários lances de arquibancada pintados de amarelo marca-texto – a cor do capacete do inglês. Piastri, irritadíssimo com a punição e conformado com a impossibilidade de alcançar Lando, era o segundo. E os dois receberam a bandeirada separados por 6s8. Mas ninguém, àquela altura, se importava muito com mais uma dobradinha papaia – a quinta no ano, 54ª da história do time inglês. Os olhos todos estavam voltados para carro verde-alface numeral 27, que estava quase meio minuto atrás.
Nico Hülkenberg terminou o GP da Inglaterra em terceiro.
Esse era o tuíte.
(Norris, Piastri, Hülkenberg, Hamilton, Verstappen, Gasly, Stroll, Albon, Alonso e Russell terminaram a corrida de Silverstone nas dez primeiras posições. Foi a oitava vitória da carreira de Norris, quarta neste ano. O resultado deixa o inglês a apenas oito pontos do companheiro na briga pelo título, 234 x 226. A Sauber não ia ao pódio desde o GP do Japão de 2012, com o terceiro lugar de Kamui Kobayashi. Pulou de nono para sexto na classificação, com 41 pontos. A McLaren chegou a nove vitórias no ano, algo que não acontecia desde 2005 – naquela temporada foram dez, com a dupla Kimi Raikkonen e Juan Pablo Montoya. No pé do pódio, a organização do GP da Inglaterra colocou ao lado do McLaren #4 de Norris a Alfa Romeo de Nino Farina, vencedora do primeiro GP de todos, 75 anos atrás. Lá mesmo, em Silverstone, onde tudo começou.)
