
SÃO PAULO (quem segura?) – Não choveu, e deu a lógica no GP da Hungria. Os dois pilotos da McLaren tiveram um pouco mais de trabalho do que teriam se, ontem, houvessem feito a primeira fila do grid. Como perderam a pole para Charles Leclerc, tiveram de suar um pouco para, no final, chegar ao resultado esperado: nova dobradinha, com Lando Norris em primeiro e Oscar Piastri em segundo. O inglês fez apenas uma parada nos boxes para troca de pneus. O australiano, duas. A diferença de estratégia, circunstancial – Lando largou mal e por isso teve de mudar seus planos ao longo da corrida –, fez com que os dois recebessem a bandeirada separados por meros 0s698.
George Russell, da Mercedes, foi o terceiro colocado. Gabriel Bortoleto, em sexto com a Sauber, conseguiu seu melhor resultado na categoria e o melhor de um piloto brasileiro desde 2017, quando Felipe Massa terminou o GP do Brasil, em Interlagos, em sétimo — foi seu ano de despedida da F-1, correndo pela Williams. Gabriel ganhou também o prêmio de “Piloto do Dia” concedido pelo amigo internauta. E recebeu um enorme elogio de seu empresário Fernando Alonso: “É o melhor estreante dessa geração. Se fosse um inglês terminando em sexto com um carro da Sauber, amanhã estaria em todas as primeiras páginas dos jornais”.
A prova de Hungaroring foi a 14ª da temporada, que agora dá um tempo de três domingos para que pilotos, mecânicos & agregados aproveitem as férias de verão no Hemisfério Norte. Norris, com sua quinta vitória no ano – nona na carreira –, descontou sete pontos de Piastri na classificação. Agora tem 275, contra 284 de seu companheiro de equipe. A McLaren venceu 11 vezes em 2025 e já tem a terceira melhor campanha de sua história, considerando o número de vitórias. Foram 15 em 1988 e 12 em 1984. E ainda faltam dez corridas para o fim do Mundial. O time papaia caminha para fechar seu ano mais glorioso.
A tarefa de Norris foi difícil hoje porque, para variar, ele largou mal. Caiu de terceiro no grid para quinto nos primeiros metros – foi almoçado por Russell e Alonso. Bortoleto, por sua vez, partiu bem, superando Lance Stroll e se colocando logo de cara na sexta posição. Leclerc, na pole, não deu chance a ninguém e se manteve em primeiro, abrindo mais de 1s sobre Piastri já na segunda volta.
Norris passou Alonso na volta 3, deixando o espanhol tendo de lidar com seu pupilo brasileiro, colado nele. Max Verstappen, mais atrás, começava uma tentativa tímida de escalar o pelotão. Passou Liam Lawson e Stroll e foi para cima do brasileiro em busca da sexta posição. Mas ali empacou.
Naquele momento, apareceu nas telas dos computadores um preocupante aviso da direção de prova: Bortoleto estava sob investigação por uma possível irregularidade na largada, assim como seu companheiro Nico Hülkenberg, que estava lá na rabeira do grid. Durou pouco o inquérito na torre de controle. As imagens foram revistas e o brasileiro não tinha feito nada de errado antes de as luzes vermelhas se apagarem. Mas o alemão, sim: deixou o carro se mover poucos centímetros e tomou 5s de pênalti.
Leclerc seguia absoluto na ponta no começo da corrida. Com oito voltas, tinha quase 3s de vantagem sobre Piastri. Russell, Norris, Alonso, Bortoleto, Verstappen, Stroll, Lawson e Oliver Bearman ocupavam as dez primeiras posições. Era aquela fase de estudos da corrida, com todos tentando entender como se comportariam os pneus – médios para a maioria; Lewis Hamilton largou de duros e Carlos Sainz, Alexander Albon e Hulk, de macios. “Dá para ir até o final com uma parada só, Oscar?”, perguntou o engenheiro da McLaren. “Sim.” “Mas ainda falta muita coisa para o fim, rapaz, você tem certeza?” “Sim.” “Então beleza, você troca na volta 69, é bom pra você?” “Sim.” “Oscar, você está nos confundindo. O melhor é parar duas vezes, né?” “Sim.”
A ideia de parar apenas uma vez era tentadora para alguns, porque ninguém gosta de perder tempo nos boxes e os compostos médios estavam se virando bem – não fazia muito calor, 21°C, e o asfalto estava longe de ameaçar a borracha dos incautos. Mesmo assim, parte da turma do fundão – Hulk, Franco Colapinto, Albon, Esteban Ocon e Sainz –, com 16 voltas, já tinha feito uma troca. Nenhum deles mudaria a cotação do forint, porém. A questão era saber o que faria o pessoal lá na frente.
A resposta começou a ser dada na volta 18, quando Verstappen parou e colocou pneus duros. Na 19, Piastri fez o mesmo. A equipe avisou: “Pit stop para passar Leclerc!”. “Sim”, respondeu o australiano. Leclerc, o líder, foi então chamado pela Ferrari para reagir à ação da McLaren. Parou na volta 20, junto com Russell. Ali começou sua desgraça, como veríamos adiante. Talvez não precisasse, talvez pudesse ficar na pista, o carro estava andando bem. Talvez, talvez…
Norris, assim, assumiu a liderança, com Alonso em segundo. Os dois com os mesmos pneus da largada.
Chaleclé voltou dos boxes bufando, irritado com alguma coisa que descobriríamos depois. Ainda estava à frente de Piastri, que não conseguiu o conhecido “undercut” na volta extra que teve com pneus novos. Norris, sem pit stop, liderava na volta 23. Pouco antes, reclamara de seus pneus. Era jogo de cena. A equipe, pelo rádio, administrava a situação. Pelo andar da carruagem papaia, o inglês faria apenas uma parada, já que seus rivais diretos, tendo trocado pneus muito cedo, certamente fariam duas.
“Certamente”, claro, é por minha conta. Era uma grande possibilidade, claro, mas não necessariamente uma certeza. Talvez os pneus duros de quem já tinha parado durassem até o fim. Talvez não. A própria McLaren tinha suas dúvidas. Por isso consultava Piastri a cada volta, pelo rádio. “Vai dar, Oscar?”, perguntava o engenheiro. “Sim.” “Mas você disse agora há pouco que não ia dar!” “Sim.” “Dá ou não dá, cão?” “Sim.” O engenheiro, então, pediu demissão pela décima vez no ano.
Quem não estava nada contente com o rumo daquela prosa era Leclerc. Em segundo, começou a discutir com a Ferrari pelo rádio. “Vamos perder essa corrida”, vaticinou. Sua queixa, soubemos depois, tinha relação com uma mudança de regulagem na asa dianteira durante o pit stop — parada que também não o convenceu pela precocidade, já que o time italiano o chamou uma volta depois de Piastri e o monegasco achou que poderia ficar mais tempo na pista com seus pneus médios, que se comportavam com dignidade. Seu temor: que a McLaren conseguisse fazer a corrida toda com apenas um pit stop. E ele sabia que não conseguiria. Tinha ainda o negócio da asa, que ele supunha ter sido ajustada de modo equivocado. O moço estava uma pilha de nervos. “Vocês precisam me ouvir mais”, choramingou.
Na volta 30, Norris, Leclerc, Piastri, Russell, Alonso, Bortoleto, Stroll, Lawson, Bearman e Verstappen eram os dez primeiros. Desses, Leclerc, Piastri e Russell já tinham trocado pneus. Os demais, não. Lando parou, finalmente, na volta 32. Não visitaria mais os boxes nem por decreto. Era aquela parada e ponto final. Que se virasse até o fim. Voltou em quarto atrás de Russell. Leclerc retomou a liderança com 1s4 de vantagem sobre Piastri. Landinho, então, ficou torcendo para que os três à sua frente torrassem sua borracha, sendo obrigados a uma segunda troca.
Um pouco mais atrás, Bortoleto se mantinha tranquilo em sexto e, como Norris, faria apenas uma parada. O mesmo valia para toda a turma que ainda rodava com os mesmos pneus da largada. Sua corrida era contra os pilotos da Aston Martin: Alonso à frente, Stroll atrás. Se ficasse entre os dois, terminaria onde estava, uma posição à frente da que tinha conseguido no grid. Estava bom demais.
A galera da parada única – Norris à parte — só foi começar a trocar pneus na volta 37. O primeiro foi justamente Stroll. Caiu de sétimo para 12º. Alonso veio para os boxes na 40ª. Norris, naquele momento, acelerou forte e passou a fazer ótimos tempos, para se aproximar dos três primeiros e deles se defender quando assumisse a ponta — todos estariam com sangue nos olhos atrás dele, famintos e com pneus novos. A execução de sua corrida era perfeita, tanto por parte de seu engenheiro quanto, claro, de sua parte, pelo que fazia na pista.
Leclerc foi o primeiro dos “two-stoppers” a parar, na volta 41. Colocou um novo jogo de pneus duros, cuspindo marimbondos pela balaclava. Bortoleto fez seu pit stop nesse momento e voltou logo à frente de Stroll. A estratégia da Sauber foi muito boa. Devolveu seu piloto à pista perto de Alonso, em sétimo, e sem ter de se preocupar muito com o canadense, mantido a uma distância segura.
Piastri parou pela segunda vez na volta 46. Voltou em terceiro com pneus duros novos, é verdade, mas a 12s do novo líder, Norris. Teria de remar bastante, e rápido. Leclerc era o segundo e sua profecia – “vamos perder essa corrida” – se confirmava. O ferrarista, na volta 50, estava 8s atrás de Lando e 1s5 à frente de Piastri, que se aproximava rapidamente. Na 51ª, Oscar chegou e passou o vermelho #16 no fim da reta dos boxes, relegando Leclerc à terceira posição. Pelo rádio, inconformado, Charlinho fez longo discurso. Falou que seria um milagre se chegasse no pódio. Maldisse seus estrategistas, a borracha da Pirelli, o asfalto de Budapeste, a comida do motorhome e a máquina de café da Ferrari. (Depois da prova, registre-se, Leclerc se acalmou ao ser informado de que seu chassi apresentou algum problema — não especificado, mas estamos apurando — que o fez perder muito rendimento a partir da volta 40, depois da segunda parada. Ele chegou a perder 2s por volta. “Tenho de retirar tudo que eu disse no rádio, não dava para saber exatamente o que estava acontecendo”, reconheceu. “É que a frustração é muito grande de saber que pela primeira vez em um ano poderíamos vencer uma corrida e não conseguimos.”)
Naquela altura, Bortoleto voltara à sexta posição graças à segunda parada de Verstappen, que caiu para nono. Na ponta, Norris administrava sua borracha com 4s de vantagem sobre Piastri. Mas Oscar, com pneus bem mais novos, tentava chegar no companheiro. A situação era tensa para o inglês. Na 60ª volta, a dez do final, Norris, Piastri, Leclerc, Russell, Alonso, Bortoleto, Stroll, Lawson, Verstappen e Kimi Antonelli eram os dez primeiros. Hamilton, se alguém ainda se lembrava dele, seguia em 12º — exatamente onde largou.
Na briga pelo último troféu do dia, Russell colou em Leclerc. Passou na volta 62, apesar da defesa duríssima – para não dizer desleal – do monegasco, que mudou a trajetória de seu carro na freada. George, pelo rádio, reclamou aos montes. O ferrarista acabaria tomando um pênalti de 5s, que não mudaria em nada o resultado.
O terceiro lugar estava resolvido. Restava a disputa pela vitória, que não era pouca coisa e ganhou contornos dramáticos nas últimas cinco voltas. Norris perdeu muito tempo com retardatários e Piastri se achegou babando na fronha, como diz meu amigo Edgard Mello Filho. A diferença caíra para 0s7 na volta 65. Oscar tinha pneus melhores, carro na mão e uma pista complicada para ultrapassar pela frente. Mas nenhum pudor para tentar.
O autódromo ficou de pé. Norris se defendia acelerando, sabendo que em algum momento o escorpião em cima do sapo poderia dar uma ferroada e os dois morreriam afogados no brejo. Piastri, com sua proverbial frieza, preparava o bote. Na abertura da volta 69 mergulhou sobre o parceiro na curva 1, fritou os pneus e, como se diz, “mostrou o carro”. Quase bateu, o que causaria um terremoto na equipe. O sinistro não ocorreu por centímetros. Nos boxes da McLaren foram registrados cinco princípios de infarto.
Só que aí era tarde. A chance que Piastri teve foi perdida ali e, na última volta, o carro de Norris ficou da largura da pista. Ninguém passaria o inglês. E ele venceu a corrida com autoridade, pela terceira vez nas últimas quatro etapas do Mundial. Russell foi o terceiro, seguido por Leclerc, Alonso, Bortoleto, Stroll, Lawson, Verstappen e Antonelli na zona de pontos.
“Tô morto”, disse Norris. “A gente não planejou uma parada no começo, mas acabou sendo a única opção para voltar à corrida. É uma aposta, não se pode errar nada, e foi o que aconteceu hoje, um resultado perfeito. É uma briga muito difícil com Oscar, mas vamos tentar continuar assim.” A McLaren chegou à sétima dobradinha no ano, quarta seguida – o que não acontecia desde 1988 com Ayrton Senna e Alain Prost. Nas estatísticas, o time inglês bateu nas 200 vitórias, número redondo, histórico e impressionante — só perde para a Ferrari, que tem 248.
Agora vão todos descansar e esperar pelas notícias da semana. Como Verstappen descartou qualquer possibilidade de sair da Red Bull, esse assunto está encerrado. A Mercedes deve oficializar a manutenção de Russell e Antonelli por mais algum tempo. A Cadillac pode anunciar pelo menos um piloto nos próximos dias.
E tem muita gente esperando que Hamilton diga alguma coisa sobre seu futuro depois das fortes declarações de ontem. Nas casas de apostas da Inglaterra, já é possível jogar umas libras em “odds” que apresentam a opção de aposentadoria precoce do heptacampeão. “Quero ir embora logo daqui”, foi a única coisa que ele falou ao final do GP da Hungria. Nunca se viu Lewis tão para baixo na carreira quanto neste fim de semana.