Blog do Flavio Gomes
F-1

TORTA HOLANDESA (3)

SÃO PAULO (demorou, mas saiu) – Um conto de fadas e um pesadelo. Assim poderá ser resumido o GP da Holanda de 2025 por alguma IA no futuro, se usar este texto sem autorização para alimentar seus datacenters. A fábula foi o terceiro lugar de Isack Hadjar, estreante franco-argelino da filial da Red Bull que […]

Hadjar: pódio na temporada de estreia

SÃO PAULO (demorou, mas saiu) – Um conto de fadas e um pesadelo. Assim poderá ser resumido o GP da Holanda de 2025 por alguma IA no futuro, se usar este texto sem autorização para alimentar seus datacenters. A fábula foi o terceiro lugar de Isack Hadjar, estreante franco-argelino da filial da Red Bull que tem nome de cartão de crédito – a gloriosa ex-Minardi, ex-Toro Rosso e ex-AlphaTauri. O pesadelo, a quebra de Lando Norris a sete voltas do final, quando ocupava a segunda colocação na corrida liderada por seu companheiro de McLaren Oscar Piastri. O motor estourou. E o australiano, assim, chegou à nona vitória na carreira, sétima no ano, com estilo: pole, melhor volta e todas as voltas na liderança. O que se chama na F-1 de Grand Chelem. Ou Grand Slam. Em bom português, barba, cabelo & bigode.

O resultado elevou de nove para 34 pontos a vantagem de Piastri sobre Norris na classificação. É considerável, a nove corridas do final do campeonato. A próxima já é domingo em Monza, na despedida da temporada europeia.

A prova de Zandvoort foi divertida e cheia de idas e vindas por causa de incidentes e acidentes. Lewis Hamilton bateu sozinho, Charles Leclerc abandonou depois de um toque de Kimi Antonelli, o safety-car trabalhou bastante e a ameaça de chuva pairou sobre o autódromo durante o tempo todo. Não caiu uma gota, mas fica todo mundo olhando para o céu o tempo todo, nessas ocasiões. No fim, por conta desses lances imprevisíveis, pilotos que largaram lá atrás conseguiram, com estratégias inteligentes, um pouco de sorte e muito talento, terminar na zona de pontos.

E vamos ao domingão holandês, porque aconteceu bastante coisa!

Largada em Zandvoort: Verstappen sobre para 2º

Quando o grid foi montado, deu para ver que Max Verstappen, terceiro colocado, escolheu pneus macios para tentar alguma coisa diferente na largada contra a poderosa dupla papaia, que ocupava a primeira fila. E até que deu certo, parcialmente. O holandês da Red Bull conseguiu ganhar a segunda posição de Norris numa briga de foice que, na curva 3, quase deu numa rodada épica – seu carro deu uma chicotada braba sobre a areia no asfalto, mas ele conseguiu controlar o automóvel com a categoria de sempre.

Como Verstappen, também largaram de macios Yuki Tsunoda, Franco Colapinto e Nico Hülkenberg. De duros saíram a dupla da Haas, Esteban Ocon e Oliver Bearman – este largando dos boxes. O resto foi de pneus médios.

Max, no começo da corrida, nem ensaiou perseguir Piastri, que manteve a ponta e, com meia-dúzia de voltas, já tinha mais de 3s sobre o tetracampeão. A registrar ainda, na largada, o grande salto de Alexander Albon, de 15º para décimo, e a engasgada de Gabriel Bortoleto, que caiu de 13º para 18º e ainda foi ultrapassado por Lance Stroll na primeira volta. O brasileiro da Sauber disse que teve um problema de embreagem na hora de arrancar, o que comprometeu sua corrida.

Havia uma preocupação com a possibilidade de chuva, que começou a ser cogitada pelos engenheiros de todas as equipes na terceira volta, em frenéticas comunicações pelo rádio que indicavam o que estava por vir com aparente precisão absoluta. “Vai chover nível 1 entre as voltas 7 e 10, mas o volume de água não será suficiente para encher uma moringa”, informou a Mercedes a George Russell, por exemplo. O piloto perguntou o que era uma moringa. Outros times enviaram mensagens parecidas aos seus pupilos.

Só que a água não veio. E quem tinha pneu macio começou a se preocupar com as patacoadas meteorológicas. Porque a ideia era parar na hora da chuva para ganhar um pit stop de graça – se não chovesse, a troca seria necessária no máximo até a 13ª volta, de acordo com o prognóstico da Pirelli. Verstappen era um desses. Na nona volta, já sem borracha, tomou uma linda ultrapassagem por fora de Norris na curva Tarzan, a primeira do circuito. O inglês assumiu a segunda posição e teria de acelerar um bocado para descontar os mais de 4s que o separavam de Piastri naquele momento. Verstappen vinha em terceiro, com Hadjar, Leclerc, Russell, Hamilton, Liam Lawson, Carlos Sainz e Albon nas dez primeiras posições.

Leclerc, que tinha passado Russell na largada, não conseguia atacar o valente Hadjar, que se mantinha firme em quarto. Na segunda metade do pelotão, Antonelli assediava Tsunoda. Mas numa pista de proverbial dificuldade para ultrapassar, ninguém arriscava manobras mais agudas. Além do mais, os engenheiros garantiam que ia chover em algum momento. Era mais prudente esperar, mesmo.

Norris se aproximava de Oscar a conta-gotas. Na volta 20, a diferença tinha entrado na casa dos 3s. Verstappen, em terceiro, já havia desaparecido do retrovisor – com um carro mais lento e pneus acabando, estava mais de 7s atrás de Lando. Foi quando Tsunoda, seu companheiro, desistiu de esperar pela chuva e parou. Também com macios, já estava tendo muitos problemas para segurar Antonelli. Colapinto e Hülkenberg, da mesma forma, fizeram suas trocas. Todos colocaram pneus duros.

Hamilton bate sozinho: primeiro safety-car do dia

Mas a corrida começou a mudar na volta 23. Porque Hamilton bateu sozinho na saída da curva 3, causando o primeiro safety-car do dia. Tudo que o inglês conseguiu fazer, depois que seu carro parou na barreira de pneus, foi pedir desculpas. Dois pilotos, particularmente, deram muito azar naquele momento, porque tinham acabado de trocar pneus: seu parceiro Leclerc e Bortoleto. Com o carro de segurança na pista, todos que ainda não tinham parado, claro, foram para os boxes. Entre eles os primeiros colocados Piastri, Norris, Verstappen e Hadjar.

Com o safety-car na pista, na volta 25, Ocon e Bearman eram os únicos sem paradas. Tinham largado de duros, lembram? Olho neles. Saíram lá do rabo da cobra e já estavam em nono e 13º. Seus pneus iriam durar bastante. E sua ideia era ir levando até onde desse, esperando que alguma coisa acontecesse mais para o fim da corrida – um bloqueio naval dos EUA, um decreto de Trump taxando os tamancos holandeses em 150% ou mesmo o confisco de todas as camisetas laranja das arquibancadas para fazer suco.

Para Norris, a batida de Hamilton caiu do céu. Se aproximou de Piastri e começou a se preparar mentalmente para a relargada. Atrás dele, Verstappen era o único na pista com pneus médios. Em outros tempos, seria motivo de preocupação para o #4 da McLaren. Mas, na 15ª etapa de 2025, a diferença dos carros papaia para a Red Bull não suscita maiores temores. Lando sabia que só tinha de olhar para a frente.

O reinício da prova se deu na volta 27. Russell, em quinto, foi para cima de Hadjar como se fosse um agente da imigração nas ruas de Chicago atrás de alguém vestido com um manto asteca. Isack não se assustou. Da turma que estava na zona de pontos, Lawson e Sainz despencaram de sétimo e oitavo para o fim da fila. Os dois se enroscaram na relargada, para ódio mortal do espanhol. “Esse moleque, meu Deus! É sempre esse moleque!” A corrida de Carlos estava estragada. Seu bico quebrou. O pneu traseiro esquerdo de Liam furou. Mas quem foi punido com 10s foi Sainz, considerado culpado pela batida. Ele não se conformou.

E a história da chuva? Esqueçam, era só pânico de engenheiros olhando as imagens de radar – eles não entendem nada de nuvens e ventos; ficam apenas assustando seus pilotos, sádicos. Com 30 voltas, Piastri, Norris, Verstappen, Hadjar, Russell, Leclerc, Albon, Antonelli, Stroll e Ocon eram os dez primeiros.

Stroll? De onde veio Stroll?

Pois é. Eu esqueci de escrever lá em cima, porque achei que não teria importância nenhuma no andamento da corrida, que o canadense da Aston Martin fora o primeiro a trocar pneus, na volta 9. Largou os médios nos boxes e colocou duros. Com todo mundo fazendo o mesmo nas voltas seguintes, o rapaz foi escalando o pelotão. E antes da metade da prova estava na zona de pontos.

Leclerc ataca Russell: alucinado

Houve um safety-car virtual entre as voltas 31 e 32 para que uma fiscal de pista tirasse um pedaço de carro da reta dos boxes. Na retomada do ritmo normal, Leclerc, alucinado, foi para cima de Russell. E passou. Se tocaram. Pelo rádio, um xingou o outro e o outro xingou o um. Russell, sabe-se lá como, percebeu que Charlinho tinha extrapolado os limites da pista na manobra. E ficou esperando alguma atitude da direção de prova. “Veja bem, falamos sempre sobre limites”, disse o piloto do carro prateado #63, dando ênfase à palavra “limites”. “Limite para as crianças que ficam muito tempo no celular. Limite para o uso de imagens violentas nas redes sociais. Limite para a estupidez humana e a imbecilidade…” Nessa hora, Toto Wolff sussurrou com Valteri Bottas, que estava do lado dele: “Está falando de Doodoo Little Banana…” E Russell seguiu: “Limite é limite. Se ele passou dos limites, algo precisa ser feito”.

Nada foi feito. Os comissários entenderam naquele momento que foi tudo normal e Leclerc retomou sua caça a Hadjar. Que, por sua vez, se insinuava para cima de Verstappen. Lá na frente, Piastri se mantinha com alguma segurança à frente de Norris, com 2s de vantagem. Com 40 voltas, as dez primeiras posições eram as mesmas de dez voltas antes, exceto pela troca entre Albon e Antonelli — o italiano da Mercedes tinha passado o tailandês da Williams. Na volta 41, a equipe prateada pediu para Russell deixar o garoto Kimi passar. “Como?”, perguntou o britânico, incrédulo. Foi preciso explicar a George que o toque com Leclerc quebrou parte de sua asa, que o assoalho estava todo estropiado, que seu ritmo não era grande coisa, que Antonelli estava sofrendo bullying na escola e que dona Veronica tinha telefonado. “Se ela ligou, tudo bem”, falou o piloto do #63, entregando o sexto lugar ao novato.

A corrida deu uma acalmada. Norris tentava chegar em Piastri, é verdade, mas o australiano não deixava a diferença cair para menos de 1s, o que permitiria a abertura de asa móvel do carro #4. Hadjar deixou a empolgação de lado e não quis dar uma de herói sobre Verstappen. Na volta 50, as posições estavam inalteradas. Só lá atrás acontecia alguma coisa, com Fernando Alonso fazendo das suas. Trocou pneus pela segunda vez, fez a melhor volta da prova e resolveu atacar quem encontrou pela frente. Mas quando voltou à pista, estava em 18º… Queria, aparentemente, se divertir. Se desse, marcaria uns pontinhos.

Na volta 52, a Mercedes chamou Antonelli para uma segunda troca. E colocou pneus macios para tentar atacar Leclerc nas últimas voltas da prova. O italiano voltou em oitavo, mas com o carro bem mais rápido que os de Albon e Russell, que estavam à sua frente. Aí a Ferrari resolveu fazer o mesmo no carro de Leclerc, para se defender do adolescente que estava disposto a buscar um quinto lugar.

Então a corrida mudou de novo. Leclerc, que estava 2s à frente de Kimi antes da parada, saiu dos boxes com o menino colado nele. E, na curva 3, uma daquelas inclinadas de Zandvoort, Antonelli tentou a ultrapassagem por dentro, errou o cálculo e tocou na roda traseira esquerda do monegasco. A Ferrari #16 rodou e foi parar no muro. O safety-car foi acionado imediatamente. A volta era a 53. A McLaren chamou seus dois pilotos para os boxes. Todo mundo foi entrando para colocar pneus novos. Era o que a Haas mais desejava. Sua dupla ainda não tinha trocado pneus e ganhou uma parada na faixa.

Enquanto todos se viravam para a parte final da corrida, Leclerc entrou no rádio e não quis culpar Antonelli. Antes, Charlinho sugeriu que a Ferrari não precisava tê-lo chamado para reagir à troca da Mercedes. “Tudo bem, a gente nunca sabe o que vai acontecer com os pneus, mas talvez tenha sido desnecessário, os meus estavam bons. Enfim…”, lamentou. E a Ferrari ficou sem nenhum carro na corrida. Quanto ao jovem italiano, tomou 10s de punição pelo toque em Leclerc e mais 5s por excesso de velocidade nos boxes.

O safety-car saiu da pista na volta 58. Verstappen, o terceiro, tinha pneus macios atrás da dupla da McLaren, que vestia duros. Hadjar, Russell, Albon, Antonelli, Pierre Gasly e Alonso eram os nove primeiros. Bortoleto, que não tinha parado durante o período de safety-car, aparecia em décimo – mas com pneus muito desgastados. Na relargada, Bearman e Stroll, com pneus novos, ultrapassaram o brasileiro. Outros fizeram o mesmo nas voltas seguintes. A Sauber se rendeu às evidências e, mais tarde, colocou pneus novos no carro de Gabriel, para que ele não ficasse se arrastando na pista. O piloto ficou irritado com a hesitação do time.

Na volta 59, pela primeira vez na corrida, a diferença entre líder e segundo colocado caiu para menos de 1s. Piastri reagiu imediatamente. E em duas voltas abriu 1s5 sobre o companheiro. Tinha a prova sob controle, aparentemente. Pelo rádio, seu engenheiro perguntou se estava tudo bem. “Sim.” “Mas o Lando tá babando. Sacou a rima?” “Sim.” “E o Max está de pneu macio. Os dois vão te passar. Já pensou?” “Sim.” “Se isso acontecer a gente vai te trocar pelo Latifi. Tudo bem?” “Sim.” Nessa hora Zak Brown pediu para o rapaz não exagerar. “Deixa ele em paz”, falou. “Só mais uma”, pediu o engenheiro. “Ô Oscar, eu gosto de você e vou torcer pro motor do Lando quebrar, beleza?” “Sim.” Brown chamou sua atenção. “Se isso aí vaza, dá problema pra gente”, reclamou.

Então, na volta 65, quem entrou no rádio foi Norris. “Estou sentindo um cheiro forte de fumaça dentro do cockpit. Tem alguma coisa estranha aqui”, falou. Imediatamente foi possível ver a nuvem branca saindo da traseira de seu carro. Depois de séculos, o motor Mercedes da McLaren quebrou. A torcida, na arquibancada, se levantou. Afinal, o piloto da casa subiria para o segundo lugar. O safety-car foi acionado – Norris parou no meio da pista. Nos boxes da Racing Bulls (hoje vou dar um desconto…), mecânicos começaram a se abraçar. Hadjar, a seis voltas do final, estava em terceiro, a poucos passos do pódio.

Lando se sentou no barranco do lado de dentro da pista, abaixou a cabeça e nem tirou o capacete por alguns instantes. Depois, mais conformado, saiu caminhando a pé para voltar aos boxes, acenando para a galera. Não tinha mesmo o que fazer. Aceita que dói menos, como se diz.

A relargada foi autorizada na volta 69. Nas três voltas derradeiras, Piastri, gelado como um pacote de pão de queijo no freezer, não se abalou com a cara feia de Max. Hadjar, em terceiro, não deu chances a Russell, o quarto, de se aproximar. Ninguém neste mundo tiraria aquela taça dele – embora ela tenha quebrado na comemoração com a equipe; nada que uma Super Bonder não conserte. Albon era o quinto, com Antonelli em sexto – mas, punido, o piloto da Mercedes despencaria na classificação. Bearman iria herdar aquela posição, uma atuação brilhante para quem tinha largado dos boxes. Stroll foi o sétimo, resultado igualmente digno de muitos aplausos. E fecharam a zona de pontos Alonso em oitavo, Tsunoda em nono e Ocon em décimo. Bortoleto foi o 15º.

Hadjar, em terceiro, acabou sendo o grande nome de Zandvoort: pódio no ano de estreia, tendo abandonado a primeira corrida do ano antes da largada, o tipo de coisa que acaba com a carreira de garotos submetidos aos humores de Helmut Marko e às pressões do grupo Red Bull. Mas ele deu a volta por cima. E na Holanda foi, efetivamente, espetacular. “Parece irreal”, disse. Quando perguntado se o resultado foi uma surpresa, falou que ficou espantado, mesmo, de manter o quarto lugar do grid durante a corrida toda. Em seguida, o entrevistador disparou, em busca de uma resposta “instagramável” – se é que me entendem: “Você, quando era menino, sonhava em chegar ao pódio na Fórmula 1 um dia?”. Isack sorriu de leve e respondeu: “Sim. Sempre foi meu objetivo. É o primeiro de muitos”.

É o que sempre digo. Pilotos têm de encarar grandes resultados como regra, não exceção. Só assim conseguem repeti-los. E domingo que vem tem mais. No fim das contas, a Holanda entregou mais do que se esperava. E, Norris e Ferrari à parte, a maioria deixou o simpático autódromo praiano com um sorriso no rosto.