Blog do Flavio Gomes
F-1

BAÍA DA MARINA (3)

SÃO PAULO (fechou) – Quando as cobertas dos pneus foram retiradas no grid de Singapura, George Russell olhou para o lado, viu que Max Verstappen estava de macios e falou: “Xi, me ferrei”. Com aquela borracha, a chance de o holandês pular na frente na largada era real, e se acontecesse, o cara não perderia […]

A clássica comemoração de Russell: segunda vitória no ano

SÃO PAULO (fechou) – Quando as cobertas dos pneus foram retiradas no grid de Singapura, George Russell olhou para o lado, viu que Max Verstappen estava de macios e falou: “Xi, me ferrei”. Com aquela borracha, a chance de o holandês pular na frente na largada era real, e se acontecesse, o cara não perderia a corrida nem por decreto.

Na pole, o inglês da Mercedes estava de médios, uma estratégia que fazia todo o sentido, como fez para a maioria dos pilotos. A tentativa da Red Bull, da mesma forma, não era absurda. Só que não deu certo. Do lado sujo da pista, Max não conseguiu o arranque que desejava. George largou como nunca, disparou na frente, e essa foi a história do GP de Singapura.

Russell venceu pela quinta vez na carreira, segunda no ano. Verstappen terminou em segundo e Lando Norris foi o terceiro com a McLaren, que também fez o quarto lugar com o emburrado Oscar Piastri. O resultado deu ao time papaia seu décimo título mundial de Construtores, segundo consecutivo. São 650 pontos, contra 325 da vide-líder Mercedes. A equipe, agora, só não tem mais taças que a Ferrari, que faturou 16 desde 1958, quando foi estabelecido o campeonato das equipes.

No Mundial de Pilotos, a situação não mudou muito. Norris descontou apenas três pontos do líder Piastri e agora está 22 atrás – 336 x 314. Verstappen, com 273, tinha 69 de déficit, agora são 63. Faltam seis etapas para o final da temporada, com três Sprints. São 174 pontos em jogo. Para ser campeão, Lando precisa fazer quatro pontos mais que Oscar por final de semana de GP. Max tem de tirar 11. A tarefa do inglês é factível. A do piloto da Red Bull, dificílima.

A prova de Marina Bay não foi das melhores de todos os tempos. Longe disso. O lance decisivo, no que diz respeito à disputa do título, aconteceu nos primeiros metros depois que as luzes vermelhas se apagaram. Norris largou muito bem, partindo para o pau contra Piastri. Pulou de quinto no grid para terceiro. Os companheiros papaia chegaram a se tocar. Oscar reclamou pelo rádio. “Ele bateu em você?”, perguntou o engenheiro. “Sim.” “Quer que a gente avise os comissários?” “Sim.” “Quer que a gente peça para ele te devolver a posição? “Sim.” “Você não acha que foi meio frouxo demais?” “Sim.” “Da próxima vez dá no meio dele.” “Sim.” Zak Brown pediu para o engenheiro parar de perturbar o rapaz: “Não fica bem essa zoeira no rádio, agora temos novos donos, vendi esta bagaça por quatro bilhões de dólares, pelo menos finja que se importa com ele”.

Russell, como Norris, tinha largado como um foguete. “Que tiro foi esse?”, comemorou o engenheiro da Mercedes pelo rádio, para desgosto do piloto inglês. “Não aprecio a autora dessa canção”, censurou, contrariado. “Ela se revelou uma fascistoide insuportável. Por que não Guilherme Arantes para descrever poeticamente minha largada?” E começou a cantarolar: “Pegar carona nessa cauda de cometa/Ver a Via Láctea, estrada tão bonita/Brincar de esconde-esconde numa nebulosa/Voltar pra casa, nosso lindo balão azul”. “George, nosso carro é prateado”, resmungou Toto Wolff. “Mas meu capacete é azul, Toto, você precisa entender essas associações que faço de vez em quando. A Via Láctea é prateada. Sacou?” “Cala a boca, George”, encerrou o chefe, que anda meio sem paciência com seus pilotos.

O fato é que com o tiro da Jojô (que é mesmo uma fascistoide, Russell tem toda razão) ou no rabo do cometa de Guilherme Arantes, em quatro voltas, o inglês já tinha mais de 2s sobre o holandês e passou a controlar a corrida sem muitos sustos. Mais atrás, Fernando Alonso, Isack Hadjar, Franco Colapinto, Lance Stroll e Yuki Tsunoda foram os outros que largaram com pneus de faixa vermelha com as mesmas intenções de Max, ganhar posições no início. Mas ninguém fez milagre.

Antonelli: bons pontos para a Mercedes

Russell, Verstappen, Norris, Piastri, Charles Leclerc, Kimi Antonelli, Lewis Hamilton, Alonso, Hadjar e Oliver Bearman eram os dez primeiros na volta 10, com o #63 socando o pé para não dar nenhuma esperança a Max, num ritmo de encher os olhos. A diferença dele para o #1 da Red Bull já passava dos 5s. As posições registradas no final da primeira volta, do primeiro ao último, se mantinham inalteradas, diante da proverbial dificuldade de ultrapassagem em Marina Bay.

Na volta 14 começaram os pit stops. Gabriel Bortoleto parou e aproveitou para trocar o bico de seu Sauber verde-alface, danificado num esfrega-esfrega na largada com Stroll. Tsunoda também foi para os boxes e colocou pneus duros, para ir até o fim da corrida – era um sinal do que faria Verstappen logo mais.

Na volta 17, a McLaren chamou Norris para os boxes. “Pode vir para ultrapassar Verstappen, vamos aplicar nele um ‘undercut’, eles não contavam com nossa astúcia!”, gritou o engenheiro com entonação teatral pelo rádio. Lando estava pouco mais de 1s atrás de Max. Mas era um blefe mequetrefe, jogado no ar para a Red Bull reagir e chamar seu piloto, com medo do tal “undercut”. Certamente sugestão de algum estagiário protegido de alguém na equipe: “Tive uma grande sacada, vamos enganar os caras fingindo que nosso piloto vai para os boxes!”. Macacos velhos, os engenheiros da equipe dos energéticos não caíram na lorota e ambos ficaram na pista.

Sainz, décimo: último a trocar pneus

Max foi parar na volta 20, porque seus pneus macios já não davam mais. Colocou duros, como Tsunoda. Voltou em sétimo e perderia a posição para Norris se não fizesse pelo menos umas duas voltas voadoras com a borracha nova. Lando, por sua vez, apertou o ritmo justamente para fazer o tal do “undercut” sobre o rival na hora da parada. O estagiário se sentiu vitorioso. “Ganhei essa corrida. Esses velhos calvos não entendem nada. Nós, jovens, somos o futuro do planeta”, comentou com uma colega na sede da McLaren, onde estava. Vestia colete “puffer” e mocassins Dolce Gabanna. A gola da camisa polo estava virada para cima. “Babaca”, resmungou a menina.

Lá na frente, Russell desfilava. Tinha mais de 9s de vantagem para Norris, agora segundo colocado, e só na 24ª volta entrou no rádio para falar sobre seus pneus. “Estão começando a perder performance”, avisou. “Vejam bem, não estou querendo, aqui, falar mal da fornecedora, a Pirelli, de tanta história e reputação. Empresa italiana, de um país que adoro. Ah, a Toscana, os vinhos, as massas! Como falar mal da Itália? Mas talvez seja a hora de…”, então Toto Wolff pediu: “Chama ele logo para trocar pneu, senão não para de falar”. George parou, efetivamente, na volta 26. Voltou em terceiro, atrás da dupla da McLaren.

Então, Lando fez seu pit stop, na 27ª. Voltou atrás de Verstappen, em quarto. A tentativa de “undercut” não deu certo. O estagiário, que já tinha pedido para o ChatGPT produzir um novo texto para seu perfil no LinkedIn incluindo o “undercut” de Singapura (“coloque que foi épico e que eu fiz história”, escreveu no prompt), cancelou a operação. “Otário”, falou a colega, baixinho.

Piastri assumiu a ponta, ainda sem trocar pneus. O que foi fazer na volta 28, e a McLaren demorou um pouco mais que o normal. Não resultou em perda de posição, mas afastou o australiano um pouco mais de Norris. Com todo mundo de pneuzinho novo, na volta 30 os sete primeiros eram exatamente os mesmos da primeira volta: Russell, Verstappen, Norris, Piastri, Leclerc, Antonelli e Hamilton.

Alonso, que era o oitavo até sua parada, despencou para o fundo do pelotão por conta de um pit stop atrapalhado da Aston Martin. Quando voltou à pista, o engenheiro avisou: “Faltam 34 voltas”. Irritado, o espanhol respondeu: “Se você ficar me falando isso toda volta, vou desconectar o rádio”. Não tem nada mais legal no mundo do que um piloto ranzinza — no fim da corrida, vocês vão entender mais adiante neste relato, ainda deu um show radiofônico xingando muito Hamilton.

De repente, e não mais que de repente, a tranquilidade de Russell ameaçou ser abalada ali pela altura da volta 35. A diferença dele para Verstappen, que tinha se estabilizado na casa dos 6s no início da corrida, caiu para 2s7. Pelo retrovisor, o inglês já via o tetracampeão. Max, no entanto, cometeu um erro na volta 37 e perdeu tempo. “Esse carro está uma merda!”, berrou pelo rádio. A vantagem de Russell voltou à casa dos 5s, o holandês desistiu da vitória e quem se aproximou foi Norris, o terceiro colocado. Mas sem ameaçar de verdade o rival.

Quando começaram a aparecer os retardatários, Verstappen se viu em maus lençóis por alguns instantes. Na volta 46, Lando encostou de vez, ficou menos de 1s atrás e passou a ter o direito de abrir a asa para tentar a ultrapassagem. Max iria sofrer para manter a McLaren atrás.

Hamilton, em sétimo, fez uma segunda parada para colocar pneus macios e tentar atacar Antonelli nas voltas finais da corrida com uma borracha mais aderente e veloz. Seus tempos passaram a ser cerca de 3s melhores por volta que os do italiano da Mercedes. A distância era grande, mas pelo menos abria a perspectiva de uma briga, embora por posição pouco celebrada. Verstappen se segurava à frente de Norris. Na volta 50, a diferença seguia inferior a 1s, mas Lando não atacava.

O último a trocar pneus foi Carlos Sainz, na volta 51. O espanhol da Williams esperou até o último momento por um safety-car que não veio. Como Liam Lawson, Alexander Albon e Stroll, que adiaram suas paradas até onde a borracha aguentou, foi lá para o fundão. Assim, Alonso voltou à oitava colocação, apesar da parada lerda da Aston Martin.

O primeiro – e único — ataque de Norris sobre Verstappen aconteceu na volta 53. Colocou o carro lado a lado numa freada, mas preferiu não pagar para ver o que aconteceria se tentasse consumar o ato. O muro estava muito perto. E, como diz o ditado, quem tem muro tem medo.

Mudança relevante de posição aconteceu um pouco mais atrás, com Antonelli ultrapassando Leclerc e assumindo a quinta posição. Hamilton, voando, teria pela frente, assim, seu companheiro de equipe, e não mais o jovem da Mercedes. Passou sem dificuldades na volta 56 e partiu para o ataque a Kimi. A estratégia da Ferrari funcionava, o que não é exatamente comum nos dias de hoje.

À frente deles, Norris seguia especulando sobre Verstappen, mas sem partir para a briga aberta. Hamilton chegou em Antonelli na volta 60. Do pessoal que adiou a parada, Sainz era o único que via o esforço sendo recompensado, entrando na luta pelo último pontinho da corrida. Colou em Hadjar e passou, assumindo o décimo lugar.

Lewis, no entanto, não conseguiu superar Kimi. Quando estava grudado no Mercedes #12, pronto para o bote, reportou problemas sérios pelo rádio. “Estou sem freios!”, avisou. Não é a coisa mais agradável do mundo, num carro de corrida. Tirou o pé para não acabar colado no muro. Perdeu a posição para Leclerc e ficou se arrastando na pista em sétimo, rezando para a prova acabar logo.

Russell venceu a corrida com autoridade, levando com ele ao pódio Verstappen em segundo e Norris, que se conformou com a terceira posição – o medo que esse rapaz tem de Max é coisa para tratar na terapia. Piastri, Antonelli, Leclerc, Hamilton, Alonso, Bearman e Sainz fecharam os dez primeiros. Bortoleto foi o 17º. Lewis recebeu a bandeirada 0s4 à frente de Fernandinho. Se o circuito tivesse mais uns 20 metros, perderia também o sétimo lugar. Na pista, não perdeu. Mas no tapetão, sim. Os comissários puniram o inglês com 5s em seu tempo total de prova porque na última volta excedeu os limites de pista várias vezes. Alonso berrava no rádio. “Desgraça! Não pode! Não é porque tá sem freio que pode fazer isso! Guiar sem freio é perigoso! Carajo!” Acabou que Hamilton caiu para oitavo e Alonso ficou com a sétima colocação.

A F-1 volta à nossa agenda daqui a duas semanas, com o GP dos EUA em Austin, no Texas.