Blog do Flavio Gomes
F-1

PATRIOTÁRIOS (7)

CAPITAL PAULISTA (não acaba nunca) – Ah, Interlagos… Hoje só briguei com um GCM — guarda civil metropolitano, para quem não está acostumado com a língua das ruas. Reproduzo o diálogo áspero para que me julguem, mas antes é preciso descrever o cenário. A retirada das credenciais para o GP da Capital Paulista, antigamente, se […]

CAPITAL PAULISTA (não acaba nunca) – Ah, Interlagos… Hoje só briguei com um GCM — guarda civil metropolitano, para quem não está acostumado com a língua das ruas. Reproduzo o diálogo áspero para que me julguem, mas antes é preciso descrever o cenário.

A retirada das credenciais para o GP da Capital Paulista, antigamente, se dava no Hotel Transamérica. Era bem legal, serviam pães de queijo e café fresco. A gente chamava o hotel de “QG da Fórmula 1”. Fazíamos, nas rádios em que trabalhei, transmissões ao vivo de lá. Tinha a tradicional “coletiva da Marlboro”, que quando Senna corria na McLaren, claro, era o evento mais concorrido da cidade. Apareciam jornalistas de todos os cantos – era a única forma de ver Senna de perto, ao vivo e em cores, e exibir sua devoção. Quando ele morreu, já contei essa história, a coletiva da Marlboro continuou sendo lá, mas a atração passou a ser Schumacher, já na Ferrari. Tinha um lunático que ia todo ano com uma pasta surrada de papéis surrados, ele mesmo era bem surrado, cabelo ensebado, barba malfeita e sapatos empoeirados, e empreendia uma cruzada quase religiosa para fazer o Schumacher dizer que Ayrton Senna merecia uma estátua, ou um monumento, ou quiçá que o Brasil fosse rebatizado como Sennaland.

Bem, isso acabou faz um tempo, o hotel foi desmontado e no terreno ao lado fizeram uma piscina gigante para as pessoas pegarem onda. Me disseram que quem esteve lá com uma prancha e bermuda foram Valtteri Bottas e Jack Doohan, mas foi alarme falso. Ou semifalso, porque eles foram surfar, sim, mas em Porto Feliz, cidade do interior de São Paulo, onde há outra piscina com ondas artificiais. E os dois vestiam camisas do Capital Paulista FC, coisa mais esquisita.

Então, voltando à retirada das credenciais, já tem uns anos que o local determinado é uma estrutura provisória no portão 8 do autódromo, na avenida Senador Teotônio Vilela, em frente à antiga fábrica da Copersucar, que ninguém sabe direito onde é, mas eu sei. Há um recuo na avenida para que se estacione ali. “Seja breve, embarque e desembarque”, diz a placa. Eu seria muito breve, era descer e pegar minha credencial e ir embora, parei o carro, liguei o pisca-alerta, mas é claro que enquanto esperava um guarda municipal vestido com colete à prova de balas foi em direção ao meu carro com um celular para tirar foto da placa, já que nada mais havia para fazer ali naquele momento.

Saí da pequena fila para a retirada da credencial e perguntei ao agente da lei se por acaso ele estava tirando aquela foto para me multar. Agora sim, reproduzo o diálogo.

– O senhor está tirando foto para me multar?
– Claro, aqui não pode parar.
– Pode sim, está ali a placa, “seja breve”.
– Mas você não vai ser breve.
– Quem te disse que não vou ser breve?
– Você está atrapalhando o trânsito.
– Não estou atrapalhando o trânsito, o carro está parado no recuo na área de embarque e desembarque que só pede que eu seja breve, e eu serei breve.
– Você vai querer discutir comigo?
– Vou, claro que vou. Por quê? Não posso? Você vai me prender se eu discutir com você? A ditadura acabou em 1985, meu senhor. Muitos tombaram para que tivéssemos uma democracia de novo. Para que eu pudesse falar com um agente da lei e contestá-lo sem ser surrado, torturado e morto. Já ouviu falar de Vladimir Herzog? Há exatos cinquenta anos ele foi assassinado pela ditadura militar. Graças a pessoas como ele que eu posso, hoje, discutir com quem quiser, inclusive com o senhor!
– Então por que você não coloca o carro mais para a frente?
– Porque quando cheguei havia uma fila de carros, agora não tem mais. O que você quer, que eu coloque mais para a frente? OK, coloco mais para a frente.

O cara guardou o celular e coloquei o carro mais para a frente. Babaca.

O resto foi tranquilo. A sala de imprensa voltou para onde era, depois de uma temporada numa tenda montada no estacionamento. Reformaram a área, está tudo certinho. O autódromo está bonito e o que estava em obra no ano passado praticamente terminou – especialmente o prédio ao lado do Laranjinha onde foram instalados muitos camarotes. Vocês vão ver na TV, o teto é branco e está pintado PREFEITURA DE SÃO PAULO em letras enormes. Pode ser que em alguns anos tenham de repintar, PREFEITURA DA CAPITAL PAULISTA.

O dia foi de atividades fora da pista, porque é só amanhã que o GP começa de verdade, com o que se chama de “media day”, uma coisa meio besta, só entrevistas coletivas, horários marcados, três minutos para aquele site lá, quatro minutos e doze segundos para o outro ali e por aí vai.

Mas uma constatação se faz, nestes tempos estranhos: a imprensa não é chamada para mais nada. Só “influencers” e “produtores de conteúdo” — e fui confundido com um deles, já conto. Digo isso porque soube que Lewis Hamilton foi ontem ao Allianz Park chutar umas bolas. Ação da Puma. Na foto, ele com a “influencer” Julia Rodrigues – não sei quem é. Já George Russell esteve não sei onde para um evento da Petronas. A assessoria não me convidou, mas mandou a seguinte declaração:

“A gasolina PETRONAS Primax™ e os lubrificantes PETRONAS Syntium™ me ajudam a acelerar nas condições extremas das corridas de Fórmula 1. Agora, os motoristas brasileiros podem sentir a mesma potência, capacidade de resposta e eficiência em suas viagens cotidianas”, destaca George Russell. “É emocionante ver a mesma tecnologia em que confiamos nas corridas agora disponíveis nos postos de gasolina”, acrescenta.

Não sei se acredito em todas essas palavras assim cegamente, não. Primeiro, ninguém fala “Primax tê-ême”. Nem “Syntium tê-ême”. E desconfio dessa emoção que Russell diz sentir ao ver um frasco de óleo Petronas num posto de gasolina. De minha parte, e aí podem confiar, sempre que posso uso óleo Petronas dois tempos nos meus DKWs. E nos Wartburgs e no Trabant. Não encontro em qualquer lugar, mas como parece que vai ter posto de gasolina Petronas agora – olha lá o Russell dizendo que os motoristas brasileiros poderão sentir a mesma potência nas suas viagens cotidianas, que frase bonita! –, pode ser que fique mais fácil. Só não lembro direito qual a família dele, do óleo, digo. Acho que é Selenia “tê-ême”, ou Sprinta “tê-ême”. Um dos dois. Não é Syntium “tê-ême”.

Prometi contar que fui confundido com um influencer. Semana passada me convidaram para uma “experiência no paddock”. Seria no sábado. Vou contar o milagre, mas não revelo o santo para não prejudicar ninguém. Me pediram uma foto — na verdade uma “selfie”, já não falam mais “foto”. Era para a credencial. E já emendaram: “Você vai ter de fazer um reels e seis stories”. OK. Perguntei quanto me pagariam pelo serviço. A pergunta deve ter soado estranha. Resposta: “Na verdade estamos pensando em oferecer a experiência em troca do seu conteúdo”. Entendi. Respondi sem entrar em muitos detalhes que dispensava a experiência, já que ir ao paddock não é exatamente uma novidade para mim, mas indiquei a Laêne, minha mulher, como influencer. Ela faria de bom grado um reels e seis stories em troca da experiência no paddock. Mandei o perfil dela no Instagram. A menina agradeceu com muitas exclamações e disse que ia consultar “o pessoal da agência”. Não responderam mais.

Outras coisas que vi “nas redes”: Max Verstappen e Yuki Tsunoda em alguma coisa da Honda, Franco Colapinto dentro da Jordan de Rubens Barrichello e uma legenda falando alguma coisa sobre churrasco e, essa é mais legal, Kimi Antonelli visitando o túmulo de Ayrton Senna no Morumbi. Ele corre com o número 12 por causa de Ayrton.

E para terminar, claro, não podemos deixar de registrar a experiência imersiva de hoje. A ela:

POR TODOS OS LADOS – Recebido da onipresente JCDecaux, “líder global em mídia out-of-home (OOH)”: “Nos dias que antecedem o GP, a JCDecaux se une a marcas como Amex, Doritos, Heineken, Lenovo, Mastercard, Motorola e Porto Seguro, em projetos especiais de OOH nos principais pontos da jornada dos fãs. Grid de largada para boa parte do público que vai ao evento, a Estação Pinheiros da Linha 4-Amarela do metrô foi transformada em pista de automobilismo (…). A ambientação temática faz do longo percurso pela estação uma verdadeira experiência de imersão (…)”. Paramos por aqui. Vamos adiante, depois de afundar no metrô. “No Aeroporto Internacional de Guarulhos, quem chega é recepcionado por uma dominação gráfica de Porto Bank em toda a área, com adesivação de chão, colunas e esteiras, além de dois cartões em tamanho gigante, oferecendo uma experiência exclusiva e imersiva para os fãs de Fórmula 1.” Ótimo. Depois do mergulho no piso de GRU, a empresa de OOH (que porra é essa?) segue informando que instalou “bustos enormes” de Norris e Piastri em relógios nas avenidas Dr. Chucri Zaidan, Pedro Álvares Cabral e Brasil. “Além disso, comprou os naming rights e fez uma dominação gráfica completa da Estação Cidade Dutra (…)”. Cita também um “clássico capacete” da Amex na Nove de Julho e uma “instalação especial” de Doritos na Paulista. E termina com João Binda, diretor comercial da JCDecaux Brasil, nos lembrando: “O OOH transmite toda a atmosfera dinâmica que envolve um dos megaeventos mais icônicos do mundo através de experiências reais e exclusivas. Estar presente nas principais rotas e jornadas da audiência, principalmente com projetos especiais e inéditos, maximiza a visibilidade, o engajamento e os resultados para as marcas”. Obrigado, João Binda! O que seria de nós sem os Doritos na Paulista, o capacete clássico da Amex na Nove de Julho e, principalmente, os naming rights da Estação Cidade Dutra?

Boa noite, até amanhã.