SÃO PAULO (sei não…) – Às vezes me pergunto por que a F-1, lá atrás em 2014, foi inventar esse negócio de motores híbridos. Me pergunto por que a F-1 se acha na obrigação de “passar mensagens” ao mundo, ainda que todo mundo saiba que são só da boca pra fora, papo pra boi dormir, pra inglês ver.
(“Pra inglês ver” é daquelas expressões que sobrevivem aos séculos, ainda que tenham nascido quando nenhum de nós era sequer projeto de gente — como “a ficha caiu”, que vai atravessar os tempos sem que as pessoas tenham a mais remota ideia de que ficha é essa que cai. Ela vem lá das primeiras décadas do século 19, quando a Inglaterra proibiu o tráfico de escravos e a abjeta elite luso-brasileira assinou tratados internacionais fingindo que os acatava, enquanto continuava traficando e escravizando gente. Em 1831 foi promulgada até uma lei que proibia o tráfico de africanos, a Lei Feijó. Que, naturalmente, era desrespeitada, sob a conivência criminosa das autoridades. Era só “pra inglês ver”.)
Falo da mensagem da eletrificação, da demonização dos combustíveis fósseis, da emissão zero de carbono prometida para 2030 (vão viajar como? De canoa?). OK, mensagens edificantes para a massa ignóbil que habita o planeta são sempre importantes, desde que sejam ouvidas, tenham efeitos concretos e não cheguem carregadas de cinismo.
Sem hipocrisia aqui. Ninguém compra carro com motor híbrido por causa da F-1. As pessoas compram carros com motores híbridos ou elétricos 1) para economizar dinheiro com gasolina e impostos; e 2) por uma consciência ecológica que, certamente, não foi despertada por Lewis Hamilton fazendo uma curva em Mônaco ou Charles Leclerc acelerando feito um maluco em Monza.
Fórmula 1 é corrida de carro, e corrida de carro é, sempre foi e sempre será uma coisa besta que, do ponto de vista ambiental, é uma aberração — se alguém do mundo das corridas quiser passar uma mensagem ecológica honesta, que pare de correr. E não estou falando só dos motores a combustão e de quanto eles gastam de gasolina e óleos em provas de duas horas de duração, no caso específico da F-1 (meu Gol bolinha é a álcool, pelo menos por isso não vou parar no inferno). Olhemos para o resto. Pensem no quanto se queima de combustível em navios e aviões para transportar toneladas de equipamentos para 24 etapas ao redor do mundo. No que se gasta no transporte de milhares de pessoas que se deslocam de um país para o outro todas as semanas em aeronaves movidas a querosene, e que precisam ir de casa para os aeroportos, e dos aeroportos para os hotéis, e dos hotéis para os autódromos — não fazem isso a pé ou de bicicleta. No que se torra de pneu — mesmo os não usados são jogados fora. No diesel que consomem os caminhões que carregam os motorhomes pela Europa. No que se desperdiça para montar e desmontar arquibancadas, decorar camarotes, tribunas, hospitality centers — adesivos, painéis de vinil, litros de tinta, luminárias, aparelhos de TV. No que se desembolsa com insumos para atender a essa gente toda, tudo de plástico, material descartável, não biodegradável. No que se usa de energia elétrica gerada sabe-se lá como para iluminar autódromos em corridas noturnas.
Alguém acha, mesmo, que é diminuindo a importância de motores a combustão que a F-1 está ajudando o planeta em alguma coisa? Alguém já parou para pensar no que é preciso para produzir essas baterias paquidérmicas que vão fornecer energia a um motor elétrico que vai entregar metade da potência para tirar os carros do lugar?
Façam uma conta comigo. Numa temporada de 24 corridas, com seis horas, no máximo, de atividades de por fim de semana, teríamos 144 horas de uso para cada carro. Vou fazer contas bem toscas e arredondando para cima, porque nenhum carro de F-1 fica seis horas rodando num fim de semana. Para chegar nesse tempo acumulado estou considerando três treinos livres de uma hora, mais uma hora de classificação e duas horas do limite de um GP, que normalmente acaba antes disso. Os motores V8 aspirados de 2,4 litros usados até 2013 consumiam, em média, 200 litros por corrida. Vamos multiplicar por três para cobrir todo o fim de semana e chegamos a 600 litros por cabeça com um capacete. 22 carros de F-1 consumindo 600 litros de gasolina por fim de semana de GP gastariam 13.200 litros de sexta a domingo. Num Mundial de 24 corridas, o total chegaria a 316,8 mil litros se todos, repito, ficassem seis horas ininterruptas queimando gasolina por fim de semana.
Um caminhão-tanque médio, como o que abastece o posto aqui do lado todos os dias, carrega 30 mil. Dez deles bastariam para uma temporada inteira de F-1. Dez dias do meu postinho de quatro bombas resolveriam o problema da categoria.
Convenhamos, o mundo não iria acabar por causa de uma categoria que gastasse dez caminhões de gasolina por ano. Vai acabar, claro, e espero que em breve, mas por outros motivos — não culpem a F-1, nem meus carros antigos nem meu Zippo.
Por isso acho que qualquer categoria de carros de corrida não tem de passar mensagem ecológica alguma. É cinismo. Cascata. Conversa. Papo-furado. A não ser aquelas como a Fórmula E — e é praticamente só ela, mesmo –, que nasceram com o propósito de pregar e praticar gestão energética, eficiência, sustentabilidade e tal. E está tudo bem, é uma visão das coisas, não tem absolutamente nada de errado com isso.
Mas esse caminho que a F-1 escolheu nega todo o passado, a origem e a natureza das corridas. Distorce um princípio básico das competições automobilísticas, cláusula pétrea que as define: ganha quem completa determinado percurso no menor tempo — portanto, percorrendo-o com a maior velocidade possível. Se você entrega a um piloto um carro que, para sair do lugar, exige que se tire o pé do acelerador numa reta, que não pode ser conduzido no limite daquilo que se entende como velocidade — da máquina e de quem a conduz –, está contrariando o postulado sobre o qual a modalidade foi erigida.
E essa parece ser a F-1 de 2026. Metade da potência elétrica não faz nenhum sentido. Ou o carro é elétrico, ou a combustão. O híbrido, que faz sucesso nas ruas, é para manobrar na garagem. Ou para ir à padaria. Carro de F-1 não se manobra na garagem. E ninguém vai à padaria com um carro de F-1.
Escrevi esse tratado todo, correndo o risco de ser cancelado pelo Greenpeace (que, pelos dogmas que defende e por aquilo que luta, teria toda razão em fazê-lo), para concordar com Max Verstappen.
Hoje, depois do segundo dia da pré-temporada no Bahrein, o holandês falou bastante sobre o assunto enquanto seu companheiro de Red Bull queimava borracha e um combustível produzido, sei lá, a partir de alguma lixeira do Mercado da Lapa. Destaco algumas frases:
“Como amante e entusiasta das corridas, gosto de pilotar no limite. E, no momento, não dá para dirigir assim.”
“Para mim, isso simplesmente não é Fórmula 1. Talvez seja melhor pilotar na Fórmula E, porque lá o foco é eficiência e gestão de energia. Em termos de pilotagem, isso aqui não é divertido. Parece um Fórmula E anabolizado.”
“Se falta energia para você andar no limite o tempo todo, isso afasta o esporte da sua forma tradicional de pilotagem.”
Dificilmente alguém vai falar mal dos novos carros com tanta sinceridade e desenvoltura. Talvez Fernando Alonso e Hamilton, os mais velhos do grid. A molecada, compreensivelmente, vai se calar. Até por falta de referências e instinto de preservação do emprego. E, também, por uma características das novas gerações: a de aceitar e normalizar qualquer despautério que o mundo lhes apresenta, como se tudo não passasse de algum desígnio divino, impossível de combater. Por essa postura apática, passiva, desinteressada, e não por outro motivo, surgiram no planeta recentemente excrementos como Jair Bolsonaro e sua família, Nikolas Ferreira, Javier Milei, Donald Trump, Benjamin Netanyahu, Silas Malafaia, e as guerras, os genocídios, o ICE, a uberização do trabalho, o vício nos celulares, os feminicídios, as redes sociais, os pedófilos da internet, Balneário Camboriú, a louvação à IA e toda sorte de absurdo que pessoas com um mínimo de lucidez têm enorme dificuldade de digerir.
Aí em cima está o resultado do segundo dia da pré-temporada no Bahrein. Lá no alto, três fotos de Leclerc, o mais rápido com 1min34s274 — ontem, Lando Norris virou 1min34s669, quase a mesma coisa. Fato relevante: a Mercedes voltou a ter problemas, agora com o motor; ontem tinha sido na suspensão, e em ambos os episódios a vítima foi Kimi Antonelli. Outra: a Aston Martin está em crise antes mesmo de começar o campeonato. “Estamos 4s atrás dos nossos rivais”, disse Lance Stroll. Quatro segundos! Alonso ficou irritado nos boxes. A primeira criação de Adrian Newey junto com a Honda, pelo menos por enquanto, não agradou.
Não há equilíbrio nos tempos, como se vê na tabela do meio. Mas isso tudo pode mudar, ainda tem quatro dias de treinos pela frente — amanhã e mais três na semana que vem. Por enquanto, calma.
E encerro com palavras de Norris, que rebateu a contrariedade de Verstappen com o que viu até agora sendo igualmente sincero. Fiquem com ele e até amanhã!
“Recebemos uma quantia absurda de dinheiro para pilotar. É diferente, tem de entender as coisas e gerenciá-las de forma diferente, mas continuo dirigindo carros, viajando pelo mundo e me divertindo muito. Então, no fim das contas, não podemos reclamar.”
