
SÃO PAULO (médio) – No fim das contas, deu a lógica. A Mercedes, que sonha em retomar o controle da F-1 perdido na última geração de carros (★2022 †2025), conseguiu uma previsível dobradinha no GP da Austrália na madrugada desde domingo em Melbourne. George Russell, o pole, venceu. Kimi Antonelli, segundo no grid, terminou em segundo. Charles Leclerc, da Ferrari, completou o pódio. Gabriel Bortoleto, na estreia da Audi na categoria, foi o nono colocado.
Russell venceu pela sexta vez na categoria. Sua equipe não fazia um 1-2 desde o GP de Las Vegas de 2024. Na ocasião, ele mesmo venceu, com Lewis Hamilton em segundo.
A corrida teve alguma dramaticidade antes mesmo de começar. Primeiro, Oscar Piastri rodou e bateu forte quando levava seu carro para o grid. O piloto da McLaren, correndo em casa, não poderia escolher lugar pior para cometer um erro tão desastroso. Na curva 4, ele estava sobre a zebra quando, segundo a equipe, trocou de marcha e uma potência inesperada (para ele) entrou de repente, fazendo seu carro dar uma chicotada para dentro. Foi erro seu?, perguntaram os repórteres assim que ele voltou aos boxes. “Sim”, respondeu. “Você está muito triste?” “Sim.” “É a maior desgraça da sua carreira?” “Sim.” “Você está com vergonha do que fez?” “Sim.” “O torcedor australiano tem o direito de te vaiar?” “Sim.” “Você não acha que está na profissão errada?” “Sim.”
O outro que nem largou foi Nico Hülkenberg, da Audi. Também estava indo para o grid quando seu carro apagou e foi recolhido aos boxes. Até agora não se sabe exatamente o que aconteceu – a equipe sabe, claro, mas vai dizer que foi um “problema técnico” sem especificar qual.
Com 20 carros no grid, pois, a primeira largada de 2026 foi dada depois de acesas luzes azuis na lateral da pista, indicando que os pilotos tinham 5s para acelerar os carros e “encher” o turbo antes que o tradicional semáforo de cinco luzes vermelhas autorizasse o início da prova. Leclerc saiu que nem um foguete, passou todo mundo e assumiu a ponta, vindo de quarto no grid. Na segunda volta, Russell recuperou a liderança. As primeiras voltas ofereceram ao público um passa-passa infernal, motivado por largadas muito distintas. Alguns carros voaram. Outros partiram claudicantes. Resultado: Fernando Alonso apareceu em décimo na primeira volta. Max Verstappen, em 16º. Liam Lawson caiu para 18º. Hamilton pulou para terceiro. Antonelli despencou para sétimo. Pierre Gasly surgiu em nono. Arvid Lindblad, em oitavo.
Na volta 3, no troca-troca gerado pelos diferentes níveis de bateria, Leclerc passou Russell de novo. A lógica da corrida, pelo menos nas primeiras voltas, era bem diferente da que estávamos acostumados a ver. Abrir uma boa vantagem para quem estava atrás não queria dizer muito. Porque em algum momento o sujeito ficaria sem energia onde o rival teria mais carga de bateria, e a aproximação aconteceria de repente.
Russell pegou a ponta de novo na volta 8. E perdeu novamente no fim da volta. Estava divertido, isso não se pode negar. Enquanto Leclerc e Russell trocavam tapas, Hamilton, atrás deles, observava atentamente e esperava alguma brecha para, quem sabe, passar os dois. Na volta 11, quem chegou para a festinha da ponta foi Antonelli, que já havia começado uma recuperação.
Nesse momento, Isack Hadjar parou com seu Red Bull fumaçando. “O que quebrou, Isack?”, perguntou o engenheiro. “Tudo”, respondeu o francês, desolado. O safety-car virtual foi acionado e quem estava passando pela entrada dos boxes parou e trocou pneus. Como houve certa demora na retirada do carro quebrado do acostamento, outros tiveram essa chance na volta seguinte. A dupla da Mercedes entre eles. Mas a Ferrari ficou na pista.
O ritmo normal foi retomado na volta 14 com Leclerc, Hamilton, Russell, Lindblad, Antonelli, Verstappen (já em sexto), Oliver Bearman, Bortoleto, Lando Norris e Esteban Ocon nas dez primeiras posições. Foi quando a Aston Martin chamou Alonso para os boxes, como se previa no âmbito da crise entre a equipe e a Honda.
Um novo safety-car virtual foi acionado na volta 18, quando Valtteri Bottas quebrou seu chiquérrimo Cadillac, estancando perto da entrada dos boxes. Quem não tinha parado ainda para trocar pneus aproveitou. Menos a Ferrari, de novo. Leclerc e Hamilton, mesmo se quisessem, não podiam mais parar porque na remoção do carro de Bottas a entrada dos boxes foi fechada.
Com exceção de Verstappen, que tinha largado de pneus duros e teve de trocar para médios, todos os que haviam feito seus pit stops colocaram duros com a intenção de ir até o fim da corrida. A dupla ferrarista seguia ponteando a prova com pneus médios, tendo ainda de fazer ao menos uma troca obrigatória. Leclerc, o líder da corrida, parou na volta 26. Voltou na quarta colocação.
Hamilton, o novo líder, tinha dito pouco antes ao seu engenheiro, de quem não sabia o nome, se tinha bigode, era careca, ou que língua falava, que seus pneus estavam bons e que não era para ser chamado aos boxes. O engenheiro não respondeu nada, entre outros motivos porque não entendeu o que Lewis tinha pedido. Frédéric Vasseur, ao seu lado, perguntou o que o piloto havia dito. “Nada importante, falou que está tudo bem e elogiou o ravioli vegano do almoço”, informou. “Também gostei”, concordou o chefe da Ferrari – que ainda não escolheu o coitado que vai trabalhar com Lewis neste ano, depois de rebaixar Riccardo Adami para a F-1 Academy, a categoria das meninas.
Seguiu na pista, o inglês, com Russell em segundo, Antonelli, Leclerc, Norris, Verstappen, Lindblad, Bearman, Bortoleto e Gasly nas dez primeiras posições. Naquele momento, a Aston Martin mandou Alonso de volta para a pista. Deu algumas voltas e parou de novo. Estava na hora do remédio para pressão.
Russell tomou a liderança de Hamilton na volta 28. O heptacampeão, então, foi para os boxes, trocou seus pneus e retornou às alamedas albertianas em quarto, atrás de Leclerc. Antonelli era o segundo, restabelecendo a ordem de largada com a Mercedes começando a rascunhar sua esperável dobradinha.
Mais atrás, Verstappen chegou em Norris na luta pelo quinto lugar. Na volta 35, Lando parou pela segunda vez para não levar um risquinho no capacete. E também porque seus pneus estavam acabando. Max assumiu a posição e o campeão vigente voltou em oitavo, discreto e desanimado como ele só. A Audi também chamou Bortoleto para um segundo pit stop, para devolver o brasileiro à pista com pneus novos na fase final da corrida. Caiu de nono para 11º, mas rapidamente voltou à posição original depois de passar Ocon e Gasly.
Verstappen também parou pela segunda vez na volta 42 e voltou em sexto, atrás de Norris. Na ponta, Russell e Antonelli desfilavam orgulhosos com a estrela de três pontas no bico. Seu Jorge já tinha avisado a equipe que seus pneus eram bons o bastante para ir até o fim da corrida. “Gostaria, inclusive, de parabenizar a Pirelli pelo excelente produto que nos disponibilizou”, falou pelo rádio. “Vejam, no meu carro de rua costumo usar Michelin, já que moro em Mônaco e os pneus franceses são mais fáceis de achar. Já comprei até no Carrefour! Vocês sabem que tenho um cartão de fidelidade que me dá ótimos descontos… Mas vou considerar a possibilidade de trocar de marca se encontrar bons preços perto de casa. Onde troco os pneus eles até dão balanceamento e alinhamento de graça. Outro dia mesmo levei meu…” “Alguém pode desligar o rádio dele?”, pediu Toto Wolff.
A diferença de Russell para Kimi se mantinha estável na casa dos 6s desde o início dos tempos. Não fazia sentido para a equipe inventar nada, mandar apertar o ritmo, liberar uma luta fratricida. Leclerc, o terceiro, estava 9s4 atrás do italianinho. Hamilton era o quarto e nem Mercedes nem Ferrari tinham planos exóticos para a reta final da corrida. Faltando 12 voltas, algo parecido com uma briga, mesmo, acontecia entre Verstappen e Norris pelo quinto lugar, e Gasly x Ocon se estapeando pela décima posição. Bortoleto, em nono, se aproximava rapidamente de Lindblad e já fazia planos de terminar pelo menos em oitavo.
O Max Verstappen queria passar. Tentava e tentava e não podia passar. Lambiase!, seu amigo, tentou ajudar. E o botão de ultrapassagem mandou apertar. E o que aconteceu? Nada, o Verstappen não fez nada.
Mas Bortoleto fez. Ou, pelo menos, tentou. Na volta 55, colou em Lindblad, que fez uma volta muito ruim quando teve de dar passagem aos líderes. O jovem britânico da Pode Parcelar em Três, 18 anos, filho de indiana com sueco, conseguiu se recuperar, porém, e a duras penas acabou se mantendo à frente do quatrargólico.
E nada mais aconteceu digno de nota nas duas voltas finais. Russell ganhou com 2s9 de vantagem para Antonelli, que conseguiu seu quarto pódio na carreira. Leclerc foi com eles buscar seu troféu. Hamilton, Norris, Verstappen, Bearman, Lindblad, Bortoleto e Gasly fecharam os dez primeiros. Se notarem, eram as mesmas posições registradas na metade da corrida, depois dos primeiros pit stops. Arvid, o garoto da filial da Red Bull, estreou com pontos. Está de parabéns. O mesmo vale para a Audi de Bortoleto: primeira corrida da montadora de Ingolstadt, primeiros pontos na F-1. Bearman, da Haas, foi outro que se destacou no segundo escalão – é um piloto que às vezes se atrapalha em classificações, mas vai muito bem em corrida. Oito das 11 equipes chegaram nos pontos. Apenas Williams, Cadillac e Aston Martin zeraram.
Foi legal? Foi. Excepcional? Não. Um desastre? Tampouco. Foi uma corrida OK, divertida nas dez primeiras voltas, enquanto as baterias carregavam e descarregavam com todos muito próximos, sem tempo de olhar direito as informações no volante. Uma vez estabelecidas as posições, cada um tratou de gerenciar sua energia da melhor forma possível e o festival de ultrapassagens, que Russell chamou de “efeito ioiô”, cessou. O maior incômodo, mesmo, foi ver carros ficando lentos antes do final das retas, deixando seus pilotos agoniados para se defender ou atacar. Não há o que fazer. A bateria acaba, a potência despenca e a velocidade desaparece de repente. É bem chato.
Semana que vem tem mais, na China. Lá tem uma reta gigantesca. Capaz de, na metade dela, os pilotos precisarem descer de seus carros para empurrar.
Amanhã, no “Sobre ontem…” falaremos da volta da F-1 à Globo. Agora vou dormir.