Arquivosegunda-feira, 5 de dezembro de 2005

Aos órfãos do blog antigo…

A

…não se apavorem. Eu nem sabia que o blog do Grande Prêmio tinha sido substituído pelo novo. Mas colocarei temas para vocês discutirem como a gente fazia durante a temporada. Por exemplo, a trepidante pergunta que oito em cada dez pessoas que me encontram fazem: “E o Rubinho na BAR, hein?”. A maioria não sabe que não existe mais BAR. As outras duas querem saber do Massa na Ferrari, formulando a questão assim: “E o Massa? Esse moleque é bom, hein?”. Pronto, eis dois temas emocionantes para quem quiser discutir. Quanto a mim, especular sobre isso dá sono.

Frase do dia

F

Para fechar o dia, porque vou para a TV. Ontem levei meus filhos e um amiguinho deles ao shopping para comer besteiras e ver presentes. O garoto é um barato. Tudo que meus filhos dizem que têm, ele diz que tem também. Tudo que eu digo que faço, ele diz que sabe fazer também. Um fenômeno de sete anos de idade.

Fomos de Karmann-Ghia. O carro está com a pintura meio encardida e eu disse que precisava polir o bichinho. O garoto: “Eu sei polir carro”. Diante de tal habilidade, incomum para garotos de sete anos, perguntei: “Rapaz, você sabe tudo! Tem alguma coisa que você não sabe fazer?”

E ele: “Não sei domar leões”.

Até amanhã.

Fumacinha vermelha…

F

Hummm… Newey sai da McLaren, vai para a Red Bull, que usa motor Ferrari, que quer Kimi, que vai ficar puto se a McLaren fizer um carro ruim no ano que vem, sem o Newey, que por sua vez vai ficar amiguinho da turma da Ferrari, que quer o Kimi… Anote aí: Raikkonen vai correr na Ferrari em 2007.

Ode aos calhambeques

O

Gosto desse texto, que escrevi para a “4 Rodas” uns meses atrás. Saiu com alguns cortes, então vai a íntegra…

Eles fazem sorrir

Por Flavio Gomes*

Não queira ter uma relação com seu carrão cheio de botões, reboque cromado para não puxar nada, flex powers, trios elétricos, fly by wire, e ABS igual à que eu tenho com os meus. Você vai perder.

Meus carros têm nome, eu converso com eles e entendo o que se passa no seu coração. Ninguém olha para você nesse esquife filmado com vidros escuros como o breu. Para mim, todos olham e acenam.

Se o seu carrão pifar no meio da rua, ou numa estrada no fim do mundo, ninguém vai parar para te ajudar. E se alguém se aproximar, você vai achar que é ladrão. Se um dos meus estancar no meio da avenida mais movimentada de São Paulo, vem um monte de gente para empurrar. E é o pai de um que teve um igual ao meu, o tio do outro que dirigia um táxi idêntico, a avó de um terceiro que ainda tem o seu guardado na garagem que só usa para ir à feira, e se eu não souber o que fazer para ele pegar de novo, alguém saberá.

Meu kit de sobrevivência nas ruas é barato. Um joguinho de ferramentas, desses que se compram em camelôs, com uma chave de fenda, um alicate, algumas chaves de boca. Um frasco com gasolina para jogar no carburador de vez em quando, um galão de água para refrescar o radiador. Oh, que coisa mais primitiva, dirá você.

OK. Tenha uma pane no seu carrão eletrônico para ver o que acontece. Nem tente abrir o capô. Você não sabe o que tem lá dentro. Cuidado, ele pode te engolir. Torça para o celular estar com o sinal pleno e chame um guincho, a seguradora, o papa. Sente e espere. Seu carrão só vai funcionar de novo quando conectarem um laptop nele. E prepare o talão de cheques.

Meus carros, não. Têm carburadores, distribuidores, diafragmas, bobinas e velas, tudo à vista. Sei quando o piripaque é na bomba de gasolina. Sei quando é sujeira da gasolina. Sei assoprar um giclê. Aliás, sei onde fica o giclê. Procure algo parecido na sua injeção eletrônica.

Seu carro é um emérito desconhecido sem história ou currículo. Os meus têm 40 anos ou mais, já passaram por muita coisa nessa vida, e quando saíram de uma concessionária, décadas atrás, estacionaram na garagem em forma de sonho realizado. Carro fazia parte da família, antigamente.

Ah, mas o meu tem ar-condicionado, disqueteira e controle de tração, dirá você. Sim, mas você nunca terá o prazer de dirigir de vidros abertos e cotovelo para fora da janela, meu rádio toca as mesmas músicas, e não me faça rir com o seu controle de tração. Quantas vezes ele foi necessário?

Além do mais, existe um negócio chamado prazer. Prazer de ter algo que lhe é caro e precioso, mesmo que não valha muita coisa. Carros iguais ao seu todo mundo tem. Vejo aos milhares todos os dias, e nenhum deles tem a cara do dono. Os meus têm. E quando eles quebram, eu mesmo conserto. E eles me agradecem andando de novo, fazendo com que as pessoas sorriam quando passam, fazendo barulho e soltando fumaça.

Não há nada como um automóvel que faça alguém sorrir.

* Flavio Gomes, 41, é jornalista, tem sete DKWs, cinco Volkwagens e uma Lambretta, todos fabricados entre 1958 e 1970. E mais umas coisinhas escondidas que não revela nem sob tortura, porque não está a fim de se divorciar.

Sugestão de presente de Natal

S

Meu livro, claro! “O Boto do Reno” anda meio encalhado e não se encontra em grandes livrarias. Por quê?, há de perguntar o infeliz do leitor. Porque para entrar em grandes livrarias e ficar do lado do Paulo Coelho, tem esquema. Portanto, comprem pela internet mesmo, é só entrar em www.gptotal.com.br e ficar clicando até te pedirem o número do cartão de crédito. É o meu melhor livro.

Escolha de boiola

E

A “Autosport” deu a Tiago Monteiro o título de melhor estreante do mundo. Em tudo, contando F-1, IRL, DTM, WTCC, WRC, GP2, A1GP e as letras mais que você quiser escolher. OK, o portuga não foi mal, claro que não. Mas isso é coisa típica de inglês, olhar apenas para o umbigo mais próximo. Na boa, a Danica Patrick foi uma “rookie” bem melhor. Deixou para trás o checo-jamaicano Tomas Enge e o australiano Ryan Briscoe, que pelo que me consta andaram bastante de F-1. A mocinha fez muito mais que o portuga. E não tem bigode.

A bênção, padinho

A

A Ferrari foi visitar Bento XVI. No ano passado, foram a João Paulo II, e não só a equipe não andou nada, como o coitado do papa morreu. Bem, não façamos associações indevidas. Pelo que ando vendo, só reza braba não vai resolver. Talvez o pessoal de Maranello deva se voltar mais para o Oriente. Mandar benzer a borracha, por exemplo, lá onde Buda perdeu as botas.

LESA-KOMBI

L

Vejam só que graça… Como podem querer colocar um radiador numa belezura dessas? Proteste! Motor a ar não gasta água, o mundo está ficando sem água, li isso em algum lugar.

Mande seu currículo

M

Não para mim, por favor. Mas se quiser trabalhar numa equipezinha novata, cheia de amor para dar, boa sorte: http://www.superaguri-f1.com/. Pelo jeito estão precisando de gente para limpar o capacete do Sato, essas coisas. Se o local de trabalho for mesmo a fábrica antiga da Arrows, em Leafield, prepare-se. O que de mais emocionante há na região é ver carneirinhos e ovelhinhas comendo grama. O charme de Leafield é uma estação de rádio de onde, dizem, Marconi fez sua primeira transmissão. Acho que é mentira, mas foi o que os caras da Arrows contaram quando estive lá, alguns anos atrás.

Cheguei. Atrasado, mas cheguei.

C

Quando digo atrasado, é atrasado mesmo. Como o cara que esquece do casamento. Ou a noiva que falta. Cheguei atrasado à era dos blogs, em primeiro lugar. Embora meu guru Carlos Leonam, que escreveu o prefácio do meu livro, tenha dito que ele, o livro, nada mais é do que um precursor dos blogs. Em termos. Pelo que entendi, blog é coisa de todos os dias.

Anos atrás, na faculdade, acho que fiz um blog. Um professor não sei do quê nos pediu para escrever todos os dias. Qualquer coisa. Dia desses achei os escritos. Eu escrevia muito bem na época. Vou procurar de novo e se tiver paciência, coloco aqui.

Cheguei atrasado também no dia da estréia. É de bom tom começar o dia cedo, num blog. Mas meus dias nunca começam muito cedo, exceto quando tenho corrida em Interlagos. Sábado saí de casa às 6h30. De Kombi. Um vizinho me perguntou se eu tinha virado feirante.

Falando em Kombi, é uma das bandeiras que passarei a defender aqui. Preservem as Kombis! A Volkswagen vai acabar com os motores a ar. Lançaram uma série especial, 200 unidades, a 40 paus. Estou sem grana para comprar uma. Mas sei que na Inglaterra estão em polvorosa, os fãs dos motores a ar. Estão comprando todas. Farei uma campanha pelas Kombis igual à do Feltrin, do Ooooops!, pelos patos. Patos, que, a propósito, adoro devorar. Não tenho nada a aprender com os patos, nem com os gansos.

Bem, estamos no ar. Alea jacta est.

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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