PREZINHO (1)

Os tempos do dia #1: massacre rubro-taurino

SÃO PAULO (u-hu) – Talvez o melhor mesmo, hoje, seja abrir esta profunda análise do primeiro dia da pré-temporada da F-1 no Bahrein com uma tabela de tempos. Fria, direta, objetiva. Esteticamente nem muito bonita, embora já tenhamos nos acostumado com as fontes que se chamam F1 Reg, F1 Turbo e F1 Torque, pelo que li num site aí, e que podem ser baixadas aqui, creio — não reclamem se vier algum vírus.

Uma tabela de tempos não deixa muitas dúvidas no ar. Quando se vê que Max Verstappen completou 142 voltas sem sequer um ranger de mola no banco do passageiro, quando o cara enfia 1s140 no segundo colocado, quando se pesquisa a pré-temporada de 2023 e se descobre que o carro da Red Bull foi 1s5 mais rápido que neste mesmo momento do ano passado (1min32s827 em 23 de fevereiro com o mesmo Verstappen), quando seu engenheiro Gianpiero Lambiase aparece rindo no momento em que o piloto mete 0s8 em Lando Norris por este ter ousado assumir a liderança da folha de tempos, e quando se vê onde começaram Mercedes, Ferrari, McLaren e Aston Martin, não precisa mais falar muita coisa.

Se é a pergunta que todos fazem antes de começar um campeonato que precisava ser respondida hoje, respondida está. Ah, mas ainda é cedo, ninguém sabe o que cada equipe está testando! É um clichê tão válido quanto qualquer outro, e normalmente clichês embutem verdades. É verdade: ninguém sabe o que cada equipe está testando. Não em detalhes, minúcias, pormenores, miudezas. Mas sabe-se que todas estão testando… carros.

A sequência de fotos abaixo não me deixa mentir. São carros.

As dez equipes, com 18 pilotos, passaram o dia andando, testando, experimentando, avaliando, fazendo tudo que é necessário para se preparar para a corrida que abre o Mundial na semana que vem no mesmo circuito. Apenas Lewis Hamilton e Sergio Pérez ficaram assistindo. Red Bull e Mercedes optaram por cumprir o primeiro dia com um piloto só. Os dois vão à pista amanhã. Em algum lugar aí embaixo publicarei a escala de trabalho até sexta-feira, quando terminam os testes.

As atividades foram autorizadas a partir das 10h locais, 4h de Brasília. Seguiram até o comecinho da noite, 19h lá no deserto, com um intervalo para quibes e esfirras no almoço. Certamente é a primeira vez na vida que escrevo “esfirra” com dois erres. Claro que muito mais elegante é grafar “esfiha”, assim como é estranho transformar “staff” e “stand” em “estafe” e “estande”, mas a língua é dinâmica e devemos aceitar certas evoluções. Muitas palavras de origem estrangeira foram aportuguesadas ao longo do tempo. Não fosse assim, ainda escreveríamos “beef” em vez de “bife”, ou “football” no lugar “futebol”, quiçá “abat-jour” ao invés de “abajur”.

(Antes de falar dos resultados, algumas irrelevâncias. A antiga AlphaTauri, agora Visa Cash App RB, vai aparecer nas tabelas oficiais apenas como RB. E a antiga Alfa Romeo, rebatizada pela Sauber (que toca a operação) como Stake (um de seus patrocinadores), apareceu como Kick Sauber. Kick também é um patrocinador, um negócio aí de videogames. Pessoalmente, já tinha decidido chamar a Sauber de Sauber, e acho que será assim até o fim da temporada. Quanto à bandeira de cartão de crédito, chamo até de Mastercard, se me pagarem bem. Mas, por enquanto, para não confundir com a Red Bull, acho que vou respeitar a Visa. Sei lá, ainda não cheguei a uma conclusão. Se sair outra coisa vocês vão conseguir identificar. E como ninguém mais lê blog, mesmo, acho que tanto faz.)

Três dias inteiros, podendo andar de manhã, de tarde e de noite é algo muito útil para todas as equipes e pilotos. Consegue-se acumular informação suficiente para todas as condições possíveis, exceto chuva. Não chove no Bahrein. No ano passado, o acumulado no país foi de 55,2 mm — o ano todo, reforço. Ontem choveu isso em meia hora em Embu das Artes. Vi no Datena. Senti falta ontem no Datena do delegado Nico. Gosto muito do delegado Nico, ele está sempre com cara de cansado, a gravata afrouxada, a barba por fazer, e tem uma pizzaria, um boteco, uma hamburgueria e uma cantina. Todos muito bons, pelos lados do Ipiranga.

Lambiase: o sorriso diz tudo

O delegado Nico, citado aleatoriamente, não sorri como Gianpiero Lambiase, engenheiro de Verstappen. Ele foi flagrado pelas câmeras que transmitiam os treinos no momento em que o holandês fez 1min31s662, a pouco menos de duas horas do final da sessão de hoje. Pouco antes, Norris tinha registrado um tempo melhor, desbancando o tricampeão mundial da ponta pela primeira vez. Max deu um recado que me pareceu claro: é só acelerar um pouquinho que tudo bem. Depois acelerou ainda mais e virou 1min31s344, a melhor volta do dia/noite. Vale lembrar, como referência: em 2023, ao final dos três dias, o melhor tempo de todos foi de Sergio Pérez, 1min30s305.

O RB20 com sua aerodinâmica peculiar: oooooh!

Quando apareceu sem disfarces à luz do sol, o carro de Verstappen causou furor em redes sociais, todos espantadíssimos com dois detalhes que as fotos do lançamento não tinham — propositalmente — deixado muito claros: um troço chamado “inlet”, que a gente pode traduzir como entrada de ar, e a função clara e escarrada desses dois calombos, ou ombreiras, que saem das extremidades do halo e percorrem as laterais da cobertura do motor.

A pequena entrada de ar vertical colada nas laterais do carro (na foto não dá para ver direito), estreitíssima, não precisa levar ninguém à loucura. É só uma entrada de ar. Tem muita coisa para refrigerar debaixo do capô. Há outra, horizontal, igualmente estreita, que tem sido chamada de “letterbox”, por lembrar aquelas frestas que encontramos em caixas de correio. Os dois tubões laterais me parecem mais interessantes. Terão funções de arrefecimento, claro, mas acho que a missão aerodinâmica dessas estruturas que lembram túneis é mais nobre. Seja como for, chama a atenção o fato de Adrian Newey dar uma radicalizada num projeto que, no ano passado, ganhou 21 de 22 corridas. Eu tiraria férias e disputaria o campeonato com o mesmo carro. Mas é por isso que ele é o Adrian Newey e eu fico apenas deitando regra aqui.

Como todas as outras equipes fizeram tempos patéticos, comparados com os de Verstappen, está na cara que ele será campeão de novo. Sim, ninguém sabe o que cada um está testando. Mas insisto: estão testando carros que precisam ser rápidos. Tirando o RB20, nenhum foi. Podem vir a ser? Claro. Mas vai levar algum tempo. Enquanto isso, a Red Bull já parte com um foguetinho muito simpático.

As outras que lutem.

DTS – Ou “Drive to Survive”. Os enzos que acham que a F-1 nasceu em 2019 com a série da Netflix estão excitadíssimos com a estreia da sexta temporada, prometida para sexta-feira. A plataforma de streaming divulgou os títulos dos dez episódios, que estão na primeira foto da pequena galeria acima. Como se vê, tiveram de correr com o último deles, surpreendidos que foram pelo anúncio de Hamilton de que vai para a Ferrari. Devem ter jogado fora alguma coisa com Günther Steiner. Espero que seja melhor que as últimas. “DTS” começou bem, mostrou algumas coisas que os fãs não estão acostumados a ver, mas depois da terceira temporada caiu na mesmice.

GIL – Bonita a homenagem de Lando Norris a Gil de Ferran. Não é com esse capacete que ele vai disputar o Mundial (deve mudar várias vezes), mas faz um tributo merecido e comovente a um nome importante para a McLaren e para a história do automobilismo. E querido por todos. A morte de Gil, no final de dezembro, ainda é difícil de digerir.

TRAMPO – Na penúltima imagem, a listagem de quem anda e quando nos testes. Como se nota, Ferrari, Aston Martin e Visa Cash dos Infernos ainda não definiram toda a programação. Hoje, 1.232 voltas foram completadas. A Haas, com 148, foi a que mais andou. A Williams teve problema de bomba de combustível, perdeu tempo nos boxes e percorreu 61 — a única abaixo de uma centena.

A turma de 2024: repetentes

OS MESMOS – A Liberty/FOM colocou essa foto aí nos perfis oficiais da categoria. É a turma de 2024, igual à de 2023, que normalmente posava numa pista, no grid, diante do semáforo que dá a largada para uma corrida. Desta vez foram todos a um estúdio que lembra o provódromo do BBB, convocados por Tadeu Schmidt. Faltou o capacete do Sargeant. Depois o estagiário coloca.

E CHRISTIAN HORNER? – Apareceu, o chefe da Red Bull, sem uniforme da equipe. E vestindo roupas da AlphaTauri — a grife, não a extinta equipe. A boataria é intensa na imprensa europeia. Uma rádio finlandesa (!), citada por sites ingleses, informou que em 28 de fevereiro ele se despede do time, um dia antes da abertura oficial do campeonato — as primeiras sessões de treinos para o GP do Bahrein acontecem dia 29. Especulam-se muitos nomes para uma eventual saída: David Coulthard (ex-piloto, embaixador da marca, ainda contratado da equipe), Otmar Szafnauer (ex-Aston Martin e Alpine), Mattia Binotto (ex-Ferrari) e Oliver Oakes (da Hitech) são alguns deles. Internamente, Pierre Waché e Jonathan Wheatley, que ocupam posições importantes no time, poderiam ser promovidos. A ver.

LIÇÃO – Mas o caso não passou em branco no primeiro dia de testes no Bahrein. Toto Wolff, chefe da Mercedes, falou em entrevista coletiva que o episódio deve servir como lição para todos na F-1, uma categoria que prega a diversidade, respeito etc. etc. etc. “Temos de viver segundo os padrões que defendemos. Somos uma categoria mundial que tem de servir de exemplo”, disse.

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HORNER E A FORD

SÃO PAULO (que se vire) – Christian Horner, de acordo com o jornal holandês “De Telegraaf” (que revelou a investigação interna da Red Bull), estaria sendo acusado de enviar mensagens a uma funcionária da equipe que configurariam assédio sexual. Teria oferecido um acordo na casa de 650 mil libras (cerca de R$ 4 milhões) para encerrar o caso, valor que teria sido rejeitado pela vítima.

Como dá para notar, estou usando os verbos todos no futuro do pretérito — no condicional, se preferirem. Porque se trata de acusação séria ainda não comprovada e, de acordo com o acusado, falsa. O mesmo vale para o suposto acordo. Não duvido das fontes do jornal holandês, mas em certos casos é melhor ser cauteloso. Jamais desqualificar denúncias é outra regra que sigo. Se alguém está acusando, que se investigue.

Antes de demonizar ou beatificar Horner, portanto, prefiro esperar por informações mais precisas. Se o cara tiver sido um escroto, que aguente as consequências. E estou me lixando para o que vai acontecer com sua carreira, com a Red Bull, com Verstappen, Pérez e quem quer que seja. Minha empatia estará sempre ao lado da vítima.

Há, porém, uma consequência esportiva à qual também devemos estar atentos: a associação da equipe com a Ford, que valerá a partir de 2026. Dirigentes da montadora já falaram que, dado o caráter familiar (!) da empresa, estão muito atentos a qualquer desvio que possa ter sido cometido por parceiros. Ah, o puritanismo americano…

De qualquer forma, reforço, me preocupo muito mais com as vítimas desses casos do que com as consequências para aqueles que estão envolvidos, ainda que indiretamente. Pilotos, mecânicos, técnicos, engenheiros, investidores, patrocinadores e executivos em geral que não são culpados de nada saberão se virar. E têm todos os meios para isso.

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ENCHE O TANQUE

SÃO PAULO (merece) – Bom saber que o brother Rafael Suzuki, rei da Zona Norte, garantiu um patrocínio master para a temporada da Stock. É um batalhador, que será apoiado pela jovem RodOil, quinta maior distribuidora de combustíveis do Brasil, com 550 postos de bandeira própria e mais de dois mil atendidos em oito Estados. A empresa foi fundada em 2006. Gosto de redes com postos ajeitadinhos, como esse aí em cima. Já parei em alguns RodOils pelas estradas do Brasil e curti muito: limpos, modernos, equipamentos de primeira, lojas de conveniência de qualidade, você se sente seguro e bem atendido. Me lembram os postos de gasolina nas Autobahnen da Alemanha. Sou apaixonado por eles.

Suzuki começou a parceria comercial com a distribuidora no ano passado. Terminou o campeonato em sexto e conquistou quatro pódios. Chegou a lutar pelo título. Corre em 2024 pela TMG Racing, com um Chevrolet Cruze. A temporada começa dia 3 de março em Goiânia.

“Apoiar o automobilismo no Brasil é fundamental”, disse o presidente da empresa, Roberto Tonietto. “Só assim é possível promover o esporte.” Acho importante, mesmo, grupos como a RodOil utilizarem o esporte para construir uma imagem de credibilidade num mercado que, nos últimos anos, foi infestado por redes suspeitíssimas que pipocam por aí — falo de postos de gasolina que só de olhar dá medo, do que vão colocar no seu carro e de quem é dono…

Se associar a uma equipe da Stock e a um piloto como Suzuki ajuda bastante. Corrida de carro é coisa séria. Posto de gasolina, também. Não à toa, temos até uma seção neste blog dedicada a eles.

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RED BULL RB20: UMA FRASE DE CADA

SÃO PAULO (simples e direto) – Durou exatamente meia hora a apresentação online do novo carro da Red Bull, o RB20. Foi em Milton Keynes, onde fica a fábrica do time. Fiz questão de assistir tudo em busca de sinais. Traduzindo: queria ver como Christian Horner seria tratado.

Pois ele aparece, e bastante, no clipe mostrado no início da cerimônia, que celebrou os 20 anos da “cultura Red Bull de corrida”, como a empresa definiu suas duas décadas de F-1. A estreia se deu em 2005 e esta será a vigésima temporada dos rubrotaurinos na categoria.

Horner também esteve presente ao evento, que foi dos mais enxutos. Ele, Adrian Newey, Pierre Waché (francês, diretor-técnico da equipe) e os pilotos, além de David Coulthard, primeiro contratado pela marca de energéticos e seu embaixador até hoje. Logo de cara, a apresentadora mostrou a primeira taça conquistada pela Red Bull, com o terceiro lugar do escocês em Mônaco em 2006. Ao lado dela, o troféu de campeão mundial de Max Verstappen.

A transmissão pelo YouTube foi acompanhada, no auge, por 150 mil pessoas simultaneamente. Coulthard lembrou os primeiros passos da equipe e elogiou Newey, “que ainda usa lápis para desenhar” os carros que dominaram as duas últimas temporadas. Horner lembrou os recordes obtidos em 2023 — o mais impressionante, de 21 vitórias em 22 corridas — e disse que foi “um ano mágico”. Newey emendou: “Foi uma surpresa para a gente, porque o carro era só uma evolução do de 2022. Ficamos chocados”.

Horner, alvo de investigações internas da Red Bull por “comportamento inadequado”, ainda disse que a equipe soube ser resiliente depois de conquistar quatro títulos com Vettel, de 2010 a 2013, tendo de aguentar o domínio da Mercedes. “A partir de 2014, não tivemos um motor que nos permitisse lutar pelo campeonato. Ainda assim, ganhamos corridas. Quando tivemos de novo um motor competitivo, voltamos a vencer”, falou, espetando a Renault e exaltando a Honda, sem citar nenhuma das duas.

Às 16h54, horário de Brasília, apareceram o carro e Verstappen ao lado de Sergio Pérez. Junto deles, Horner de novo. Cada um disse exatamente uma frase. “É sempre legal ver um modelo novo, mas de minha parte só estou pensando nos testes do Bahrein, para entender o carro e começar a trabalhar”, falou o holandês. “Deve ser outra grande temporada”, acrescentou o mexicano. “O carro é uma evolução do que tivemos no ano passado, mas com uma abordagem agressiva, nada conservadora”, completou o dirigente.

E a solenidade terminou com um breve vídeo do RB1 pilotado por Coulthard andando ao lado do RB20, com Verstappen, em Silverstone, na chuva. Ponto final, transmissão encerrada.

Achei pouco, e fui atrás de gente que pudesse me dar mais detalhes sobre… tudo. Não conheço muitas pessoas na Red Bull de hoje, e depois de pedir alguns contatos a amigos, me passaram o telefone de um técnico — não sei bem qual sua área de atuação — que me deu breve entrevista. Pediu que seu nome não fosse revelado, e é claro que concordei em omitir sua identidade. Para todos os efeitos, apelidei o indigitado de “Peter Littlebox”. Segue a conversa.

O ano passado foi excepcional. Acho que é justo perguntar se vocês consideram possível repetir os resultados de 2023.
Peter Littlebox – A equipa é muito realista. Sabemos que a última época foi acima da média e que é difícil fazer tudo igual. Mas vamos nos esforçar para tal. Se conseguirmos, podemos considerar que fomos bem-sucedidos.
Mas aquele número de vitórias, as boas sequências… Não acha que a concorrência em 2024 pode vir mais forte?
Peter Littlebox – No desporto, as previsões vão por terra quando as competições começam. Conhecemos a força de nossos adversários. O que conseguimos em 2023 foi graças ao trabalho, não à sorte. Se ferradura trouxesse sorte, burro não puxava carroça.
No ano passado pudemos observar características muito próprias do time. Quais o senhor considera mais fortes, decisivas mesmo?
Peter Littlebox – A velocidade, antes de mais nada. Temos de atuar sempre com velocidade. Velocidade e consistência. E equilíbrio. Saber quando acelerar, saber quando dosar o ritmo. Essa é a chave para que nossos putos consigam os resultados que pretendemos. E não podemos cometer erros. Cometemos alguns na última época, erros individuais que não podem se repetir.
Em classificações, por exemplo…
Peter Littlebox – Exacto. Em algumas situações fomos eliminados precocemente. Mas prefiro não citar nomes.
Haveria alguma rivalidade interna na equipe?
Peter Littlebox
– Aqui falamos pouco e trabalhamos muito. A galinha que canta como o galo corta-lhe o gargalo. Temos de manter o bom ambiente.
Falando nisso, os últimos acontecimentos abalaram o moral do time?
Peter Littlebox
– Acho que não percebi o que estás a perguntar…
Falo desses episódios rumorosos envolvendo pessoas da alta cúpula da organização…
Peter Littlebox – Continuo sem perceber exactamente, mas para não alimentar mexericos, digo sempre: a roupa suja lava-se em casa. No mais, como dizemos, mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo.
O senhor diria que, no geral, o que vimos hoje é uma evolução ou uma revolução do que foi apresentado no ano passado?
Peter Littlebox – Não faria sentido mudar radicalmente o que pensámos e executámos em 2023. Sabemos a direção a seguir. Temos de fazer tudo com calma. Mais vale um pé no travão que dois no caixão, é o que digo sempre.
Nas últimas semanas, um rival direto fez uma contratação bombástica…
Peter Littlebox
– Pois fizeram muito bem. Com vinagre não se apanham moscas.

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MERCEDES W15: MELANCOLIA PROFUNDA

SÃO PAULO (triste, triste…) – O clima não foi de festa na apresentação do W15, o novo carro da Mercedes, nesta quarta-feira. Ao contrário, era visível o mal estar entre os integrantes da equipe duas semanas depois da notícia que abalou a F-1 — e os prateados em particular: a saída de Lewis Hamilton do time no final do ano, depois de 12 temporadas defendendo a estrela de três pontas.

O chefe Toto Wolff, por exemplo, não demonstrou nenhum entusiasmo com o novo carro e evitou fazer previsões otimistas. “Temos uma montanha para escalar”, disse. Ninguém falou em recuperar o título; no máximo, um desejo de se aproximar da Red Bull. Vice-campeã no ano passado, a Mercedes passou o ano em branco, sem vitórias. Foi a primeira vez que isso aconteceu desde 2013, quando Hamilton chegou ao time. O último triunfo aconteceu em 2022 em Interlagos, com George Russell. São duas temporadas sob o novo regulamento batendo cabeça, primeiro com um carro inguiável, depois com um sucessor igualmente imprevisível e difícil de dirigir.

O modelo mostrado em Silverstone é bem diferente de seu antecessor. A Mercedes percebeu, já no começo da última temporada, que teria de partir de uma folha em branco para desenhar o carro de 2024. Recuou a posição do piloto no cockpit em cerca de 10 cm — há quem fale em 20 cm. Abandonou conceitos aerodinâmicos que simplesmente não funcionaram, alterando radicalmente o desenho da traseira do carro. Seus projetistas se concentraram em aumentar a eficiência da asa móvel, que no ano passado não ajudava muita coisa na velocidade em retas. As suspensões foram modificadas, para mitigar o crônico problema de aquecimento dos pneus.

Vai dar certo? O cronômetro dirá. James Allison, que chefia o departamento técnico da Mercedes, falou que o W15 será meio segundo por volta mais rápido que o W14. É chute, apenas uma ordem de grandeza — cada pista é de um jeito; meio segundo em Interlagos é muita coisa, em Spa não é nada. Mesmo assim, tal melhora não será suficiente para bater a Red Bull — que também virá mais rápida em 2024.

Hamilton desfiou platitudes em suas declarações no comunicado oficial de lançamento, que foram impressas depois das aspas de Russell. Parece claro que as preferências na Mercedes passarão a recair na direção do jovem condutor do carro #63. Lewis, por sua vez, terá um ano que tende à melancolia, caso os resultados não sejam, logo de cara, aqueles que os alemães estão esperando. Na Mercedes de 2024, mais do que qualquer outra coisa, a prioridade será buscar um substituto para seu grande campeão.

Esse ambiente meio sorumbático chamou a atenção de todos, e por isso procurei com afinco falar com alguém que pudesse explicar exatamente o que estava acontecendo nesta quarta-feira fria e chuvosa nos arredores da fábrica. Apenas no final da noite encontrei uma figura importante, que só topou dar a entrevista que segue se sua identidade não fosse revelada. Assenti, mas inventei um nome qualquer sem qualquer significado — “Pebolim Lobo” — para que a sequência abaixo ficasse mais clara.

Achei vocês todos meio abatidos hoje. Muito trabalho, é isso?
Pebolim Lobo
– Sim, tivemos de mexer muito no carro de última hora.
Algum problema com o projeto?
Pebolim Lobo
– O piloto que não falo mais o nome pediu para sentar mais atrás no cockpit. Quando fizemos seu banco, ele não alcançava os pedais.
Isso é bem sério. Resolveram como?
Pebolim Lobo
– Almofadas.
Almofadas?
Pebolim Lobo
– Na verdade estávamos redesenhando o carro e fabricando novas peças. Aí veio aquela notícia. Ele que se vire, agora.
Mas é algo que pode prejudicar sua pilotagem. Piloto precisa se sentir confortável…
Pebolim Lobo – Ele está confortável. Colocamos almofadas. Contra minha vontade, inclusive. Por mim, enchiam de jornal velho e papelão. Mas parece que não mando mais nada aqui.
Como assim?
Pebolim Lobo – Depois daquela notícia, ordenei que o carro novo fosse zeropod outra vez. Era só pegar o do ano retrasado. E mandei colocar chumbo na traseira. Ele não passou o ano reclamando da traseira solta? Então era só aumentar o peso. Mas disseram que isso poderia prejudicar a equipe, que temos uma reputação a zelar, essa bobagem toda.
Se vocês tivessem dado ouvido às sugestões dele, talvez o carro do ano passado não fosse tão instável…
Pebolim Lobo – Se tivéssemos ouvido as sugestões dele, passaríamos a vida comendo brócolis, couve-flor e broto de bambu. E bebendo leite de soja.
Bem, o fato é que a equipe precisa reagir. O que norteou o planejamento para 2024?
Pebolim Lobo
– Gastamos muito dinheiro refazendo carro nos últimos dois anos. A primeira medida neste ano foi: austeridade. Cortamos algumas despesas pela metade. Agora, primeira classe de avião só para um dos pilotos. O mesmo vale para macacões novos, capacetes, hotéis cinco estrelas, carros alugados, refeições nos autódromos. Fizemos sorteios de cada item, para que ninguém nos acuse de perseguição a quem quer que seja, apesar daquela notícia.
Interessante, isso. Quem foi sorteado para viajar de primeira classe?
Pebolim Lobo
– George.
No caso dos hotéis, quem ficou com os cinco estrelas?
Pebolim Lobo
– George.
Caramba, que sorte. E na questão das refeições, um dos dois vai ter de pedir iFood. Qual deles vai comer no autódromo?
Pebolim Lobo – George.
Bem, isso é perfumaria, como se diz. Os pilotos se adaptam. Acredito que na pista as coisas serão diferentes. O que vai determinar a prioridade nas estratégias de corrida?
Pebolim Lobo – Sorteio, também. Já fizemos, antes de começar o campeonato, para ninguém encher o saco depois. O que é combinado não é caro.
Justo. Quem foi o primeiro a experimentar o carro novo?
Pebolim Lobo
– George.
No caso de um piloto se beneficiar num safety-car, por exemplo, qual deles vai ser chamado primeiro?
Pebolim Lobo
– George.
E se a pista ficar molhada, quem coloca antes os pneus de chuva?
Pebolim Lobo – George.
Puxa, ele foi mesmo muito feliz nesses sorteios. E quando vocês decidirem trocar posições numa prova, quem terá de ceder o lugar? George, também?
Pebolim Lobo – Não, o outro piloto. Como você percebe, o sorteio foi imparcial.

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MCLAREN MCL38: HORA DE VOLTAR A VENCER

SÃO PAULO (tá precisando) – Ao final do GP do Canadá do ano passado, oitava etapa do Mundial, a McLaren ostentava ridículos 17 pontos na classificação. Estava em sexto lugar. A Alpine, em quinto, já tinha marcado 44. Lá na frente, Red Bull (321), Mercedes (167), Aston Martin (154) e Ferrari (122) já tinham disparado na tabela.

Veio o GP da Áustria. A equipe prometeu um carro praticamente novo. Só deu tempo de atualizar um dos dois, o de Lando Norris. Oscar Piastri, estreante, teria de aguentar mais um pouco com o modelo antigo. Lando ficou em quarto no grid. E terminou a prova na mesma posição.

A partir daí, a McLaren decolou. Pontuou nas 13 corridas seguintes, foi nove vezes ao pódio — sete com Norris, duas com Piastri — e ainda ganhou uma Sprint no Catar com o australiano. Ao final do campeonato, subiu para a quarta colocação com 302 pontos. Se fizermos um recorte do Mundial a partir do GP da Áustria, descartando as oito primeiras corridas do ano, a classificação seria: Reb Bull (539), McLaren (285), Ferrari (284), Mercedes (242) e Aston Martin (126) nas cinco primeiras posições.

A evolução papaia foi clara e, de certa forma, espantosa. São raras as situações em que uma equipe começa uma temporada tão mal e consegue, com rapidez e eficiência, corrigir o rumo. Velha verdade da F-1 é aquela que diz que carro que nasce mal não endireita nunca. A McLaren, sabe-se lá como, endireitou o seu.

Norris e Piastri formam uma ótima dupla. O australiano, arrancado da Alpine em 2022, mostrou que o esforço valeu a pena. Calmo, focado e disposto a aprender, revelou-se um desses prodígios que aparecem só de vez em quando. Cometeu pouquíssimos erros e se adaptou muito rápido a uma categoria que não costuma contemporizar quando inexperiência e juventude resultam em bobagens e maus resultados. A fila anda, como se diz, mas Oscar conseguiu estancá-la. É nome para muitos e muitos anos no topo da pirâmide.

O MCL38 apresentado hoje, graças à reviravolta do ano passado, foi concebido a partir de uma base boa. Só dá para melhorar, e é o que se espera da McLaren neste ano. Vitórias? Talvez. Pódios? Certamente muitos. Estará na briga direta com Mercedes, Ferrari e Aston Martin, ainda que pensar em título seja algo fora de cogitação. Brincar lá na frente, porém, será uma constante.

A McLaren mudou muito sua estrutura nos últimos anos e para levantar dados mais precisos sobre o carro novo e falar sobre as expectativas para 2024, consegui falar com alto dirigente do time. Ele prefere não ser identificado, e sempre respeito tais desejos de meus entrevistados. “Mauro Chocolate” é um nome que pode ser usado, de forma a não despertar suspeitas. Segue a conversa — um pouco aflitiva no final, admito.

Por que vocês falam “papaia” e não “laranja”?
Mauro
Chocolate – O Fabrício Queiroz era o quê?
Laranja.
Mauro
Chocolate – Está explicado.
Melhor, mesmo, se desvincular desse tipo de negócio. “Equipe laranja” ficaria meio esquisito… Falemos do carro novo. É muito diferente do modelo do ano passado?
Mauro Chocolate – Não, é igual. Estamos dizendo que é novo, mas é o mesmo. O que fizemos no ano passado foi estrear o carro de 2024 no meio da temporada. Ninguém percebeu. Se alguém perguntasse, diríamos que era 2023, modelo 2024. A indústria automobilística faz isso. Lança em maio de um ano o modelo do ano seguinte. Isso aí é marketing.
Mas ninguém reclamou?
Mauro
Chocolate – Só o Mario.
Qual Mário?
Mauro
Chocolate – Aquele que te pegou atrás do… hahahaha! Estou brincando, o Mario Andretti.
O pai do Michael?
Mauro
Chocolate – Ele mesmo.
Mas eles nem estão na Fórmula 1!
Mauro
Chocolate – Vão acabar entrando. E já estão treinando para reclamar. Todo mundo reclama. Viu a Alpine quando a gente tirou o Grammy deles?
Oscar.
Mauro
Chocolate – Esse mesmo. Aquele menino, você sabe de quem estou falando. É que ele é tão calado que nem sei direito o nome.
Você não sabe o nome de seus pilotos?
Mauro Chocolate – De alguns, sim. É que temos muitos. Corremos em várias categorias.
Aliás, essa é uma das críticas que todos fazem à equipe. Inclusive vocês contratam muitos pilotos que acabam não tendo onde correr. Até um brasileiro, agora…
Mauro Chocolate – Estamos observando esse rapaz. Não foi muito bem nesse campeonato aí do Brasil, levamos pros Estados Unidos de novo. Anthony Kankan, é isso? O narigudinho.
Tony Kanaan. E ele não está mais pilotando na Stock Car. Vocês o contrataram para ser dirigente da equipe.
Mauro Chocolate – No meu lugar?
Não, não, na Indy. Não importa. O brasileiro de quem estou falando é outro, Gabriel Bortoleto.
Mauro Chocolate – Da Fórmula E?
Não! Seus pilotos na Fórmula E são Sam Bird e Jake Hughes!
Mauro
Chocolate – Quem?
Deixa pra lá, vamos voltar à Fórmula 1. Não está na hora do Norris ganhar uma corrida?
Mauro Chocolate – Quem é esse?
Norris, Lando Norris!
Mauro
Chocolate – Aquele do Instagram? Ele é nosso piloto?
Sim, desde 2019.
Mauro
Chocolate – Ah, se está conosco há tanto tempo, sim, já está na hora. Ele nunca ganhou uma corrida?
Na Fórmula 1, não.
Mauro
Chocolate – Então está na hora de pensar em substituí-lo.
Mas você acabou de renovar seu contrato!
Mauro
Chocolate – Na Indy ou na Extreme E?
Na Fórmula 1, criatura! Estamos falando de Fórmula 1!
Mauro
Chocolate – Nós corremos na Fórmula 1 também? Se for o que estou pensando, dá pra colocar o Ganso nessa categoria aí.
Pato! Pato O’Ward!
Mauro
Chocolate – Esse mesmo. Agora me desculpe que preciso atender outra ligação. Estamos montando uma equipe de corrida de queijos e tem um piloto no telefone se oferecendo pra correr.
Quem é?
Mauro Chocolate – Um tal de Rubens, conhece?

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FERRARI SF-24: ESPERANDO HAMILTON

SÃO PAULO (carro bonito é o que ganha) – A apresentação foi brevíssima, um vídeo curto, aplausos, fotografias e carro na pista. A SF-24 — iniciais de Scuderia Ferrari e os óbvios numerais do ano — já andou em Fiorano, a pista de testes da equipe italiana. Todos sempre ficam muito curiosos para ver a Ferrari, um pouco pela paleta de cores associadas ao inconfundível vermelho, um pouco pelas palavras do time que, embora seja o maior vencedor da história da F-1, tem o estranho hábito de amargar filas enormes de títulos. Foi assim entre 1979 e 2000, quando Schumacher finalmente se sagrou campeão, tem sido agora, um jejum que vem desde 2008 entre os construtores — entre os pilotos, o último a levantar a taça foi Kimi Raikkonen em 2007.

Será um ano estranho, este de 2024. A grande notícia envolvendo a Ferrari ainda está sendo digerida desde o dia 1º, o anúncio da contratação de Lewis Hamilton a partir de 2025. Assim, será uma temporada de espera. Porque, sendo muito racional, não dá para apostar em milagres de uma hora para outra. No ano passado, o time italiano ganhou um mísero GP com Carlos Sainz em Singapura. Fez sete poles, é verdade, mas isso só contribuiu para reforçar a tese de que o carro era bom de classificação e ruim de corrida.

Algo que o corpo técnico de Maranello, claro, percebeu. Talvez por isso o chefe Frédéric Vasseur tenha dito hoje na apresentação que a SF-24 é “95% diferente” do modelo de 2023. De fato, batendo o olho se percebe uma mudança muito clara na parte traseira do carro, com o desenho da carenagem que cobre o motor bem distinto do conceito aerodinâmico adotado na última temporada. As justificativas são as de sempre envolvendo fluxos de ar, mas havia uma queixa mais específica de Charles Leclerc e Carlos Sainz em relação à falta de equilíbrio da viatura em freadas, com a frente mergulhando demais e dificultando a pilotagem. “Espero que seja mais fácil de guiar neste ano”, disse o monegasco.

Poucos dias antes do anúncio de Hamilton, Leclerc teve seu contrato estendido até 2029, de acordo com as informações da imprensa italiana. Sainz está tecnicamente desempregado para 2025 e terá um ano que, dependendo dos primeiros resultados, pode ser melancólico. É duro saber que foi preterido, ainda que em nome de uma jogada do tamanho de Lewis. Difícil se manter muito motivado nessa situação, ainda que seja um profissional sério e dedicado. Tenho dito há meses que ele deve ir para a Audi e acho que será mesmo o destino do espanhol liderar o projeto da montadora alemã, que comprou a Sauber, mas só estreia para valer em 2026.

A sombra de Hamilton estará colada nos boxes da Ferrari o ano todo e essa é a realidade. Que ninguém espere um súbito salto de qualidade que leve o time a bater rodas com Verstappen e a Red Bull. A briga vai ser com Mercedes e McLaren. Qualquer outro cenário será uma surpresa.

Mesmo assim, julguei importante falar com gente lá de dentro, ainda que o personagem em questão esteja afastado das grandes decisões há algum tempo. Me disse que daria uma entrevista, sim, desde que o anonimato fosse mantido. Nunca revelo fontes quando o sigilo é solicitado, e por isso vou chamar nosso entrevistado de “Badrice Wellarrived”, nome esquisito que nada quer dizer.

Olá, tudo bem?
Badrice Wellarrived –
Ciao.
Tchau? Mas nem começamos!
Badrice Wellarrived –
Eu não disse “tchau”, eu disse “ciao”.
Então OK, tchau. Obrigado pela entrevista.
Badrice Wellarrived –
Não, idiota! Eu não falei “tchau”, eu falei… Cazzo, esquece. Vamos logo a essa entrevista. Tenho muita coisa para dizer. Foram muitos anos em silêncio e chegou a hora.
Ótimo, então vamos começar pelo começo, afinal temos um novo carro na praça. Pelas fotos e pelas informações que você tem lá de dentro, o que dá para esperar da Ferrari neste ano?
Badrice Wellarrived –
O de sempre: nada.
Como assim, nada? Estão todos muito otimistas! O ambiente parece ótimo…
Badrice Wellarrived –
Ah, está perfeito. Um piloto e o chefe só se comunicam em francês e ninguém entende nada. O outro já foi demitido e hoje quando foi para a pista deram pra ele o carro do ano retrasado.
Não era o carro novo?
Badrice Wellarrived –
Não, só a pintura. Aliás, você viu, né?
O quê?
Badrice Wellarrived –
Os patrocinadores. Vocês da imprensa deveriam investigar algumas coisas.
Sim, vi o banco espanhol, a marca de óculos, Shell, cerveja italiana… Nada demais.
Badrice Wellarrived – Tinha cigarro?
Não, não pode mais cigarro.
Badrice Wellarrived –
Pois é, cigarro não pode. Mas pode plataforma de jogos eletrônicos para viciar as crianças, energético que envenena os jovens e empresa de espionagem financiada pela CIA.
Tem isso?
Badrice Wellarrived –
Não nasci ontem. Apareceram todos de última hora.
Bem, a Ferrari ganhou só cinco corridas nos últimos cinco anos…
Badrice Wellarrived –
…comigo foram 14 em quatro…
…OK, mas me deixe continuar. O novo chefe da equipe disse que por isso neste ano 95% do carro é novo…
Badrice Wellarrived – …e 5% vagabundo.
Me deixe concluir, por favor. Há toda uma expectativa pelos próximos anos com a chegada de Hamilton, a torcida muito animada…
Badrice Wellarrived – Não vai dar certo.
Por que não? Heptacampeão, ídolo mundial, maior vencedor de todos os tempos!
Badrice Wellarrived – Já está fazendo exigências.
Quais?
Badrice Wellarrived –
Nada de macarrão porque a massa leva ovos e ele diz que protege as galinhas. Nada de pizza porque muçarela vem do leite, leite vem da vaca e ele protege as vacas. Nada de carbonara porque tem guanciale e ele protege os porcos. Vão todos morrer de fome.
É só contratar um cozinheiro pra ele, isso é fácil de resolver.
Badrice Wellarrived –
Teto orçamentário. Não pode contratar mais ninguém.
Não tem ninguém disponível no mercado com salários razoáveis?
Badrice Wellarrived –
Talvez aquele cara engraçado da Netflix, mas não sei se ele sabe cozinhar.

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ASTON MARTIN AMR24: GANHA CORRIDA?

SÃO PAULO (acho que sim…) – Fernando Alonso e Lance Stroll não tiveram de esperar muito para dar umas voltas com o AMR24, modelo da Aston Martin mostrado hoje em Silverstone. Lá mesmo a equipe gastou sua cota de 100 km antes da pré-temporada para fazer imagens com o carro andando e garantir que tudo estava funcionando — é o que se chama de shakedown. Foi a primeira apresentação da semana, que tem ainda Ferrari amanhã, McLaren e Mercedes na quarta e Red Bull na quinta, fechando o lote das dez equipes que disputam o Mundial.

Nessas primeiras voltas ninguém se preocupa com tempos, evidente. Mais importante são as entrevistas antes, as declarações dos dirigentes e dos pilotos, a expectativa por alguma surpresa.

Não dá para dizer que todos tenham ficado boquiabertos com o carro novo, que leva no nome código as iniciais de Aston Martin Racing e o ano em disputa. A primeira olhada sempre mira na estética, mesmo: pintura, patrocínios, essas coisas mais visíveis a olho nu. Depois vêm os aspectos técnicos, reservados aos especialistas de plantão.

O AMR24 tem a assinatura de Dan Fallows, que a Aston Martin tirou da Red Bull em 2022. Dizem que ele era o segundão de Adrian Newey, com quem deve ter aprendido alguma coisa. E, de fato, o início de temporada da equipe no ano passado deu essa impressão: seis pódios nas primeiras oito corridas, com Alonso numa forma exuberante e a vice-liderança no Mundial de Construtores até a sexta etapa. Depois do GP da Áustria, porém, a maionese parece que desandou. Foram 175 pontos nas primeiras nove corridas — média de 19,4 por GP –, contra 105 nas últimas 13 — média de 8,1. No final, a equipe terminou o ano em quinto lugar.

E o que aconteceu? Nunca é uma coisa só. Primeiro, a ascensão da McLaren a partir da Áustria, com seu carro praticamente novo. Depois, o mau ano de Stroll. Ele marcou 74 pontos, contra 206 de Alonso. Por fim, os esforços concentrados na conclusão das novas instalações da fábrica, largando o desenvolvimento do carro de 2023 para pensar em 2024.

Alonso entrou na onda das especulações hoje ao dizer que seu contrato com a Aston Martin termina no final do ano e que é “o único campeão mundial disponível para 2025”. Claramente se referia à vaga aberta na Mercedes com a anunciada saída de Hamilton para a Ferrari. Aos 42 anos — faz 43 em julho –, o espanhol disse que antigamente ninguém esperava alguém competitivo na F-1 até os 40, mas que essa ideia nos dias de hoje deve ser deixada de lado. “Meus exames físicos mostraram que estou melhor do que nunca, e hoje não é nenhum absurdo pensar num piloto correndo na F-1 até os 48, 49, até 50”, falou. A foto de Toto Wolff com seu empresário Flavio Briatore, postada hoje (veja a nota anterior), jogou gasolina nessa fogueira.

Esse assunto, e outros, mereciam uma abordagem mais próxima, e no fim do dia na Inglaterra consegui contato telefônico com importante membro da equipe, que pediu anonimato para não se comprometer. Chamá-lo-ei de “Miguel Bomdebola”, de forma a atender sua solicitação. Segue a conversa.

Não sei bem se é meu olhar pouco atento, mas tudo me pareceu muito parecido com o ano passado…
Miguel Bomdebola – O cabelo, não. Olha o topete. E, se bobear, colocou até botox. Já falei que não precisa. Ele disse que é por causa de aerodinâmica.
Estou falando do carro. Você se refere a quem?
Miguel Bomdebola – Ao Alonso. Ele falou que as rugas causam turbulência.
Mas a viseira fica fechada, não há como isso afetar…
Miguel Bomdebola – …sim, sabemos, mas sabe como são esses tiozinhos da Sukita.
Sukita?
Miguel Bomdebola – Você sabe muito bem do que estou falando.
OK, vamos deixar essas questões estéticas de lado. Ano passado a equipe conseguiu oito pódios. Seis deles nas primeiras oito etapas do campeonato. Depois, perdeu rendimento. O que aconteceu?
Miguel Bomdebola – O menino disse que a partir dali os troféus teriam de ser divididos. Mesmo se o outro piloto conseguisse um pódio. Que não era justo ele ficar sem nada, porque sempre disseram que ganhamos juntos e perdemos juntos. Se ganhamos juntos, ele disse, quero troféu pra mim. Fernando disse que não ia entregar seus troféus para ele, mesmo sendo filho do chefe. E falou que se fosse para dividir, não ia mais ganhar nenhum.
Mas isso não causou um certo mal estar na equipe?
Miguel Bomdebola – Na equipe, não. Mas na família, sim. O pai tirou o videogame dele e falou que celular, só duas horas por dia. Aí o moleque ficou irritado e jogou o PlayStation no chão. O pai disse que não ia dar outro. Foi um momento delicado da temporada.
Só para deixar claro, você está se referindo ao Lance Stroll?
Miguel Bomdebola – Isso é você que está falando.
Bom, mas ele pelo menos mostrou força de vontade no começo do ano, correu com os punhos lesionados…
Miguel Bomdebola – Isso zangou mais ainda o pai. Porque ele não tinha autorizado o menino a andar de bicicleta sem rodinha. Tomou um tombo, vimos no que deu. Ele não tem idade pra isso, ainda.
Entendo. Bem, voltemos à equipe e às perspectivas para 2024. O que você pode falar sobre o carro?
Miguel Bomdebola – Que é verde.
Isso ficou bem claro. Mas deve ter alguma novidade técnica, algo na suspensão, nos difusores, endplates, sidepods em forma de letterboxes…
Miguel Bomdebola – Forma de quê?
Letterbox.
Miguel Bomdebola – O que é isso?
Sei lá, andei lendo por aí. Sidepods em forma de letterbox. Imaginei que você saberia o que é. Letterbox, caixa de cartas.
Miguel Bomdebola – E quem é que manda carta hoje em dia? Só se for o Alonso! Hahaha, desculpe, não resisti à piada.
Bem, já que tocou no assunto, hoje Toto Wolff foi visto tomando café com Flavio Briatore, que cuida da carreira de Alonso. Já estão dizendo por aí que ele vai para a Mercedes…
Miguel Bomdebola – Isso é bobagem. O que oferecemos ao Fernando para ficar quanto tempo quiser com a gente ninguém vai cobrir.
E o que foi?
Miguel Bomdebola – Um plano de saúde vitalício da Prevent Senior.

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FOTO DO DIA

SÃO PAULO (olha…) – Lewis Hamilton vai para a Ferrari. Toto Wolff diz que vai precisar ser “ousado” na substituição. Flavio Briatore é empresário de Fernando Alonso. Toto Wolff vai tomar café da manhã em Mônaco com Flavio Briatore. Foto é postada por Briatore no dia da apresentação do carro da Aston Martin. Alonso reforça que tem contrato com a equipe inglesa até o fim de 2024 e que ainda tem “alguns anos” pela frente. Vão juntando os pontos aí. Nessa F-1 de hoje, a gente pode pensar qualquer coisa.

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DICA DO DIA

SÃO PAULO (na dúvida…) – Mais uma do Billy Silver. Trata-se de raríssimo vídeo de um dos dois testes que a Williams fez em 1993 em Pembrey, País de Gales, com um câmbio CVT no FW15C — carro que seria campeão mundial naquele ano. O CVT (transmissão continuamente variável) exige uma correia para ligar as polias que aguente o tranco, e isso não seria fácil para arrastar um motor de quase 1.000 hp. Mas a equipe conseguiu, como se vê nas voltas de David Coulthard, jovenzinho de tudo, quase todas no molhado. O outro piloto que andou com esse carro foi Alain Menu. Há algumas imagens desse monstro andando em Silverstone, também.

O som do motor é incrível, sem marchas subindo ou descendo. Imaginaram o que isso significaria na F-1? A FIA, claro, sabia das intenções da Williams e da Renault. E antes que alguém resolvesse levar a ideia a sério, tratou de proibi-la. No pacote de vetos para 1994 vieram as proibições de suspensão ativa, freios ABS, controle de tração e outras traquinagens eletrônicas e — olha a palavra velha aí! — computadorizadas. Não acho que veremos câmbios CVT na F-1 um dia.

Mas o vídeo, esse tem de ver.

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