Blog do Flavio Gomes
F-1

1 CHOPPS, 24 PASTEL

SÃO PAULO (virão outros?) – Este é o 22º GP do Brasil seguido em que trabalho. Além de ser uma evidência de que estou em fim de vida e carreira, é uma longa história de observações, desde os tempos de Jacarepaguá e das primeiras quando da volta da F-1 a São Paulo. Foram anos de […]

SÃO PAULO (virão outros?) – Este é o 22º GP do Brasil seguido em que trabalho. Além de ser uma evidência de que estou em fim de vida e carreira, é uma longa história de observações, desde os tempos de Jacarepaguá e das primeiras quando da volta da F-1 a São Paulo. Foram anos de Senna e Piquet, Prost e Mansell, muito Schumacher, overdose de Barrichello.

Interlagos mudou alguma coisa desde 1990, mas não muito na essência. O espaço atrás dos boxes aumentou bastante. Está tudo mais moderno e bem cuidado. É normal. Mas é um autódromo velho. Afinal, são 70 anos de vida. Conheço vários pelo mundo. Da F-1 atual, todos menos as pistas da Turquia, Cingapura, Valência e Abu Dhabi. Dessa safra nova de circuitos gigantescos, inaugurada com Sepang, já estive na China e no Bahrein, além, claro, dos repaginados Nürburgring, Hockenheim, Silverstone e sei lá mais onde.

E não há nada igual a Interlagos.

Nada igual, porque aqui as pessoas se encontram. E andam entre pneus e caixas de motores e pedaços de carro e tambores de óleo e latões de gasolina. Aqui se sente o cheiro da gasolina. O paddock é apertado, mas todo mundo quer passear entre um treino e outro, porque sabe que vai encontrar aquele velho amigo, aquele mecânico com quem trabalhou não sei onde, aquele cara que em Istambul ou Xangai ele não verá nunca, porque o paddock é enorme, deserto, os boxes são distantes uns dos outros, há quilômetros de assepsia entre a McLaren e a Brawn, a Force India e a Renault, não há bicos, mulheres, atrizes, modelos, manequins (já houve mais peruagem aqui, mas não se pode querer tudo).

Aqui todo mundo arruma uma credencial. O dono da equipe de F-3, o instrutor da escola de pilotagem aqui na frente, o tesoureiro da federação, o pilotinho de kart, o amigo do Rubinho, a familia do Massa, os caras das empresas, o gerente da firma, os policiais federais e os delegados, o secretário de meio-ambiente e seus assessores, a turma da faxina é numerosa, a da segurança, também. Aparecem jornalistas que a gente só vê uma vez por ano, é um evento festivo e concorrido, mas em Interlagos sempre cabe mais um.

E o pessoal da F-1, que é normalmente chato e metido a besta, parece voltar um pouco no tempo e entra no clima da camaradagem, circulando entre pneus, esbarrando em bundas e peitos, fumando loucamente na porta dos banheiros movimentados, jogando bitucas no chão, suando, se molhando na chuva, encharcando as meias e os tênis e, no fim do dia, se acabando na picanha e na caipirinha e, se der tempo, numa morena faceira.

Interlagos é um pouco do que sobrou de automobilismo na F-1. Boa corrida a todos.