Arquivosábado, 7 de abril de 2012

2’14″063

2

 

SÃO PAULO (sono monstro) – A boa notícia: o Meianov fez hoje a melhor volta de sua gloriosa história, 2min14s063 com a assombrosa média de 115,710 km/h na classificação. O que me deu o 21° lugar num grid de 23 carros. Ou seja: está meio difícil ser competitivo com essa turma da Classic Cup. Minha meta de virar 2min10s para andar no meio do pelotão já era. Meio do pelotão hoje em dia é 2min06s.

O Cirello, imbatível, fez a pole com 2min00s728 de Puma a ar, do Della Barba, apesar de eu tê-lo atrapalhado numa volta. Acontece. Atrás de mim, no grid, um Opala estreante, de Eduardo Carreiro, e o Puma amarelo do Aroldo Teixeira, que voltou a correr.

Fiz uma largada interessante, e segundo o Lito Cavalcante, que assistiu à corrida, passei em 12° na primeira volta. Não lembro direito, porque não fiquei contando quantos carros estavam na minha frente. E de divertido, mesmo, só o comecinho. Depois, como de costume, os ultrapassados me ultrapassaram. Terminei bem, até, em 14°, uma volta apenas atrás do Cirello. De tarde a pista estava mais lenta. A melhor volta dele foi em 2min03s029.  A minha, 2min16s710. O Maverick do André Carrillo foi o segundo e o Puma verde-malanga do Paulo Sousa, que fez sua primeira prova com esse carro, terminou em terceiro na geral. Na minha categoria, fui o quarto. Mas foi muito chato, a corrida toda sozinho. Puta saco.

Mais legal foi a tentativa de participar da prova da F-Vee. Tentativa, porque quebrou meu motor. Foi assim. O Joca, que vem a ser o Bernie Ecclestone da categoria, chegou no box lá pelas 9h30 e me avisou que tinha um carro sobrando. E não era qualquer um. Era o carro que detinha o recorde de Interlagos para a Vee. Isso até hoje. Mas já falo do recorde.

Me ofereceram a baratinha e topei. Nunca tinha nem sentado no monoposto desse campeonato que entra forte em seu segundo ano, com grids cada vez maiores. Hoje foram 19 — 18, na verdade, porque acabei não largando. O pessoal da TJ foi muito atencioso, os mecânicos liderados pelo Thomas acertaram meus pedais, colocaram uma espuminha no banco, e fui direto para a classificação. Dei uma volta em 2min14s329, rodei na segunda, fiz 2min13s822 na terceira e na quarta começou a falhar e fumaçar, e parei. O motorzinho, infelizmente, estava com vazamento de óleo. Aconteceu alguma coisa que não daria para arrumar até a hora da largada e lá se foi a estreia para o vinagre.

Minha experiência, pois, limitou-se a essas quatro voltas. Largaria em 15° com o tempo que fiz, que não é lá muito signficativo pelo pouco tempo de pista. O Rodrigo Rosset fez a pole com 2min05s444. Este, agora, o novo recorde. Ele ganhou a prova, também.

Mas deu para ficar com vontade de mais. Calculo que se tivesse feito a classificação toda, daria para virar na casa de 2min09s, talvez um pouco menos. Seria o suficiente para largar no bolo e me divertir. Aliás, o Vee é muito isso, mesmo: divertido. Tem um chão ótimo, freia muito (é leve, o que ajuda), perdoa erros, é bem gostoso. Dei azar com o motor quebrado, mas não faz mal. Na próxima etapa, dia 22 deste mês, se pingar na área eu chuto para o gol. A categoria é barata e acessível. E as corridas são deliciosas, com muitas brigas e trocas de posições. Curti muito, apesar da brevidade, e agradeço ao Joca e ao Zullino pela chance. Vamos tentar de novo.

Ah, as fotos acima são do Dyonysyo Pyerotty. E apenas para que fique nos anais, registremos que terminei a corrida da Classic Cup uma posição atrás do falastrão Rogério Tranjan e seu Trovão Anil, que tem pedaleiras de molibdênio e freios de carbono 14.

R$ 8,80

R

SÃO PAULO (não aguento) – Não tenho o hábito de falar da minha vida pessoal aqui, mas algumas vezes isso se faz necessário.

Perdi minha sogra na última terça-feira, vítima de aneurisma cerebral. Foram alguns dias de muita tristeza e agonia, era uma pessoa queridíssima, a quem eu adorava. Mas faz parte, todos vamos um dia etc e tal.

Acabei cuidando das questões relativas a velório e cremação do corpo, e graças à ajuda de um amigo da irmã da minha sogra, que trabalha com serviços funerários, não tive tantos problemas. Em São Paulo, a morte é monopólio do município, que se encarrega de transporte de corpos para cemitérios e crematório, este igualmente municipal. Há uma burocracia necessária, claro, e fui muito bem atendido em todas as instâncias pelos funcionários públicos que atuam numa área delicada e sensível.

Como responsável pelos trâmites, meu nome e endereço foram fornecidos ao Serviço Funerário, o que é muito natural.

Cheguei em casa agora, 23h da sexta-feira. Na caixa de correio, um telegrama, algo que me deixou intrigado. Quem ainda envia telegramas?

A vereadora Edir Sales manda. Com base eleitoral na Zona Leste da cidade, por onde raramente passo, integrante da bancada do PSD (recém-criado pelo prefeito Gilberto Kassab à base, entre outras coisas, de assinaturas falsas), partido no qual não voto e jamais votarei, a vereadora, simpática e atenciosa, escreveu: “Solidarizo-me neste momento de dor e saudade. Que Deus lhe dê forças para superar esta perda irreparável”.

Uma mensagem dessas tem pouca chance de dar errado. A não ser que eu odiasse minha sogra, claro, o que não é o caso. É evidente que estamos todos passando por momentos de dor e saudade, e que a perda é irreparável. A vereadora intuir que eu, um ateu convicto, tenha orado a Deus ou dele lembrado nos últimos dias também é aceitável. Quase todo mundo acredita em Deus, ou num deus, ou em vários, ou em um monte de coisa. Eu não acredito em muitas, exceção feita a duendes, druidas e extraterrestres, e a eles não costumo recorrer nem nos bons, nem nos maus momentos. Mas vá lá, a menção a Deus também tem pouca chance de dar errado apesar de vivermos num Estado laico.

O que deu errado, no caso da solícita vereadora Edir Sales, é que não me comovi minimamente com seu telegrama. Antes, fiquei puto e indignado. Puto porque, pela tabela dos Correios, este telegrama custou aos cofres públicos R$ 8,80. Não acho correto que o município gaste R$ 8,80 para que uma vereadora se solidarize comigo, tendo a mais absoluta certeza de que ela nunca ouviu falar da minha sogra, de mim ou de qualquer membro da minha família. E a mais absoluta convicção de que ela não faz a menor ideia de que este telegrama foi enviado, porque isso é coisa automática, algum assessor deve receber listas diárias de defuntos e ganha um salário, que eu pago, para enviar telegramas a famílias entristecidas. Pensei em telefonar para seu gabinete, não para agradecer, mas para perguntar se ela sabe quem sou eu, ou quem é minha sogra. Não o fiz porque hoje é feriado e o expediente no Palácio Anchieta já terá terminado a esta hora da noite.

Indignado, porque evidentemente eu e todo e qualquer cidadão que preenche a papelada referente à morte de um parente ou amigo passamos a fazer parte do cadastro de otários da vereadora e, muito provavelmente, do partido do prefeito. Afinal, quem mais tem acesso aos dados do Serviço Funerário Municipal a não ser a Prefeitura? E quem é que autorizou a Prefeitura a passar meus dados a um partido político? E quem é que autorizou a vereadora Edir Sales a usar meu nome e endereço para o que quer que seja?

Vereadora Edir Sales, se a senhora um dia vier a ler isso, saiba que dispenso sua atenção falsa e mentirosa. Saiba que considero um acinte a senhora usar meus dados pessoais para fingir que está preocupada com a perda irreparável na minha família. Saiba que jamais votarei na senhora. E saiba, sobretudo, que reputo um desrespeito inominável utilizar a morte da minha sogra para levar a cabo seu medíocre apostolado político.

Quanto a mim, gostaria de saber como posso fazer para devolver aos cofres do município os R$ 8,80 que a senhora gastou em meu nome.

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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