Arquivosegunda-feira, 28 de janeiro de 2013

LOTUS E21

L

SÃO PAULO (black is beautiful) – Descrita como “sexy” pela Lotus, a máquina do time para 2013 acaba de sair do forno. É o primeiro carro novo a ser apresentado neste ano. Com lançamento ao vivo pelo YouTube e tal.

E21 é o nome de batismo do carro — o 21° construído em Enstone, que já foi sede da Benetton e da Renault. Os testes de inverno começam no dia 5 de fevereiro, em Jerez. Depois serão mais duas sessões coletivas, em Barcelona.

Acho que já nos acostumamos a esses degraus nos bicos. Pelo jeito, todos continuarão usando. Daqui a pouco virão as análises técnicas meio fajutas (“tem o bico mais afilado, perfil traseiro redesenhado para otimizar a passagem do ar” etc). Eu nunca percebo nada muito diferente, apenas acho os carros de F-1 bonitos, em geral, e me atenho à pintura.

Gosto de carros pretos, e portanto está lindo, o E21. Tem uma bela galeria de fotos aqui.

Lotus6

CINISMO E INUTILIDADE

C

SÃO PAULO – A vida nestes tempos é muito estranha. Há um mundo paralelo, este aqui onde você me lê. Muitos físicos e cientistas defendem que uma outra dimensão espaço-tempo é possível, pode ser descrita com fórmulas complicadas que fogem à compreensão de cérebros mal treinados.

Os fatos de Santa Maria, por sua vez, são de fácil compreensão e bem reais. Uma boate com alegada capacidade para mais de mil pessoas (os bombeiros, baseados na metragem da casa, disseram depois que não deveriam entrar mais de 691) com apenas uma saída estreita e distante de quem não estivesse na porta da rua, sem janelas e revestida de material inflamável e tóxico. Jamais poderia ter sido aberta. Mas foi, porque recebeu um alvará de funcionamento um dia. E também um laudo do corpo de bombeiros, que estava em processo de renovação.

São criminosos aqueles que concederam o alvará e os que assinaram o laudo liberando a casa. Assim como criminosos são o arquiteto que a projetou e o engenheiro que executou a obra. E os proprietários, também. Não consigo entender como tantas pessoas envolvidas com a abertura de uma casa noturna possam ter sido capazes de colocá-la em funcionamento dessa maneira. Uma ratoeira. A casa não atende os requisitos mínimos de segurança que não só a lei exige, como também o bom-senso. Não é possível que ninguém — num grupo que tem um funcionário da Prefeitura que dá o alvará, um bombeiro que assina o laudo, um arquiteto que projeta, um engenheiro que constrói, proprietários que ganham dinheiro com o negócio — tenha, em algum momento, se perguntado: e se acontecer algo? Por onde saem as pessoas? Quais os riscos? Por que não havia iluminação de emergência? Por que os extintores não funcionavam? Por que permitir a entrada de 1.500 pessoas onde cabem 691? Pagou-se propina? A ideia foi economizar? Ignorar as leis, as recomendações? Como, me pergunto, alguém é capaz de conceber um lugar assim e abri-lo, enchê-lo de jovens, com mais do que o dobro de sua capacidade?

A cadeia de pessoas para ser responsabilizada não é pequena. E passa, claro, pela idiotice explícita da banda com seu show pirotécnico. Como é que alguém pode disparar artefatos que produzem fogo, faísca e fagulhas num ambiente fechado, seja ele qual for, tenha ele o tamanho que tiver?

É fácil, pois, descrever as causas do acidente e compreender por que ele aconteceu. Não há muita dificuldade para entender que o descaso, a negligência, a ganância, a burrice, isso tudo junto causou o incêndio e as mortes. Não há como fiscalizar tudo. Não há como fiscalizar a ausência de caráter das pessoas, nem seu grau de imbecilidade. Não são os governos que devem ser culpados nesse caso. São as pessoas, muitas delas abrigadas em governos, que não cumpriram com a obrigação maior de qualquer ser humano: a de ser uma pessoa de bem.

Gente que conhece os caminhos tortuosos da burocracia brasileira, como meu amigo André Barcinski, relata a crueldade do sistema, que acaba levando o mais puro dos monges a perder a paciência para abrir um negócio qualquer — e, em algum momento, a compostura, transformando-se num corruptor. Porque é quase uma regra nacional: o serviço público é contaminado pela corrupção e infestado de corruptos.

Mas há também aqueles que abreviam esses caminhos e fazem ligação direta com a corrupção. Pagam por fora, conseguem seus alvarás, não cumprem lei nenhuma e foda-se. Igualam-se ao pior dos corruptos. Você, certamente, conhece um.

Mas, insisto, não há como fiscalizar o caráter das pessoas. Eu sempre ouvi essas histórias, depoimentos de pessoas que afirmam, com todas as letras, que “se não pagar, não consegue”. Não consegue abrir um bar, um café, uma oficina, uma loja. Mas na minha santa ingenuidade, sempre imaginei antídotos para os corruptos. Eu, por exemplo, se fosse abrir um bar, requisitaria a legislação e cumpriria à risca cada item exigido. No dia da vistoria definitiva, montaria câmeras, contrataria cinegrafistas e acompanharia o fiscal metro a metro em sua fiscalização, com a lei numa mão e um microfone na outra.

Ninguém faz isso. As pessoas se rendem ao que consideram inevitável. Alguém vai me pedir propina. Alguém vai me extorquir. E a roda da putaria não para de girar.

Desviei-me do assunto, eu queria falar destes tempos estranhos. Já vou terminar.

Como muita gente faz hoje em dia, segui os acontecimentos de ontem por todos os meios disponíveis, entre eles as redes sociais — Twitter e Facebook. E é, realmente, estarrecedor como este mundo virtual abriu as portas para que gente nem tão virtual assim exponha o pior do ser humano. Ferramentas geniais — considero todas essas coisas que a internet criou geniais, espantosas —, que poderiam ser tão úteis e ricas, acabam se transformando em megafones propagadores da iniquidade e da demência. O blogueiro Marcel Dias, do “Diário do Nordeste”, escreveu sobre a inutilidade que tomou conta das redes sociais e de como tal inutilidade se mostrou clara ontem. “Seja qual for a rede social, repleta de pessoas, o comportamento do organismo funcionará da mesma forma como funciona aqui, fora dos computadores. O meio virtual apenas ‘digitaliza’ o caráter das pessoas. Por maior que seja o fingimento, o comportamento apresentado é real”, diz Marcel. Na mosca. Quem tiver estômago pode comprovar o que escreve o blogueiro nesta página do Orkut, outra rede social (tomara que já tenham eliminado o link, não é possível que o Google, dono desse negócio, permita que isso se mantenha no ar). Está tudo fora de controle.

Essa contaminação do mundo real pelo mundo virtual, talvez essa nova dimensão espaço-tempo que os cientistas descrevem com equações e algoritmos quando bastaria visitar uma lan-house, se dá em todas as frentes e desconfio que há pessoas que já não concebem mais a vida sem ele. Uma geração que definhará sem uma conexão wi-fi, sem um iPhone, sem um botão de “like”.

E isso é perigoso. Essa geração, hoje, se senta diante de um teclado e comete insanidades como a do perfil do jornal “O Estado de S.Paulo” no Twitter ontem, que em meio à contagem dos mortes conclamava seus seguidores a procurarem perfis das vítimas no Facebook.

Difícil imaginar cinismo maior. Difícil imaginar tamanha desconexão com a realidade. Há quem chame isso de “jornalismo participativo”, ou “interatividade”. O mundo em que tudo se compartilha e se curte.

Acho apenas que estamos ficando todos loucos.

POBRES JOVENS

P

Pobres jovens que viramos as madrugadas à espera de notícias. Cheguei. Estou saindo. Deixe seu recado após o sinal. Deixe seu recado após o sinal.

Pobres jovens que precisam de nós. Queremos saber onde vocês estão, meninos e meninas. Que horas vão, que horas vêm. Chegou bem? Está tudo bem?

Deixe seu recado após o sinal. Chegou bem, filho? Chegou bem, filha? Está tudo bem, pai, está tudo bem, mãe.

É bom quando está tudo bem, quando o celular apita. Podemos dormir.

Pobres jovens em busca da felicidade eterna e permanente. Ela não existe.

Por que você fez isso, Deus?

O quê?

Matou esses meninos e meninas.

Não fui eu.

Então foi quem?

Vocês vivem se matando.

Você nos fez assim. Não desvie o assunto. Por que matou esses meninos e meninas?

Não fui eu.

Vou mudar. Jogaram um bebê no lago. Alguém o achou e salvou.

Graças a Deus.

A você?

Sim, a mim.

É o que todos dizem, graças a Deus. Então foi você que salvou o bebê?

Sim, fui eu.

E por que matou esses meninos e meninas?

Não fui eu.

Um pai disse que Deus salvou a filha dele. Foi você?

É o que disse o pai.

Foi?

Fui.

E por que matou os outros?

Você não entende a morte. Você não entende nada.

Não entendo, quero entender. Por que uns sim, outros não?

Porque é assim.

Eles mereciam morrer, é isso?

Uns mereciam viver e outros mereciam morrer?

Responda.

Por que tanto sofrimento, por que tanta dor? Quem merece isso?

A vida que eu dei a vocês é tão ruim assim?

Quando acontecem essas coisas, sim.

Mas acontecem coisas boas, também.

O quê?

O sorriso de uma criança, o sol que nasce todos os dias.

De que vale o sorriso de uma criança que vai morrer queimada?

Você nos criou?

Sim.

Para quê?

Para buscar em mim sua salvação.

Aqueles meninos e meninas não foram salvos.

Eles virão a mim.

E você dirá o que a eles?

Que estão salvos.

E os pais, as mães, os irmãos, os amigos?

Virão um dia, também.

E o que você dirá a eles? Como vai explicar tanto sofrimento?

Direi que é a vida, que precisam provar seu amor por mim no sofrimento.

Como alguém poderá amá-lo depois disso?

É preciso aceitar, são os desígnios de Deus.

Seus desígnios?

Sim.

Então você matou esses meninos e meninas.

Não fui eu, as coisas acontecem por suas falhas e imperfeições.

Corrija-as.

Por que deveria?

Você não é bom, infalível, piedoso?

Sou.

E onde está sua bondade? Sua piedade?

As guerras, o holocausto, as pragas, os desastres, onde está sua bondade?

Vocês fazem as guerras, vocês causam os desastres.

Vou mudar. Você nos criou?

Sim.

À sua imagem e semelhança?

Sim.

Somos parecidos com você?

Sim.

Pena.

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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