Arquivosábado, 8 de março de 2014

SUPERDIA

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superhiperminiSÃO PAULO (well done, boy) – Saí de casa às cinco da madruga, e para sair de casa às cinco da madruga é preciso um bom motivo. Um supermotivo. Táxi chamado por um aplicativo do capeta, que é espetacular, metrozão até a estação Portuguesa-Tietê, um café e um donut de goiabada e o Cometão para Poços de Caldas saindo pontualmente às 6h.

Havia anos que eu não entrava num Cometão. Claro que não é mais aquele, os bancos não são mais vermelhos de couro, a pintura é feia, mas a qualidade me parece a mesma. Viagem tranquila, o ronronar do motorzão, o sono que vem, a parada em São João da Boa Vista para um café e um pão de queijo que ofereci ao motorista, mais um café para mim, três e cinquenta, esse Brasil que ainda existe e é tão gostoso.

E pontualmente às dez e quinze da matina o bichão estaciona na rodoviária ao lado do estádio da Caldense, e ainda faltavam 45 km até Santa Rita de Caldas, busão da Gardênia cata-coió, uma hora e meia pelo encantador Sul de Minas, até encontrar o novo amigo, Zé Adenauser, com quem tinha combinado ao meio-dia e meia no terminal aero-rodoviário da cidade de 9 mil habitantes onde nada acontece correndo. Meio-dia e meia o Gardênia encostou, meio-dia e meia o Zé estava lá.

Encontrei o rapazinho numa pequena garagem decorada com placas antigas, quadrinhos caprichados, ferramentas bem arrumadas, ao lado de um X-12 impecável. Muita conversa, uma voltinha no quarteirão e tudo resolvido. Zé, zeloso e cuidadoso, explicou tudo que havia para explicar, vimos ainda algumas fotos, falamos de outros modelos, demos uma olhada em algumas revistas, e como eu não queria viajar de noite, aquele abraço e vamos embora. Tínhamos, eu e o rapazinho, mais de 300 km pela frente. Chega?, perguntei um pouco envergonhado, porque é óbvio que a resposta seria “claro que chega!”, e claro que chegou.

Foram quatro horas de estrada, uns 20 minutos de chuva, se tanto, algumas paradas para uns retratos, outra para um lanche no Reduto do Café em Andradas, cruzamos uma turma de Harley e, no mais, paz total. Radinho ligado, o ronquinho do motor de dois cilindros e 800 cc de cilindrada cantando gostoso, pouco trânsito até a Anhanguera, onde a coisa é um pouquinho mais tensa porque tem carro demais por aí. Mesmo assim, o rapazinho contabilizou ultrapassagens sobre um Fiesta, um Etios e um Cruze, deu farol para um Siena e cumpriu sua missão a uma média de 90 km/h, com picos de 100 km/h sem reclamar de nada. Na metrópole, catou os meninos, foi ao supermercado e se incorporou ao bando.

É um bom garoto, e seremos felizes juntos.

SALTIMBANCO

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nelsinhodivulgSÃO PAULO (encruzilhadas) – Por mais que negue, e que siga com o discurso de que a Nascar isso, a Nascar aquilo, a carreira de Nelsinho Piquet na principal série americana acabou. Já desde o fim do ano passado sua participação nas provas das três categorias ianques (Truck, Nation e Sprint) era absolutamente incerta, com uma possibilidade de fazer uma corrida aqui, outra ali, mas nada de concreto.

Depois, Nelsinho falou sobre seus planos de fazer aquelas provas de rali não sei das quantas. Nem sei o nome direito, RallyCross, talvez, me parece mais exibição do que coisa séria e competitiva. Aí, acertou para correr na Stock em dupla com Átila Abreu na primeira corrida da temporada. E nada de fechar com time algum de categoria alguma relevante para 2014.

Hoje, Rodrigo Mattar replica informação divulgada na Itália de que Piquet Pimpolho vai correr na Blancpain Sprint Series, a versão de corridas curtas de GT do campeonato que tem também a Blancpain Endurance Series com o mesmo tipo de carro. Blancpain é uma marca de relógios caros que patrocina o campeonato, criado em 2011 com organização da SRO, e que neste ano sucede o Mundial da FIA GT — competição da qual no ano passado participou o BMW Team Brasil com Cacá Bueno, Allam Khodair, Ricardo Zonta e Sérgio Jimenez, equipe tocada por Washington Bezerra e Antonio Hermann.

E é nessa equipe que Nelsinho vai correr. Está escalado para testes em Nogaro na segunda-feira ao lado de Cacá. É segredo de polichinelo, já. Piquet Júnior deve mesmo disputar esse campeonato, na falta de coisa melhor — e o campeonato não é ruim; só que está longe de ser uma categoria top para um piloto que trilhou o caminho da F-1, a ela chegou, depois pulou para a Nascar sonhando fazer carreira nos EUA e, de repente, se viu a pé.

Isso, sim, está em questão. Piquezinho virou um saltimbanco das pistas, mais ou menos parecido com Jacques Villeneuve, com a diferença básica de que o canadense foi campeão na Indy, venceu as 500 Milhas de Indianápolis e foi campeão mundial de F-1. Depois disso, podia fazer o que quiser, correr até de patinete, que não precisava dar muitas satisfações a ninguém — como não dá, mesmo. A trajetória de Nelsinho é bem menos vitoriosa e mais dramática. Afinal, ele foi alijado da F-1 por conta de um dos maiores escândalos da história do automobilismo. Se aprumou, encontrou um rumo, cantou esse rumo em verso e prosa e, agora, parece que perdeu o rumo de novo.

Nelsinho, não fosse Cingapura/2008, poderia ter ido longe. Mas se perdeu. E não pode culpar ninguém por isso.

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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