Arquivosábado, 15 de março de 2014

MEU, BURN! (3)

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imaustralia3SÃO PAULO (Ricciardo, uau) – Serei breve, pois daqui a pouco tenho de ir a Interlagos.

Hamilton na pole, hein, bonitão? Vettel não passou do Q2, hein, bonitão?

Pois é, a vida tem dessas coisas. Umas previsíveis, outras surpreendentes. “Ah, mas você mesmo disse que o Vettel ia se dar mal neste ano, então era previsível!” É uma verdade parcial. Acho ainda que vai se dar mal, pelo menos se comparado ao que aconteceu com ele nos últimos quatro anos, mas não é exatamente por conta desse 13° lugar na classificação em Melbourne (12° no grid porque Sapattos foi punido por troca de câmbio, ou “cambio de cambio”, em espanhol). O treino que acabou agora há pouco não foi dos mais comuns. Choveu no Q2 e no Q3 e deu uma embaralhada nas coisas.

Nessa embaralhada, a lógica prevaleceu na pole de Hamilton e com a presença de seis dos oito motores Mercedes no Q3. Só Button e Pérez ficaram fora. Mas tivemos uma zebrinha com Ricardão em segundo. E o rapaz quase fez a pole. Mas seria Ricardão uma zebra, correndo de Red Bull? Sim, ainda é uma zebra, mesmo correndo de Red Bull. Ainda mais com a Red Bull longe de ser a equipe que foi nos últimos quatro anos. Surpresa, sim. Boa surpresa. Guiou divinamente, o moço do grande nariz. Como zebrinhas interessantes foram os dois da Toro Rosso no Q3. Palmas para o pequeno cosmonauta Danii-se Kvyat e também para Verme, o rejeitado.

Vamos à ordem dos fatos, então.

No Q1, pista seca, 26 graus e nuvens plúmbeas sobre Albert Park. Uns saem de macios, outros de médios, mas esqueçam esse negócio de usar médio achando que se garante. Neste ano, a diferença de performance entre os compostos é muito grande. E foi todo mundo de chiclete.

A sete minutos do fim da primeira parte do treino, começa a chover. Aí, quem estava na zona de degola lá ficou. A saber: Chilton (previsível), Bianchi (idem), Gutierros (mal, a Sauber), Celular GSM (normal) e a dupla da Lotus, Grojã e Maldanado.

Aqui vale um parágrafo. A Lotus é uma tragédia, coitada. Grojã não esconde a contrariedade. Xinga o carro, o público, os mecânicos, o destino. Já seu companheiro venezuelano, quando olha no espelho, se pergunta: por que é que eu fui brigar com a Williams? Onde foi que eu errei? Por que não gostavam mais de mim? Bem, agora Inês é morta. Os dois carros negros só não estarão lado a lado na última fila porque Gutierrez perdeu cinco posições no grid por troca de câmbio. Maldonado não conseguiu sequer fechar uma volta. Deu pena. Mas é da vida.

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E quem foi o mais rápido no Q1, com pista seca? Ricciardo, o substituto de Webber, o queridinho dos cangurus. Virou 1min30s775, um tempo aceitável, embora mais alto que o anotado por Rosberg no último treino livre, o único a entrar na casa de 1min29s no fim de semana. Magnussen foi o segundo e Massa, o terceiro. E quem é que passou ao Q2? Koba-mito, nosso ídolo eterno! Boa, japa!

Mas como já informado, destara a chover no parque, e foi com chuva que começou o Q2, levando todos a usarem pneus intermediários. Os primeiros tempos registrados, na casa de 1min47s. A cinco minutos do fim, já tinham caído para 1min44s. E quando o cronômetro zerou, estavam, lá na frente, na casa de 1min42. Foi o momento em que a dura realidade de Tião, o Alemão, bateu à sua porta. Vettel ficou na degola do Q2, com o 13° tempo, atrás de dois campeões do mundo: Bonitton em 11° e o tagarela Raikkonen em 12°. “Do alto desta degola, seis títulos mundiais vos contemplam”, bradou Kimi ao chegar ao paddock, subindo num engradado de Foster’s.

Sutil, da Sauber, Kobayashi, da Caterham, e Pérez, da Force India, fecharam o grupo dos que não conseguiram passar ao primeiro Q3 do ano. Sebastian não ficava fora de um Q3 desde o GP da China de 2012 da era cristã.

E tome chuva para a decisão das dez primeiras posições do grid. E foi bonito de se ver. Porque na água, diz o ditado, todos os gatos são pardos e molhados. Não nos esqueçamos que até Hülkenberg, de Williams, fez pole com chuva em Interlagos, e de Williams. Assim, tudo podia acontecer. De verdade.

E quase aconteceu. Pneus de chuva extrema paa todos (menos para Alonso, que logo trocou), tempos na casa de 1min45s, até que a quatro minutos do fim alguns arriscaram intermediários, e os tempos foram baixando, e lá vem Ricardão com sua enorme napa para virar 1min44s548 com a ampulheta já esgotada, mas tinha gente na pista ainda, e a pole que a turba já festejava nas arquibancadas e nos gramados do parque acabou não vindo, porque Lewis fez 1min44s231 e papou o primeiro lugar no grid. Mesmo assim, a torcida australiana vibrou. Afinal, Ricciardo vingava o Canguru Desolado que tanto sofreu nas mãos de Vettel. E Vettel, àquela altura, procurava o primeiro boteco para encher a cara.

Hamilton colocou 0s317 no novo rubrotaurino, uma diferença considerável. Rosberguinho larga em terceiro. Por três segundos não conseguiu abrir uma última volta, o que deixou o rapaz um pouco chateado. Kevin Magnólia, estreante, ficou em quarto com a McLaren. OK, virou 1s514 mais lento que Hamilton, mas uma segunda fila na primeira corrida é para comemorar, não? É. Alonso e Verme dividem a terceira fila. Hulk e Kvyat, a quarta. Massa ficou em nono e Sapattos, em décimo — larga em 15° com a punição. A Williams estava bem no seco. Na hora que veio a chuva, os dois pilotos e a equipe se atrapalharam.

Foi a 32ª pole da carreira de Hamilton e a 100ª de um motor Mercedes na F-1. Lewis igualou Mansell nas estatísticas e entre os britânicos só perde para o escocês Jim Clark nesse quesito. É o favorito à vitória amanhã, porque a Mercedes tem o melhor carro e mesmo se chover, vai andar bem porque nosso Comandante Amilton é bom de água.

Algumas conclusões pós-classificação:

– A Red Bull não está morta, e Ricciardo mostrou isso. Mas também não está com essa bola toda.

– Vettel de mau-humor é engraçado.

– Raikkonen, que bateu no Q2, será engolido por Alonso se não demonstrar um pouco mais de vontade.

– A Williams está bem, colocou os dois no Q3, mas ainda está longe de poder ser chamada de favorita. Precisa, como se diz no futebol, encaixar umas coisinhas.

– Hülkenberg vai trucidar Pérez.

– A Toro Rosso não será uma decepção no bloco intermediário. A Sauber, sim.

Vou arriscar um palpite para a corrida de amanhã, nos dez primeiros. Farei isso em todos os GPs e vocês aí me contem depois se acertei alguma coisa. Vamos lá: Hamilton, Alonso, Hülkenberg, Magnussen, Massa, Button, Vergne, Raikkonen, Pérez e Sutil. Se quiserem colocar seus palpites aí embaixo, à vontade.

Ah, faltou a foto do projeto gráfico. Sorria, garoto.

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Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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