Arquivosegunda-feira, 21 de dezembro de 2015

SOBREVIVEMOS

S

JOÃO PESSOA (morarei aqui) – Estou de férias, e não vou me alongar muito. A prova da Classic Cup no sábado foi deprimente. O vídeo abaixo mostra o acidente mais impressionante de nossa categoria desde sua criação, em 2003 — houve outro no início do ano com um Karmann-Ghia capotado, o Trovão Azul dando perda total e dois Fuscas, idem. Mas igual a este, nunca vimos.

Aliás, o vídeo lá embaixo foi gravado de dentro do Trovão 2, do Rogério Tranjan, que só não contribuiu para agravar ainda mais a situação porque, civilizado que é, fez uma coisa que muitos pilotos da Classic não sabem o que é: frear. Aqui o mesmo acidente pode ser visto de outro ângulo.

[bannergoogle] O que aconteceu?

Aconteceu que as pessoas que controlam o automobilismo paulista são abaixo da crítica — federação, a FASP, e clubes. A estrutura que eles colocam à disposição dos pilotos é uma piada. Dois carros de resgate, 200 categorias, treinos e corridas. Teve piloto que ficou mais de uma hora com carro quebrado na pista à espera de resgate. Horários apertados. Tudo espremido para dar tempo de fazer o… track day.

Ah, os track days… Quanta grana entra, que delícia! De inscrição e carteirinha, claro, porque agora precisa. Foram 64 carros inscritos neste fim de semana. Teve imbecil virando 1min39s. E gente virando 2min27s na mesma pista. Sem equipamentos de segurança, macacão, santantônio, nada. Apenas um bando de retardados tirando racha na pista e enchendo o rabo de clubes e federação de dinheiro. Vocês têm ideia de quanto é 1min39s em Interlagos? Pesquisem no Google: “Pole Stock Car 2015”. Vejam aí embaixo o que estou dizendo.

quelixo

Uma hora morre alguém. Claro. E espero que, quando isso acontecer, os donos do cirquinho sejam responsabilizados por essa insanidade descontrolada.

Agora, à nossa corrida. No briefing, nos informam que o semáforo não é lá muito confiável. Como assim? Acender e apagar um farol é tão complicado? Bem, complicado não é, mas não é confiável. Então vamos na bandeira. Aceitamos. Mas devo dizer: sem compreender direito como seria aquilo. Largar lançado com bandeira no posto de controle da reta dos boxes num grid de 40 carros com neguinho subindo o Café sem enxergar nada? Sem semáforo, que pelo menos a gente vê a distância?

Bom, só poderia dar merda. O vídeo mostra com clareza. O safety-car saiu da pista a galera acelerou, a bandeira não apareceu, alguns frearam, o Puma amarelo de cano cheio desviou do Bianco que tirou o pé porque não tinha largada nenhuma, jogou para a direita, acertou o Puma vermelho, que acertou o Passat do Marcelo Caslini, que acabou com o teto aberto como se fosse uma lata de sardinha.

Ninguém se machucou, um  milagre.

Corri sem a menor alegria. Guiando mal, sem saber onde estava, preocupado com os amigos que se acidentaram. Na última volta, o Rafinha, que corre na minha categoria, foi parar no muro na reta dos boxes. Bandeira vermelha. Um Gol que estava atrás de mim me passou. Ridículo. Neguinho não vê nem bandeira vermelha — tem gente muito ruim correndo na nossa categoria, um pessoal que chegou agora, nunca andou de nada, acha que é só sentar e acelerar, uma coisa inacreditável. Aliás, no posto seguinte à primeira vermelha que vi, no Laranjinha, o bandeirinha, despreparado, agitava a amarela junto, achando que a corrida tinha acabado, fazendo festa. Patético.

Afastaram, da FASP, o diretor Ernesto Costa e Silva e sua equipe — numerosa, experiente, competente, eficiente, pessoas que sabem o que fazem. Colocaram gente que não tem a menor ideia do que é conduzir uma corrida — e em número insuficiente, afinal é preciso economizar em carros de resgate, comissários, estrutura, para encher as burras de dinheiro com os tontos do track day.

Fora o autódromo, que está um lixo — o prefeito Fernando Haddad não tem desculpas, gastaram uma grana preta na reforma, está tudo caindo aos pedaços, banheiros sem luz, umidade, vazamentos, um horror. Tiraram o Chico Rosa, quem é que manda naquela merda agora? A quem devemos reclamar? Quem é o incompetente que dirige este equipamento municipal?

Voltando à prova, nem sei em que lugar terminei. Acho que 21º, depois de largar em 29º na geral. Talvez sexto, ou sétimo, na categoria. Não sei quem ganhou. Não importa. Está tudo errado. Federação e clubes que só pensam em merdas que nada têm a ver com corrida, como esses track days indecentes e perigosos. Autódromo largado. Comissários e bandeirinhas sem noção. O horror, o horror.

O Bon Voyage está prontinho, é um bom carro, virou 2min12s na classificação, sábado, depois de começar virando 2min17s na sexta. Temos uma meta de chegar logo a 2min10s, quem sabe, em alguns meses, a 2min08s.

Mas o piloto já desanimou. Na segunda corrida do bravo Voyaginho. Vamos ver onde buscar ânimo para seguir.

PS: lamento aqui, profundamente, a morte do professor Rubens Carpinelli, 88 anos, que durante décadas presidiu a FASP. Um apaixonado por automobilismo, com quem discuti asperamente várias vezes — mas todas as discussões acabavam com um abraço carinhoso, porque nos gostávamos, era um velhinho que me tratava como se eu fosse seu neto. O Professor, como sempre o chamamos, estava afastado havia algum tempo, com a saúde debilitada. O Américo Teixeira Jr. escreveu sobre ele com ternura e serenidade em seu blog. Fique bem, Professor.

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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