Arquivodomingo, 29 de novembro de 2020

N’AREIA (3)

N

SALVADOR (Halo-luia) – A melhor definição para o que aconteceu hoje no Bahrein veio de Antonio Giovinazzi: “Foi um milagre da tecnologia”.

Romain Grosjean não morreu por causa do Halo, do Hans, do Nomex de suas roupas, dos extintores de incêndio, da velocidade do Medical Car, da resistência do material de que é feito um carro de Fórmula 1. Graças a tudo isso, o saldo do pavoroso acidente na primeira volta da antepenúltima etapa do Mundial foram queimaduras leves nas duas mãos. Nenhum osso quebrado. Nenhuma costela trincada. Nada nos pulmões, nada na coluna, nada no pescoço.

E uma vida salva.

Uma batida como essa, sem a proteção para a cabeça do piloto introduzida na temporada de 2018, seria fatal. Grosjean se chocou contra o guard-rail da curva 3 do circuito barenita a 221 km/h. Seu carro partiu-se ao meio e explodiu. Ele ficou 27 segundos sob as chamas. Conseguiu soltar o cinto de segurança, sair do cockpit e, sem enxergar nada no meio da fumaça e com a viseira chamuscada, teve o caminho aberto para a salvação por um comissário de pista que disparou o extintor na direção certa.

Esse fiscal foi orientado com precisão pelo delegado-médico da FIA Ian Roberts, que chegou imediatamente ao local do acidente. Ele era um dos dois ocupantes do carro de apoio que, depois de todas as largadas na F-1, acompanha o pelotão na primeira volta para o caso de necessidade de uma intervenção rápida.

Roberts conseguiu ver entre as chamas Grosjean se levantando, aproximou-se da bola de fogo que consumia o carro e esticou o braço para retirar o francês do inferno. “Sua viseira estava opaca, praticamente derreteu”, contou.

Menos de um minuto depois da batida, que rasgou o guard-rail como se fosse uma folha de papel, o piloto da Haas já estava sendo atendido pela dupla do Medical Car — o sul-africano Alan van der Merwe, que guia o carro, foi o outro que ajudou o resgate. Dali ele foi para o centro médico do circuito e, depois, levado de helicóptero para o Bahrain Defence Force Hospital, onde passaria a noite. sob observação.

As imagens são aterrorizantes, e há algumas perguntas que devem ser respondidas pelos técnicos da FIA e da F-1, que fazem um permanente trabalho para aumentar a segurança de suas corridas. Duas delas são essenciais: por que o tanque de combustível do carro de Grosjean arrebentou, causando a explosão, e por que a barreira metálica se abriu ao meio. Romain teria sido degolado se não fosse o Halo. É algo, aliás, que já aconteceu algumas vezes na história da categoria. Foi assim que morreram François Cévert, em 1973, e Helmuth Koinigg, em 1974. Ambos vararam guard-rails em Watkins Glen, nos EUA.

Outras perguntas já foram respondidas. O aprimoramento, neste ano, do material de que são feitos macacões, balaclavas, meias, luvas e roupas de baixo que fazem parte da indumentária dos pilotos mostrou-se mais do que pertinente. Alguns pilotos chegaram a reclamar de certo desconforto das vestimentas, mais grossas, pesadas e quentes. Esse material se chama Nomex e resiste ao fogo por pelo menos 30 segundos. Ficou provado que desconforto não é nada diante da eficiência. Já o Halo, tão criticado há três anos por sua estética grosseira, jamais será contestado de novo. E o rigor da FIA nos crash-tests, menos ainda.

O cockpit calcinado de Grosjean: Halo salvou a vida do piloto

A imagem acima mostra que a célula de sobrevivência do carro da Haas, apesar da violência do impacto, resistiu bem. Nada se partiu. E a gaiola projetada para proteger a cabeça do piloto ficou intacta.

É quase inacreditável, e mais espantoso ainda quando se vê o estado em que ficou o guard-rail e o carro de Grosjean. Ele rachou na pancada, metade ficou de um lado da barreira e a outra metade atravessou a peça de metal, trespassando as lâminas que deveriam deter qualquer coisa que batesse ali.

A dinâmica do acidente, essa não é das mais misteriosas. Grosjean largou lá atrás, tentou um movimento brusco para passar Kvyat, bateu no carro do russo, apontou para a direita e se espatifou. A prova foi imediatamente interrompida antes de concluída a primeira volta, com Hamilton na ponta seguido por Verstappen e Pérez. Estes tinham largado bem e deixado Bottas, segundo no grid, para trás.

O inglês, heptacampeão mundial por antecipação, também fizera ótima largada, sem dar chances aos seus adversários de tentarem nada. Com pneus médios, como quase todos, tinha uma estratégia traçada para duas paradas — médios de novo no primeiro pit stop e duros no segundo, roteiro que acabaria cumprindo nas voltas 20 e 35, quando a corrida foi retomada.

Hamilton nos boxes, vendo as imagens pela TV: tensão absoluta no autódromo

Foi preciso esperar mais de uma hora para que o guard-rail pudesse ser refeito. A tensão no autódromo era imensa, apesar das boas notícias que chegavam sobre o estado de Grosjean. Os pilotos, porém, não tiveram como evitar as imagens, exaustivamente repetidas pela TV. Ricciardo, da Renault, achou “um desrespeito” mostrarem a batida tantas vezes. Vettel preferiu não ficar diante dos monitores. Hamilton, depois da corrida, disse que “estaria mentindo” se dissesse que depois de ver um acidente desses não passa pela sua cabeça a possibilidade de parar de correr — para, logo depois, dizer que não pensou nisso, que conhece os riscos do esporte que pratica e que “respeita seus perigos”.

Logo depois da nova largada, um novo susto deixou o ambiente ainda mais carregado. Num choque com Kvyat — de novo –, Stroll capotou o carro da Racing Point e, mais uma vez, o Halo cumpriu sua missão com louvor. O piloto saiu ileso e o safety-car foi acionado até a volta 9. O russo da AlphaTauri, nesse incidente, foi considerado culpado e tomou 10 segundos de punição da direção de prova.

Na relargada, mais um susto: Stroll capota depois de um choque com Kvyat

Dali em diante, após a relargada, a corrida se desenvolveu sem mais sobressaltos. E, para dizer a verdade, ninguém estava muito interessado em seu desfecho. As cenas terríveis da batida, explosão, incêndio e resgate de Grosjean não saíam da cabeça de ninguém. Provas assim, todos querem apenas que terminem logo. Mesmo que sejam boas, como acabou sendo o GP Bahrein. Se é verdade que Hamilton ganhou com tranquilidade — 95ª vitória na carreira, 11ª na temporada, quinta seguida –, não é menos verdade que alguns pilotos tiveram ótimo desempenho e merecem elogios. Foram boas disputas, ultrapassagens difíceis, recuperações vigorosas e até um drama no final, que custou o pódio a Sergio Pérez.

O mexicano, um desses que faziam uma bela corrida, viu seu motor estourar a três voltas do final, quando ocupava a terceira colocação. A posição foi herdada por Alexander Albon, que conseguiu seu segundo pódio no ano. Mas Pérez, apesar da infelicidade, não lamentou o ocorrido. “Um troféu a mais, um troféu a menos, isso não tem nenhuma importância. Importante, hoje, é saber que Grosjean ainda está com a gente”, disse.

Pérez quebra o motor: pódio perdido a três voltas do fim da corrida

Para Albon, o terceiro lugar caiu do céu. O tailandês vive um momento decisivo na carreira e seu futuro na Red Bull ainda é incerto. O time cogita trocá-lo em 2021 por alguém mais experiente, e o nome de Pérez, de saída da equipe rosa — será substituído por Vettel –, é um dos cogitados. O outro nome na restrita lista é o de Nico Hülkenberg. A taça que conseguiu hoje pode ajudar Albon a convencer a equipe a mantê-lo na próxima temporada.

Como Verstappen chegou em segundo, a Red Bull comemorou seu primeiro pódio duplo desde o GP do Japão de 2017 — naquela ocasião, Max também foi segundo e Ricciardo, terceiro. O holandês ainda fez a melhor volta da prova depois de colocar um jogo de pneus médios no fim, em seu terceiro pit stop, e assim subiu para 189 pontos na classificação. Ainda sonha com o vice-campeonato, já que Bottas teve mais uma atuação apagada. O finlandês furou um pneu logo depois da segunda largada, caiu lá para trás e terminou apenas em oitavo. Com 201 pontos, viu a diferença para Verstappen cair para apenas 12, a duas provas do encerramento da temporada.

Verstappen e Albon: pódio duplo da Red Bull depois de três anos

A corrida terminou com todos atrás do safety-car, que voltou à pista na volta 55 depois da quebra de Pérez. Depois do trio do pódio vieram, na zona de pontos, Norris, Sainz Jr., Gasly, Ricciardo, Bottas, Ocon e Leclerc.

A dupla da McLaren fez uma excelente prova, especialmente o espanhol, que saiu de 15º na largada para quinto no final. Com isso, a equipe laranja foi a 171 pontos no Mundial de Construtores, se descolando um pouco da Racing Point (154) e da Renault (144) na luta pelo terceiro lugar. Gasly foi outro que se destacou, completando a prova em sexto com apenas uma parada. “A gente estava discutindo se faria dois ou três pit stops, no fim consegui com apenas uma e foi um grande resultado”, disse.

Classificação final no Bahrein: quinta vitória seguida de Hamilton

Mas, como disse Pérez do alto de seu pódio perdido, nada disso tinha muita importância. Ao fim do GP, o que todos queriam era saber de Grosjean. E o francês acabou tranquilizando todo mundo ao divulgar um vídeo em suas redes sociais, direto do hospital. “Eu não curtia muito o Halo, mas acho que é a coisa mais importante que já nos deram na F-1, e sem ele eu não estaria aqui”, falou, com sinceridade. Depois, com bom-humor e as mãos enfaixadas, completou: “Obrigado pelas mensagens, obrigado a todos na pista, no centro médico, no hospital, e posso dizer que estou bem. Quer dizer… Mais ou menos. Apenas não posso digitar mensagens agora!”.

Grosjean no hospital: “Não dá para digitar mensagens”

Grosjean, muito provavelmente, não corre domingo que vem no anel externo do circuito de Sakhir, mas a Haas nem está pensando no assunto, ainda. Da equipe, a frase mais significativa da noite no Golfo Pérsico veio de seu companheiro Kevin Magnussen: “Ele sobreviver foi um milagre. E é tudo que posso dizer hoje. Estou feliz que nós ainda temos Romain”.

É isso. Estamos todos.

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
ASSINE O RSS

Categorias

Arquivos

TAGS MAIS USADAS

Facebook

DIÁRIO DO BLOG

novembro 2020
D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
2930