
SÃO PAULO (oremos) – Ontem recebi e-mail da Red Bull me avisando para entrar no link tal porque hoje era dia de apresentação de carro novo. Muito bem. Na hora combinada entrei e apareceu a mensagem em inglês: “É dia de lanche!”. Já traduzi para vocês, claro. Mas não teve lanche algum, e sim um vídeo pré-gravado de meia hora, pouco mais, pouco menos, no qual fiquei sabendo que:
1) A equipe agora se chama Oracle Red Bull Racing, sendo “oracle” a palavra em inglês para “oráculo”, sendo “oráculo” o local em Delfos, na Grécia Antiga, onde sacerdotes e sacerdotisas faziam previsões depois de entrar em transe aparentemente por causa de gases que emanavam do solo. É uma história meio complicada que começa quando Zeus, que como todos sabem era o fodão do Bairro Peixoto, soltou duas águias de pontos opostos da Terra para definir onde era o umbigo do mundo, e seria onde elas se encontrassem, e elas se encontraram em Delfos, e ali foi feito um templo assim & assado para seu filho Apolo, que matou um dragão no local, na verdade uma espécie de serpente, Python, que também podia ser uma fêmea de dragão, nunca se sabe, e ela foi enterrada ali mesmo, e por isso começaram a sair vapores pelas fendas no chão e nas rochas do local, e a sacerdotisa-máster do templo ficou muito louca com aquele fumacê e desandou a fazer profecias, e elas davam muito certo, o nome dela era Pítia, certamente por causa da dragoa, ou serpente, e aí o lugar ganhou fama, e é daí também que vem a palavra pitonisa, e parece que a história dos gases é verdade mesmo, tem até livro sobre isso. Mas esse Oracle da Red Bull é só patrocinadora mesmo, empresa americana de software, tecnologia e essas coisas, aliás, já patrocinava a equipe e, agora, está pagando uns tostões a mais para colocar sua marca no nome oficial.
2) A Honda, que resolveu continuar fazendo os motores da Red Bull mesmo depois de anunciar sua saída da categoria, desapareceu do carro. Na carenagem aparece um minúsculo HRC, Honda Racing Corporation, a divisão de competição da montadora japonesa. De todo modo, e para todos os efeitos, os motores da Red Bull seguem sendo Honda. Nenhuma marca nova foi incorporada para batizar as unidades de potência. No passado, é bom lembrar, a própria Red Bull já chamou seus motores Renault de TAG-Heuer (que é marca de relógio) e a Prost batizou os Ferrari dela de Acer (nome de computador). Suponho, apenas suponho, que se alguém chegar com uma boa proposta para batizar os motores é capaz de levar. E não me contenho nas especulações. O Magazine Luiza poderia fazer uma oferta, e teríamos Red Bull-Magalu na lista de carros inscritos para os GPs. Ou o cara do guaraná Dolly: Red Bull-Dolly. Talvez os laticínios Piracanjuba, Red Bull-Piracanjuba, para dar nó na língua dos locutores ingleses. Mas não vai acontecer nada disso.
3) As fotos distribuídas para a imprensa são horríveis, muito escuras, e melhor teria sido tirar prints da tela enquanto os caras falavam dos carros. Daria, pelo menos, para distinguir as linhas do fundo negro. Acho que isso é tudo de propósito, e de qualquer maneira o próprio Christian Buziner, chefe do time, disse que os carros que serão vistos nos primeiros testes, em Barcelona, serão diferentes daquele que estava lá na frente deles, que por sua vez serão também diferentes dos que vão estrear no Bahrein, dia 20 de março. Portanto, digo o mesmo que disse no lançamento do carro da Haas: qualquer análise técnica que for feita pelos oráculos de internet é chute.
4) Verstappen disse que andou pouco no simulador, que o tamanho dos novos pneus de 18 polegadas alterou a visibilidade de dentro do cockpit, que começar o ano como campeão não tem nada de muito diferente, que o número 1 é melhor que o 33, que não sente pressão nenhuma para defender o título e só isso.
5) Pérez não consegue falar “season”, temporada, fazendo som de “Z” no segundo “S”, e por isso fala “sísson”.
6) Horner acredita que dificilmente o recorde de trocar pneus em 1s8 será batido, porque o conjunto roda + pneu deste ano, com calota e tudo, é mais pesado. “Acho que os pit stops vão ficar em torno de 2s”, falou. A distância, mandei-o à merda.
Por fim, a questão do nome do carro. RB18 é como ele será conhecido. “Meu RB18 estava bom hoje”, dirá Pérez um dia. “O problema desses RB18 é esquentar no trânsito”, queixar-se-á Verstappen em Mônaco. Claro que todos vão achar que RB é de Red Bull e 18 é porque se trata do 18º automóvel produzido pela equipe, que estreou em 2005 depois que Didi das Latinhas comprou a Jaguar, que era da Ford, que tinha comprado a equipe de Jackie Stewart. Notam-se, nas fotos abaixo, as semelhanças entre todos eles: o filho que é parecido com o pai, que é a cara do avô.
A verdadeira origem dos códigos dos carros da Red Bull, porém, nada tem a ver com a simplória associação com as primeiras letras da empresa que empresta seu nome à equipe. Há duas versões conflitantes que remontam aos primeiros testes que a equipe fez em Silverstone, logo depois da compra da Jaguar. David Coulthard e Christian Klien foram os pilotos escolhidos e o escocês, já em final de carreira, não queria encrenca com ninguém e estava dando graças aos céus por ter conseguido um emprego. Depois das primeiras voltas com o bólido, apesar dos tempos pouco promissores e de um comportamento errático na pista, foi questionado pelo chefe dos mecânicos sobre o carro e respondeu, polidamente, como sói aos escoceses: “Olha, eu posso dizer sem medo de errar que ele roda bem”. “Roda bem, roda bem!”, repetiu o mecânico pelo rádio para passar seu primeiro relatório do dia ao engenheiro, que por sua vez mandou uma mensagem de texto sucinta para o dono da equipe pelo celular: “Roda bem”.
A outra versão me parece menos verossímil e creio até ser um chiste, desses comuns entre mecânicos. Klien, que não era assim um piloto de grandes predicados técnicos, não conseguia fazer uma volta decente em seus primeiros treinos, dando rodopios e saindo da pista com frequência. O mesmo chefe dos mecânicos, dado a gracejos fora de hora, recebeu um SMS do engenheiro com um questionamento sobre ele. “E então, como foi o menino?”, perguntou o superior hierárquico, que estava na fábrica acompanhando a prática pelo computador. “Roda bonito!”, respondeu o rapaz nos boxes.
Seja como for, parece não haver dúvidas que o RB vem daqueles tempos, seja de “roda bem”, seja de “roda bonito”, e acabou ficando.
O 18 eu não sei o que é, não.