Blog do Flavio Gomes
F-1

ASTON NEWEY

SÃO PAULO (grande jogada) – O mistério durou coisa de quatro meses, depois do anúncio da saída da Red Bull: para onde iria Adrian Newey? O destino óbvio era a Ferrari. Houve conversas, como confirmou Frédéric Vasseur. Passou perto. No fim, prevaleceu a força do francês, que não queria alguém com plenos poderes técnicos em […]

SÃO PAULO (grande jogada) – O mistério durou coisa de quatro meses, depois do anúncio da saída da Red Bull: para onde iria Adrian Newey?

O destino óbvio era a Ferrari. Houve conversas, como confirmou Frédéric Vasseur. Passou perto. No fim, prevaleceu a força do francês, que não queria alguém com plenos poderes técnicos em Maranello. Williams e Aston Martin estavam na fila. A Williams, sempre disse aqui e nas nossas lives no YouTube, era só espuma. Não tinha condições de oferecer muita coisa ao projetista. Já a Aston Martin…

A Aston Martin levou Newey, em junho, para conhecer sua nova fábrica. Fica em Silverstone, onde nasceu a Jordan — que deu origem à equipe atual. O cicerone foi Lawrence Stroll, bilionário canadense que comprou a Force India em agosto de 2018 por US$ 117 milhões e assumiu uma dívida de pouco menos de US$ 20 milhões para não deixar o time ir à falência. Stroll rebatizou a equipe como Racing Point e em 2021 transformou-a em Aston Martin, já que é um dos maiores acionistas da montadora inglesa.

Então, começou a gastar. As instalações que encantaram Newey formam o AMR Technology Campus, que incluem fábrica, escritórios e um novo e moderníssimo túnel de vento que entra em operação no ano que vem. Além de lindos jardins e lago com carpas. A Aramco, petrolífera estatal da Arábia Saudita, passou a ser sócia de Stroll-pai (não nos esqueçamos nunca que ele comprou uma equipe para deixar seu filho Lance correr em paz) no time. A Honda será sua parceira técnica a partir de 2026. Hoje está na Red Bull, disfarçada. Faltava alguém como o engenheiro britânico, que tem o currículo mais vencedor da história da F-1. Não falta mais.

Newey será acionista da Aston Martin, além de receber um ordenado cujo valor tem sido especulado entre US$ 25 milhões e US$ 40 milhões por ano por quatro temporadas, inicialmente. Mas a nomeação do projetista como Managing Technical Partner, título oficial, mostra que sua relação com a Aston Martin irá além da condição patrão-funcionário. Assim, calcular quanto ele vai ganhar é tarefa cujo resultado nunca será dos mais precisos. Vai ter muito chute por aí.

“Assim que Adrian ficou disponível, eu sabia que tinha de fazer acontecer”, disse Stroll-pai hoje, lembrando de sua saída do time dos energéticos em maio. “Quando ele viu o que fizemos em Silverstone, entendeu rapidamente onde queremos chegar.” Segundo o dono da equipe, a visita à nova fábrica foi decisiva para Newey aceitar o que lhe fora proposto. Ele ficou impressionado com o que viu. E como escrevi aqui na semana passada, tudo que pediu Lawrence topou.

De acordo com Newey, que começa a trabalhar para valer em 1º de março de 2025, tudo conspirou para que o convite da Aston Martin acabasse sendo aceito. Tem o novo pacote de regras de 2026, que incluem chassis e motores, e ele gosta de começar projetos do zero. Tem também o trabalho de integração com a Honda e o desenvolvimento de novos combustíveis com a Aramco. O novo túnel de vento foi descrito como “empolgante”. Além de muita grana, liberdade para fazer o que quiser e montar sua equipe como bem entender, seguir morando na Inglaterra e trabalhar com alguém como Fernando Alonso — a quem passou boa parte da vida tentando derrotar. “Lawrence está determinado a construir uma equipe vencedora. Sua paixão e seu comprometimento são muito grandes. Ele é o único dono majoritário de uma equipe na F-1 que está ativamente engajado no esporte”, falou em entrevista coletiva hoje pela manhã. “Eu precisava de um novo desafio.”

Newey chegou à F-1 em 1980 pelas mãos, vejam só, dos irmãos Fittipaldi, na Copersucar. Depois foi para a Indy. Voltou à Europa em 1987 para trabalhar na March e em sua sucessora, a Leyton House. Em 1991 foi contratado pela Williams. Em seis temporadas, até 1996, seus carros ganharam quatro Mundiais de Construtores e ficaram duas vezes em segundo. De 1997 a 2005 vendeu sua genialidade à McLaren. Em nove anos, um título de Construtores e quatro vices. No fim de 2005 cerrou fileiras com a Red Bull, onde em quase duas décadas de serviços prestados ganhou seis títulos entre as equipes e entregou cinco vices. No total, contando títulos de Pilotos e Construtores, os carros de Newey na F-1 foram 25 vezes campeões.

É um sujeito que vale cada centavo. Com sua liderança técnica, estrutura prestes a entrar em funcionamento, dinheiro ilimitado e parcerias como as da Honda e da Aramco, é bem provável que a Aston Martin atinja o objetivo estabelecido por Lawrence quando resolveu entrar de cabeça no negócio da F-1. A saber: se tornar uma das grandes e ser campeã. Mas ele tem os pés no chão. Sabe que, em algum momento, vai precisar de alguém para conduzir o fruto de seu trabalho às taças e conquistas. Esse alguém não será o filhote Lance, um piloto de recursos limitados que talvez nem estivesse na F-1 se não fosse quem é. Nem Alonso, que possivelmente não terá tempo de desfrutar do que está sendo erguido agora em Silverstone — aos 43 anos de idade, tem consciência de que a aposentadoria tende a chegar antes dos resultados.

Por isso, preparem-se. Lawrence, como se viu hoje no anúncio da chegada de Newey, quer o melhor que o dinheiro pode comprar para seu time.

E o melhor que o dinheiro pode comprar atualmente se chama Max Verstappen.