Blog do Flavio Gomes
Autódromos

PATRIOTÁRIOS (8)

CAPITAL PAULISTA (mais um…) – Eu já não caio mais no conto do novo autódromo do Rio para comprar projetos e planos como se fossem fatos consumados. Mas é preciso registrar determinadas notícias. E, dependendo de sua origem, a gente pode torcer para dar certo ou, simplesmente, alertar o distinto público de que é conversa […]

Representação do autódromo de Guaratiba: sai?

CAPITAL PAULISTA (mais um…) – Eu já não caio mais no conto do novo autódromo do Rio para comprar projetos e planos como se fossem fatos consumados. Mas é preciso registrar determinadas notícias. E, dependendo de sua origem, a gente pode torcer para dar certo ou, simplesmente, alertar o distinto público de que é conversa fiada.

Foi o caso de Deodoro, que vocês devem se lembrar. Lá pelos idos de 2019, o tosco eleito presidente apareceu no Rio ao lado do ex-governador Wilson Witzel (que foi cassado) e do pastor Marcelo Crivella (prefeito à época, deputado atualmente) para “anunciar” que no ano seguinte a F-1 seria disputada num autódromo que seria construído numa área do Exército na Floresta do Camboatá. Falou, o belzebu, que a F-1 ia sair do Brasil, mas que depois de sua eleição a categoria mudou de ideia ao perceber que o país voltaria a ser próspero e impoluto. Disse um monte de mentiras, como de hábito. Junto ao sinistro trio de políticos havia um sujeito de alcunha JR que se declarava empresário e estaria à frente da iniciativa. As obras, prometeu o prefeito-pastor, começariam em 45 dias.

Não havia NADA de regular ou factível naquele disparate. Para começar, tinha a questão ambiental — que o estrupício simplesmente ignorou. Depois, era terreno minado para treinamentos militares, o que elevaria os custos das obras imensamente — já que poderiam morrer operários a cada cinco minutos se não fosse feita uma caríssima descontaminação do local. Não havia nenhuma pista de onde sairia o dinheiro para fazer cem metros de asfalto, que fosse. Era, tudo, uma gigantesca farsa que o tinhoso resolveu jogar no ventilador para espezinhar o governador de São Paulo, João Doria, de quem havia se afastado politicamente.

Mesmo assim, foi constituída uma empresa de nome chique (MotorPark, acho) e, além da F-1, os envolvidos anunciaram também a realização de uma etapa da MotoGP, outra da Indy, motociatas e carreatas, quiçá uma edição das 24 Horas de Le Mans. Eu morava no Rio, na época. A imprensa local, especialmente, encampou a ideia sem questionar nada e manchetou: F-1 está fora de São Paulo e volta no ano que vem.

Essa história de fazer um autódromo naquela região da cidade era velha, tinha começado em 2010 (encontrei registros antigos no blog). Em 2013, publiquei uma nota aqui com o título “A mentira de Deodoro”, baseado em documentos revelados pelo Américo Teixeira Jr. Anos depois, o ser imundo fez seu anúncio, em 8 de maio de 2019 — hoje ele resta em sua casa vomitando e soluçando enquanto aguarda para saber em qual cela será preso. No mesmo dia, escrevi aqui: “Jair, Wilson e Marcelo mentem”. Não vou dizer que fui voz isolada, mas no meio especializado posso, sim, afirmar que ninguém falou com tanta clareza do que se tratava aquele desatino: uma mentira.

Foi preciso que algumas entidades cariocas se mexessem para brecar aquela insanidade, e o veto das autoridades ambientais à destruição da floresta acabou sendo determinante para que o projeto morresse, embora estivesse muito claro que a picaretagem não prosperaria de jeito nenhum. Mesmo assim, até o bigodudo da Liberty, cujo nome me foge, posou para fotos sorridente ao lado do satanás um mês depois — peço perdão por publicar as fotos abaixo, mas é que não podemos nos esquecer de certos momentos da história recente do Brasil.

Recentemente veio à tona um novo projeto de autódromo para o Rio, e desde já aviso: sou totalmente a favor de uma pista na cidade desde o infame assassinato de Jacarepaguá. Ah, mas por que era contra Deodoro? Eu não era contra Deodoro. Eu era contra a destruição de uma floresta, era contra a mentira de políticos filhos da puta, era contra o que se mostrava claramente uma farsa.

E chegamos, finalmente, a Guaratiba. Aquela imagem lá em cima foi divulgada hoje no Rio na Cidade das Artes. A apresentação foi feita pelo prefeito bossa nova Eduardo Paes junto com os empresários que estão à frente do projeto. Guaratiba também não nasceu hoje, já se fala nessa região para construir um autódromo desde 2015. Em janeiro deste ano, na minha newsletter, escrevi sobre o assunto. Pelo que li hoje, a ideia é começar as obras no primeiro semestre de 2026 e, quem sabe, pleitear uma corrida de F-1 em 2029. Fala-se num investimento de R$ 1,3 bilhão e em dois anos para a construção. Entre os envolvidos está a turma que faz o Rock in Rio. Nesse terreno, em 2013, o papa Francisco deveria ter rezado uma missa para fechar a Jornada Mundial da Juventude, mas uma tempestade acabou alagando tudo e o evento foi transferido para Copacabana.

Na mídia carioca, o mesmo erro de Deodoro está sendo cometido neste instante: comprar o projeto como se fossem favas contadas. “O complexo ficará” no lugar tal e “terá capacidade para 120 mil pessoas”, diz o G1, da Globo. Crianças, cuidado com os tempos verbais. Usar o futuro do presente nesses enunciados é dar como certo que um vídeo e uma animação de computador se transformarão em realidade num estalar de dedos. Calma. O que o Rio fez hoje foi apresentar com alguns detalhes o que ainda é um projeto. Serão necessárias licenças ambientais, levantar o dinheiro, viabilizar o empreendimento.

A diferença para Deodoro, porém, é claríssima. Quem apresentou o projeto, para começo de conversa, sabe usar talheres. Não estava ladeado por um parvo que deixou como legado político o conceito de “mirar na cabecinha”, nem por um pastor lunático, muito menos por um dono de loja de chocolate amigo de milicianos. Os empresários são… empresários, e não um obscuro empreendedor de alcunha “Queimadinho” em seu estado natal. E segundo todos os presentes na apresentação, o projeto é privado. A Prefeitura não entra com dinheiro.

O que quero dizer é que Guaratiba pode sair, sim, e seria ótimo. Adoraria ver o GP do Brasil (quando é que vão acabar com essa bobagem de GP de São Paulo?) sendo disputado em revezamento com o Rio. Ou, quem sabe, duas corridas aqui. Se os EUA podem ter três GPs, por que não?

Guaratiba fica longe pra cacete, é quase vizinho de Itaquera, mas é Rio de Janeiro. Em que pesem todas suas mazelas, é um lugar que não pode ficar sem automobilismo. É o que penso.

Por isso, vou torcer silenciosamente por Guaratiba.