Arquivoterça-feira, 19 de agosto de 2008

BA-XI!

B

PEQUIM (em 15 minutos, esvaziaram o estádio!) – Só agora, meia hora depois de terminado o jogo, me senti num estádio de futebol de verdade. Foi quando um cara à minha esquerda, nas cadeiras amarelas, com uma peruca ridícula, se virou para o gramado, antes de ir embora de vez, e gritou: “Dunga filho da puta!”. Tornou a se virar e se mandou.

Até então, apesar da presença de brasileiros e argentinos entre as mais de 50 mil pessoas (52.968, para ser preciso) que viram o time do Messi (hoje, do Aguero) golear o time do Ronaldinho por 3 a 0, me senti numa espécie de circo de focas amestradas. Os chineses torcem de um jeito muito particular. Torcem para os dois times. Tanto que mesmo depois de a Argentina confirmar a tunda com o gol de pênalti de Riquelme, eles continuavam gritando “Ba-Xi!”, porque falar Argentina daria um nó em suas línguas (a foto abaixo, a melhor que vi deste jogo, é de Nara Alves, do iG).

“Ba-Xi” é o nosso querido Brasil. Que não jogou nada. Na primeira partida difícil da Olimpíada, levou um coco e ainda teve dois jogadores expulsos. Foi aquilo que os críticos chamarão de “vexame” nos pasquins de amanhã e nas análises de TV e rádio hoje, durante todo o dia.

Aguero foi o nome do jogo, com dois gols e ainda sofrendo o pênalti no terceiro. A Argentina jogou como sempre, comendo grama, como eles costumam fazer em todos os esportes. Argentino tem muito orgulho de seu país.

Já o Brasil… Bem, não nutro grande simpatia pelo técnico da seleção, muito menos por aqueles que comandam o futebol no país, seja nos clubes, seja nas federações. Acho-os todos uns retrógrados, ultrapassados e mal-vestidos. Dunga, para mim, não é técnico. E seria ótimo se deixasse o cargo. Eu, se me perguntassem algo, iniciaria agora mesmo a campanha “Mano Menezes já”, gosto do estilo dele, um discípulo de Felipão — este, um cara que se isolou da CBF para formar sua “família” na Copa de 2002, e conseguiu.

Essa patota da seleção brasileira me é, na verdade, muito antipática. Quase todos jogam fora, não têm identificação com o futebol que se pratica e se vive no Brasil, são meio distantes, dândis da bola, sei lá… Olhando a seleção jogar, não sinto que ela representa o futebol que vejo de quarta e domingo no Canindé, se é que vocês me entendem.

Por isso, esta derrota aqui me doeu menos do que a picada de mosquito que tomei no início do jogo (matei o mosquito, mas não sei se matei o certo; os mosquitos são muito parecidos entre eles, aqui). Espero, apenas, que os jogadores tenham a dignidade de lutar na decisão do bronze contra a Bélgica, porque Olimpíada é um negócio diferente do que eles estão acostumados a disputar. Uma medalha tem valor, cada vitória representa algo, espírito olímpico é algo que existe, embora não pareça a distância.

“Dunga filho da puta!” foi o que gritou o cara que a esta altura já deve estar na rua, à procura de um táxi. Eu também já xinguei muitos técnicos na vida, e juízes e jogadores e torcedores dos outros times, e um de meus orgulhos pessoais é ver meus filhos fazendo a mesma coisa quando os levo ao estádio (só pode no estádio, é o combinado).

Chamar alguém de “filho da puta” é algo que deveria ser obrigatório em qualquer jogo de futebol. Creio que os jogadores da seleção perderam o costume de ouvir essa manifestação específica das arquibancadas, porque andam longe demais do rame-rame de nossas vidinhas, cuidando das suas em Milão ou Barcelona, e talvez por isso não façam mais em campo aquilo que gostaríamos de ver, aquilo que gostamos de ver os nossos times fazerem. Ninguém mais chama jogador da seleção de filho da puta simplesmente porque a seleção não é mais o nosso time.

Por isso foi bom o cara dar uma xingada antes de ir embora. E terá sido melhor ainda se alguém da seleção tiver escutado.

FLAGRA DA VILA

F

PEQUIM (sol de rachar) – Na Vila Olímpica, onde ficam os atletas, jornalista só entra se chegar de ônibus, o transporte oficial que faz o trajeto a partir dos dois centros de imprensa. Porque quem está dentro do ônibus em algum momento já passou por algum tipo de vistoria.

Fomos dar um passeio a pé por lá hoje, na hora do almoço. É bem pertinho. E é o lugar mais protegido de Pequim, onde ficam as estrelas, onde se hospedam nações que nem sempre são muito amadas por vizinhos distantes e longínquos. E sabe quem encontramos numa das entradas? A SWAT! Aquela do seriado da TV.

Não sabia que tinha filial aqui.

O MISTÉRIO DA VARA

O

PEQUIM (continuo na mesma) – Desleixo dos organizadores ou erro do staff técnico da Fabiana Murer? O grande drama brasileiro destes Jogos, meio bizarro, até, segue sendo um mistério. Afinal de contas, quem deveria tomar conta da vara?

O que se sabe até agora é que a vara que ela usaria para os saltos de 4,55 m e 4,65 m não estava no Ninho na hora em que deveria estar. Foi levada de volta a um depósito da Vila Olímpica junto com as varas das atletas que não passaram à final.

Quem deveria checar se ela estava lá, no local da competição, no dia seguinte? Não sei. O técnico Elson de Souza disse, na entrevista que ouvi na ESPN Brasil, que era obrigação “dos organizadores”. Outras varas foram levadas para o estádio no dia da final. Todas as outras atletas tinham suas varas no lugar, menos Fabiana. Não estou insinuando nada, nem tentando achar um culpado. Apenas acho que a situação foi mal conduzida na pista. Aqueles momentos em que Fabiana ficou procurando a vara, agoniada, acabaram com qualquer possibilidade de se concentrar para a prova.

Como os técnicos ficam nas arquibancadas, a distância, é difícil também procurar ajuda externa. As atletas ficam sozinhas na arena, aos leões, e Fabiana se desesperou, o que é mais que compreensível. Tentou até parar a prova postando-se à frente da competidora chinesa, me lembrando aquele estudante na Praça da Paz Celestial que em junho de 1989 enfrentou uma coluna de tanques armado apenas com uma sacola e o peito aberto, numa das imagens mais fortes do século 20 (curioso que tentei procurar no YouTube algum vídeo para colocar aqui, mas ao usar certas palavras-chave, esquece, não abre picas; mas é fácil encontrar “youtubando” aí no Brasil).

Fabiana não parou a prova, assim como o estudante não impediu o massacre que o governo chinês não gosta que seja lembrado. Mas dizem que o rapaz ainda está vivo, ninguém sabe seu paradeiro, e Fabiana segue vivíssima, com uma carreira inteira pela frente.

Agora, que a história da vara é misteriosa, isso é.

FROM RUSSIA WITH LOVE

F

PEQUIM (promessa é dívida) – Phelps, Bolt e, agora, Elena Isinbaeva. São meus três ídolos olímpicos em 2008. E decidi publicar uma pequena galeria de fotos de um dos três. Escrevi seus nomes em pedacinhos de papel, coloquei-os dentro de um boné, puxei um e… deu Elena Isinbaeva, putz.

Às fotos, então, já avisando que numa delas o primeiro carro que aparece no canto direito da imagem era do pai da Elena. Foi tirada em Volgograd, sua cidade natal.

BALANCÊ

B

PEQUIM (céu azul de novo) – Depois de algum tempo num país, a gente começa a estabelecer pequenas rotinas. As pessoas não vivem sem rotinas, elas nos dão uma sensação de continuidade, de ordem nas coisas. É importante ter uma sequência ao levantar: escovar os dentes, passar um café, fazer uma torrada, tomar o banho, sair. Só assim se pode começar um dia decente.

Aqui, a minha inclui a leitura diária dos jornais na van que nos leva ao Parque Olímpico. Fico sabendo as novidades da cidade, da política, do esporte e das novelas.

E enquanto meu dia começa aqui, o seu termina aí — caso você esteja no Brasil, claro; outro dia descobri que este blog tem leitores até em Hong Kong e Cingapura, o que me fez lembrar imediatamente de Confúcio e sua clássica frase a Gah-Fang-Yotung quando de sua marcha para o norte, o fiel discípulo aterrorizado com a fama dos guardas da fronteira mongol. Ao notar o pavor nos olhos de Gah-Fang-Yotung, Confúcio foi tomado de grande inspiração, suspirou e declamou que “(…) nunca há razões para o medo entre povos de uma nação e outra, o mundo é uma aldeia global e, como filhos de Buda, somos todos irmãos”, e dizendo isso pegou o passaporte de seu embornal, abriu na quinta página, cheia de carimbos, e exclamou: “Puta merda, esquecemos de tirar o visto”.

Mas eu dizia que o dia acaba de um lado e começa do outro, e todo dia de manhã, depois do café, das torradas, do banho e dos jornais, faço um balanço medalhístico para saber a quantas anda a antiga URSS, e sempre descubro alguma coisa curiosa. Como, por exemplo, que…

…66 países já ganharam medalhas em Pequim entre os 204 que inscreveram delegações…

…no total, foram distribuídas 584 medalhas (186 de ouro, 187 de prata e 211 de bronze)…

…dos 66 “medalhados”, 21 países ganharam só uminha…

…Cuba e Bielo-Rússia, com 11 no total, estão atrás da Geórgia e da Etiópia, que têm apenas três, porque possuem menos ouros…

…só 16 países ganharam mais do que duas medalhas de ouro, e 17 ganharam apenas uma…

…o Brasil está em 38º no quadro de medalhas que usa o ouro como parâmetro de classificação, e em 22º quando considerado o total de medalhas conquistadas…

…China e EUA têm, juntos, 139 medalhas até agora, 23,8% do total…

…as repúblicas da antiga URSS somam 87 medalhas, sendo 18 de ouro, 27 de prata e 42 de bronze…

…e, por fim, como mostra a foto ao lado, do computador que traz todos os resultados e estatísticas e biografias e o diabo a quatro (por isso que nós, jornalistas, passamos sempre a impressão de que sabemos tudo…), o Comitê Olímpico Internacional não chama os países de “países”, mas sim de “NOCs”, Comitês Olímpicos Nacionais, e por isso suspeito que esta competição não acontece entre países diferentes, e sim entre comitês diferentes, que podem formar as equipes que bem entenderem, e é por isso que tem chinês jogando ping-pong pelo Congo e brasileiro defendendo a Geórgia no vôlei de praia, ninguém está nem aí.

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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