Arquivosábado, 1 de março de 2014

GRANDE CAMARADA!

G

lucanamarussiaSÃO PAULO (boa!) – Fiquei feliz da vida hoje ao saber que Luca Colajanni, dos poucos amigos de verdade que fiz na F-1, volta aos boxes, paddocks e autódromos neste ano. Ex-assessor de imprensa da Ferrari nos anos Schumacher/Barrichello/Massa, ele andava meio deprimido depois que a equipe promoveu uma reformulação em seu departamento de comunicação, há cerca de dois anos. Passou a trabalhar na fábrica, mas ele gosta mesmo é de pista.

Pois Luca, meu camarada comunista, passa a ser diretor da Marussia a partir de hoje. Vai ter um cargo executivo cujas responsabilidades incluem estratégias de desenvolvimento da equipe e relações com parceiros comerciais e técnicos — entre eles a Ferrari, que fornece motores aos marússicos.

Luca trabalhou mais de 20 anos em Maranello. É difícil cortar raízes tão intensas e duradouras, ainda mais com uma empresa como a Ferrari, mas assim é a vida. Buona fortuna, amico mio.

DE NOITE BAR, HEIN?

D

massap1dia3SÃO PAULO (é o que resta) – Vamos falar o português bem claro: a Red Bull não tem carro para correr neste ano. O que está acontecendo é mais ou menos como chegar a um joguinho de futebol society descalço.

OK, péssima comparação. Eu poderia dizer algo como chegar a uma partida de tênis sem raquete, ou a um jogo de curling sem vassourinha. Mas dá no mesmo.

A Red Bull não tem carro. O carro não anda. Não sai do lugar. Vettel, tetracampeão mundial, simplesmente não conseguiu sair dos boxes hoje no penúltimo dia da pré-temporada, no Bahrein. Vestiu o macacão à toa.

Na verdade, até conseguiu deixar a garagem. Mas parou no meio da pista com um problema elétrico, segundo o time. Trouxeram o carro de volta. Quando o eletricista achou o fusível queimado, mandaram sair de novo. Parou no pit lane. Dizem que nem colocou capacete. “Vai quebrar, mesmo.” Só foi visto de novo horas depois em local já nosso velho conhecido. Mas, antes, passou pelos boxes da Ferrari, fez um “joinha” para Raikkonen e disse: “De noite bar, hein?”.

Contam, não sei se é verdade, que Sebastian chegou ao boteco vestido de pierrô e cantando: “Ei, você aí/me dá um motor aí/me dá um motor aí!/não vai dar/não vai dar não/você vai ver/a grande confusão/o que eu vou fazer é trocar de carro aí/me dá, me dá, me dá ô/me dá um motor aí!”. Depois, emendou: “Renault/eu não me engano/você fez merda/para este ano!”.

A Red Bull não tem carro. Alguém imaginava que poderia acontecer algo tão fora da curva assim? Pois é, aconteceu. E anotem: as primeiras corridas desta temporada serão as mais loucas de todos os tempos, com Force India e Williams lutando por vitórias e rubro-taurinos comemorando se conseguirem tempo para largar. Q2 vai ser motivo de festa. Q3, de encher a cara antes de terminar o treino.

A equipe não sabe exatamente o que acontece. Nada funciona, e quando funciona, alguma coisa nova quebra. É uma tragédia sem precedentes, quando se considera que está acontecendo com um time dominante nos últimos quatro Mundiais. A coisa está tão feia que Webber mandou um whatsapp hoje para Vettel com a hashtag #tamojunto. Tião nem leu. Já estava estirado na calçada, agarrado a uma garrafa de Natu Nobilis.

Massa foi o mais rápido do dia, e da semana até agora, com 1min33s258 depois de 99 voltas. Vai para Melbourne na condição de candidato à vitória com a Williams, ao lado da dupla da Mercedes e dos meninos da Force India. A McLaren, nesta segunda bateria barenita, ficou um pouco para trás. A Ferrari está no chove-não-molha — ou, para quem gosta de ditados automotivos, não Ford nem sai de Simca. Nenhum grande problema, mas nenhuma performance animadora. Kimi teve um defeito num conector hoje. Para achar o dito cujo, tiveram de desmontar até o airbag e o teto solar.

A Mercedes também sofreu. Às 4h, alguém notou algo errado no motor. Vettel, talvez, passando por ali depois de mais uma noitada, mas ainda capaz de perceber ruídos estranhos até nos carros rivais. “Ô, tá esquisito esse barulho aí! Tá parecendo meu motor!”. Quando ele disse isso, os mecânicos da madrugada foram checar. Ligaram para Paddy Lowe, que acordou e mandou trocar tudo. A bagaça só ficou pronta ao meio-dia. É fácil, trocar esas unidades de quebra. Assim, Rosberguinho perdeu toda a manhã. “Três horas! Perdemos três horas!”, berrou Lowe, ampulheta em punho. Mas, de tarde, Nico compensou com 103 voltas.

Magnussen, pela McLaren, também teve problemas elétricos de manhã. Mas o eletricista de sua equipe é melhor que o da Red Bull e apesar de ter levado um tempo para arrumar, arumou. Kevin, do alto de sua experiência, fez um diagnóstico preciso do novo carro prateado. “O do ano passado a gente sabia que não tinha jeito. Este, pelo menos, se parece com um carro de F-1.” Uau.

Na Toro Rosso, Kvyat, depois de 81 voltas sem registrar nada de errado, teve de ajudar a montar uma barricada nos boxes da equipe, porque Vettel tentou invadir e pegar seu carro. “É meu! Me dá esse carro, seu russo desgraçado! Viva a Ucrânia! Morte aos czares!”, gritava Tiãozinho, até ser finalmente contido pelos seguranças da equipe satélite.

Foram 115 voltas para Hülkenberg na Force India, já pensando na corrida de Melbourne. O alemão simulou um GP, testou tudo que podia, encerrou seus trabalhos dando pinta de que amanhã, último dia de testes, vai buscar tempo. Tem carro para isso. Já na Marussia, Bianchi, depois de 78 voltas e um sétimo lugar na folha de tempos, antecipou o que a equipe espera para a Austrália. “Vamos brigar com Caterham e Red Bull”. Ericsson, da rival nanica, concordou. Pelo celular de sua família, declarou que “ficar atrás de Vettel e Ricciardo será desastroso, temos de ter isso em mente”.

Os três últimos do dia na tábua de tempos só tinham lamúrias. A Lotus teve um problema “nos fios” de manhã, de acordo com o relatório técnico. Chicote, conhecem? Até encontrarem os fios, já era de tarde. Grojã saiu, andou, mas deu pau no MGU-K, um dos dois sistemas de recuperação de energia. No fim, 33 voltas. Cruzou com Vettel no paddock e confirmou: “Hoje tem bar, hein?”. Sutil, que passava por perto, topou. Só deu uma volta, e a Sauber encontrou algo no motor. Terminaram de trocar agora. Quando os mecânicos avisaram que estava pronto, Adrian já estava abraçado a Vettel cantando “Ó Christian Horner, por que estás tão triste/mas o que foi que te aconteceu?/Foi a Renault com seu motor de merda/que quando liga/esquenta e quebra”.

Amanhã acaba a pré-temporada. Depois, só em Albert Park. Podem se preparar. Vai ser um Mundial muito doido.

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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