Arquivodomingo, 21 de junho de 2015

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SÃO PAULO (vai bobeando, vai…) – Uma largada chulé de Hamilton determinou o resultado do GP da Áustria agora há pouco. Na pole, o inglês vacilou, Rosberguinho não quis saber, pulou na frente, resistiu aos ataques das primeiras curvas e respirou quando Raikkonen deu uma de cavalo chucro (antes que achem que vão me corrigir, “chucro” aceita duas grafias, a que usei e “xucro”, com “x”, mas prefiro com “ch”) e acabou montado por Alonso. O safety-car freou o ímpeto do Comandante Amilton, que estava muito disposto a recuperar o que perdera na largada antes de fechar a primeira volta.

O acidente, na curva 2, foi dos mais esquisitos, mas abreviou o calvário do espanhol, pelo menos. O carro do finlandês deu uma rabeada na reta, Fernandinho tentou passar, de repente a Ferrari guinou para a esquerda e a McLaren teve seu momento de maior velocidade em 2015, decolando para o infinito e o além. Ambos pararam trepados no guard-rail. Felizmente ninguém se machucou. Kimi disse que seu carro destracionou na reta e que não entendeu direito o que aconteceu. Alonso, totalmente zen, já plenamente recuperado da pancada na cabeça que tomou em Barcelona, falou que quando viu o céu azul diante de seus olhos pensou na paz mundial e em como se preocupa com “o fim da aventura humana na Terra, o final da odisseia terrestre”. Os repórteres se enterolharam, e Fernando continuou. “Meu carro era a última astronave, foi ali, de frente para o infinito, que pelo espaço de um instante percebi que só me restava o céu para voar, sobre o Rio, Beirute ou Madagascar.”

trepada

Sete voltinhas de safety-car deixaram Hamilton menos afoito e deram tempo a Nico de se preparar para uma relargada consistente. Foi o que fez. Quando a prova recomeçou sob o solzinho gelado de 14° de Spileberg/Zeltweg, o alemão deu uma estilingada, abriu em poucas voltas uma segura diferença de 2s e se manteve firme na ponta com alguma atenção, claro, até Hamilton ajudar mais um pouquinho, fazendo mais uma bobagem.

Ao sair dos boxes depois de sua parada única, na volta 36, o inglês deu uma mordida na faixa que delimita a saída do pit-lane, invadindo o leito da pista antes do permitido. Tomou uma punição de 5s no seu tempo total de prova. Se quisesse vencer, teria de passar Rosberg e abrir mais de 5s para o companheiro, um pulo de quase 10s, considerando a diferença que tinha para ele àquela altura. Tarefa impossível. Sossegou o facho e tratou de ficar quietinho em segundo antes que fizesse mais alguma merda.

Essa foi a história da quinta dobradinha da Mercedes no ano, que resultou na terceira vitória de Rosberg na temporada, 11ª de sua carreira. Com ela, a briga pelo título voltou a esquentar. São apenas dez pontos favoráveis a Hamilton, 169 x 159.

[bannergoogle] Mas o GP austríaco teve mais. Teve Massa no pódio, conseguindo cumprir a meta estabelecida desde a chegada a Zelwteg — onde largou na pole no ano passado. Felipe era quarto no grid, e em quarto chegaria se a Ferrari não se atrapalhasse na parada de Vettel, na volta 37. O brasileiro tinha parado na 35ª. Tião Italiano, que vinha em terceiro desde o início, já pensando em qual lugar da estante colocaria o feioso troféu que ganharia dali a pouco, perdeu 13s parado na frente da garagem da Ferrari. A roda traseira direita não se entendeu com a pistola do mecânico e a culpa foi jogada na porca. Quando tudo finalmente se ajeitou, Sebastian voltou à pista atrás do brasileiro.

Remou, remou, remou e na volta 43 estava 4s atrás do piloto da Williams. Remou mais um pouco, e na 53 a diferença era de 2s2. A briga pelo pódio nas últimas voltas dava pintas de se transformar no ponto alto da corrida. Mas Massa se mantinha seguro e constante, fazendo tempos de volta que não permitiam uma maior aproximação do alemão. Isso até a volta 65, quando a diferença caiu para menos de 1s, e a partir dali Tião poderia usar a asa-móvel. A ultrapassagem era uma questão de tempo. Certo?

Que nada… Felipe, com uma pilotagem perfeita, sem cometer nenhum erro, não deu chance alguma a Vettel de tentar a ultrapassagem e foi ao pódio pela 40ª vez na carreira, ficando ele com o feioso troféu. De quebra, passou da barreira dos 1.000 pontos na F-1, estatística meio deturpada porque o sistema de pontuação vem mudando muito nos últimos tempos — hoje um vencedor faz quase três vezes mais pontos do que quem ganhava uma corrida nos anos 90.

fimaustraia

Vettel recebeu a bandeirada em quarto razoavelmente irritado com a equipe, seguido por Sapattos, Incrível Hulk (um dos grandes nomes do dia), Maldanado, Verstappinho (os dois travaram um lindo e perigoso duelo no final), Maria do Bairro e Ricardão — este, com uma estratégia meio doida de parar apenas na volta 51 com os pneus em frangalhos, mas acabou funcionando e beliscou um pontinho. Felipe Nasr terminou em 11º depois de passar boa parte da prova na zona de pontos. Mas não foi suficientemente agressivo para lá permanecer, e ainda teve sérios problemas nos freios, que superaqueceram. “Precisamos encontrar uma solução para isso logo”, ralcamou Felipe II. Na prática, o carro da Sauber é presa fácil para quem tem algo um pouquinho melhor. Para pontuar, é preciso fazer alguma coisa diferente. Isso porque eu achava que o time suíço faria pontos em todas as corridas… Afinal, tirando McLaren e Manor Marussia, são 16 carros que disputam realmente um GP, e chegar entre os dez de 16 não deveria ser tão complicado assim. Mas tem sido.

Hamilton reconheceu os méritos de seu companheiro, na entrevista no pódio — conduzida por Gerhard Berger, que falou palavrões e chamou Rosberg de “Lewis”, para gargalhadas gerais… “Larguei muito mal e ele foi mais rápido do que eu. Depois disso, tentei de tudo para alcançá-lo e não consegui. Nico mereceu”, falou o inglês, num rasgo de humildade.

Foi a segunda vitória de Rosberguinho na Áustria. No fim das contas, uma corrida com alguma disputa apenas no segundo escalão, considerando que a luta pelo terceiro lugar acabou ficando apenas no ensaio.

Legal, mesmo, foi ver antes da largada veteranos como Patrese, Piquet, Lauda, Prost, Berger, Alesi, Martini e Danner andando com carros antigos da categoria. Foi uma farra. Piquet deu zerinho e deixou o carro no meio da pista. Martini teve de pular correndo da Minardi, que começou a pegar fogo. No fim, um grande barato.

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
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