Arquivoterça-feira, 29 de dezembro de 2015

NA PARAÍBA

N

SÃO PAULO (por que não?) – Bem, sempre faço as ressalvas de praxe quando se trata de projeto de autódromo no Brasil. Quantos já foram anunciados aqui que nunca saíram do papel? Em compensação, teve coisa que virou realidade, sim. O Circuito dos Cristais, em Curvelo, é o maior exemplo.

Agora, a Paraíba.

Quando eu estava lá, semana passada, recebi um e-mail do leitor Carlos Ribeiro com informações sobre um autódromo que está sendo construído a 30 km da capital, na direção de Campina Grande. Não tive tempo de ver nada de perto, mas agora dei uma pesquisada e, sim, tem mais um autódromo saindo do forno, ainda que em silêncio.

[bannergoogle] O Autódromo Internacional da Paraíba já existe, de certa forma, como se pode ver pela foto mais abaixo. Há uma reta já asfaltada, e um edifício de boxes sendo construído. No dia 24 de janeiro haverá uma prova de arrancada, como se lê aqui, dando início às atividades no local.

O empresário Fernando Monteiro é o responsável. Não o conheço, mas encontrei esta entrevista com ele aqui, de 2011, e por ela é possível traçar um breve perfil dele. Entusiasta de corridas desde os anos 60, pioneiro do kart no Nordeste, o ex-piloto de família abastada construiu uma pista de terra há alguns anos numa região que acabaria se transformando numa das mais valorizadas de João Pessoa. Essa área fica no chamado Altiplano, que virou bairro rico da cidade, repleto de edifícios enormes com vista para o mar (mas afastados da orla) e de condomínios residenciais. Monteiro deve ter feito muito dinheiro com esses terrenos.

Ali ficava um autódromo/barródromo/kartódromo chamado Mario Andreazza, bajulação que não me agrada muito. Andreazza, militar gaúcho, foi um dos mais proeminentes ministros da ditadura, tendo servido aos governos de Costa e Silva, Médici e Figueiredo. Na pasta dos Transportes, cometeu a aberração da Transamazônica e foi o responsável pelas obras da Ponte Rio-Niterói.

Posso estar sendo tremendamente injusto, mas a impressão que tive ao ler a entrevista de Monteiro foi a de estar ouvindo um daqueles coronéis nordestinos que fizeram a má fama da elite local. Mas repito: posso estar sendo tremendamente injusto. Não conheço sua história e me baseio apenas no que ele mesmo conta, o que inclui relações muito íntimas com o poder político do Estado e projetos mirabolantes como levar a Indy para a Paraíba com a ajuda de Emerson Fittipaldi — a quantidade de “iniciativas” envolvendo Emerson nos últimos anos é gigantesca.

dapb

 

Bom, são apenas ilações, e neste momento o que mais me importa é ver se esse negócio sai mesmo, como parece que vai sair — a promessa é de que fique pronto em meados do ano que vem. Há um vídeo de apresentação no fim do texto, que informa que a pista terá três traçados distintos, o maior deles com cerca de 3,5 km de extensão, mais hotel, restaurante, torre de controle, 30 boxes e tudo mais. O vídeo não é grande coisa — uma animação por computador meio simplória, sem detalhes relevantes, meio tosca, até. Mas isso é o de menos se o autódromo virar realidade e se tudo for feito, como se diz, “nos conformes”.

Monteiro parece ser um milionário disposto a levar o automobilismo para a Paraíba, e não há mal nenhum nisso. Tomara que dê muito certo e que o país ganhe mais um circuito em condições de receber todas as categorias que quiserem correr lá. Tem uma página sobre o autódromo no Facebook para quem quiser se manter atualizado, mas o site do empreendimento não está ativo ainda.

Vamos acompanhar de perto, e peço aos nossos blogueiros paraibanos que nos mantenham informados. Porque se eu já estava pensando em morar em João Pessoa num futuro próximo, a ideia acaba de ganhar um grande aliado chamado Autódromo Internacional da Paraíba. Não vivo sem uma pistinha de corrida…

DOIS ANOS

D

keepfghtong444

SÃO PAULO (#KeepFighting) – No domingo em que Schumacher sofreu o acidente de esqui que hoje completa dois anos, devo ter acordado tarde. O Grande Prêmio já tinha dado a notícia quando liguei o computador para dar uma geral nas coisas, porque o Victor Martins me alertou por mensagem do que tinha acontecido. Vamos ver o que ele aprontou dessa vez, pensei, já escaldado pelos tombos de motocicleta e outras traquinagens do primeiro período de aposentadoria.

As primeiras notícias eram pouco esclarecedoras, continham poucos detalhes sobre a queda, mas davam conta de que ele estava bem. OK, que bom, pensei. Vou escrever um texto louvando a aposentadoria de um cara que se recusa a ficar em casa “coçando o saco e passando Hipoglós”, apoiando toda e qualquer maluquice que ele quisesse fazer, e o título do post, publicado às 13h26, foi “Vida loka”. Lembrei do Montoya, que caiu de moto, do Webber, que tomou um capote de bicicleta, do Senna, que foi atropelado por um jet-ski, do Mansell, que quase ficou fora de uma prova decisiva porque se machucou jogando bola. Minha tese: eles todos têm o direito de viver como quiserem. “E se o que ele faz para se divertir pode resultar numa cabeçada numa pedra, paciência”, decretei.

Era um domingo. Devo ter saído para almoçar, ir ao cinema, sei lá. Quando voltei, à noite, abri o computador. O mundo estava caindo. O pessoal do site, em plantão permanente. Foi só às 19h53 que voltei ao blog — bem atrasado, porque àquela altura todos já sabiam da gravidade da situação. Viramos a noite e a madrugada atrás de informações. Elas só pioravam.

Schumacher ficou alguns meses em Grenoble, depois foi transferido para a Suíça, hoje está em sua casa. Um ano atrás, meu espanto era pelo fato de não ter surgido uma imagem sequer dele depois do acidente. Tal espanto persiste. Mas não incomoda.

[bannergoogle] Penso apenas, como pensava no período em que Jules Bianchi ficou hospitalizado sem nunca ter recobrado a consciência, naquilo que se passa dentro de alguém que se encontra no estado em que Michael está. É duro para a família? Muito. Mas tendo a acreditar que depois de dois anos, do choque inicial, mesmo quem vive tão próximo acaba estabelecendo uma nova rotina, retoma suas atividades, procura tocar a vida — até porque não há muito mais a fazer. Seus filhos, Gina e Mick, devem ter amigos, vão à escola, devem sair para baladinhas, namoram, praticam esportes — a menina, equitação; o menino é piloto, o que lhe confere enorme dignidade.

Mas e Schumacher? Ele enxerga, escuta, se comunica, se emociona, chora, sorri, sofre? Sabe o que se passa a sua volta, sabe o que lhe aconteceu, é grato por estar vivo, tem lembranças do passado, é capaz de amar, de ser feliz?

Muitas vezes, manter alguém vivo é ato de egoísmo daqueles que cercam o moribundo, querem sua presença respirando do jeito que for, negam-lhe a morte sem levar em conta qual é a vida que está ali. Não, não estou propondo que matem todos aqueles que há meses, anos, décadas restam inertes em camas de hospital, que a morte é melhor do que um fiapo de vida, quem sou eu?, mas não consigo não pensar nisso, no desejo de quem não consegue dizer o que deseja, na impossibilidade da escolha, na agonia que deve ser querer morrer e não poder dizer isso a ninguém. Espero, do fundo do coração, que Michael não esteja passando por isso.

“Life is about passions. Thank you for sharing mine”, escreveu Schumacher no capacete no último GP de sua vida, em 25 de novembro de 2012. Foi aqui do lado, em Interlagos. Foi generoso com aqueles que o seguiram por tanto tempo, agradecendo a todos por terem dividido com ele a paixão pela velocidade, pelas corridas, pela Fórmula 1.

A vida não foi generosa, com ele, porém. Ou, talvez, esteja sendo, não sabemos. Pode ser que um olhar, um esboço de sorriso, um pequeno gesto valham mais do que todas as vitórias e troféus, do que toda a fortuna e fama. Só ele sabe, e acho que ninguém tem o direito de tentar adivinhar.

RIO, 1937

R

SÃO PAULO (o que sobrou?) – Foi em 2008 que postei este vídeo pela primeira vez, mas ele desapareceu das ondas da internet. Então, vai de novo, no trabalho precioso do Nelson Pasini, que encontrou as imagens e editou. Rio de janeiro, 1937, Circuito da Gávea, o Trampolim do Diabo. Isso aí era a F-1 do pré-Guerra. Os melhores do mundo estavam aqui. A pista ainda existe, passa pelo meio da Rocinha, não sei se é possível percorrê-la. Mas vocês, do Rio, vão identificar quase tudo. E quando passarem por esse asfalto sagrado, façam uma reverência.

Perfil


Flavio Gomes é jornalista, dublê de piloto, escritor e professor de Jornalismo. Por atuar em jornais, revistas, rádio, TV e internet, se encaixa no perfil do que se convencionou chamar de multimídia. “Um multimídia de araque”, diz ele. “Porque no fundo eu faço a mesma coisa em todo lugar: falo e escrevo.” Sua carreira começou em 1982 no extinto jornal esportivo “Popular da Tarde”. Passou pela “Folha de S.Paulo”, revistas “Placar”, "Quatro Rodas Clássicos" e “ESPN”, rádios Cultura, USP, Jovem Pan, Bandeirantes, Eldorado-ESPN e Estadão ESPN — as duas últimas entre 2007 e 2012, quando a emissora foi extinta. Foi colunista e repórter do “Lance!” de 1997 a 2010. Sua agência Warm Up fez a cobertura do Mundial de F-1 para mais de 120 jornais entre 1995 e 2011. De maio de 2005 a setembro de 2013 foi comentarista, apresentador e repórter da ESPN Brasil, apresentador e repórter da Rádio ESPN e da programação esportiva da rádio Capital AM de São Paulo. Em janeiro de 2014 passou a ser comentarista, repórter e apresentador dos canais Fox Sports no Brasil, onde ficou até dezembro de 2020. Na internet, criou o site “Warm Up” em 1996, que passou a se chamar “Grande Prêmio” no final de 1999, quando iniciou parceria com o iG que terminou em 2012. Em março daquele ano, o site foi transferido para o portal MSN, da Microsoft, onde permaneceu até outubro de 2014. Na sequência, o "Grande Prêmio" passou a ser parceiro do UOL até maio de 2019, quando se uniu ao Terra por um ano para, depois, alçar voo solo. Em novembro de 2015, Gomes voltou ao rádio para apresentar o "Esporte de Primeira" na Transamérica, onde ficou até o início de março de 2016. Em 2005, publicou “O Boto do Reno” pela editora LetraDelta. No final do mesmo ano, colocou este blog no ar. Desde 1992, escreve o anuário "AutoMotor Esporte", editado pelo global Reginaldo Leme. Ganhou quatro vezes o Prêmio Aceesp nas categorias repórter e apresentador de rádio e melhor blog esportivo. Tem também um romance publicado, "Dois cigarros", pela Gulliver (2018), e o livro de crônicas "Gerd, der Trabi" (Gulliver, 2019). É torcedor da Portuguesa, daqueles de arquibancada, e quando fala de carros começa sempre por sua verdadeira paixão: os DKWs e Volkswagens de sua pequena coleção, além de outras coisinhas fabricadas no Leste Europeu. É com eles que roda pelas ruas de São Paulo e do Rio, para onde se mudou em junho de 2017. Nas pistas, pilotou de 2003 a 2008 o intrépido DKW #96, que tinha até fã-clube (o carro, não o piloto). Por fim, tem uma estranha obsessão por veículos soviéticos. “A Lada foi a melhor marca que já passou pelo Brasil”, garante. Por isso, trocou, nas pistas, o DKW por um Laika batizado pelos blogueiros de Meianov. O carrinho se aposentou temporariamente no início de 2015, dando o lugar a um moderníssimo Voyage 1989. Este, por sua vez, mudou de dono em 2019 para permitir a volta do Meianov à ativa no começo de 2020.
ASSINE O RSS

Categorias

Arquivos

TAGS MAIS USADAS

Facebook

DIÁRIO DO BLOG

dezembro 2015
D S T Q Q S S
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031